terça-feira, 27 de maio de 2008

Rodanã


Roda, gira, revoluteia
sem sair do lugar
comum
ziriguidum
balacobaco
terecoteco
toma umas no boteco
vai pra rua meio boneco
trôpego-de-sorriso-monalísico
leva cantadas de travecos
pedradas de jovens marrecos
dinâmicos, algazarram
qüem-qüem (marrecos também fazem qüem-qüem?)
escarnecido e boicotado
frango em frangalhos
chafurda no asfalto
pensa em ter um treco
mas é pobre-semi-miserável-menos-favorecido
medita e conclui (cabal e facilmente):
bordejar é preciso
amanhã é outro dia
durmo na casa da tia
vomito na pia
mijo na bacia
como a gata sofia
esparadrapo o pênis (felinos são indóceis)
repasto o pão-com-manteiga
bebo o café margoso
e vou trabalhar
lá no alto do edifício
a obra-nossa-de-cada-dia
mas vão todos vocês tomar
chico vai também
não será dessa vez
que vou pular
lá alto!
virarei não
borrão no asfalto.

Carlos Cruz - 16/05/2008

sábado, 24 de maio de 2008

Um momento estéril

tela de Octávio Ocampo

UM MOMENTO ESTÉRIL

Nenhum poeta está no quarto
onde a mãe recebe um pedaço do filho.
Aquele que ela amara de bem antes do parto.

O filho não devolvem, enviam uma bota
que ela nunca engraxou – suja de sangue,

_________________________{sem brilho:
o calçado que o levou em sua última rota.

O sangue também não é seu, de linhagem:
é de alguém que ele pisara na garganta,
que aos pedaços recebeu outra mãe,

________________{em outra bagagem.

Nenhum poeta está no quarto
onde a mãe recebe um pedaço do filho.
Aquele que ela amara de bem antes do parto.

*

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Via Crucis


Do alto do segundo andar de um prédio classe média avista um rato morto no telhado da garagem visto de cima. Pela janela lateral, o prédio largo de quatro andares e seis janelas, começa a se esconder atrás da nova construção de um outro edifício. Do lado esquerdo, outro em construção, mais imponente, estreito e vertical. Homens trabalhando durante todo o dia, e o corpo do rato estirado na curva da eternite.


Os carros vão e vem freneticamente, alguns faróis se acendem em plena tarde, velhos correm ao atravessar a rua sobre a faixa de pedestre, enquanto crianças dão risadas na esquina em seus uniformes sujos na saída da escola. Alguns pais carregam as mochilas de seus filhos e nem os notam, apanhando as folhas do arbusto esverdeado.


A cidade conserva casas de arquitetura antiga e muitos penteados também. Uma jabuticabeira se espreguiça do fundo de um quintal qualquer e as motocicletas apressadas buzinam para que o pedestre se apresse. Todos os telhados guardam sujeira, todos os ônibus aguardam por um sinal.
Seu Virgílio, do alto do segundo andar, suspira e tem a sensação de que tudo ultimamente vem perdendo o sentido. Não sabe se é nostalgia de sua mocidade, se o cansaço não lhe permite felicidade, mas as coisas não contemplam o mesmo sentido. Não mesmo.


A cidade vai se perdendo de vista no horizonte, quanto concreto o separa de sua juventude, ou quanta juventude se separa de sua mocidade? Ele já não é apenas um senhor de meia idade. Não pode sair à rua para caminhar sozinho. Luzes se acendem, uma a uma, de modo gradativo e quase imperceptível, tal como os fios brancos agredindo os raros louros no couro cabeludo e aquela sensação de vitalidade mortal.


Um dia quando ele beijou a primeira namorada no carona do amigo Ronildo, não conseguiu entender que Lena chorava por um sentimento maior que aquele momento. Não poderia pensar em outra coisa, senão no desejo de que tudo terminasse do modo comum para qualquer homem viril em sua idade. Sentimentos díspares em idades iguais. O momento para ele prova de sua moral, para ela transcendia o corpo. E Lena consentiu aquilo por três finais de semana até sua partida em um ônibus sem cor e devotamento. O céu parece o mesmo, no lugar do passado, como resquícios de vento penetrando os orifícios da vidraça.


Tudo possui nome, mas não possui face, são flashes em representação de algo que nunca aconteceu: a vida. O que seria agora, se não fosse o que viveu?
Virgílio sofre de gota e diabete. Os músculos murcharam sem que percebesse, o abdômen liso derramou-se e o ânus toma mais o seu tempo, que um dia lhe tomara o pênis.

Descarte-me






As coisas me traem, os atos me atraem,
A alegria é essa insana loucura que me faz natureza em estado bruto
É um corpo desconexo procurando a junção com algo que autorize uma definição
E vivemos imbricados, eu e essa alegria louca
Pensando, sentindo, sangrando, moendo a vida entre os dentes
Assim me torno coisa que intercala objetos em sua essência supostamente existente
E vivo e acredito que por desejar a vida e querer prová-la é que invento deuses, os livros e a humanidade
Crio novos conceitos, derivados de conceitos já existentes, que tornam a vida mais complexa
E isso tudo tem origem material: o olhar, o beijo, o desejo, o sexo são algumas escalas iniciais disso tudo
E isso é tudo
E o todo precisa ser pensado
Pensar pressupõe existência,
Existência pressupõe ser
Sendo assim, sou
Em eu sendo, estou pra contrariar.


.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Eu sou


Eu sou o sol na alegria
Eu sou a chuva nas tempestades
Eu sou a lua na saudade
Eu sou a brisa ao sonhar
Eu sou a terra na solidão
Eu sou o ar no amor
Eu sou o fogo na paixão
Eu sou a noite ao adormecer
Eu sou o mar na paz
Eu sou a natureza, o tudo e o nada !
Eu sou a vida, no início, meio e fim !
Eu sou o pulsar do meu último segundo
Eu sou ...

domingo, 18 de maio de 2008

Dos perdões nunca pedidos

“I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky,
but why, why, why
Can't it be,
can't it be mine”[1]


Eu só queria pedir perdão. Por haver cometido com minhas novas ações, velhos erros, falhas grotescas que sempre juro não mais fazer, mas que acabo sempre repetindo, nessa rotina de desconfianças infundadas e ciúmes estúpidos.

Eu te amo. E havia vindo lhe dizer isso, que não era isso da boca para fora, que era verdadeiro e pulsante. Mas desconfio que comecei a te perder no dia em que te disse isso e agora você já não me ouve mais. Sua frieza e seu aspecto marmóreo me dão a certeza que não terei a redenção que vim buscar. Não atendes nem aos meus gritos que ecoam pela noite, soltos como corvos, fazendo revoadas sobre minha casa, nossa um dia...

Então isso é um adeus.

Parto em pedaços, enquanto me vou, mas parto com uma parte tua, levo teu olhar e teu coração comigo, pois é onde sempre deveriam estar. Vou tratá-los com o amor e carinho que merecem, os mesmos que sempre devotei a ti.

E se houver uma eternidade depois desta vida, espero te encontrar lá por acaso, em um desses dias claros, num céu de brigadeiros sem nuvens...

- É isso, doutor. O cara nem assinou a tal carta.
- Tem certeza que era o ex mesmo?
- Absoluta, o porteiro do prédio em frente o reconheceu. Veio de madrugada, encontrou a mulher com o novo namorado, meteu três tiros em cada um deles, depois escreveu isso aí na parede, com o sangue das vítimas.
- Vinte anos na polícia e nunca tinha visto algo igual.
- Pois é doutor, nem eu. O meliante ainda levou o coração e os olhos da moça!
- Já sabem alguma coisa do safado?
- Pelo que levantamos até agora, ele era metido a escritor, poeta, algo assim...
- Por isso é que eu nunca gostei desses tipinhos.
- Nem eu doutor. Fulano que fica com a fuça muito tempo enfiada em livro um dia endoida... E faz uma merda dessas.
- Indivíduos perigosos, perigosíssimos! Nunca fiquei tão enojado na vida... Agora vá na padaria do lado e me compra dois sanduíches. Final de plantão sempre me dá uma fome do cão.
[1]Eu sei que um dia você terá uma vida maravilhosa
Eu sei que você será como uma estrela
No céu de um outro alguém
Mas por que? Por quê?
Por que não poderia?
Por que não poderia ser no meu?

Black – Pearl Jam

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Grande Cidade

Caminhando alguns passos mais, estacou diante da via. Sentou-se ao chão, olhando os veículos que corriam a sua frente. Cansara-se. Resolveu esperar algum pedestre, para pedir-lhe alguma coisa, mas quase não passavam pessoas ali. As que se aproximavam, quando não atravessavam a pista, davam-lhe um simples cumprimento, um “sinto muito”, um rosto virado, ou nada disso, quando passavam diante dele como se não existisse.
Parece que a vida terminara ali. Estava cansado. Percebeu um enorme caminhão descendo a ladeira, calculando que estaria ali, na sua frente, em 1 minuto: era a sua chance de se encontrar pessoalmente com o Senhor, mas..., desistiu da idéia, pois não tinha coragem e nem forças para levantar-se dali.
O caminhão passou velozmente, trazendo uma onda de vento que lhe trouxe um pouco de alívio, mesmo que momentâneo, ao calor. Pensou novamente em se levantar, mas desistiu, permanecendo sentado no chão, à espera de qualquer coisa.
Mal percebeu o Sol se pondo. Seus últimos raios iluminavam a cidade, enquanto os milhares de trabalhadores voltavam para casa, numa agitação e correria que ele nunca percebera antes. A multidão o distraiu durante bastante tempo, mas nas altas horas da noite, se viu só. Ao longe uma coruja voava, provavelmente caçando para os filhotes.
Tentou se lembrar dos pais, mas não conseguia. O pensamento lhe vinha desconexo: era talvez conseqüência da bebida. Ou da fome. Ou quem sabe, dessas duas únicas malignas companheiras que insistiam em fazer-lhe companhia já não sabia há quanto tempo.
E filhos? Tivera filhos? Conseguia se lembrar vagamente de algumas mulheres, mas não de crianças. Na verdade, nem seu nome sabia com certeza. Seria Tonho, Totonho, Toinho? Algumas pessoas já o chamaram desta forma. Outros já o tinham chamado de “Pé de cana”, mas achava que isso devia ser um apelido, coisa assim.
Após alguns minutos a coruja desaparece. Veio o silêncio. Sozinho na cidade, sem nome, sem história, sem futuro, abaixou a cabeça, e dormiu.
Acordou nos primeiros raios da manhã, com o burburinho da multidão. Viu os mesmo carros, as mesmas pessoas, os mesmo paletós passando diante de si, que continuava na mesma posição, na mesma agonia e com as mesmas roupas surradas da véspera, embora poucos se apercebessem disso.
Para se distrair, começou a prestar atenção na conversa das pessoas:
“... pelas pesquisas o governador se reelegeria... ”
“ ... e a festa da Carol, no sábado?... ”
“ ... tenho uma prova amanhã... ”
Governador? Festa? Prova? Não sabia o nome do governador, não ia a festas há muito tempo, mas, em questão de provas, era um profissional: poucas pessoas naquela cidade entendiam de provações como ele. Disso tinha certeza.
A sede e a fome começavam a castigar-lhe, no entanto, permanecia sentado. Na hora do almoço (dos outros), uma chuva implacável caiu sobre a cidade, lavando-lhe o corpo e matando-lhe a sede. Por volta das 4 horas, o Sol reapareceu, aquecendo seu corpo e animando-o novamente. Sentia mais uma vez esperança no mundo. Sentia-se bem. Porém, algumas horas depois, a fome voltava novamente. Mas como?? Ouvira numa dessas conversas dos pedestres que o Sol era a verdadeira fonte da vida... Porque continuava a sentir fome?
Pensou em sair dali a fim de procurar alguma coisa para comer, mas não tinha forças. Temia tentar se levantar e cair no chão. Já pensou se desmaiasse com a queda e as pessoas o levassem pro hospital? E se os médicos o julgassem morto? Não queria correr o risco de ser enterrado vivo.
Procurou alguma coisa na calçada, mas só enxergou algumas formigas, que, ora meu Deus, era um homem, não comeria formigas... mas...
Enfim, as formigas acabaram lhe saciando a fome. Mas só por alguns minutos.


A noite caiu novamente. Quando se viu mais uma vez sozinho, procurou a coruja, mas não a encontrou. Uma ligeira tontura o acometia. Pediria à coruja um pouco de alimento, mas ela não apareceu. Ninguém apareceu.
Abaixou a cabeça. Ninguém, no outro dia, veria as lágrimas no chão. Com a cabeça baixa, pensou em toda sua vida, em todas as imagens, pessoas e lugares por onde passara antes, até chegar ali, próximo a um viaduto, a poucos metros de uma via.
Dormiu. Dormiu pesadamente. Mas não acordou mais.


Seu corpo continuou na mesma posição, com a cabeça pendida entre os joelhos. As pessoas mal o percebiam. Permaneceu ali, estático, por um, dois, três dias. Seu corpo se desmanchava lentamente. A coruja, durante a noite, o visitava, mas só nos primeiros dias (os filhotes reclamaram a qualidade da carne). Após alguns dias, restaram-lhe somente os ossos.
O governador se reelegeu. E para comemorar resolveu construir alguns jardins pela cidade.
Os trabalhadores chegaram com um grande caminhão de terra para cobrir o terreno. Não se importaram com os ossos, provavelmente julgando que fossem de algum cachorro. Alguns reclamaram da limpeza pública. Por fim, cobriram toda a área, incluindo seus restos, com a terra, e, por cima, plantaram belas flores brancas, amarelas e vermelhas, que melhoraram o aspecto daquela área, como que sepultando de vez a decadência e a miséria que por ali rondava. Os jardins foram cercados, a fim de evitar que crianças de rua, cães e mendigos permanecessem ali, denegrindo o ambiente. Aliás, a cerca fora sugestão de alguns pedestres, incomodados com a presença constante de um mendigo semanas antes.
Pela primeira vez, Antonio de Melo Alencar estava protegido.


Mil anos se passaram. Arqueólogos, que talvez sejam no futuro a principal profissão, desenterram as ruínas da grande cidade. Encontram um dos principais viadutos e, próximos a ele, os restos mortais de um homem.
Retiraram aquelas verdadeiras relíquias com todo o cuidado. O que faziam ali, no centro da cidade, longe dos cemitérios?
Fizeram exames, estudos, análises, tantos que conseguiram descobrir até a posição em que o homem estava quando morreu.
E vieram filósofos, e sociólogos, e biólogos estudar-lhe os restos. Era a descoberta mais importante dos últimos tempos. A imprensa mundial acompanhava tudo, extasiada. Após alguns meses de exaustivos estudos e debates, os cientistas reuniram a imprensa, para transmitir ao mundo as conclusões sobre aquele importante achado.
— Temos a honra de poder satisfazer a curiosidade de todos à respeito dos ossos encontrados sozinhos no centro da grande cidade. Pelos nossos estudos e exames, chegamos a uma conclusão: este homem, encontrado sozinho nas ruínas, era provavelmente um grande líder, uma pessoa muito respeitada pela sociedade, pois primeiramente, morreu numa atitude de grande contemplação espiritual, e, por fim, em uma prova de grandioso respeito das pessoas que o cercavam, por sobre seu corpo foi construído um grande jardim, com belas flores brancas, amarelas, e vermelhas...

domingo, 11 de maio de 2008

Crise de Vireida II

terminei Crise de Vireida II - o encontro do BDE em São Paulo no programa da tv Cultura

é grande, só encare com tempo. os escritores do bde é que gostarão. ou não.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Queria o Paraíso!




Queria a cor virginal
das tulipas amarelas
que crescem no bosque
por onde o riacho desce
descrente e sem pressa
sussurrando baixinho
levando os segredos
pelo leito/caminho.

Queria o gosto/sabor
do puro aroma
a essência da flor
que embeleza a rama
do maracujá
pertinho dos lírios
delírios meus
pertinho do rio
azul dos céus.

Queria o beijo de puro mel
o gosto que entranha na alma
e arranca os espinhos
que muito me deixam perdidos
sem ânsia ou calma
vivendo de amor iludido
seguindo sempre sozinho
sem ternura nem carinho
apenas um sorriso
somente um sorriso.

Queria o paraíso!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Da estrela

as estrelas
são postes da noite
que
interligam
diversos caminhos
de cidades e estradas
intercelestiais.

tem aqueles que, tão-sozinhos,
satisfeitos pelo contato
com invisíveis fios
de particulas de noite,
onde pássaros universais
pousam e cagam sob nossas cabeças,

parecem pontos
que foram esquecidos
de ser pintados.

tem aqueles que,
juntos e constelatizados,
iluminam o que já está iluminado
por uma noite aleijada.

mas tem um poste,

pleonasticamente
falando

um único
e

poste,

sozinho,

que é verd(e) deiramente
uma estrela.

que quando a saudade
está me saudadiando,

olho pro céu todo postilizado,
e só consigo vê-la
me olhando.

André Espínola

sábado, 3 de maio de 2008

Do nada à Fernanda


Eu tinha
NADA
Mas a vida se rearruma, ela sempre
ANDA
E do mesmo nada inicial
Somou-se uma letra ao início
NANDA
E com ela redescobri a fé de viver
FÉ NANDA
Mas faltava um meio!
Algo entre essa fé e ela!
Sim faltava! Aquilo que faz do amar um Verbo, a ação!
FERNANDA
E já basta...

Augusto Sapienza