sexta-feira, 29 de abril de 2011

descaminhos




teus olhos hábeis
traçaram descaminhos

nas vidraças
nas janelas

não evitei
não discuti

chegaram assim
sem aviso

raios alaranjados
cobriam o céu

teu sorriso me olhava
num consentimento velado

felicidade breve
apressada e distraída

estilhaçando ocasos
bailando em nossas línguas



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dioniso



olhou-me assim 


tanto


escorpianamente


Diónisos


e


nunca mais


o


esqueci


Io Io 

Bromios 




Io Io 

Dendrites 

!


         - Graça Carpes -

domingo, 24 de abril de 2011

Retrato de um casal

1
Não tinham nada em comum.
Se se amavam era por ignorância.
Outra palavra excederia.

Sequer poderiam explicá-lo.
Se amor fosse, o que o tornava?
Cio talvez dissesse algo.

Mas não dizia, em absoluto.
Fica-se assim, acreditemos.
E damos por salvo o poema.

2
Ele. Por falta de aptidões
– feio de berço, crescido errado –
nada de melhor lhe ocorreria.

Ela. Por falta de anseios
– sentia senão cólica menstrual –
nada de melhor lhe ocorreria.

Um dia os caminhos se cruzaram
– dia qualquer, sem santo ou festa.
Nada de melhor, nada de melhor...

3
Nem tão bom haveria de ser.
O tanto que era não bastava –
havia fome e frio todo dia.

Sequer tão ruim chegaria a ser.
O tanto que era se suportava –
coisa que não chegaria a aleijar.

Nada de ambos haveria de ser.
O que quer que fosse assim o era –
um pouco de cada em doses diárias.

4
Até onde poderão ir ninguém sabe.
Manter-se vivo tem sido o bastante –
e a saúde vai sendo remediada.

Até onde poderão ir ninguém sabe.
Uma hora a voz ultrapassa o limite –
e dos socos se passa à faca.

Até onde poderão ir ninguém sabe,
um passo adiante devora a cerração –
e o poema perde a sua batalha.



Colagem de Max Ernst - da série "A Semana da Bondade"

sábado, 23 de abril de 2011

Alívio Imediato

foto: Strany


Sei sim que tudo se divide infinitamente,
mas não precisava ser agora
nem pra tão longe,
o impossível de uma noite inteira.
Se há mesmo esse muro de concreto
entre nossos lábios,
deixo meu coração
com todas as suas partículas,
no esconderijo mais escuro,
sem pudor de te tocar com meu batom.
Para deixar que a chuva caia
e lave num dilúvio esse delírio
e a noite caia na demência doente
de um pára-raio
com a mesma urgência latente
de quando eu caio,
volto para esse mesmo lugar
que derruba a chuva, imensa,
mas sem o poder de me dar abrigo
ou alívio para esse vazio.


(baseado na música Alívio Imediato, Engenheiros do Hawaii)

terça-feira, 19 de abril de 2011

uma história real surreal

acordei com um vestido (que não era meu) todo molhado, com o pé cortado, abraçada numa vassoura e um disco dos Beatles (original!!! ai que vontade de roubar! não posso! vou! não posso!), na casa de sei lá quem. mas que p..... casa de gente rica, com piscina, um silêncio danado em pleno meio-dia. mas que m.... fui descendo a escada e tinha um cara sentado num sofá lendo jornal. ai que lindão. será que eu dormi com esse aí? -Olá, bom dia. Está se sentindo melhor? -Ah, sim. É...qual o seu nome? Desculpe. -É. Peraí, você não lembra de nada? -Humm, não moço. Desculpa. -Imaginei. Chamei um táxi para você. Está te esperando lá fora. Tenha um bom dia. -Humm, ah, obrigada. É. Posso fazer uma pergunta? ele só levantou a sombrancelha. -A gente....? - eu levantei a minha sombrancelha. -Não, definitivamente eu jamais dormiria com alguém que mordeu meu cachorro. -Humm, nossa. Virei as costas e ainda saí da casa dele andando toda metida, naquele vestido que devia ser da mãe dele provavelmente, pela expressão de ódio na cara do rapaz. Nessas horas, leitor, o melhor a se fazer é não fazer nada.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Rotação

Entediada, preparava uma nova ida a cada retorno. Nos intervalos, mostrava aos poucos amigos tudo que havia comprado daqueles povos exóticos, bárbaros. Fazia questão de mostrar também os álbums, com as mesmas fotos, mesmas caras e bocas, mudando apenas um pouco, do pouco que se via do fundo

Dava voltas pelo mundo, girando em torno de si mesma

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dentro do peito



Trago isso dentro do peito, um não-sei-quê vibrando por dentro, mas não comprimindo, apertando e sim, pedindo para sair, com uma ânsia enorme de se comunicar, de ser, de vencer as barreiras do espaço-tempo e fazer um ninho no centro de tudo, de onde suas crias se espalharão e se chamarão poesia.

É muita ousadia querer ser poeta, quem me deu esse direito, quem me passou o caduceu de mercúrio e os louros que enfeitam meus cabelos, quem disse que eu podia escrever versos, concretos, disformes, pequenos e enormes, recitá-los ou escondê-los em demais textos.

Mas não tenho medo de dar a cara à bater e dizer, eu admito, sou culpado desse crime chamado sentir, de descortinar-me sem zê-lo nem pudor, andando nu por aí, tocando notas na lira que, espero, toquem outros corações.

Sou um delinquente, que escreve o que sente, pensa, que ama sem receio e por vezes, é tachado de tolo por alegrar-se com a vida, não reclamar do começo ao fim do dia e tentar, mesmo que pareça impossível, transformar o mundo num lugar feliz.

Como réu confesso, peço clemência, um exame provará ser genético esse meu defeito, então sempre andarei  com o peito cheio, desse não-sei-quê, dito por alguns ser poesia e por outros, amor demais.

Joakim Antonio 

domingo, 10 de abril de 2011

Femeal

Ter dom dói.
Me sangro com frequência cruel para saber que ainda sou.
Há um vácuo dentro de mim,
por onde pende cada vida que gero e não pense que é só isso,
ainda tenho muito mais coisas em minhas entranhas.
Incho para suster,
derreto para amar, sou maleável como o doce no banho-maria,
e também inabalável como o jequitibá,
mas não imune às intempéries.
Se me dobro raramente em algumas tempestades
é porque o tempo me ensinou que até os seres como eu são frágeis.
Meus seios amamentam multidões
e o mel de minha boca desfaz cada intriga.
Meus cabelos abraçam as gentes e meu suor brota revelando a labuta que é diária.
Eu saio à caça e ainda beijo os filhos,
sou eu quem conto os tesouros da casa
e ainda assim não tenho tempo para usufruí-los.
Me adorno de noite,
meu perfume cheira ébano;
isso confessa aos do derredor que sou uma mistura de delicadeza de flores e turbulência de águas marítimas.
Minhas coxas são quentes
e apesar do esquecimento em esfregá-las no banho,
seu odor de mulher da terra atrai qualquer alma masculina ao relento.
Não tenho aias, não posso mantê-las.
A mesma mulher que esquenta o leite e colhe a lenha
é também a que adorna com mimos aqueles que dela dependem.
Os cabelos dos pequenos são sistematicamente afagados,
se não tem a beleza que teriam se eu só para eles vivesse,
ao menos seus coraçõezinhos me reconhecem
em meio às névoas das crises contemporâneas.
Minhas unhas não estão tão impecáveis quanto outrora,
minhas orelhas não sustém todos os brincos desejados
e meu pescoço com odores de lavanda não ostenta jóia alguma;
no entanto minha beleza cansada e meu olhar exausto, porém atrevido, ainda é o mesmo impetuoso da juventude.
Nestes tempos de guerra,
em que nossos homens saem à batalha,
eu, assim como as outras,
muitas vezes me vejo ensinando precocemente as crias
a se defenderem dos predadores,
a fim de sair na noite escura, com o lampião aceso,
à procura dos soldados que prenderam meu marido.
E também, dadas certas circunstâncias,
escolho não tê-lo se a necessidade de me dedicar a qualquer atividade produtiva seja mais atraente.
Jamais, porém, me privo do amor,
porque dele sou feita, e para ele vivo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

ESFINGE



ESFINGE


Sob a sombra da noite fria
Invoco seu precioso nome
Esperando com alegria
Tua carne saciar-me a fome

Tateio teus horizontes,
Teus montes e cordilheiras
Embora no pequeno regato
É que mato minha sede

Escorro por tuas sendas
Colado em tua pele
Langores submersos
Em alma que padece

Nas curvas de teus recantos
Me cravo e desfaleço
E entre teus montes me afogo
Sonhando o recomeço.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

me abril

como quem chove nas pedras
mas hei de achar cura para o mal
que confessou ao pé do meu ouvido
é sua mentira perfeita que me quebra

já não fecho os olhos quando
me ama e quando me cega
queria eu ser pega no medo
que arfa a venta e cessa a fala

não rezo mais e estou presa
nos seus dedos contas do terço
que já não expiam-me devoção
aqui atolo-me nas heresias tolas

o reflexo do olho ingratidão
de conjugação oposta ao sim
créditos não me compram mais
só contas de lágrimas vazias

distante e tão perto me faz elegias
e tento respondê-las num ato falho
mas encontro-me só e tão vazia

tento me afastar desse tormento
orei meu abismo aos bárbaros
e eles ainda riram de mim

e se ainda consegue me ver
mate-me com ódio e fúria
que não quero mais nada de nós.