domingo, 15 de abril de 2012

Através do para-brisa


Eles discutem. Ele quer, ela diz que também. Ele vai.
Passa a semana. Ele não quer. Sente a ausência. Mas ela diz que está tudo bem, que precisa pensar. Diz que não quer a prisão. Ele sofre, mas ama. Pensa. Ela diz que pensa.
Passa outra. Ele ainda sofre. Ela diz que.

ELE: Oi.
ELA: Oi.
ELE: Quanto tempo.
ELA: Tá tudo bem?
ELE: Tá.

Não está. Ele ama. E o que fazer? Tem dúvidas. Rupturas nunca são indolores.

ELA: Vamos lá em casa no fim de semana.
ELE: Tem certeza?
ELA: Aniversário do meu pai.

Ele pensa. Quer ir. Diz que vai. Ela sorri. Ele acredita. Quer acreditar.

ELE: Como você tá?

Ele quer ouvir que está tudo ruim. Quer ouvir sobre sua ausência. Quer saber da angústia daqueles dias. Quer a narração do calvário.

ELA: Bem.

Que não vem. Ela diz sorrindo. Não há peso. Ele sofre, mas não balança.

ELE: Que bom.

Ele não pode mais. Mas insiste. Quer mais.

ELA: Tenho que ir. A gente se vê no sábado.

Ele confirma. Ela vai. Ele pensa.
Sofre, mas espera.
A semana demora a passar.
Ele espera.
É sábado. Ele vai. Ela sorri com a chegada dele. Ele depositou todas as esperanças naquele dia.
Ela não.
Dois beijos, um oi e um tenho que ir ali ver umas coisas. Ele percebe, mas decide ignorar. Não está calor, mas ele sente o ar irrespirável. Mas insiste. A festa segue. Ela ignora. Ele não entende. Pensa em tudo.
Um caminho tão longo juntos. Pensa nos bons momentos.
E olha pra ela. Ela sorri.
Ele começa a perceber o caráter maquinal daquele gesto. Percebe, então, que toda a lembrança boa omite duas ruins. E que nem tudo é perfeito e cor de rosa. Que as coisas dão errado. A reprodução dos gestos consolida a relação e corrói a alma.
Onde estaria sua alma? Pensa.
Sente uma fisgada no peito quando decide partir. Seria sua alma? Entrando ou saindo? Pensa em cada gesto repetido. E sorri, sereno. Decide ir embora, sem despedidas.
E vai.
No carro, antes de ligar, olha através do para-brisa. Finalmente, ele entende.
Não pode mais. E percebe que é só seguir.


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