sexta-feira, 15 de junho de 2012

A muda


Ganhou uma muda. De laranjeira.

Durante a infância, sempre enterrou os caroços de laranja no canteiro. Esperou em vão. Sempre.

Mas agora tinha uma muda. De verdade.

Deixou na varanda. No canto. Onde pudesse ficar protegida do sol em excesso. Não tinha mais quintal. Nem canteiro. Nem infância.

Era a sua muda.

Dia seguinte, acordou e foi olhar a planta na varanda. Estava igual. Do mesmo tamanho. Não havia flores. Ou laranjas. Pensou que podia ser um equivoco. E foi fazer as outras coisas da vida. Mais tarde, voltou.

Olhou mais uma vez pra sua muda.

Com atenção. Achou que havia uma nova flor aparecendo. Logo descobriu o engano. Já estava ali antes, constatou. Foi dormir.

Outro dia. Foi ver a muda na varanda.

Nada. Do mesmo jeito. Sem flores. Nenhuma laranja pendurada. Abaixou a cabeça e chorou baixo. Foi procurar as outras coisas da vida por fazer. Um tempo depois, retornou.

Mas não havia nada de novo na varanda.

Pegou o vasinho com a muda e lançou pela varanda. O barulho da chegada ao chão foi alto. Os vizinhos colocaram a cabeça pra fora das janelas e das varandas, olhando pra baixo e pra cima. Procurando. Ele também.

Como se não soubesse o que acabara de acontecer. Ou talvez não soubesse mesmo.


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