segunda-feira, 30 de abril de 2012

10º TESTAMENTO

É um testamento perdido, urdido de silêncio, para falar da ausência deixando-a em testamento!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Guia do Mau Humor


Capítulo 1: Assumindo-se

Você não tem muita paciência com algumas particularidades dos nossos pares da espécie humana. Não acorda esbanjando simpatia. Usa de fones de ouvido como escudo para evitar diálogos gratuitos. Chegou ao cúmulo de se identificar com a Xuxa no famigerado episódio do “Aham, senta lá, Cláudia”. Sim, você é uma pessoa mal-humorada.

E o que nós queremos dizer é: tudo bem. Mesmo. Não há mal nisso. Inclusive, negamos o teor negativo aplicado ao termo. O ideal seria dizer que você tem um humor, digamos, diferenciado. E diferenciar é bom.

Qualquer filosofia de botequim dirá que as pessoas se constroem a partir do reconhecimento que as outras pessoas têm delas. E seu mau humor é um sintoma de anti-sociabilidade, um grito de independência do seu ser, que não quer simplesmente “seguir a manada”.

Dessa maneira, o mau humorado não é nocivo à sociedade, como tantos imaginam. Não. Precisa-se de gente que vá contra o óbvio. Senão o mundo vira uma grande histeria coletiva.

Se isso não ajudá-lo a se sentir melhor com seu mau humor, pense em você como um velinho rabugento em formação (a não ser que já seja um idoso; aí você já é a realização). O que seria da humanidade sem esses adoráveis senhores (as), sábios seres que chegam no poente da vida e compartilham seu ceticismo conosco?

O mundo precisa dos seres mal-humorados. Mas talvez ele não retribua como deveria. Você vai se sentir excluído por seu humor diferenciado. Por exemplo, quando aquele conhecido mostrar o filhinho dele que mal sabe andar, fazendo alguma “dancinha da moda” (coff, coff, “Ai se eu te pego”). Você não vai achar graça. Lembrará que macaquinhos amestrados também fazem isso. Temerá pelo futuro da criança. E vai se sentir o pior ser humano do universo.

Mas você não é – ao menos, não por isso. Tem que ter alguém para torcer contra o Barcelona. Ou que não goste de Beatles.

Para você não se sentir tão solitário nessa tarefa, acompanhe os próximos capítulos desse guia, que poderão ser acompanhados no blog http://wwsuicide.blogspot.com/

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O fim da noite







O silêncio era um fim. Um fim que passava lentamente.



E foi isso que ele pensou. Andando solto pela calçada, tremendo de frio e com fome, ele sentia a dor aumentar na medida em que a temperatura do corpo diminuía. Ele arquejava sôfrego, e sentia-se fraco demais pra dizer algumas palavras. Não tinha mais força pra pedir socorro. Seu rosto demonstrava um pouco de pânico, mas tinha uma principal expressão de carência. Caminhando sem rumo, com apenas uma bermuda rasgada, sem camisa, ele procurava algo em que pudesse se esquentar. Mas o vento aumentava seu ritmo a cada segundo. E isso o enfraquecia mais. O lugar tava ermo, um pouco vazio, mas considerando sua situação não era perigosa. Quem iria machucá-lo? Ele conhecia os poucos marginais que rondavam a região. Tornara-se amigos de todos da redondeza, porém ao escolher não seguir os modos de vida deles, não o ajudavam em nada. Também não o maltratavam, com a condição dele não atrapalhar a “área” deles. Ele estava sozinho.

O menino ao passar numa lata de lixo, instintivamente revirou as coisas, para ver se encontrava algo de comer. Mas não teve sorte. Não tinha nada que ele pudesse mastigar. Além da fome profunda, o frio estava penetrante demais. Nem os becos ajudavam. Nem um espaço sequer das avenidas tinha calor suficiente. Era inverno, a pior época pra quem morava na rua. Ele andava pelas ruas com alguma esperança. Sempre que se via nessas noites caudalosamente gélidas, ele corria contra o tempo. Ao passar na frente de uma casa, ele olhou uma família ao redor da mesa, todas juntas, antes do jantar. Talvez naquele momento eles estivessem orando. Ele viu duas crianças, uma menina, toda rosada, linda, aparentando 6 anos, e um garoto, todo sorridente, mais novo que a menina, talvez 4 anos. Eles estavam abraçando o pai. Logo abraçaram a mãe. Era uma cena linda, mas ao mesmo tempo doída para ele testemunhar. Lágrimas se projetaram pelos seus olhos cansados, cheios de olheiras. Ele mais que ninguém desejava tanto estar ali no lugar de um deles, abraçando seu pai, sua mãe. Chorou silenciosamente, desejando tanto estar num conforto de uma casa, no seio de uma família. Queria ser amado, querido. Mas não era.

Seus pés fraquejaram com a emoção, e ele sentou na beira da calçada, tentando lembrar algo em relação a seus pais. Mas nada. Ele nem sabe como foi parar na rua direito. Ele sobrevivia com muita perseverança, mas com pouca alegria. Talvez a esperança que lhe dava força seria o sonho de um dia poder morar em uma casa, e ter o conforto de uma família. Ele desejava, com muita força que a “noite” da sua vida acabasse de vez, e ele pudesse ver e sentir finalmente a luz e o calor do sol. Ao pensar nisso, ele esboçou um meio sorriso esperançoso. Passou suas mãozinhas pelo rosto, pra enxugar as lágrimas e levantou. No momento em que estava voltando a andar, ele foi percebendo a mudança na escuridão, e sentindo uma leve iluminação vinda do horizonte, pronta para clarear a cidade. Ele nem percebeu, mas tinha ficado horas ali na calçada, chorando e sonhando. Em cerca de poucos minutos, ele foi vendo magistralmente o sol surgir resplandecente no céu, tornando a noite, dia de novo, e enchendo de calor seu corpo. Ele abriu um largo sorriso, como se tivesse acabado de receber o maior presente de toda a sua vida. E era mesmo. Era sempre assim, todo dia, quando o sol nascia. É como se a tristeza e o frio da noite, não tivesse existido, e apenas a felicidade do dia, vinda da luz e calor do sol o contagiasse por completo.

Foi o fim de mais uma noite. Talvez não o fim da “noite” de sua vida, mas um pedaço dela. Por que enquanto houver um sol pra ele vislumbrar todo dia, ele jamais perderia a fé e esperança por uma vida feliz, sem dores, sem fome, sem frio, e com uma família, uma casa.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Minha maior alegria***


foto: markus71


Minha vida de nada valeria
se não tivesse esta alegria:
ter meu sangue em tuas veias
e te viver desta maneira
contemplando teus olhinhos
azuis-luminosos.
É pra sentir teu doce cheiro
que permaneço sóbrio, inteiro
aguardo ansioso todo o dia
para estar em tua companhia
e te ninar em meus braços
(desvairado me acho).
Não temas, me preocupa.
Dorme, acaricio tua nuca.
Teu sofrer me atormenta,
mas não há dor que vença
todo amor que sinto
por ti, menino, não minto.
E por mais que erre,
sossegue,
estarei a te amparar
pois sempre vou te amar.

*** E assim, 14 anos (e muitas espadas) depois, você continua sendo a razão de minhas alegrias.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

de mãos sujas e alma limpa


- Descobri que tô com câncer.
- Puta merda....Mas o que que é, dá pra resolver?
- Infelizmente não. Devo ter mais uns quatro, seis meses no máximo.
- E a sua mulher?
- O que ela tem a ver com isso?
- ....
- E o que você pretende fazer?
- Vou começar uma limpeza.
- Como assim?
- Vou fazer minha parte e limpar o mundo de pessoas que não merecem estar por ai.
- Vai apagar um desgraçado, tipo, quem?
- Sei lá, as opções são várias, um pedófilo, estuprador.
- E se te pegarem?
- Não importa, vou morrer mesmo, assim pelo menos saberei que o mundo estará um pouquinho melhor.
- Cara. Teu câncer é na cabeça?
- Cala a boca.

Começou a pesquisar nos jornais, revistas, sites, sobre os maiores criminosos do país, a maioria já estava na cadeia, mas para sua sorte descobriu, no próprio bairro, um pedófilo. Descobriu pela internet que o crápula havia marcado um encontro em um shopping da capital com uma menina de doze anos e resolveu interferir. O pegou na porta de casa, na saída para o encontro. Deu um tiro na cabeça. Antes de ir embora deixou uma carta sobre o corpo, com uma cópia de seu manifesto de limpeza humana e um DVD com todas as provas sobre a má índole do cadáver. Foi tomar um café. A imprensa explodiu a notícia. Vinte dias depois estava morto, consumido pelo câncer.

Em instantes, suas ideias tinham se tornado o maior viral da história da internet. Por todo o mundo se comentava o manifesto terminal, principalmente nos grupos de apoio a doentes terminais. Um mês depois já tinham ocorrido mais de duzentas mortes de pedófilos, estupradores, espancadores de mulheres, políticos inescrupulosos. Dois meses depois já haviam somado mais de 3 mil, por todo o mundo.

O movimento acabou mudando e além dos doentes terminais, alguns idosos resolveram aderir a causa e nos últimos dias de suas vidas auxiliar na limpeza. Muitos não iam até o fim, mas ajudavam coletando material para identificar os vagabundos.

E assim está sendo, agora mesmo. O fim chegou, até que enfim.

quarta-feira, 18 de abril de 2012




Em remotas paragens de tempo-espaço
 o relógio girava harmonicamente
ainda que não cadenciasse as horas
 e ainda que não necessariamente
girasse
numa órbita reconhecível
todo entendimento era natural,
numa seqüencialidade progressivamente previsível
e cabia ao homem classificar numa regularidade assuntível
2+2= 4 segmentado e legítimo
no entanto,
tudo é relativo
como parâmetros falidos
e toda abstração possível está no cerne
de quem? 
do indivíduo, que lembra e decifra
porque é meramente parte
como o espelho quebrado que é também inteiro
sal e água, sumo e seiva
poeira cósmica imantada
vibra e brilha numa ininterrupta intensidade
de rotação e translação em torno de um centro de calor
imprevisto e regido pelo acaso conectado.
 
                                                                Flávia Amaro

terça-feira, 17 de abril de 2012

Achaque


Quando se perde a casa
A causa da vida perde o chão.
Ai de quem não recuperar o piso
Pois o teto distancia-se
e vira o céu, que é lindo,
mas incontrolável.

Objeto de decoração da esquina,
à margem da rotina social.
O que passa a compor o sem teto
é um cem de nadas.

A estima vira o solado
de um pisante velho.
Pode achar que é tudo,
mas é mais rua
que o próprio asfalto.


*Após assistir o documentário "À margem da imagem", de Evaldo Mocarzel, disponível aqui.

domingo, 15 de abril de 2012

Através do para-brisa


Eles discutem. Ele quer, ela diz que também. Ele vai.
Passa a semana. Ele não quer. Sente a ausência. Mas ela diz que está tudo bem, que precisa pensar. Diz que não quer a prisão. Ele sofre, mas ama. Pensa. Ela diz que pensa.
Passa outra. Ele ainda sofre. Ela diz que.

ELE: Oi.
ELA: Oi.
ELE: Quanto tempo.
ELA: Tá tudo bem?
ELE: Tá.

Não está. Ele ama. E o que fazer? Tem dúvidas. Rupturas nunca são indolores.

ELA: Vamos lá em casa no fim de semana.
ELE: Tem certeza?
ELA: Aniversário do meu pai.

Ele pensa. Quer ir. Diz que vai. Ela sorri. Ele acredita. Quer acreditar.

ELE: Como você tá?

Ele quer ouvir que está tudo ruim. Quer ouvir sobre sua ausência. Quer saber da angústia daqueles dias. Quer a narração do calvário.

ELA: Bem.

Que não vem. Ela diz sorrindo. Não há peso. Ele sofre, mas não balança.

ELE: Que bom.

Ele não pode mais. Mas insiste. Quer mais.

ELA: Tenho que ir. A gente se vê no sábado.

Ele confirma. Ela vai. Ele pensa.
Sofre, mas espera.
A semana demora a passar.
Ele espera.
É sábado. Ele vai. Ela sorri com a chegada dele. Ele depositou todas as esperanças naquele dia.
Ela não.
Dois beijos, um oi e um tenho que ir ali ver umas coisas. Ele percebe, mas decide ignorar. Não está calor, mas ele sente o ar irrespirável. Mas insiste. A festa segue. Ela ignora. Ele não entende. Pensa em tudo.
Um caminho tão longo juntos. Pensa nos bons momentos.
E olha pra ela. Ela sorri.
Ele começa a perceber o caráter maquinal daquele gesto. Percebe, então, que toda a lembrança boa omite duas ruins. E que nem tudo é perfeito e cor de rosa. Que as coisas dão errado. A reprodução dos gestos consolida a relação e corrói a alma.
Onde estaria sua alma? Pensa.
Sente uma fisgada no peito quando decide partir. Seria sua alma? Entrando ou saindo? Pensa em cada gesto repetido. E sorri, sereno. Decide ir embora, sem despedidas.
E vai.
No carro, antes de ligar, olha através do para-brisa. Finalmente, ele entende.
Não pode mais. E percebe que é só seguir.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Amparo

Na desforra, até ouso blasfemar; Mas, no desespero, rezo fervorosamente

Quando estou para baixo, ter um santo ajuda








texto do livro Colcha de Retalhos

Convite para o lançamento em Londrina (PR)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Mudado




Não entendia como de um dia para outro, um mundo podia estar tão mudado, mas compreendia que deveria continuar andando. Respirou fundo e em vez de andar em frente, sentou-se mais um pouco para olhar a beleza do que ficou para trás.

Joakim Antonio

Imagem: Sad panda3 by rollingfugu

terça-feira, 10 de abril de 2012

Esses dias eu sonhei com você

Você me falava tristonho:
- Tudo morre, tudo chega ao fim.

Eu sorria da sua mentira.

Naquele momento-sonho,
você era lembrança infinita
dentro de mim.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Todo sol nasce atrasado

O que faz o dia merecer a pena
o que justifica verso e circunstância
e se pede escrita e som de chuva à noite

Porque ventos, lua, as intenções perguntam
à linha bruta, ao ponto tenso
o movimento inexorável de dinheiro
saúde, profissão e família vão
e o que soçobra rima

É, sim, um tempão mais um rosto
e falta pouco, já
faz falta, um pouco

E quando penso o fundo estou de tarde e note:
todo sol nasce atrasado hoje em dia
a rua chora aindas.

Lembro d'outra batida e terrenos firmes
quase acredito leveza

Mas não, mais não que acaba logo
e depois se faz o quê?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

CONDOMÍNIO AGORA


O monstruoso edifício,
a pressa nos elevadores
engole gentilezas diárias.
O bom-dia se perde
esmagado pelos decibéis
dentro de ouvidos adolescentes.
O esfregão do zelador
trafega entre a urina dos cães
e a terra solta por sapatos.
Ninguém desacelera os passos
para admirar um vaso com violetas
que a mulher do síndico trouxe de uma festa.
Mora-se ali:
viver seria uma outra coisa.

[Sérgio Bernardo]

domingo, 1 de abril de 2012

a conta exata





nem olhe para trás
vá, meu amor
tanto faz
se o que me move
é apenas o lastro
o andar de fasto
voltar ao passado
um tempo que não vingou

esse céu já não me serve
nem de sol, nem de abrigo
então já não fique
nem me arraste contigo

tantos rumores 
gritam desgovernados
contando como novo
aquilo que bem sei:
"acabou, acabou,
acabou".

e se ainda se importa
com meus passos
saiba que aqui 
tenho pedaços
de tudo que se passou

a vida segue
e ganhando ainda
se perde 
aquilo que mais amou
vá e não chora
apenas ignora
todo sonho que um dia 
nos pertenceu.