quarta-feira, 30 de maio de 2012

12º TESTAMENTO

Neste momento já não sei em quantos testamentos vou, todos os dias tenho mais qualquer coisa para deixar. Do tempo vou entrançando horas, fazendo momentos. São os momentos que deixo, diferentes dos instantes que passam. Neste momento deixo, esta publicação à qual vou acrescentar um número, ao qual é estranho a quantidade com carácter absoluto, apenas a qualidade com seu conteúdo relativo me deixa cativo dum sentido plenamente liberto, ver_tido!
Um ano que fica acabado, em treze meses!!
Vê tido, veRtido, divertido!!!
http://diariodedetrasii.blogspot.pt/2012/03/seiva.html

domingo, 27 de maio de 2012

Novos Ventos











há de acontecer
algo de bom
comigo
contigo
conosco
sei do gosto da
novidade quando
veste asas de
libélula
e sobrevoa um
céu de
sonhos

(
novos ventos
sopram
flautas de

)
!

               - Graça Carpes -

sábado, 26 de maio de 2012

Barquinhos de papel

Papai foi pra roça. Mamãe, passear. Pedrinho, não. Ficou em casa, sozinho. Seus carrinhos, os de sempre, já não chamavam a atenção. Tampouco havia guloseimas a serem roubadas na geladeira. 

Por sorte, naquela manhã, o menino havia aprendido a fazer barquinhos de papel na escola. Sem muitas opções, foi até a privada e a transformou em um oceano. Em instantes, piratas e marinheiros invadiram o ambiente. Descargas sugavam as pequenas embarcações, qual implacáveis redemoinhos. Pedrinho ria, uma risada que nem precisaria ser ampliada pela acústica do banheiro. 

Então, os barcos sumiram. A descarga parou. E o Papai, que voltou da roça, não gostou da privada entupida. Xingou. Brigou. Bateu.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Palavras perdidas...




Palavras de paz
com frio e calor
palavras de afeto
brilho e fervor

Palavras tão doces
colhidas na flor
palavras não ditas
perdidas no ardor

Palavras poéticas
com muito clamor
palavras perdidas
de um sonhador

Palavras escritas
sonhadas com amor
palavras perdidas
esquecidas na dor...

quinta-feira, 24 de maio de 2012


um estopim                                                {meu verso}

memórias à beira de um estopim,
ou de como vivemos de negações para colher afirmativas

                                  {como uma mão aberta esperando
      um cumprimento que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou de como o fato de existirmos anula a existência de Deus

memórias à beira de um estopim,
ou de como a lágrima que não derramei
 pelas torres gêmeas são verdadeiras

memórias à beira de mim mesmo,
ou de como, em mim mesmo,
sou memórias e fatos – sou concreto e acontecimentos

    {como uma boca aberta
                                      esperando um beijo que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou o motim em torno de minhas memórias?
        :         expludo?

estopim à beira de minhas memórias,
ou de como o pavio descansa em minhas mãos
– e o fogo em tuas
:     explodimos?                                   !

                                   {como uma trincheira aberta
                                 esperando a granada que vem}
memórias a

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fim


foto: Oshrit182


Não! entenda
tudo o que tenta é em vão
é tempo perdido, mais que um pedido
é um corte profundo,
o fim desse mundo.
Depois de tudo (des)feito,
se contigo me deito,
é como abraçar o inimigo,
recostar em teu peito,
regozijar-me em teu leito,
não posso comigo
nem quero esse jeito antigo
de fazer valer o amor perdido.

sábado, 19 de maio de 2012

caramelo com pimenta

se a vontade de agarrar em seus cabelos negros e sorrir mais largo que o Rio Amazonas não passar logo eu logo estarei sem forças para dizer que transbordo e afogo todos os dias no período da noite entre os tecidos da cama todo tudo que você deveria estar vendo e sentindo explodindo colorido entre meus dentes e nariz me diga então se você gostaria de passar o resto da sua vida comigo porque eu quero e repito e reamo e reclamo quando você se ausenta e me apresenta teu silêncio como resposta dos meus amores que percorrem o mesmo caminho dos seus pés tranquilos por favor volte devagar mas volte não solte da minha mão porque eu não sei mais andar sem você

sexta-feira, 18 de maio de 2012

pequeninos portais


Queria que essas linhas
chegassem como sopro e
pontilhassem o infinito
como passarelas para imensidão

queria que seu sentido girasse
e penetrasse em espiral
a consciência absoluta
num entendimento
harmônico
universal

queria que o cosmos dissolvesse
como celulose orgânica vegetal

formas cristalinas
refletores das multicores
de sais minerais
elementais

e o além etéreo
cometa de Íris
aceso
como um signo
frontal
anunciasse
redenção.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Incêndio na mata

Chamas lambem a terra



                    bailam

cinzas                                     no ar.





Alheios a dança, galhos ressequidos apontam para o céu



como a suplicar a Deus a piedade dos homens.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Três crianças


Eram três crianças no elevador. Sete ou oito anos, no máximo.
Antes, no play, algumas crianças brincavam. Naquela correria toda, o menino chamou uma amiga.

MENINO: Queria te pedir uma coisa.

A amiga tremeu.
Era apaixonada por ele. Ele pediria um beijo?
Suava um pouco.

AMIGA: O quê?

Disse, tentando disfarçar o nervosismo.

MENINO: Mas você tem que prometer que vai guardar segredo.

Mais nervosa ainda.

AMIGA: Ai, tô curiosa!
MENINO: Promete?
AMIGA: Prometo. Fala o que é!

Silêncio.
O menino despejou.

MENINO: Sabe ela?

Apontou pra uma menina de sete ou oito anos em pé sobre um banco de madeira, com um laço rosa na cabeça.

MENINO: Gosto dela, mas não consigo falar. Você fala pra ela que eu quero casar com ela?

A menina ia embora no dia seguinte. As férias tinham acabado e o tempo na casa da avó também.
Era hora de partir e o menino de sete ou oito anos estava completamente apaixonado.
Sua pergunta tinha ficado sem resposta.
Insistiu.

MENINO: Fala?

O menino declarou seu amor pela menina de laço rosa, mas não percebeu que acabara de partir o coração de sua amiga de sete ou oito anos.
Ela não conseguia responder.
Tinha vontade de chorar. Achava que ia ser pedida em casamento, que ficaria junto com o menino para sempre, com um casal de filhos, uma casa na praia e um cocker spaniel feliz correndo no quintal de uma casa no subúrbio.

AMIGA: Falo.

Não chorou.
E respondeu.
Saiu rápido pra ele não perceber a lágrima brotando no olho. Foi em direção à menina de laço rosa e cochichou alguma coisa no ouvido dela. Nada sobre o menino.
Voltou.

AMIGA: Pronto.
MENINO: Ela disse o que?
AMIGA: Nada.
MENINO: Nada?
AMIGA: Nada.
MENINO: Mesmo?
AMIGA: Ela não disse nada, tá?

Ele estava frustrado.
Achou que faria um pedido de casamento naquele dia. Que ela não precisaria voltar pra casa e eles ficariam juntos para sempre, com uma família grande, muitos filhos, uma casa na praia e um basset feliz correndo no quintal.
Só o que houve foi a continuação da brincadeira e a gritaria no play. Até as seis e o toque do sino da igreja na esquina.
Eram, então, três crianças de sete ou oito anos no elevador.
Quarto andar.
Saiu a amiga com seu coração partido. Olhou para o menino no elevador, seu amigo, e acenou antes de correr pra que ninguém visse seu choro. Seu sofrimento.
Quinto, sexto e sétimo andares.
Silêncio total. O menino de cabeça baixa. A menina meio triste pelo fim das férias. Ele não disse nada. Nem ela.
Ela gostava dele. Mas não tinha coragem de contar. Achava que, naquele último dia de férias, ele ia pedir sua mão. Que ela não precisaria voltar e eles ficariam juntos para sempre. Teriam três filhos, um gato siamês, um sítio com piscina e churrasqueira e morariam num apartamento perto da praia.
Talvez fosse diferente se soubesse que ele gostava dela. Mas não sabia.
Oitavo andar.
Os dois saíram. A menina queria um beijo e um abraço de despedida. Ganhou dele um tchau rápido, numa tentativa de esconder o choro preso.
Triste, abriu a porta da casa da avó e foi lavar as mãos para o jantar. Quase não mexeu na comida.
No apartamento da frente, o menino olhava pela janela pras nuvens escuras no céu.
No quarto andar, a amiga dos dois chorava deitada nas almofadas de bichinhos de pelúcia.
Eram três crianças de sete ou oito anos. Sofrendo por amor.


sábado, 12 de maio de 2012

Esplendor

A sala era divida em quatro blocos, que, por sua vez, eram divididos em quatro cubículos. Apenas a sala do chefe, separada da outra, tinha janelas - que de nada adiantavam, uma vez que não se abriam e que eram cobertas por uma película escura. Aqueles tantos cúbiculos estavam todos ocupados, com exceção de um: discutiu com o chefe e pediu demissão, não aguentava mais.

Dizem que foi porque um dia teve que sair um pouco mais cedo, para levar o filho ao dentista, e, só então, depois de anos, reparou que o mundo não era cinza como na hora em que saia de casa ou na hora em que voltava.

No dia seguinte, com um sorriso reluzente, comentou com os colegas:

- O mundo é amarelo!






Agenda de Lançamentos:

Foz do Iguaçu
13 de maio de 2012, às 19h15
Salão Internacional do Livro - Praça do Mitre


Curitiba
19 de Maio de 2012, das 13h às 18h
Casa di Bel - Alameda Dom Pedro II, 602

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Literatura viva





Liter, litteratus era uma casa de cultura, cheias de livros novos e raros, repletos de belas criaturas. Das páginas daqueles livros saltavam pequenas musas, que contaminavam à todos com ideias bem malucas. Uma hora éramos bicho encantado e outras voávamos até a lua, todo sonho era possível nas páginas daqueles livros. Cada pequena musa era filha de um diferente autor, cada paisagem era mais linda do que ele próprio imaginou. Dependia de quem lia, da criança ou do adulto, do jovem ou do senhor, cada página ganhava vida na mente do leitor.

As letras dançavam contentes, podia-se ouvir a canção, era um grande coro lindo de diversos corações. Batendo forte de alegria e de tristeza também, dependendo o que vivia o personagem de alguém. Mas no final do dia, os livros voltavam para prateleira, descansavam à noite para uma nova brincadeira. E as musas,  filhas ou heroínas, dormiam sempre contentes, por fazer brilhar de novo o olhar de toda gente.

E todo dia elas acordavam esperando uma nova pessoa, para junto com elas, acordada sonhar.

Joakim Antonio

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O quê.

que o meu querer
sempre queira questionar
mesmo que queime
mesmo que quebre
o quanto quiser.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Suspiros



Flávio Offer


Se me perguntam o que faço da vida, logo respondo:
— Ora, pois, sou operário! E, as palavras que me rasgam insanas são ferramentas em minha labuta!

***

Quando escrevo verdades, nunca sei se as digo a mim mesmo, pois tenho certeza que necessito tanto delas quanto necessito do mundo que me rodeia. E, escrevê-las soa tão falso quanto falar das futilidades alheias.

***

Há tanta sombra ao longo do caminho que é possível caminhar e nunca chegar a um lugar de descanso.

***

Do céu cai chuva, raios e aviões.

***

Toda noite me engano do sono que não tenho.
Durmo no mesmo cansaço que acordo! 



.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MORTE COM PÃES


Comprou pães e morreu. Simples assim. Nada com a pompa de uma ópera.
Entrou na padaria, escolheu pães mais clarinhos, chegou a ter na língua seu sabor milenar, depois voltou à calçada, sentiu uma dor do lado e morreu amparado por um desconhecido.
Aquele senhor disse que ainda era bem jovem, aquela moça suspirou que era um homem bonito.
No fim a rua apagou a imagem: o óbito foi esquecido pela dureza do asfalto, alguém levou a sacola com pãezinhos.
(Sérgio Bernardo)

terça-feira, 1 de maio de 2012

a menina que semeava papoulas




suas mãos passeavam dentro do saco se papel
cheio de sementes negras que mais pareciam
bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto
e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo

jogava ao solo aqueles pontinhos pretos
como se fossem pontos finais
esperando milhões e milhões
de minúsculos recomeços

e sob visões de pupilas dilatadas
aquela criatura caminhava em campo aberto
o vento arrastava suas saias e ela se divertia
como uma besta fera sorria estridente

seus pés avermelhados pela terra
afundavam no morno que o sol deixava
e a vida dentro da própria vida era surreal
as sementes eram bombas sobre o chão arado

as mãos devotadas ao prazer despretensioso
do toque daquelas minúsculas cápsulas
refaziam incessantes os movimentos
de captura e liberdade suprema

mal sabiam da colheita.