terça-feira, 30 de outubro de 2012

TESTAMENTO REPLETO


Como sempre, morro antes de escrever o meu testamento. Quero ser levado a sério? Nem pensar! Pensar é a última coisa a fazer.
Bom, está na altura de pensar, tenho de fazer este testamento, que chatice! Quem se terá lembrado de fazer, pela primeira vez, um testamento?
Deixo os meus ossos a quem os quiser honrar e venerar, até achar melhor coisa para fazer e se dedicar a amar as frescas flores!
Já deu para perceber que me custa pensar sobre o que possa sobrar depois de soçobrar, enquanto vivo obro e faço amor, como e durmo: é uma beleza, haja saúde!
Façam o mesmo que fiz, se_ria… tudo. Já está; foi, fui. 

domingo, 28 de outubro de 2012

cantadas para uma moça no metrô


1ª Metrô chega a uma estação: aqui é o paraíso?





2ª você vem sempre aqui esperar isso esvaziar?

A moça




era tão bonita que

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Mercado da Bola


O empresário, seu clube atual e o anterior: tal como uma pizza, sua posse estava divida entre os três. E a briga por umas fatias a mais ia longe.

Em geral, ele gostava disso. Sentia-se valorizado, querido. Mas agora, preso por dirigir embriagado, ficou a dúvida: para quem ligaria primeiro?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

No Oculto





Estou no oculto, no subliminar, nas entrelinhas, nas reticências, dentro dos parênteses. Eu estou atrás da cortina, debaixo da cama, dentro do quarto trancado. Meu desígnio é estar perto, mas ao mesmo tempo longe. Porque eu estou apenas no desejo, na ânsia e na fome; Na tinta da caneta, no papel não feito, nas jóias que não brilham. Estou no aperto, no lotado, em grandes espaços, no oculto da fantasia, dos contos de fadas, nos livros de sabedoria. Minha vida é estar no canto, observando como espectador, tudo em volta, girar como uma roda. É contemplar a vida no auge do limiar, no limite do horizonte.

No oculto ninguém me vê, estou invisível, apenas paralelo ao mundo real. É no oculto de um olhar, de um piscar, de um grande bocejo, ou em uma palavra não dita. Estou dentro do cheio, fora do oco, estou limpo no sujo, sujo no limpo. Estou nos bastidores de um filme, atrás das câmeras, na luz que não ilumina, na sombra que não é escura. Sou coadjuvante das pessoas, sou a sombra, a lágrima que cai, o abraço que nunca foi feito, a mão que nunca foi apertada.

Estou no oculto, no sótão, no porão, na prisão, sozinho na imensidão; estou sem estar num lugar sem existir, invisível no visível, visível no invisível, estou preto no branco, branco no preto. Na reta da curva, na curva da reta.

Estou apenas em mim mesmo, no finito do infinito...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Metamorfose


Lembra? Eu tinha graça... eu corria descalço pelas ruas. Eu ainda sorria. Quando a chuva caía fria e colorida, eu mergulhava nela. Nesse tempo, a mochila não pesava nas costas. Nessa mesma época, eu cantava e não sabia que desafinava, queria tocar piano mas não o abria, queria ter uma horta, mas não cultivava. Sei que você se lembra de quando eu ainda pulava sem motivo, escalava os muros mais altos e ainda tinha equilíbrio... Você não acreditaria no que sou agora: ouço e não discuto, escrevo cartas e as deixo nas gavetas! Agora, determino o lugar das coisas, os quadros nas paredes, as cores e os sabores que ninguém vai provar. Você ao certo se esqueceria de quando eu dominava esse mundo, só com meu escudo e uma espada enferrujada... num piscar de olhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sobre a tolerância


Foi assim: estava sentada na sala de espera quando ele entrou pela porta.
Usava um colete apertado, sem blusa alguma por baixo; uma bermuda, até o joelho, rasgada; uma sandália imunda; e, cruzada pro lado esquerdo do seu corpo, uma bolsa de pano, meio encardida. No peito, um cordão feito artesanalmente.
Aquele primeiro momento foi irreparável.
Foi um choque. Recuperada, em parte, percebeu que ele vinha em sua direção. Foi quando se sentou ao seu lado.
Aquilo mexeu com ela mais uma vez. Sentiu o impacto daquela presença. Como ele poderia entrar ali, daquele jeito? Não percebera sua inconveniência em estar daquela forma? Achava incompreensível.
Ficou observando-o.
Ele cruzou as pernas. Depois, abriu a bolsa e tirou de lá um sanduíche. Os olhos dela se arregalaram. Não acreditou. Desviou o olhar, tentou se ajeitar na cadeira. Não conseguiu: levantou-se e saiu andando. Tentou massagear as mãos, pra se acalmar.
Descontrolada, entrou no banheiro. Diante da pia, abriu a torneira e lavou o rosto. Olhou no espelho durante alguns segundos. Por que tudo aquilo estava acontecendo com ela? Enxugou o rosto e pensou naquilo tudo mais uma vez. Não acreditava ser possível alguém se vestir e se comportar daquele jeito.
Ela apenas queria ir ao médico.
Andava nervosa, queria se consultar com um especialista. Mas e aquilo ali, agora? Como agir? Precisava de uma sessão de meditação urgente. Ou da instrutora de ioga, quem sabe.
Saiu do banheiro.
Foi em direção a sala de espera de novo. Lá estava ele sentado, comendo seu sanduíche. Ela senta. Tenta se manter sob controle. Entretanto, essa não era uma realidade possível. Pouco a pouco, seus músculos iam enrijecendo.
Estava tensa. Tinha vontade de espancar aquele sujeito ali mesmo, naquele instante.
Levantou.
De pé, meio instável, caminhou até a janela. Estava fechada, mas chegou o rosto bem próximo ao vidro. Foi como se pudesse estar um pouco lá fora. Tentou puxar o ar, mas faltava. Voltou em direção à cadeira em que estava, mas não sentou. Passou por ela e foi em direção ao corredor. Baixinho, entoava um mantra.
Desistira da consulta.
Aflita, correu para o elevador. Com a mão, impediu a porta de se fechar e entrou. Sentia-se um pouco melhor. O elevador desceu e, ao chegar ao térreo, ela saiu correndo dele em direção à rua. Enfim, respirou.
Estava livre de toda aquela opressão da sala de espera. Apesar disso, ainda restava um aperto no peito. Não sabia bem o que era. Pensava em cores calmas. Imaginou um quarto azul e respirou fundo.
Foi até a esquina e sentou em um café. Pensou. Tomou um chá. Queria se acalmar. Mas sempre esbarrava em um pensamento: e se ele voltasse? E se encontrasse com ele outra vez? E se, andando pela cidade, ou numa sala de espera qualquer, estivesse frente a frente com aquele ser, mais uma vez?
Não aguentaria.
Pensou, então, na única solução possível: acabar com ele. Ajeitou o corpo na cadeira. Não lhe restava dúvida alguma. Era necessário eliminar aquele sujeito. Não podia perder a oportunidade de resolver a situação. Fixou o olhar na saída do prédio. E esperou.
Esperou até ver seu objeto de ataque. Atravessou a rua rapidamente e foi atrás dele. Discretamente, seguiu o jovem até a esquina. Sinal aberto, carros passando. Esperou o momento exato. Viu o sinal amarelo e o ônibus vindo. Percebeu a aceleração pra tentar cruzar antes do sinal fechar. Foi quando ela tropeçou suavemente, esbarrando nas costas dele. O corpo dele foi pra frente. O ônibus não parou. O corpo dele ganhou o espaço.
Gritos ecoaram pela esquina.
O corpo parou alguns metros a frente. Sob ele, sangue. Ninguém percebeu o que ela havia feito. Ninguém. Ela sorriu discretamente e olhou em volta, tentando ter certeza de seu segredo. Ligou para a emergência.
Estava aliviada.
Ainda na esquina, ouviu quando alguém do lado disse que viu o garoto se atirar na direção do ônibus, que achava ser um suicida. Outra, no meio da confusão, dizia ser sensitiva e que aquilo havia sido um suicídio com certeza. Havia cumprido sua missão naquele dia. Ninguém seria mais incomodado por tamanha indelicadeza como o comportamento daquele jovem. Não encontraria mais aquele ser pela rua. Não mais.
Estava em paz.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dia Nacional da Leitura / e-Colcha

Hoje, dia 12 de outubro, Dia Nacional da Leitura, lanço a versão digital do livro Colcha de Retalhos



O livro está disponível para leitura online ou download em formato pdf, no sistema "pague quanto quiser, se quiser"

Conto com a colaboração dos amigos para divulgar este lançamento e ampliar o alcance desta obra!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ultrajada



Bandeira hasteada.

Contra a haste,
cupins, serras,
culturas inteiras.

Metade solitária.

Solidária a meio-pau,
encontrada a meio-fio,
enfincada na multidão.

Fulgurante como o sol.

Ilumina a noite,
até virar cinzas,
e talvez, Fênix.

Multiplicada em partes.

Rasgadamente exaltada,
parte por parte,
após regurgitada, de cima.

Bandeira ultrajada.

Por não conseguir chegar,
muito antes,
a quem mais a exalta e precisa.

Joakim Antonio

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Margens Plácidas

para quem já viu de tudo,
não há nada que assuste mais
do que a normalidade.

domingo, 7 de outubro de 2012

Ideias para um romance


Minha admiração se eleva ao fracassado. Aos homens de espírito fraco, aos desconhecidos. A inconcebível presença dos que vivem a margem do panteão. Enxadrista que não fui, valorizei em demasia a nobreza e seus artifícios. Meus desenganos aniquilaram os peões. Desprezando minha condição social, alimentei, por muitos anos, vários sonhos burgueses. Sonhos estes que vi desfeitos ao longo da vida. E, agora, em meu juízo, noto que o fracasso me rondava desde os primeiros anos. Hoje, tépido e ausente do que fui, posso olhar para mim mesmo e ver onde errei na vida. Os caminhos que escolhi e nunca cheguei aos meus desejos. Assento-me em minha poltrona empunhando um livro que leio sem entusiasmo. Ouço canções que em outros tempos me fariam flutuar; neste instante estou alheio, insensível. O único sucesso que ainda possuo é a biblioteca em que estou imerso. Pífias estantes de pouco mais de mil exemplares que fui juntando vida afora. Agora - gordo, hipertenso, grosseiro e fatigado – restam-me as horas que se arrastam ligeiras, feito serpentes. De um ensaio salto a uma poesia, percorro um romance que deixo inacabado sobre a mesa, remexo nos papeis sobre a escrivaninha. Vida inglória esta.
Nunca tive um plano, um projeto de vida. Nunca elaborei uma estratégia para os dias futuros. Embora imaginasse a dureza que seria nunca me preocupei tanto. Contudo, percebo que nada construí. Todos os sonhos que tive, foram apenas sonhos, que como nuvens se desmancharam com o vento. Ah! Se tivesse morrido aos vinte anos. Talvez tivesse a honra de ser lembrado como quem tivera todo um futuro amputado. Talvez houvesse uma nostalgia do que não fui e, todos me dedicassem honrosas homenagens – dizendo que, certamente, eu brilharia. Mas, eu não morri. Tive a chance de ser e não fui. Tive a chance de brilhar, mas escolhi escurecer-me. Sou um tipo vulgar de homem. Destes que se encontram por todas as esquinas. Aparento sabedoria por meus cabelos grisalhos, a sensatez no falar, o bom gosto no vestir, mas, como todo homem comum, sou sisudo, desconfiado. Imerso na angustiosa razão de viver. Meus referenciais ficaram adormecidos no passado. E, a cada pessoa que deixava esta vida, era a minha que se via diminuta. Uma ausência carregada de um mistério imperscrutável. Tempo que se amiudava irrecuperável nas horas inacabadas do ser.
Guardo um livro autografado em minha estante. Um poeta que me fitou a face e me chamou de irmão. Tudo como um relâmpago ficou impresso na página de rosto: “de poeta para poeta”. Foi só. O único reconhecimento de pertencer a um círculo. A partir de então, nada mais de admirável. A vida tornou-se escorregadia. A poesia foi-se pelo ralo dos dias. E, o sentimento de pertencer a algum movimento se dissipou. Na verdade, as palavras eram apenas carícias em um ego inflado. Uma autoafirmação incompreensível que me jogou de encontro ao outro, fazendo-me revelar-lhe minha condição de escritor. Ele escreveu mecanicamente, com meio sorriso nos lábios e grande cortesia. Com o tempo, outros títulos se juntaram a este com outras dedicatórias. Outros pugilistas da palavra travavam esta luta vã no caos que se instala ante seus olhos. Deixavam, assim, relatos apaixonados pela arte de dizer “inutilidades”.

Aquele sentido de pertencimento não mais surgiu. Permanecia afastado das rodas. Um exílio voluntário distava o ponto. Algo dizia: “não estás contido nesse meio.” As grandes rodas pertencem aos literatos. Discutir o mundo, suas transformações, os enfoques sócio-culturais que dividem as nações e diferenciam os povos é coisa para intelectuais. Indivíduos versados nos mais diversos assuntos geopolíticos, capazes de discutir de forma enfática os mais profundos sentimentos da contemporaneidade. Não passava de um versejador de dores de cotovelo. Ora de uns espasmos delirantes, ora de um grito no escuro. Vez ou outra escrevia uns versos. Deixava inacabado um conto que logo se esvaia na mesma velocidade que surgira.  A solidão penetrava os poros e não servia de combustível, aliás, nem as doses excessivas de conhaque intuíam as palavras. Só uma intensa ressaca a corroer a alma.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

doloso




sei dessa angústia
tardia que habita
meus espelhos
matinais

e dessas paisagens
disformes retratadas
em papel de embrulho
descartadas à revelia

por ceder ao alheio
esmoreço em dolos
quantas faces
de Frida encontrarei
em vias expressas
e passeios públicos?