sexta-feira, 30 de novembro de 2012

VERSOS PARES

Deixo os meus castelos
no ar, aos sonhadores
e suas mulheres.
As mulheres, sonhadoras,
são os seus homens,
deixo tudo a elas.

Eles, para serem merecedores
das mulheres que têm,
deixam tudo, aos seus
filhos, mulheres e cães.

O meu papagaio fica
para a vizinha, é tudo.

Agora, também, versos ímpares.

Tudo deixo aos seres,
ao ser como eles, aprendi
a respeitar as pedras.

Abro de mão tudo,
deixo os ossos e, as ideias,
levo comigo as que tive.
Ficam as que fiz,

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Eclipse

chuvas disfarçavam  os  céus
assim como máscaras sobre
faces
indiferentes às calcificações e
mesmices
um novo tempo  e  novos
portais se abriram
às sombras as
guerras e as traições
agora
feito ecos de monges budistas as
crianças e seus risos
sonoramente
instrumentam o universo
ao sol...
ofereço meus versos

                  - Graça Carpes

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia

b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos             [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefante - editora Anfisbena, 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Partidas


Depois do imprevisível
já não te sirvo de esteio 
ou guarda-chuva...
não me sustento.
Meus olhos marejam, 
teimosos...
Foi o eco da tua voz
ou o oco em meu peito
que me fizeram esmorecer?
Não ouviremos mais John Legend
de mãos dadas, no infinito.
Eu vou!
Segure-se no balanço, baby,
antes que as folhas caiam
e tomem todo o jardim...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

zero

quando você nada tanto que não sabe se já chegou do outro lado do mar
ou se está nadando em círculos
tanto porque nadar em direção ao nada
dá nisso

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Por uma boa higiene bucal


Ela abriu os olhos.
Sem muitas imagens poéticas sobre o acordar e levantar da cama de uma mulher que habitasse as páginas da literatura, foi até o banheiro e, desviando do espelho, entrou no banho. Terminado, saiu do box desviando mais uma vez do espelho e foi em direção ao quarto, fugindo do outro também. Vestiu-se e foi comer alguma coisa. Como não havia nada que lhe interessasse na geladeira, tomou um gole da coca-cola aberta na porta. Voltou ao quarto, sempre tomando cuidado. Arrumou tudo. Estava quase pronta. Foi então escovar os dentes. Entrou no banheiro, cabeça baixa, sem levantar os olhos. Pegou a escova e passou a pasta. Foi só aí que, suavemente, ergueu o rosto e encarou o espelho ao mesmo tempo em que colocava a escova na boca. Mecanicamente começou o processo e a espuma se formou na boca. Os olhos travados. Corpo travado. Todo. Era aquilo que havia evitado até aquele momento: não queria ver o próprio rosto. Os olhos fundos indicavam sua tristeza. O vermelho não negava o choro óbvio. Não parava a escovação, mas começou a pensar em tudo, tudo que não queria pensar, que havia evitado pensar na noite anterior, que havia evitado pensar naquela manhã. Pensou nele e quase chorou. Mas não, permaneceu escovando. Lembrou do dia anterior, dele e da despedida. Lembrou que fins são sempre trágicos. Alguns diriam ser cômico e ela até concordaria, não fosse com ela. Lembrou que sentira muita raiva no dia anterior e que sentia raiva naquele instante e que, ainda que não estivesse escovando os dentes, estaria com a boca cheia de espuma. Raiva: passou a escovar com força. Raiva dele, do fim. Não dava pra pensar muito com a escova na mão e a língua anestesiada pelo creme dental. Pensou nisso. E teve raiva outra vez. Dele, do fim, do creme dental, daquela rotina maldita. Levantar, tomar banho, comer, vestir uma roupa comportada, escovar os dentes e ir trabalhar. Trabalhar, comer de três em três horas, escovar os dentes após as refeições.
Estava cansada.
Antes e agora. Ele não tinha motivos pra ir. Mas disse que se sentia preso. Que a rotina o aprisionava. Não queria aquilo. Ela sentia a rotina, não gostava da rotina, mas gostava dele. Lutaria contra qualquer coisa. Ele não. Ela terminou de escovar os dentes. Cuspiu, enxaguou a boca, bochechou o liquido colorido que estava na estante, lavou a escova e guardou tudo no armário. Levantou a cabeça e olhou no espelho mais uma vez, encarando a si mesma.
Estava pronta.
Não completamente, é claro. Sentia raiva. Dele, do fim, do creme dental, da rotina, de tudo. Inclusive, da quebra da maldita rotina. No dia anterior, quando ele quis acabar com tudo, acabou com ela.
Não, não estava pronta.
Abriu o armário novamente, pegou a escova e o creme dental. E começou tudo outra vez.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Lua de Chesire

A lua, deitada no céu, sorri um sorriso minguado

Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos








texto do livro Colcha de Retalhos

domingo, 11 de novembro de 2012

Amigos de La Fontaine



Tá de barriga cheia né, safado?
Um queijinho cai bem de vez em quando né, hipócrita?
Euuu?
Não, eu mané. Você mesmo, que gosta de roubar coisas dos filhotes inocentes.
Ha, ha , ha, pelo menos eu não roubo comida de corvo.
Eu não roubei nada, caiu e peguei, tá bem.
Tá nervosa, santa?
Ai meu Santo La Fontaine, você fez de novo.
Pois é, não foi?
Queria que todos soubessem o quão sacana você é, e eu, a pobre raposa inocente, sempre caio nas suas provocações.
Vai reclamar com seu pai, o "Santo".
Sua sorte é que eu não ligo para essa parte, o importante é que ao encenar, acabamos ensinando.
É mesmo, finalmente você tem razão.
Ah, não enche meu saco e quer saber de uma coisa, vamos dormir.
Para quê?
Bom, pelo menos eu não me faço de burro!
Burro é em outra história, ha, ha, ha, ha, ha.
Ai meu La Fontaine, pena que você não pode mais mudar a história, eu ia pedir para mudar de papel.
Tá bom, ia ser, a raposa desafinada, ha, ha, ha!
Tsc, tsc, tsc, cala essa matraca e deita aí.
Tá bom, rabugenta, vamos dormir.
Vamos aproveitar, daqui a pouco alguém abre um livro por aí  e só poderemos descansar quando acabar a história.
Minha linda história, você quer dizer.
Ai meu...
Tá tá tá, não fala nada já to deitando, sua chata. Zzzzzz.... zzzz...
Epa, calma aí, seu corvo mal educado.
Que foi agora, raposa cri cri.
E eles?
Onde?
Ali olhando a gente.
Ah é mesmo, foi mal.
Até amanhã para você que está lendo, ou melhor, diz aí raposa.
Até a próxima história.

Joakim Antonio 

"Sirvo-me de animais para instruir os homens. Procuro tornar o vício ridículo por não poder atacá-lo com braço de Hércules. Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem, o vício à virtude, a tolice ao bom senso... Uma moral nua provoca o tédio. O conto faz passar o preceito com ele; nessa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar, pois contar por contar me parece de pouca monta." Jean de La Fontaine (  Na introdução da sua primeira edição do livro “Fábulas”)  

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

(...)



Eram simples tentativas de se comunicar com o mundo. Não lhe cabiam as simbologias. Nem mesmo as linguagens. Apenas a deformidade dos acontecimentos. Algo como um terremoto interior. Os passos em que caminhava pela rua eram meio trôpegos. Torpes eram os caminhos. Não haveria lugar no mundo. Lugar aonde pudesse se refugiar do inconcebível. Jamais se resignara. Em tempo algum haveria de se curvar. Poderia quebrar-se ao meio. Poderia partir-se inteiro: não se curvaria. Não se ajoelharia diante de reis nem de deuses inoportunos. Era inquebrantável na descrença. Contudo, era esperançoso. Não se admitia mergulhado em fatalismos. Sua capacidade de crença estava direcionada à potencialidade do ser humano. Sem maniqueísmos sabia das direções e impulsos racionais que nos levam a prática do bem ou do mal. Nunca separou os semelhantes em joio e trigo por achar a parábola inconveniente. Preferia acreditar em pessoas desajustadas socialmente. Ele, por exemplo, não se alinhava ao comum das gentes. Vivia a parte. Observando os acontecimentos sem desprezar os fatos. Afinal, era preciso refletir. Antes de tudo, antenava-se nos novos ritmos da cidade que cada dia mais se tornava intransitável. Carros, desvios, gente descolada demais, tresloucados fugindo de si mesmos nas cracolandias (ou tentando se encontrar num ambiente hostil que lhes ofusca a visibilidade). A polícia e o Estado expulsando essa gente dos centros. Levando-os sabe lá para onde. E, aqueles mesmo descolados aplaudem a limpeza das praças. Que sumam com aqueles pobres chupadores de pedra. Fumar unzinho pra relaxar é coisa de bacana – é até legal – não essa loucura que está solta nas ruas; esses tresloucados analfabetos que ficam empestando a cidade: ora roubando ora na mendicância.

Não se tratava de um jovem transviado. Viver na alucinação diária é calamitoso. É corre- corre para estudar. Formar. Ser alguém direito. É a luta para se ter um emprego para a sobrevida que levamos a esmo. Se adequar é difícil. Corta o cabelo, apara a barba, camisa dentro da calça, cinto a combinar com os sapatos. Gel no cabelo. Perfume. Cheiro de gente de bem. “Que merda é essa em que estou me transformando? O retrato do vizinho imbecil do AP 804. Agora só me falta uma colocação na repartição pública. Vá se fuder – vidinha mofina.” Tenta provar pra si mesmo que é um desajustado. No fundo sabe que não é. Segue todos os padrões e ditames da moda. Seu pensamento é escasso de sobriedade. Está sempre a repetir frases alheias. Disfarçando de intelectual de boteco. Se houvesse um interlocutor a altura discutiria Nietzsche. Falaria horas inteiras de como somos produto do meio. Ou das relações do homem contemporâneo e os meios de produção. Porém, todos os seus encontros são banais e se forjam nas inúteis futilidades diárias. Qualquer encontro ou conversa é como uma avalanche de parvoíces onde os assuntos estão incrustrados da grande torpeza televisiva. E todos os homens parecem modelos saídos diretamente daqueles programas de auditório desqualificados onde toda mentira gera polêmica sob o trajo de verdade indissolúvel. Impossível ser honesto nas amizades, exprimir os pensamentos que o atormentam, compartilhar experiências. Afinal, todos estão ligados na vibe. Altas discussões sobre a validade do título inédito conquistado de forma invicta por aquele time de milhões de torcedores. Nada mal aquela jogadora de vôlei gostosa que saiu pelada na revista desse mês. E vai cerveja, vai tira gosto, mais cerveja e tira gosto. E o papo não muda a fita. Sempre a mesma falação. As lutas do Ultimate. Aqueles trogloditas a se encararem dentro de um quadrado (octógono, tá bem?) rosnando como cães raivosos. Ah, barbárie! Seja bem vinda à vida desses reles mortais. Ah, barbárie! Seja bem vinda ao cotidiano de nossas crianças. E assinam os canais de Combate. E discutem as regras do jogo, ou mesmo a falta delas. O objetivo é finalizar o adversário (ainda não estão autorizadas as mortes, mas basta César, fazer o sinal de aniquilamento e elas virão). Banalidades. A vontade de estar trancado no quarto entre os livros e discos. Ouvindo Blues, curtindo Jazz.  Lendo Bukowski e se mijando de rir com as sacadas bem humoradas: “você tem que trepar com um grande número de mulheres/ belas mulheres/ e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.” Sentado diante do notebook tentando escrever alguma coisa que preste. E que não esteja infectado das patranhas diárias. Mas ele sabe que é impossível não contaminar-se. É impossível viver sob um escudo que o deixe isento. É impossível sair ileso, não sofrer danos nas retinas, nos tímpanos ou na alma. Mesmo que feche os olhos, tape os ouvidos, em algum momento, virá a chuva de banalidades. E, não adianta livros, discos, filmes. Não adianta ser cult, cool ou anarquista. A presença da mediocridade nos assombra. E esta sombra é o que nos envolve diariamente tentando nos converter, tentando nos convencer de que somos todos iguais e que devemos continuar sendo iguais. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

estátua de sal




a imagem endurecida
mal chora trancada em si
na esperança de se achar

[calo]
trago aqui
cada palavra
cada respiração
cada som
toda a sensação
rubra, rubra, rubra

[vem]

e que minha retina
te cubra ainda dilatada
e que seus poros
jamais se esqueçam

[garoe]

que teu sorriso
me é bastante
enquanto molha
meu corpo


[vê]

que não há limites
entre o que é nosso
que a loucura é sã
enquanto unos

[sente?]