domingo, 30 de dezembro de 2012

REVELANTE


Revelante o relevo da planificação! Revelar a ideia por trás do pensamento, tentar mostrar o que o antecipa. O penúltimo dia do ano vai ser tão bom como o último dia, para fazer testamento de Tempo de_corrido... apresentado deste modo: 2012 (um de Janeiro - 31 de Dezembro). 
Desde modo se faz a biografia, a mais sucinta de todas, digna de uma lápide! Queria algo de lapidar, já está. Em bruto, o texto está feito. Lapidar mais um pouco a ideia, dar novas faces/facetas, permitir captar mais luz e refractá-la de modo a obter mais brilho.
Um princípio de vida que impressionava os estóicos: encontrar na morte uma aliada, permitir ao fim da vida ser uma constante promessa de aproximação da perfeição: conquistar a serenidade - até ficarem tão serenos que já nem precisariam - respirar.
Imagino um dia, de manhã, revigorada mas sem forças, com o vigor de quem o perdeu, ao escovar o cabelo, olhando o espelho, fechar os olhos e sentir o coração, de vez, deixar de bater. Revelante!? Gosto desta certeza e dú _vida…

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cidades

toda cidade desemboca no

mar

toda sempre

reconstruída de

céus

as pernas dos edifício e

de suas

difíceis

pessoas

constróem o desfiladeiro

das

águas

(

salgado passos

mergulham

)

.


                    - Graça Carpes -

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Milagre de Natal

Naquele dia 25, fez uma promessa: rezaria 10 pai nossos, 10 ave marias e, pra garantir, daria 3 pulinhos se a ressaca passasse.

Nada feito. Não tinha santo forte. Então, foi até a padaria comprar um Gatorade antes que sua cabeça explodisse.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Da estrela...




– Lá está ela! 
– Não adianta, não sei qual é... 
– Tu não vês? É a de brilho mais bonito! 
– Ah! Pra mim são todas iguais! 
– Mas pra mim ela é única.
– Devem existir milhões neste céu, como você consegue encontrá-la? 
– Eu a amo!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ao novo

foto: Ciril  

Um bom ano
a ilusão dos dias bons, 
o engano desses olhos
insanos, 
repetidos, 
numa nova versão
sem refrão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Seu João


Foi assim. Eu já tinha ouvido falar da má fama dele, de briguento, fanfarrão. Sem falar folgado.

Motivo de a merda toda ter acontecido.  
Mas também, o desgraçado tá acostumado a fazer besteira desse tipo com a raça toda, mas comigo não.

Eu e a minha mulher, a gente tava na porta de casa. Dia bonito, resolvemos sair pra comer alguma coisa. Quando voltamos. Ele tava lá dentro. COMO SE A CASA FOSSE DELE!

Filho de uma puta, pensei.  A vizinha já tinha me falado que ele fazia essas coisas, mas pô, eu sou casado, quer invadir, pega uma casa vazia, tem tanta por aí.

Ficamos do lado de fora, pensando. Começou a chover forte, minha mulher, toda linda, se escondendo embaixo de uma árvore. Tô falando, foi tudo muito rápido. Sou macho. Entrei lá e biquei a cabeça dele até matar. Foda-se que era maior que eu, fiquei doidão e matei mesmo, porra, minha casa, que caralho.

Mãe natureza teu cu, Pardal comigo não tem vez, e se todo João-de-barro é igual, hoje a história mudou.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

luz- coração


Nossas escolhas pautam nosso cotidiano
contundentes marcos históricos
rasgando à fio de corte temporalidades escusas

que te dividem, rotulam e limitam
aqui, não me cabem unilateralidades
minha percepção quando não é múltipla é dual
bricolagem amorfa e indecisa de motivações sem fim

meu mundo fala português, inglês, espanhol, 
francês, turco, mandarim
e tudo de uma só vez

nesta tela a holística a realidade que globalizada engloba o nada navegante
como parecer inerte num mundo tão grande?

imaginação que divaga e consome
errantes pensamentos
somos todos seres projetados
no virtual espaço
imaterial da mente antenada
por emanações eletromagnéticas

quanto mais conheço
menor me sinto
partícula do todo
constituí mas não o é
em abrangência

quanto mais minha consciência se desloca
mais leve me torno para seguir na senda
da contínua escalada rumo à montanha sagrada
emanada da imaginação integrada para
além dos trópicos e dos horizontes
das brumas e da noite
além da ilusão
luz- coração.


                                      Flávia Amaro






segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Os 3 Poderes


Os 3 poderes é uma série que põe em questão pensamentos sobre a sociedade e suas relações com o que entendemos por amor, paixão, desejo, traição, fidelidade, vergonha, etc. Trata de comportamentos, medos e anseios do homem. Expõe conflitos do pensamento humano que, em pleno século XXI, ainda não somos capazes de tratar abertamente sem o julgamento de um olhar pudico e por vezes hipócrita. Por meio dos personagens representados por um coração, um cérebro e um pênis, 
Os 3 Poderes brincam com as maneiras de pensar; ora racionais, ora emocionais e ora sexuais, que reprimem-se e misturam-se diariamente em nosso pensamento.


sábado, 15 de dezembro de 2012

A árvore

Metáforas elaboradas não explicam sentimentos complexos, pensava.
Era quente. O dia estava claro e o sol rebatia nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Era novidade. Quente, claro, sol e desconforto sucediam a queda. Antes, ainda que fosse quente e claro, havia uma sombra delicada e o sol que rebatia nos carros na rua era barrado, entrando pela janela um balançar cadenciado.
Havia, em frente a janela, uma árvore. Com o tempo aprendera que era um flamboyant. Não que isso interessasse. Era uma árvore, isso bastava. Se era um ipê ou uma macieira era irrelevante. Sempre fora sua árvore.
Sempre esteve ali, oferecendo sombra como em um poema escrito sobre infância e nostalgia. Não que gostasse de sentar aos pés da árvore, recostar em seu tronco e receber a brisa suave no rosto, olhando pro céu entre a copa do flamboyant. Isso era poesia. Gostava de estar na sala e não ter os olhos desconfortáveis enquanto lia Tchecov no sofá.
Não ser poesia não significou, em nenhum momento, desamor. Vivia uma intensa relação amorosa com aquele flamboyant. Todos os dias, chegava da rua e, ao entrar em casa, olhava pro alto, em direção a copa da árvore. Quando era criança, carregava alguns galhos. De manhãzinha, juntava os bonecos e construía fortes e trincheiras nas raízes, que levantavam um pouco a calçada. Mais tarde, pegava algumas sementes pelo chão e juntava em uma caixa, sem muito sentido. Achava engraçada a sujeira que a árvore fazia e podia ver o céu entre as folhas. É, talvez de alguma maneira, fosse poesia.
De certa forma, aquela quase poesia era também um prenuncio de tragédia. As raízes fortes iam aos poucos estourando a calçada e os canos em busca de água. As sementes ficavam espalhadas pela rua, assim como as flores. As cigarras sumiram. Havia cupins.
Um dia chegou o botânico. Nunca havia visto um botânico e nunca viu um depois disso. Se fosse teatro, diria que era uma solução dramatúrgica fraca do autor, colocar um botânico ali para explicar o inexplicável, como a empregada doméstica da novela das oito que faz uma pergunta a patroa, protagonista da história, pra que ela possa fazer uma cena tocante, que sirva de gancho para o capítulo seguinte e mantenha a atenção do espectador. Não era preciso verbalizar a morte. Fez-se o silêncio.
Dias depois, acordou com a trilha sonora do corte. Foi até a janela e contemplou a coreografia. A luz do sol banhava o cenário e lá em baixo havia uma espécie de diretor. Não conseguiu pensar em nada.
Os dias seguiram angustiados. Era, sim, preciso verbalizar a morte, pensou. Pegou um caderninho que tinha guardado para essas ocasiões angustiadas. Começou a escrever, nada que achasse gostável. Mas não estava interessado em ser lido, mas em botar pra fora a angústia. Ele sabia, ou achava que sabia, que escrever era uma forma de superar.
O que ele não sabia era que nada que escrevesse seria capaz de cobrir aquele buraco aberto. Que nada voltaria, ainda que inconscientemente achasse possível que tudo voltasse, em breve, a ser como era antes. O que não sabia é que há coisas que não se superam. Há coisas que não voltam. Não pelo que foram, mas pelo que deixaram de ser. Brincar com seus bonecos na raiz aparente do flamboyant foi banal, mas foi. Não haveria mais aquela raiz para servir de trincheira na guerra imaginária. Não haveria sementes, galhos ou flores. Não haveria.
O acordar seria diferente, assim como a sesta. As tardes e os cafés-da-manhã também. Não haveria escaladas, podas, arte naturalista. Não poderia se casar embaixo da árvore. As folhas pequenas, não poderiam ser postas pra secar, trituradas, enroladas em um guardanapo de bar e posteriormente fumadas, em busca de algum estado alterado de consciência, numa tentativa juvenil de fazer haver alguma coisa. Não poderia construir uma casa na árvore, não naquela, pelo menos, e, se não naquela, em qual mais?, não importa, não poderia construir uma casa com a sua madeira nem tirar uma muda. Não seria possível, um dia, quando fosse avô, retirar um galho e fabricar uma espada de brinquedo para seus netos. Tampouco construir um arco e flecha. Não haveria a sombra e a poesia de olhar pro céu entre as folhas da árvore.
Os dias seriam claros e o sol rebateria nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Tchecov nunca mais seria o mesmo. Nem ele.
Metáforas simples também não explicam nada, pensou.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mulher da minha falta de sonhos

Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença; Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.

Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.








texto do livro Colcha de Retalhos

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Olhos convexos



Olhares planos
Revelações mínimas
Ilusões no olhar

Janela Limpa
Espelho mágico
Olhar convexo

Mundo revelado
Imagens amplas
Dentro d'alma

Pinturas planas
Natureza morta
Estatísticas futuras

Realidade convexa
Presentes reais
Verdades Nuas


Joakim Antonio





segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Imitação de Ícaro




Fazia horas que estava deitado na cama observando o planetário projetado no teto. O quarto estava repleto de velharias, minhas companheiras, desde que Sofia me deixara. De quando em vez abria um livro para manter aquele velho hábito. Já não tinha gosto em leituras, amofinava facilmente com aquela literatura safada. Não suportava os títulos que recebera da namorada, livros esdrúxulos, sem composição, nem conteúdo. Haveria quem os defendesse veementemente, mas, não eu; não fazia caso daqueles livros, preferia ler Baudelaire, mergulhar nos infernos de Rimbaud, me perder nos processos metamórficos de Kafka. Sim. Aquilo era literatura e não esses títulos que mais parecem receituário. Literatura safada. Autores medíocres que querem apenas a fatia do bolo, povinho sem-vergonha. Não dava para ser assim. Decidi escrever. Optei pela loucura deixando ser tomado por uma obsessão doentia. Entrei para o quarto como quem entra para um casulo. Haveria de sair dali escritor, mas por onde começar? Enchi o quarto de livros raros que encontrava em sebos. Recolhia todo jornal literário, inscrevia-me em todos os suplementos. O espaço ficava cada vez menor ante o amontoado de papéis. Os livros empilhavam-se aos montes, pouco lia até que, definitivamente, perdi a razão. Seis meses. Havia seis meses que entrara para o quarto. Vivia debruçado sobre os livros e jornais que se espalhavam vertiginosamente. Dormia em uma poltrona, cochilos curtos, o suficiente para me recompor. Ficava alheio ao que se passava fora daquelas paredes. Saía do quarto apenas para atender a porta, raras vezes, para receber a pizza, o lanche ou os correios. A vizinhança estranhara meu comportamento, mas que importava? Era apenas mais um. Todo dia nascia gente, morria gente. “O homem não se barbeia, nem cabelo penteia. Ensandeceu de vez” - pensavam. Andava pelo quarto metido em um samba-canção, meias de algodão nos pés, ora um livro de poemas nas mãos, ora um romance. Estava me alimentando abundantemente. Meu desejo mais secreto me impulsionava.

Acordei certo dia com a sensação de poder confiscar os mundos, reter nas mãos todos os pequenos universos alheios, tornando-os matéria de primeira essência. Precisava romper o casulo que se formara entorno de mim, voar, sair às ruas tentando capturar os olhares, as dores, os medos, a violência dos homens. Em meu íntimo armava-se um circo, erguia-se uma tenda, formava-se uma imensa aldeia e, todas as civilizações habitavam-no. Gregos, romanos, vikings, maias, incas, astecas, normandos, egípcios, persas, aimorés, tupinambás, botocudos, o mundo inteiro se digladiava em mim. Caminhei por um tempo estranho à minha capacidade de compreensão das coisas e, me vi perdido em um imenso labirinto de imagens contorcidas da realidade. Não havia em mim nem uma faina de prosseguir. Retroceder era impossível, pois não havia caminho de volta, nem o fio de Ariadne a me conduzir. Segui às cegas em meio à multidão insana, desfraldei a espada e corri em direção ao sol. Senti um impulso, me joguei da ponte, voei. Voei alto. Braço erguido, espada em punho, pretendia apagar de vez aquele que usurpara da terra a condição de centro do universo. Decidido estava a destruí-lo, mas num golpe de mestre, fizera com que as asas que meu pai esculpira derretessem, e lançara-me no abismo. A morte não veio sobre mim, apenas destilou o veneno, inspirando-me todo tipo de desejos de vingança, um ódio expansivo inflamava-se no peito – gases que se misturam numa iminente explosão.

(...)

sábado, 1 de dezembro de 2012

flor de tempestade




suas palavras rasgam
as certezas que trago aqui
retumbam nas vísceras
desagregam meu sentido mais ego

essa lira fragmenta danos
nego meu querer mesmo que
as premissas teimem
em redundar no âmago

suas sementes crescem
feito praga esgueiram-se
nas frestas desavisadas
enraízam-se causando dor

desses desejos mui tardios
que sussurram, calado ouço
mas impune à minha súplica
continua a brotar em mim

é como flor de tempestade
desabrocha gentil
impera bela
sem se ater ao que me causa.