terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A garota da mesa em frente

Antes do texto desse mês, gostaria de fazer um jabá rápido. É que um espetáculo com texto meu vai passar por São Paulo depois de amanhã (17) e gostaria de convidar os colegas e leitores paulistas. O serviço é o seguinte:

"O quarto de Bianca" (Interferência Companhia Teatral)
de Rafael Cal
com Renata Egger

no Mundo Mundano (Rua Mourato Coelho, 25 - Pinheiros - São Paulo)
dia 17/01, quinta-feira
às 20 horas
informações: 2359-7444 ou contato@mundomundano.com.br

É isso, pessoal. Se puder contar com a presença de vocês, ficarei muito feliz.

Abraços a todos
Rafael Cal


E, agora, vamos ao texto!


A garota da mesa em frente
Escrito por Rafael Cal


Usava sandálias.
Mas não deveria, ele pensou.
Era um café. As mesas marrons ficavam na calçada, debaixo de um toldo verde. O céu era cinza e as paredes vermelhas.
Havia uma garota sentada na mesa em frente a dele. Vestido florido, ela rabiscava em um papel branco sobre a mesa. Não dava pra ver o que fazia exatamente.
Se estivesse preocupado com o tempo, não teria sentado do lado de fora. Parecia que ia chover. O ar estava pesado. Ou talvez fosse só uma impressão.
Ele, sentado, olhou ao lado do jornal que lia e pôde ver os pés dela sob a mesa. Desviou os olhos. Não deveria usar sandálias. Eram bonitas. Mas não deveria.
Ao desviar o olhar, pouso seus olhos sobre um casal, sentado na mais longe da porta do café. Contemplou o amor dos dois por alguns segundos. Depois, teve vontade de vomitar. Eram feios. Feios demais. E entrelaçados nas carícias românticas ficavam ainda mais feios. Desviou o olhar de novo.
Foram parar no toldo, onde se fixaram rapidamente. O toldo era verde, um verde meio ressecado. A existência dele, naquele momento, não exercia função alguma, visto que não havia sol. Olhou para o céu. O dia era escuro. Não de uma cor exatamente. Talvez chovesse. O dia tinha uma cara de chuva. O que, de certa forma, era bom. Quem sabe, assim, o toldo servisse. Ou talvez fosse só uma impressão. Sobre toldos ressecados, sóis e cores.
A garçonete passou por ele. Pensou em chamá-la. Mas não sabia como se dirigir. Mocinha, garçonete, atendente, querida. Vestia uma roupa branca. Um branco bastante encardido, na verdade. Esperava que ela olhasse e entendesse o desejo de ser atendido. Mas ela não olhou. O que também não era ruim, já que era bem feia. Não olhar pra ela certamente poupou-lhe a esperança em dias melhores.
E tentou voltar ao jornal. Mas não conseguiu. Muitas emoções, pensou.
Olhou, mais uma vez, pra garota da mesa em frente. E, como numa revelação, encarou-os.
Eram pés bonitos.
Inexplicavelmente bonitos. Pequenos, unhas feitas, pintadas de branco. Tão bonitos que o tornaram incapaz de se concentrar no jornal ou em qualquer outra coisa. Que tornaram todo o resto suportável.
O dia era tão feio.
O café era tão feio.
O toldo era tão feio.
O casal era tão feio.
A garçonete era tão feia.
E os pés daquela garota eram tão bonitos.
Entendeu que havia, na natureza, compensações. E se deu por satisfeito.

Nenhum comentário: