domingo, 15 de setembro de 2013

Sobre o entendimento ou Como encontrar um retorno



Estão no carro.
Ela está sentada no lugar do motorista, ele no banco do carona.

ELE: Tenho que ir.
ELA: Tem certeza?
ELE: Acho que a gente tá num ponto sem volta.

Ela desvia o olhar. Tenta se ajeitar, mas o banco não ajuda. Acha o retrovisor e permanece olhando fixamente por ele. Tenta ver alguma coisa que não consegue enxergar.

ELE: Você consegue ver pra onde a gente vai?
ELA: Não sei.
ELE: Pois é. Também não sei.
ELA: Não quero que acabe.
ELE: Nem eu. Mas acho que você não tá pra valer.
ELA: Como assim?
ELE: Acho que a gente podia ir adiante, mas não vejo você abrir mão de nada.
ELA: Como?
ELE: Desculpa, vou reformular. Acho que você podia abrir de algumas coisas.

Ela olha pra ele. Fala, bastante incisiva.

ELA: Mas eu já abro mão de muita coisa. Pode ter certeza.

Silêncio.

ELE: Não quis te ofender.
ELA: Sei que não.
ELE: Tô falando sério.
ELA: Eu sei.
ELE: Quero voltar.
ELA: Eu também.
ELE: Mas vai ter que ser diferente.
ELA: Eu sei.
ELE: Tudo. Completamente.
ELA: Completamente diferente é ódio. Não quero te odiar.
ELE: Sabe que eu não falei isso.
ELA: Você disse completamente diferente.
ELE: Eu sei. Mas você sabe o que quero dizer.

Ela não sabe. Não faz a mais vaga ideia. Pensa consigo o que seria diferente. Amar mais parece impossível. Mais dedicação, também. Não sabe o que ele quer dizer. Não sabe amar mais. Também não sabe amar menos.

ELE: Você entende o que quero te dizer?
ELA: Entendo.

Não, ela não entende.

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