terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não foi por causa dos churros

Lembrava apenas de um fim de tarde: enquanto ele fumava com os amigos, ela comia churros recheados com doce de leite no carrinho parado à porta do colégio.
Sabia que tinham se falado depois. Chegaram a conversar. Mas aquele momento ficou congelado.
O ano acabou. O colégio acabou. Passou no vestibular.
Fez uma engenharia qualquer, não tinha nenhum interesse. Foi trabalhar num lugar qualquer, não interessava onde. Queria ganhar muito dinheiro. Foi pra longe. Bem longe. Longe, num tempo antes de redes sociais, tempo em que só se conseguia vigiar as pessoas que viviam perto. Longe, ganhou muito dinheiro. Longe, também casou e teve filhos. Casou com uma mulher sem graça e teve filhos pelos quais não tinha o menor interesse. Não lembrava dos nomes deles, às vezes.
E foi essa vida de satisfações que viveu por 30 anos depois daquele fim de tarde. Sem esquecer aquela imagem: ela, churros, doce de leite, carrinho, um vendedor sem hábitos de higiene confiáveis.
Todos os dias, repetia mentalmente o nome dela ao abrir os olhos. Esperava ver aquela menina, já crescida, ao seu lado. Nunca aconteceu. Todos os dias, procurava, onde quer que estivesse, um lugar que vendesse churros, ou uma variação. Nunca encontrou a menina nesses lugares.
Depois de 30 anos, alguém teria a ideia de organizar um encontro. 30 anos era uma data importante. Ficou feliz. Muito. Mas também surgiu um leve desespero.
Ela teria casado, tido filhos, marido bonito e importante? Quem sabe? Ele não sabia. Tinha pesadelos: sonhava que o carrinho de churros descia desgovernado uma ladeira atrás dele, que fugia gritando. Era como ter uma mariposa no estômago. Pensava que ela não o reconheceria. Ou fingiria não reconhecer. Que não lembraria da história. Poderia ter ficado viciada em churros. Comido tanto que engordara. Tanto que nem poderia mais sair de casa. Elevadores não aguentariam. Quem sabe estivesse presa, naquele instante, num quarto de casa, sem poder sair porque não passava pela porta. Quando morresse, bombeiros altamente treinados teriam que quebrar a parede pra retirar seu cadáver. E perdia o controle diante das possibilidades que se apresentavam tão reais. Era uma pena ter parado de fumar.
Numa terça, voltando do trabalho pra casa, percebeu a mariposa no estômago agitada. O braço doía, a boca seca. Os olhos ficaram pesados. O entorno girou. Caiu. Em meio ao metrô lotado, em plena terça-feira. Um disse que era falta de ar; outro, que era o calor; um mais religioso, que era santo.
Enfarte. Não sobreviveria. No caminho pro hospital, sussurrou “churros”. O paramédico, que até gostava de churros, sorriu. Não foi por causa do churros, senhor, fique tranquilo.
O que o paramédico nem ele sabiam, é que nunca haveria a festa. Nem o reencontro. Nem houve a menina. Tampouco a obesa mórbida viciada em churros.
Houve muitas cenas de fim de tarde. E havia o cigarro. E havia os churros.

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