sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DOGMA

A argumentação é a arte da Arte, não há negociação, a transigência está excluída, o dogma é a natureza simbólica de tudo que se faz arte. O argumento parece uma brincadeira, sua melhor maneira. 
Fazer – Dezembro
(O) – Novembro
Caso – Outubro
Mistura – Setembro
Dogma – Agosto

quarta-feira, 28 de agosto de 2013


apanhei a roberto piva uma porosidade de edema alucinógeno
perdeu-se a compleição ingênua na leitura do poema
virei a chave que não pode estar aqui
meu berço de ouros, minha lua em escorpião
meu ego, trono de amor inflado
cárcere, caixinha de ovo de Arquimedes
não, a poesia não está comigo
a poesia não está comigo nunca
cotidianamente

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Peixe Morto

Houve tempo para ele perceber o quanto o ar era mais leve do que a água do aquário. E de rodopiar algumas vezes. 

Mas o chão se aproximando impediu maiores reflexões.

sábado, 24 de agosto de 2013

Poema em construção


1 (mote/motim)

ter o dedão destroçado pela máquina
ou o rabo do mouse arrebentando

ou pior
acender o último cigarro pelo lado errado

1 (mote/motim)

ter a mão destroçada pelo faca
ou o cabo do teclado arrebentando

ou pior
entrar em nóia pastando da bosta da vaca

2 (diga-me com quem andas)

não ter feito – na vida – nada de válido
ou sequer ter tentado

ou pior
ninguém para transviá-lo

2 (o mesmo adágio do anterior)

não ter feito – na vida – nada de errado
ou sequer ter tentado

ou pior
ninguém para alertá-lo

3 (pensando em um soneto de Bocage)

cagar nas calças de tato rir de um otário
ou só conhecer piadas sem graça

ou pior
ser você esse babaca

3 (idem)

Cagar nas calças de tanto rir de um babaca
ou só ter cagado em louças de privada

ou pior
ser você esse babaca

4 (uma citação de Marianne Morre para fechar)

“POESIA
Eu também não gosto lá muito dela: há coisas mais importantes
                         que toda essa charanga.
Lendo-a, todavia, com o mais perfeito desdém, a gente acaba
                         descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno”.

4 (uma citação de Marianne Moore/Augusto de Campos para fechar)

“POESIA
Eu também a abomino.
Lendo-a, porém, com total desdém, a gente des-
cobre ali, afinal, um lugar para o genuíno.”


* L. Rafael Nolli

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Prova de amor

imagem: Sofisofas

Então ele me disse, todo romântico:
"- Te amo tanto! Para te fazer feliz te daria um pedaço da lua..."
Como sou muito sincera, respondi:
"- Esquece esse negócio de lua! Quer provar seu amor? Me dá logo uma barra de chocolate!"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Encontro



Você me olha 
E não sabe os séculos que carrego 

Meus olhos negros e a pele cor de terra não disfarçam: 
em algum lugar das arábias surgiram meus antepassados 
Séculos depois, escolheram a península italiana para morada 
estabeleceram-se em Verona, ao norte, 
talvez fugindo de tiranos ou inimigos 

Passaram as gerações 
E veio o século 20 
com suas ditaduras, crises e a primeira guerra mundial 
Os navios europeus atravessam o oceano 
e para o novo mundo trazem os desesperados 
Aportam no litoral do Brasil 
Muitos seguem para o interior, a procura de um clima familiar. 
Minas recebeu vários, incluindo os meus 
A terra das montanhas promoveu o encontro entre avós e pais 
E, por fim, estou aqui, no coração do país 
Olhando seus olhos castanhos que também carregam histórias antigas 

Seu passado é ainda mais cigano 
e Deus teve algum trabalho para moldar-lhe o corpo e o espírito 
Minha Afrodite: 
Moçambique, Palestina, Itália, também viram seus antepassados 
até se encontrarem em Portugal 
No fim, talvez os mesmo navios que carregaram os meus também trouxeram os seus 
Quem saberá? 
Nossos antepassados podem ter sido parceiros nas cartas, nas danças e festas 
Quiçá tiveram pequenos namoros a bordo ou refletiam juntos sobre o futuro, 
fitando o mar até se despedirem no porto 

Os seus escolheram como morada Belém e São Luís 
e depois vieram como tantos para o cerrado de Brasília 
Finalmente nos encontramos aqui, nesse lugar improvável, 
porque nem sempre as belas histórias começam em belos cenários. 
Nessas horas, para que lembrar que carregamos a história da humanidade? 
Como todos, não somos filhos apenas de nossos pais 
Assim foi o caminhar até aqui 
E o brilho que está em ossos olhos, sinaliza: começa agora a nossa história.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Salgado

Fazia sol.
Tão forte, que ele mantinha os olhos ligeiramente fechados. Estava sentado em um banco no calçadão, em frente à praia, olhos fixos no mar.
Tranquilo.
Olhos no movimento das ondas. Ligeiramente fechados.
Pensou em Fernando Pessoa. Não porque fizesse sentido, mas porque achou que combinava. Quis declamar um poema dele. Mas não havia clima para. Também não conhecia nenhum de cor, o que impediria qualquer gesto.
Desviou, então, o olhar do mar, observando o que havia em volta.
Nada interessante.
Voltou e ficou pensando no tranquilo movimento ligeiramente fechado das ondas. E naquele eterno ir e vir.
Horas antes, ouvira muito sobre o ciclo da vida. Ir e vir. Começo e fim. Tranquilo. Que as coisas acabam. Que foi melhor. Que a única certeza da vida é.
Era clichê, mas, ao final de todo aquele discurso previamente idealizado, pôde sentir, de fato, o peso. Com a mão esquerda numa das alças.
Não tinha chovido. O sol forte. Desde cedo. Os olhares parados. Desde cedo. Não choveria. Não do lado de fora.
Olhou em volta de novo. Mas não encontrou ninguém. E pensou que peso não é só o resultado da ação da gravidade sobre os corpos. E pensou que pesava. E que talvez um gerúndio se adequasse melhor aquela sensação. E resolveu parar de pensar um pouco.
E respirar.
Mas não conseguiu. Angustiou-se um pouco. Havia um peso. Passou a mão no rosto e olhou pro mar. Procurando uma resposta. Tantas perguntas. Mas só uma, justo a sem resposta, era a única que interessava.
Durou alguns minutos. Talvez horas. Não saberia precisar.
Não houve resposta. Nem haveria.
Foi quando sentiu os olhos arderem um pouco e o gosto salgado da lágrima na boca. E, mesmo sem a resposta, pôde respirar.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Capacidade


Desde que o tempo é tempo, as pessoas desejam ter a capacidade de enxergar através das outras. Sensações, sentimentos e os mais profundos pensamentos. E a essa capacidade, deu-se o nome de compreensão.
Nos tempos atuais, caminhando pela rua, percebe-se que as pessoas têm a capacidade de enxergar através das outras; A essa capacidade, dá-se o nome de indiferença.

 

domingo, 11 de agosto de 2013

Passeio




Hoje eu acordei
acendi a luz
levantei da cama
lavei o rosto
abri a janela
varri o chão
movi os móveis
e saí

Hoje eu fui ao parque
andei descalço
fui no balanço
vi um esquilo
subi na árvore
desci correndo
fugi do guarda
e saí

Hoje eu comi doce
passei na doçaria
comi chocolate
tomei sorvete
comi torta
chupei bala
doeu a barriga
e saí

Hoje eu reencontrei
caminho esquecido
inspiração nova
sorriso amigo
sol aberto
céu azul
ganhei vida
e voltei


Joakim Antonio



Imagem:  Swing life away by powintroduction

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

ABERTURA

Do asfalto
fez-se um inferno à revelia:
desde antes, quando à partilha
faltou grande parte.
Quando a cidade inaugurou-se
com desníveis e arestas,
exclusão na argamassa
de cada muro
ou edifício,
contrários entre as ferragens.

A diferença abriu-se sem testemunhas.


[in "Asfalto", Selo Off Flip, 2010]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

interlúdio




sobre a cômoda
descansa um rosário
a sala está fresca
e os mensageiros ondulam
com o vento fraco

peço pouco da vida
não espero quase nada
o cigarro treme
entre os dedos
desaprendi de chorar

não há brilho na caduquice
nem silêncio nas bardanas
o gato com patas para o alto
sabe sorrir dormindo
queria aprender com ele.