sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cítrico


Chuveiro aberto. O barulho da água batendo no chão. Quente. Fumaça.
Ela numa espécie de transe. Lavou os cabelos. Não era possível ir além.
O cheiro do xampu dominava o ambiente. Cítrico. Misturado ao vapor da água quente, dava um certo barato. Riu daquilo. Mas parou subitamente.
Os olhos ardiam.
Não apenas eles. A boca, o nariz, a garganta. O peito.
A lembrança.
Os olhos ardiam mais e mais.
A água caindo não era suficiente para lavar. Não o que desejaria lavar. Não o que achava que deveria ser lavado. Precisava ir além. Mas não era possível ir. Ou lavar. Ou levar.
No chão, a água seguia para o ralo. Limpa. Ou era levada, não saberia responder. Sequer pensara sobre.
Pegou a embalagem de xampu.
No rosto, as narinas incharam mais uma vez com o cheiro cítrico do xampu. Fechou olhos. Como sempre fazia. Puxava o ar ao mesmo tempo em que fechava os olhos.
Como num ritual.
A água quente batendo na nuca, enquanto o vapor cítrico entrava pelas narinas. Lembrou dela. Do cheiro do cabelo. Do cheiro da roupa. Do cheiro da pele. Do cheiro dos dois juntos. Dos corpos. Dois corpos. Levados por si.
Era necessário lavar.
Encontrar a necessária limpeza.
Para o coração.
Sentia saudade. E o peitou ardia e a garganta ardia e o nariz ardia e a boca ardia e os olhos ardiam e se abriram.
E gritou.
Agachou sob a água. Caindo ainda sobre a nuca. Os olhos, ardidos, fechados. Tentou ser levado pela água. Mas não aconteceu. Tentou levantar. Também não.
E chorou um pouco.
Aproximou a embalagem vermelha que segurava do nariz. Inspirou com força. Era quente o vapor. Era preciso lavar.
Abriu os olhos. Vermelhos. Ardidos. Negros. Doces. E tristes.
Bebeu o xampu.

2 comentários:

Luciana Costa disse...

Eu nunca bebi o xampo rs mas já senti essa necessidade de ser lavada,da minha dor ser levada pelo ralo.

Lúcia Híbrida disse...

Acho que estou ficando amarga. Queria acreditar que possível ver um homem sofrer por uma mulher de forma tão organicamente ardida. Devo ter lidado com homens-rocha minha vida inteira, ou devo ter me perdido no próprio umbigo.Gostei muito.