quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Selfie

Esticou o braço, apontando o celular para o seu rosto. Olhou para o lado. Apertou a tela. Click.

Ergueu o celular, fez um biquinho, de leve. Apertou a tela. Click.

Mudou o celular de mão, balançou os cabelos e os jogou no rosto. Pôs a língua para fora, no canto da boca. Click.

Pôs óculos escuros no rosto. Click. Mordeu os lábios. Click. Fez carinha de “to chupando limão”. Click. Pôs um pirulito na boca. E click.

Visualizou as fotos na tela. Se curtiu. Aí, postou tudo no feicibuque. E esperou os outros curtirem.
Mas pouca gente se manifestou.


Ficou triste. Procurou uma frase de efeito para ilustrar sua tristeza. Achou uma da Clarice Lispector.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Pequenas doses de compreensão

imagem: mechtaniya

o que você faz em dias de chuva
em que a janela é uma tela em branco
pronta para receber seus sonhos?

não é em dias assim
que o ser se torna mais leve
e o querer faz as vezes do tato?

o que você faz
quando a pedra deixa de comprimir o peito
e enfim da lugar ao coração?

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cítrico


Chuveiro aberto. O barulho da água batendo no chão. Quente. Fumaça.
Ela numa espécie de transe. Lavou os cabelos. Não era possível ir além.
O cheiro do xampu dominava o ambiente. Cítrico. Misturado ao vapor da água quente, dava um certo barato. Riu daquilo. Mas parou subitamente.
Os olhos ardiam.
Não apenas eles. A boca, o nariz, a garganta. O peito.
A lembrança.
Os olhos ardiam mais e mais.
A água caindo não era suficiente para lavar. Não o que desejaria lavar. Não o que achava que deveria ser lavado. Precisava ir além. Mas não era possível ir. Ou lavar. Ou levar.
No chão, a água seguia para o ralo. Limpa. Ou era levada, não saberia responder. Sequer pensara sobre.
Pegou a embalagem de xampu.
No rosto, as narinas incharam mais uma vez com o cheiro cítrico do xampu. Fechou olhos. Como sempre fazia. Puxava o ar ao mesmo tempo em que fechava os olhos.
Como num ritual.
A água quente batendo na nuca, enquanto o vapor cítrico entrava pelas narinas. Lembrou dela. Do cheiro do cabelo. Do cheiro da roupa. Do cheiro da pele. Do cheiro dos dois juntos. Dos corpos. Dois corpos. Levados por si.
Era necessário lavar.
Encontrar a necessária limpeza.
Para o coração.
Sentia saudade. E o peitou ardia e a garganta ardia e o nariz ardia e a boca ardia e os olhos ardiam e se abriram.
E gritou.
Agachou sob a água. Caindo ainda sobre a nuca. Os olhos, ardidos, fechados. Tentou ser levado pela água. Mas não aconteceu. Tentou levantar. Também não.
E chorou um pouco.
Aproximou a embalagem vermelha que segurava do nariz. Inspirou com força. Era quente o vapor. Era preciso lavar.
Abriu os olhos. Vermelhos. Ardidos. Negros. Doces. E tristes.
Bebeu o xampu.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Toque de esperança




Cheguei aqui apressado
vindo de outro tempo
onde a calma era rainha
não me preocupavam
posts adicionar e curtidas
tudo era face a face real
virtual apenas meus sonhos
e mesmo assim todos eles
traziam em si a esperança
de um dia poder tocá-los

Joakim Antonio 



Imagem: Hope by blueshining

Contra o tempo

Explicou ao filho as coisas da vida e do tempo. Para facilitar, usou o relógio de exemplo:
- Aquele é o tempo, passando.
- Ele fica dando voltas?
- Nem sempre, às vezes passa correndo e nunca mais volta, por isso precisamos correr atrás do tempo.
No dia seguinte, após observar o relógio por horas, enquanto o pai corria de um lado para o outro, o garoto retrucou:
- Você disse que a gente tem que correr atrás do tempo; Mas ele tem uma perna bem maior que a outra, nem consegue correr. A gente é que tem que andar com mais calma, para não deixar ele para trás.


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Babilônia 2007*

Para não ver como gueto
esse bairro impróprio
esculpido na pedra
há que ouvir sua gente

e nas casas 
entender o sorriso
saborear a lágrima
beber do café
ou da coca-cola

subir o escadão
desintelectualizado
sem sociologias
e antropologias
mas com a alma aberta
a tudo o que entrar:
toda a humanidade
das pessoas simples
que penam 
mas também festejam
cozinham o feijão
criam os filhos
odeiam e amam como o resto de nós

estar lá
como um iniciado
nos mistérios do mundo
e enfim decifrar
outro de seus códigos:
favela sobre o morro
— algo como
a vida numa estante.


                   * Assistindo, em janeiro de 2007, ao documentário ‘Babilônia 2000’, de Eduardo Coutinho (1933-2014)

sábado, 1 de fevereiro de 2014


água




em sua boca
sou fluida
quase falida

em ventre
o gozo
quase parida

em lábios
essência
saliva