quinta-feira, 30 de outubro de 2014

QUARTO CRESCENTE

Outubro. O comércio não olha a meios, é oferecido aos amigos Feio e Bonito o jantar. Antes, juntam-se para fazer um duelo publicitário, festeja-se o quarto crescente.


domingo, 26 de outubro de 2014

Milagre eleitoral

Quando eu era criança, achava o feio, bonito: gostava de ver, nos dias das eleições, as ruas cheias de papéis, os santinhos dos candidatos. Chegava até a janela da minha casa e via aquele cenário, outrora tão familiar, agora salpicado de cores. Quase um carnaval e seus confetes.

Evidente que não era a sujeira o que me agradava. Era a situação em si. Para as crianças tudo que é atípico tem o frescor de uma descoberta. Aos meus olhos, dia de eleição era quando as ruas amanheciam enfeitadas.

E, curioso, eu ficava pensando: como as ruas ficavam daquele jeito? Na noite anterior à eleição, a cidade normal; amanhecia e era papel para todo lado. Quem fazia aquilo? Como era? Eu ficava imaginando - chegava meia-noite e a rua ficava lotada, candidatos com ternos e seus cabos-eleitorais com bonés e bandeiras, cuidadosamente deixando santinhos pelo chão, para convencer o eleitor descuidado que saísse de casa sem saber em quem votar.

Certa noite, já adolescente, eu voltava para casa na madrugada anterior a uma eleição. A chuva e os bares fechados por conta da Lei Seca me deixaram sóbreo o suficiente para ver o “fenômeno” acontecer. Vi carros parando em esquinas e seus ocupantes lançando a papelada para fora. Jogavam e aceleravam até a rua seguinte. Som de motor e rádio FM. Simples, direto e, o pior, sem glamour algum.

Claro, foi uma decepção, devastou as memórias imaginárias que perduravam da infância. Mas foi bom, em todo caso: aprendi que emporcalhar as vias públicas é feio, e o feio, ao menos nessa caso, não é bonito.

sábado, 25 de outubro de 2014

Paraíso

Foto: Tony Pérez



Não precisei ir
tão longe
para encontrar
o paraíso

Achei-o
no céu da tua boca

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Vila de São Jorge
















O coração já bate diferente quando começa a estrada de terra




São Jorge adoraria essa casa criada por guerreiros

que o adotaram como exemplo maior





Chão de terra

Paredes e mentes coloridas






Vila de São Jorge



Me deixa



tão




são 








Singela homenagem à Vila de São Jorge, porta de entrada do Parque da Chapada dos Veadeiros (Goiás)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Antes do fim chegar

Quando eu morrer, queimem meu corpo e coloquem as cinzas nos canteiros com plantas da casa em que cresci na aldeia. Antes, bebam, riam, lembrem das nossas histórias e toquem umas canções. Quem sabe alguma coisa do Paulinho da Viola, do Chico Buarque, da Legião Urbana, do Pearl Jam. Façam uma mistura grande, uma farofada mesmo, essa mistura toda que me formou.

Esse é meu desejo. Se puderem cumprir, que seja. Espero não dar muito trabalho. Se não puderem, entenderei também. Ou não, já que morto, em tese, não teria condições de relativizar a situação. Mas fiquem tranquilos, não atormentarei ninguém, juro.

Minha avó, por exemplo, sempre disse querer ser enterrada de pé. A morte, rápida, um mês entre a descoberta da doença e o fim, atrapalhou as coisas: ela não falou sobre isso, os filhos fingiram que esqueceram. No enterro, não havia meio de enfiar o caixão deitado na gaveta. Levou uns 40 minutos até que muitos homens, além do coveiro, esforçados, conseguissem resolver a situação. Parecia haver dedinhos invisíveis segurando. A gente até riu de tudo isso, como uma forma de aplacar a dor.

Tenho pensado na morte ultimamente. Mais que o normal. Ver tanta gente boa morrer, próxima e distante, mas conectada de alguma forma, faz isso. No fundo, depois de várias conexões possíveis, volto sempre à mesma questão: é estúpida a morte. E como é.

A mãe de dois amigos queridos foi atropelada por uma bicicleta lá na aldeia. Na rua de casa. É a cena da qual provavelmente riríamos. Como sempre fizemos, aliás, rindo das nossas desgraças, dos fracassos, das nossas tragédias pessoais, coletivas e individuais.

Só que dessa vez não teve graça. A estupidez dela, da morte, veio rasgando. E o atropelamento de bicicleta virou morte cerebral. Em horas, dias, quase uma semana, não sei e nem importa. Estúpida a forma, estúpida a morte.

Nunca sei o que pensar nesses momentos. Como a gente consola alguém diante de uma coisa assim?, o que a gente diz?, não sei, não sei. Acho que a gente só deve chorar, a única forma de expressão sincera desse sentimento esquisito que vem. E, claro, dizer que tá ali, por perto, e pras pessoas ficarem firmes.

Mas é maior que isso. Fico pensando em quantas vezes na vida, nos próximos anos, vou ter, teremos nós, que nos deparar com situações, se não iguais, parecidas. E como em todas as vezes que penso sobre isso, reforço a certeza de que não estou preparado pra lidar com a morte.

Nem sei se alguém está. Só que a gente perde as pessoas sem estar mesmo. A gente recebe o soco, empurra o soco de volta e tenta transformá-lo em lágrimas e lembranças. Às vezes, literatura ou música.

Um pouco por tudo isso, voltar à aldeia é sempre pensar em saudade. E só aumentará, penso, essa sensação. Porque as coisas seguem, a vida segue, as pessoas envelhecem e morrem. E nem sempre envelhecem antes de morrer.


A verdade é que escrevi tudo isso pra falar as coisas de sempre, que a gente tá cansado de saber, que dói, às vezes, que a perda é foda, sempre. Então desculpa os clichês que estiverem soltos pelo caminho, mas escrevi pra falar, porque a gente precisa falar, precisa colocar pra fora essa coisa meio angustiante que toma a gente quando alguém morre. Não importa se próxima ou distante, tenho aprendido isso a cada dia, a morte de alguém querido, pra nós ou pros nossos queridos, é sempre uma força quase inconsolável que esmaga tudo por dentro.

Outra verdade, desculpem, não era só uma, é que escrevi pra lhes pedir o impossível. Amigos e amigas, não morram. Não, por favor, não morram. Vamos fazer o seguinte: vivemos todos até os 100 anos e, depois disso, começamos a evaporar devagarzinho.

E, se por acaso não for possível mesmo, que a gente possa se encontrar mais antes do fim chegar, porque a gente não sabe nunca quando ele vem, e ouvir mais músicas juntos e rir mais de tudo, de todos, dos outros, de nós, dos riscos. Da vida. Fazer as coisas que sempre fizemos, uma farofada mesmo, como sempre, essa mistura, essas grandes misturas que nos formaram.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Zen Blues No Blues


onde
não é um lugar
é qualquer lugar
que não aqui
em qualquer momento
que não agora
where
is not a place
it’s anywhere
but here
any time
but now

...e de que cor são teus blues?

...and what color are your blues?
.

domingo, 12 de outubro de 2014

E por aí?


A vida por aqui anda meio conto, nada de poesia.
Mas, pelo menos, não está crônica.

sábado, 11 de outubro de 2014

Caboclos



Acordo com sede
de saberes antigos
mas cadê meu povo
suas danças e risos

Olho tudo em volta
eles não mais estão
leio em suas pegadas
que saíram sem direção

Sinto a presença
de um sábio índio
ele traça uma seta
apontando o destino

Sou um Pedra Preta
ele diz chorando
Agora somos um
diz me abraçando

Sumo desta terra
por alguns momentos
vejo todo meu povo
como seus tormentos

Quando abro os olhos
ponho-me a chorar
a pedra ficou comigo
e ele do lado de lá


Joakim Antonio



Imagem: People by Sasje by DAZ-3D

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Fuga

Sempre que sonhava com cobras constritoras bastava um salto, preciso, para escapar. 

Foi a mãe que o encontrou enforcado junto à cama.