domingo, 15 de março de 2015

A dança



Ela chega em casa; ele, esperando, sentado em frente à porta.

Que horas são?

Tinha saído. Sozinha.

Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.

Ele não quer saber as horas, só quer explodir. Não entende como ela pode estar feliz sem que ele esteja perto o tempo todo.
Ela não sabe das horas, não quer saber e nem quer saber dele, daquele jeito inquisidor, atrás dela. Foge, ou tenta, na verdade. Porque não tem sucesso.

Tava onde?
Dançando.

Ele está no limite. Vai atrás dela, num balé virulento pela sala do apartamento pequeno.

Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Ela também está no limite. Ou talvez além dele.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.

Uma pausa curta naquela dança mal ensaiada. E, após um pequeno respiro, a retomada do movimento.

Tava preocupado, a cidade desse jeito.

Ela não diz nada. Anda pela casa, tenta fugir dele: não consegue.
Está cansada. Da noite, da dança, do caminho de volta pra casa, das escadas pro quarto andar do prédio antigo, daquela conversa, dele. Dele, principalmente, dele.

Você nem pra dar um telefonema. A gente só vê desgraça na televisão. Fiquei muito preocupado. Você não pode fazer isso... Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.
Você não pode fazer isso.
Quem você acha que é? Você ficou louco?

Ele não sabe, ela não sabe, ninguém sabe, ou sabem, quando ele segura ela pelo braço e ela se solta irada.

Você não pode fazer isso comigo!
Olha bem, você não é meu dono. Eu não tenho que te dar satisfação dos meus passos. Eu te falo o que eu quiser. E quando eu achar que devo. E nunca mais me segura desse jeito.

Silêncio.

Onde você tava?

Recomeça a coreografia pela sala. Ele atrás dela; ela em fuga.

Dançando.
Com quem?
Com os meus amigos.
Que amigos?

Ele intercepta ela numa quebra de movimento.

Que amigos?
Os meus.
Eu conheço?
Não sei.
Quem são?
É bastante gente.
São amigos ou amigas?
São amigos e amigas.
Nomes.

Retomam, como se a orquestra retomasse junto o movimento daquela canção em forma de disputa.

Quem são?

Nada, não há resposta.

Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.

Não para, não param.

Que horas são?
Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.
Tava onde?
Dançando.
Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.

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