terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sobre pesos, desenhos infantis, prumo e o Natal


O fim do ano é, para alguns de nós, uma época pesada. Mais do que todos os compromissos, é o peso. Os pesos que acumulamos não apenas ao longo do ano, mas ao longo dos anos.

Não é o peso das contas, das noites de sono perdidas, do excesso de trabalho, do salário que poderia ser maior. Também não é sobre o mês de dezembro e a sua predisposição ao caos e ao desastre, com a confraternização da firma, o amigo-oculto dos amigos, o amigo-oculto da família, o amigo-oculto da turma de 1997, a festa de Natal, a festa de ano novo, as compras, o shopping lotado, as férias, o planejamento das férias. Não é nada disso.

Não é o peso do ano. É o peso dos anos. É o peso de quem foi, do que não foi, do que poderia ser, de quem deveria estar e não está. A virada do calendário traz a renovação e, com ela, vem a análise. Com a análise, as lembranças. O que nos leva ao tal peso.

É nesse ponto que está a origem daquele sentimento de tristeza diante do fim do ano. É disso que os que não estão por aí saltitando felizes como se fossem figurantes de um musical nessa época de festas falam.

Na verdade, não é bem tristeza. É uma melancolia que a gente sente pesando, ainda que nem sempre saiba explicar na hora. Não é ódio ao Natal ou ao Réveillon. Não é trauma por causa de um presente não recebido. Também não é o arroubo de rebeldia do jovem que resolveu desafiar as convenções sociais e não estar feliz nesta época do ano. Esse poderia discutir a concepção de Maria na mesa do jantar ou colocar uma camisa preta no dia 31.

O peso é outra coisa. É o peso legítimo da piada que não foi feita na mesa de jantar, na hora da ceia e que jamais será feita outra vez. Ao menos, não da mesma forma, com o mesmo tom. É o peso dos encontros que sempre parecem despedidas. É o sonho com o rosto que vai se apagando lentamente.

Como borrões. Sim, borrões na memória, no olhar perdido sentado na mesa imensa, ou minúscula, na rede pendurada na varanda no início da noite quente na casa da infância. Borrões das fotos apagadas pelo tempo. Ou pela umidade. Do papel manchado pela água, pelas gotas, derramada, derramadas, ou simplesmente a marca do copo suado.

O peso do fim do ano, das festas, é o peso das lembranças, coisas com as quais nem sempre é possível lidar. Ou sequer se quer lidar.

Acontece que peso pode ser também prumo. E as lembranças uma espécie de quilha sentimental, própria, original. Como pequenos desenhos feitos com as canetinhas do cérebro, como os desenhos infantis, meio tortos, com sóis sorridentes e árvores flutuantes.

E, como os desenhos infantis, são lindos em um contexto muito específico. Depois, viram um envelope guardado na prateleira, um volume que não deixa fechar a gaveta do armário. Um peso.

Até que um dia, sempre chega um dia, se vai, não há mais espaço pra ele. Ao menos, não para todos. E se salva um. Dois, três. Que vão para outros lugares, que são redistribuídos, reordenados, até redescobertos, reorganizados em meio ao caos, não só do ano.

Que possa ser assim com outros envelopes, pastas, com outros pesos. E talvez uma boa hora pra esse dia de faxina possa ser em dezembro.

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