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sábado, 10 de novembro de 2007

simples

E no fim das contas eu acho que não quero morar mais em lugar ninhum

Mas se ocês quisé

A gente podia ir morar tudo num balão

Daqueles grandão que leva 80 dias pra rodá mundo

E na noite de reveillon,

Nóis pode seguir o fuso-horário

Deixando a trilha de fogos trás da gente

Só pra passar um dia inteiro

Na meia-noite.

Toda manhã depois do café,

A gente esvazia no ar as migalha de pão

Só pra mudar a rota

Da migração dos pássaro.

E em dia de tempestade e de truvão

A gente fecha as lona da cesta

Que é pra chuva num entrá

E nóis acende uma lamparina

Que é pro povo lá embaixo

Achá que nosso balão já foi

de festa junina.

Em vez de lastro d´areia

Nóis pode usá purpurina

E fazê chuvê

as chuva mais bonita…

E se num tive nada mió

Pra gente fazê lá no céu

Nóis dobra um milhão

E duzentos

Passarim de papel.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

incerto

e que vidente irá abrir as entranhas de um peixe e ler, não o futuro, mas suas próprias vísceras?
e que astrólogo olhará para cima e enxergará, não deuses e feras, mas a perfeita cúpula azul que o guarda?
e que relojoeiro quebrará o relógio para consertar o próprio tempo?
e que cigana pisoteará os vidros de suas poções, sangrando os pés e se apaixonando pelo chão onde pisa?
e que cartomante virará as cartas cruelmente, sabendo que a sorte se decifra apenas nas costas de seu baralho?
e que quiromante, me vendo as linhas da palma, enxergará o fio rompido que era a criança que eu levava e que um dia,
no meio da praça,
soltou minha mão.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

cruzes

Estão tentando riscar a morte das nossas vidas. Já não existe os olhos nos olhos (ou no vazio) que brilham por dentro do capuz. Nossos bichos mortos vem esterilizados em bandejas de isopor nos supermercados. E compre saquinhos de AB à parte se quiser uma galinha a cabidela. Nossos parentes ignoram a chegada da morte atados em máquinas que respiram, mastigam, apitam por eles e quando a hora chegar serão encontrados com uma miríade de fios nos pulsos e ninguém para segurar sua mão. E eles morrem e não seremos nós a fechar seus olhos e só nos dignaremos a vê-los de novo depois de vestidos na sua melhor roupa de festa, penteados, perfumados e corados da maquiagem lindamente aplicada para nos fazer acreditar que estão apenas dormindo. Dormindo! Como se tivessem esquecido que iam a alguma festa e dormissem naquela posição estúpida e desconfortável em seu caixotinho de madeira rodeado por velas e flores pretensamente cerimoniais (mas preste atenção, menino, preste muita atenção) mas que estão lá simplesmente para esconder a verdade que é o cheiro do morto, a verdade que é que ele está frio e que fede.
Posto que restam poucos a transitar na necrópole minguante e paralela, médicos, assassinos, funenários, açougueiros e matadouros e vez ou outra alguma criança que com crueldade inocente observa o peixinho que se debate ou esmaga uma aranha entre o indicador e o dedão. E que podem seguir em frente com olhos grandes e sem piscar e sem jamais, sem jamais desviar o olhar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

in.quie.ta.ção

Me enlace
Me abrace
Enquanto ainda sou moça e
me torça o pescoço
(não precisa ser com força,
basta quebrar o osso)

não quero me ir de cansaço
nem quero me ir de doente
(de fígado, de rim, de baço)!
prefiro ir de repente.
não quero morrer numa cama,
sofrendo com a dor me fazendo calo
que seja de queda
de quebra
de tiro.

prefiro morrer de estalo
faz bem mais
o meu estilo.

quero um piscar pra morte breve
que não passe
do espaço de um soluço

pra mim tem morte certa.
não quero morrer na siesta,
prefiro morrer de susto.

terça-feira, 10 de julho de 2007

constatação.

Queda de prédio, câncer no rim, falha no freio, fraqueza, naufrágio, alfinete no mingau, picada de cobra, tropeção em fio de cobre, torradeira na piscina, leptospirose, alergia a amendoim, remédio errado, passo errado, múltipla falência de órgãos, comer mulher de cangaceiro, fome, cabeça no fogão, engasgamento com tubinho de asma, desligamento dos aparelhos, engolimento de dentadura durante o sono, definhamento lento, cirrose hepática, choque anafilático, parada cardíaca, piano na cabeça.




Hoje em dia, ninguém mais morre de amor.

domingo, 10 de junho de 2007

retrato em preto e branco

As paredes ainda têm gosto de cal. Se meus cabelos ficarem brancos, é que voltaram à cor original.
Falsas oferendas para falsos deuses. Pobres flores.
Pobre dela. A gangorra não sobe nem desce, está sempre em equilíbrio.
Naquela época lhe encantaria qualquer coisa que eu dissesse.
Naquela época, o sol subia, implacável, dotando a brancura de pequenas ilhas. Constelações nadando no creme das nossas peles. Melanoma basal.
“com esse maiô, você parece uma frutinha” mas o maiô era preto.
Minhas lembranças mais tenras usam bóias de braço. Bom que não se afogam.
Vovô nos levava ao parque da água preta. Eu pregava botões em panos brancos.
Tudo me parece agora
figurinhas autocolantes de fauna e flora
cartazes de cartolina e aquele livro das fadas, dos animais de nuvem e dos oito horizontes.
Eu ria toda vez que ouvia palavrão.
Ela se chamava marina e me achava linda. Um dia enjoei dela e disse que o passarinho de massinha representava nossa amizade, com a maior esperança de que o material frágil se desfigurasse. As unhas do pé do pai dela eram pretas.
Naquelas férias eu quebrei o braço num brinquedo do parquinho e não conseguia dividir as frações, não podia segurar a régua.
Não doeu. Tirar o gesso faz cosquinhas, o braço fino e empoado, todo maquiado pra receber mais uma vez a luz do dia.
Decepções maiores, só depois. Mas sem lágrimas.
Eu odeio chorar em público.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

De novo

Estou feliz,
Não nego.
Açucarei
Esse copo de mágoa
Que carrego

Vem,
Coisa boa,
De novo se embrenha
Nos cabelos-cinza
Calor requeimado
Da minha
máquina
de amor a lenha.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Farrah Falsett


Me dá um pouco de paz, eu te dou um pouco do meu desassossego
Nasci de uma mãe com mancha castanha no olho verde e esquerdo
E é por isso
Eu sou habitada por um cardume de criaturas cegas
Que comem morcegos

E é por isso que eu tenho tantos nomes
E nenhum deles é meu.

Cuidado com o nome que chama,

Você pode trazer os demônios à baila
E me diga
Você já
Dançou com o demônio
À luz do luar
?

Porque às vezes eu sou ciano
E às vezes, cianureto
E às vezes eu sou pinóquio
E às vezes, gepeto

Porque às vezes eu sou nuvem de inverno e às vezes
eu sou o demônio de mãos pequenas
e caninos vermelhos.

Cuidado com o nome pelo qual me chama
Não convide os monstros pra montar
Cidades de lego


Porquê às vezes eu sou bambuzal
e às vezes,
sou prego.

E Cuidado com o modo que me chama

porque

Enquanto Samantha canta

Enquanto Eduarda guarda

Enquanto Sônia sonha,

Clara pára
Rita grita
Emma toma.

***
grandes olás a todos os colegas manufatureiros :)