quinta-feira, 31 de maio de 2007
Dicas de maio - Como adicionar um "feed" no orkut
1) Entre no site do orkut e logue com a sua conta Google.
2) Na página inicial do ser perfil tem um item "Editar Feeds" na barra a esquerda, clique nele.
3) Ele já te fornece lista os blogs que você é membro do Blogger para você adicionar automaticamente, a outra forma é entrar com a URL base do "feed" como, nesse exemplo, o do blog Manufatura é: http://manufatura.blogspot.com/feeds/posts/default e clique em "Adicionar".
4) Pronto.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Convidado: Antônio Alves
A Larissa Marques
Ao notá-lo inconsciente percebi que era meu inimigo. Este é o momento ideal para alguém tramar algo, de olhos fechados, sobre a cama, de bruços. Retiro o lençol de meu corpo meio zonza, colocando as mãos na cabeça na esperança inútil da dor súbita passar; por um milagre a dor passa e levanto-me sem sobressaltos acendendo o abajur que um outro me dera no Natal em troca dos bons serviços. A luz avermelhada ofusca os olhos como num flash estranho. De imediato a apago na preferência feliz das trevas de minha caverna; acendo novamente e o incômodo vai embora no limiar da noite escura, como num estalo da divina providência. Está lá, de bruços, no ardor de um fingimento, arquitetando meios de me destruir, montando quebra-cabeças, estratagemas sombrios.
Caminho disfarçando-lhe importância, de um lado para o outro, depois até à janela. Admiro a Lua, sempre lá, em órbita. Penso no anti-romantismo de quem veio a esta espelunca e dorme pesado, articulando planos, depois de sugar minha alma em movimentos compassados e torpes; certamente não contemplou uma lua boiando no céu iluminando os corações ternos dos jovens e dos poetas. Na cidade veloz os automóveis flutuam alucinados cheios de motoristas desenluados levando mulheres de minissaia e maquiagem forte para lugares escuros e baldios.
Penso em Carlos, num ímpeto, a fazer versos de rimas previsíveis mas que de certa forma me acariciava o coração, talvez eu quisesse mais que carícias, talvez eu quisesse ser mesmo destruída, trespassada. Às vezes na solidão sinto saudade dele, de sua mão branca e sem pelos a tocar meu rosto como quem nada quer. Eu queria o que Carlos não podia dar. Ainda tenho a caixinha de sonetos guardada a sete chaves e de quando em vez algumas lágrimas caem depois de uma relida enfática. Que destino cruel teve Carlos. Aquele agosto jamais será esquecido.
Parece que o homem deitado quer acabar com a mentira e abrir os olhos de vez. Não, está quieto, ainda de bruços, pálpebras fechadas. Desejaria que ele declamasse algo de Byron, mas o seu braço forte e encardido de operário e falhas em sete dentes eram indícios de sua ignorância para com o lorde. Ah, Byron seria perfeito demais! Seria um Carlos operário, e Carlos era tão-somente Carlos, um funcionário de repartição pública, sem mais. Lembro-me do seu choro quando parti. As cartas com versos apaixonados que recebi depois pareciam mais esfuziantes e os poemas mais organizados, era como se ele tivesse adaptado a felicidade dele à minha distância e isso, de certa forma, não nego, me fazia mal, pois eu era um joguete na sua escrita romântica e ardilosa. Quem sabe eu fosse a musa inatingível. Decidi encontrá-lo, já era tarde. Aparecera morto, com uma bala alojada no crânio. Carlos só me ofertava amor e lua e nada mais.
Teve um dia em que fomos quase felizes, quando saímos correndo pela colina como bobos e deitamos com a face para o céu até o cair da noite, contando as estrelas, sem tocar palavra. E depois até o amanhecer. Abraçamo-nos por um bom tempo, nos beijamos enamorados e nos conhecemos pela primeira e única vez. Carlos sabia escrever o amor, não consumá-lo. E assim ficamos até o dia da escolha.
A noite está vazia, sem estrelas. Da janela do oitavo andar no centro da cidade a vidraça me protege. Deito-me na cama escorando a cabeça no cotovelo direito e deixo deslizar a mão esquerda sobre o corpo do inimigo. Cabelos, dorso, nádegas, panturrilha e pé. Eis uma combinação de luxúria se não fosse minha conduta sacrossanta. Fecho os olhos e penso em Carlos e na sua voz de veludo. Sussurro nos ouvidos do outro “eu te amo, Carlos”. Por sua vez, o homem se revira sobressaltado e me diz nomes feios, impronunciáveis. Toca-me como objeto, traslada meu corpo e me ama a seu modo.
Depois de feito, o homem se veste resmungando alguma coisa vil e bate no meu rosto com pequena força, sorri, deixa um trocado no criado-mudo e sai vencedor da grande guerra, mal sabendo da traição que sofrera, pois Carlos está sempre aqui, dentro de mim, suspirando poesia a cada punhalada do inimigo, possuindo-me verso a verso, rima a rima, numa métrica perfeita, sonetamente.
Um outro entra pela porta e sei que vou amar Carlos mais uma vez.
Antônio Alves é escritor, contista, amante da arte e da loucura. Apreciador da filosofia, em especial a existencialista. Traz seu estilo inconformado e combatente em sua escrita. Faz parte da SPV (Sociedade dos Poetas Vivos de Goianésia), um grupo que tive o prazer de conhecer pessoalmente, tratam da literatura na prática, em debates construtivos e contestadores.
Poderá conhecer mais de Antônio Alves:
http://daliteratura.zip.net/
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Convidada: Lena Casas novas
Tristemente,
Pegadas grudam
No solo,
O calor te ruiu
Gravemente,
Agora,
Tenta alcançar
Teu pólo.
Não há tempo
Para despir,
Varal inundado,
Vestes a cair.
O vento Intrigante,
Tirou
O arco-íris do ar;
Sei...
Estás ferida,
A poluição
Estonteante,
Sepultou
Um pedaço do mar;
Agora,
Tenta perturbar
Tua vida.
Lena Casas Novas
Conheci Lena no Bar do escritor, traz uma poesia cadenciada e bem construída, por vezes parece uma escrita branda, mas não é. Tem força e ideologia nos versos, uma forte representante da poesia feminina. Uma linda descoberta. Encontrará mais do trabalho de Lena no:
domingo, 27 de maio de 2007
Convidado: Marcos Cortês
Foto 3x4
Sorria
Te Amo.
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Foto três por quatro (por extenso)
Foto três por quatro
cinco a seis minutos
Me esqueço no sétimo
enquanto vejo sua cintura
de oitavos.
Eles falam de amor
e eu sinto ideologias.
E dentro do teu fato
eu recito poesias.
Eles falam de amor
eu ignoro abreviações
e pormenores.
Sorria, e te amo.
Te desamo na foto de corpo inteiro.
--
O Planeta Desconhecido (Marcos Cortês)
Marcos é "carioca da clara", vive fora da praia. Preferia os livros, onde encontrava conhecimento sobre tudo, até que descobriu que apesar degrandes, livros não possuem motivos. Então, como que por acaso, caiuno mundo de fantasia, para escapar da fantasia deste mundo. Espera o tempo, investiga o outro, não canta as moças, mas dança com bailarinas. Mas sempre analista. Um analista destrinchador de (falsos) cognatos poéticos. E cético, acima de tudo, cético. Seu blog http://poetaalgum.blogspot.com/.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Convidado: Aluisio Martins
ABRAÇO PERFEITONão há rasuras nesse amor tão vívido
Não há fissuras dado que vivo ávido
Quem saberá das idas, dos meios e dos fins?
Lembro do nosso quero bis
Nós vestidos de querubins no bosque das letras
Minhocas enrroscadas nas raizes dos desejos
Sequestrando muito além de carbonos e outros venenos
Dos orvalhos que desciam das tuas palavras noturnas
Verti todos os líquidos
Gota por gota
Minhas lágrimas
Vivo entre espinhos que esgrimam
com a felicidade de existirmos uma vez mais
Aluisio Martins é cronista, ficcionista, poeta, nascido em 1967, em Fortaleza, Ceará, profissional na área de desenvolvimento e gestão de projetos voltados para a cultura e desenvolvimento social e edição de livros.
Sua poesia assim como sua prosa informal, intimista, provocadora e ao mesmo tempo encantadora e sedutora e promovendo uma explosão de temas, cores, sensações, que transita do choro ao riso, do prazer ao ranço, do inferno ao paraíso num só verso. Consegue muitas vezes em apenas um texto despertar amores, ternuras e rancores adormecidos, e nos convida não só a reflexão, mas também à ação.
Aluisio tem um ritmo próprio, é uma metralhadora de metonímias, aliterações, metáforas, alegorias, e consegue instigar nossos sentidos a sensações extremas.
Encontre mais de Aluisio Martins em:
http://fenosefenotipos.zip.net/
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Convidado: Rafael Oliveira

Oh que carros bonitos
Quantos carros bonitos
E nóis andando a pé
Oh que casas gigantes
são maiores do que antes
E nóis pagando aluguel
Oh que mesa tão farta
Mesa grande e farta
E com muitos ricos homens
Oh que vida ingrata
Ao ver pobres na lata de lixo
com fome.
Rafael Oliveira é escritor, de Uberlândia-MG, ou se preferirem, do Triângulo mineiro. Coordena um projeto bem parecido com o "bagaceira", chamado Projeto "3 Poemas", que é uma das ações do movimento literário " Literatura Já", o projeto consiste na distribuição gratuita de livretos contendo 3(três) poemas de autoria do escritor Rafael Oliveira, um texto sobre “Literatura Marginal” e uma breve biografia do autor.
Se quiser saber mais sobre Rafael ou sobre seus projetos, clique:
http://rafaelolliveira.blogspot.com/
quarta-feira, 23 de maio de 2007
CONVITE

Deita tua voz em meus ouvidos
ferindo a castidade que me faz dormir tão cedo.
Preciso das pontas dos teus dedos
para que a insônia crave em mim as suas unhas
e eu te guarde, enluarado, entre os meus segredos.
Desenrola teu desejo sobre a minha pele nua
para que a minha boca beba na tua,
esse hálito de flor
e provoque uma súbita troca de posições
onde meus cachos pendam frouxos sobre o teu rubor.
(Para que eu me despeça da maldade
do querer entardecido de ausências,
deita tua fome em nossas pendências.)
E deixa que o dia brote do horizonte
como se fosse do mais íntimo da gente:
adormeceremos ensolarados e castos
como o poente.
*
*
*
Marla de Queiroz
terça-feira, 22 de maio de 2007
A busca pela epidemia
Os heróis, que do passado definiam nossas vidas dizendo quem éramos, foram assassinados e enterrados pela razão. A razão, apaixonada pela crença em seu próprio poder, projetou no futuro científico o sonho de um mundo de progresso e desenvolvimento; jogamos a mitologia para o lado e miramos, com nossos olhares positivistas e admirados, o porvir utópico.
O tempo, como era de se esperar, passou e trouxe a decepção. Decepção de vermos que nossa política não acompanhava nossa ciência, que nosso egoísmo continuava tão brutal como nos tempos obscuros. A tecnologia não trouxe menos carga de trabalho, mas sim desemprego. A otimização dos meios de produção não acabou com a desigualdade, mas criou novos faraós. Nasceram impérios com base no suor e na fome da mão-de-obra vinda do campo e recém-transformada
O sistema enfraqueceu a possibilidade de revolta, não com a mão pesada da ditadura, mas com a sedução do consumo. O ter, muito facilmente, substituiu o ser. O parecer se apropriou do todo; da morte da alma brotou o simulacro.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
The Postmodern Condition
Talvez esteja ai a simbiose do existir em contrapartida com o inexistente, porém, nesse caso a água existe, então depois de ser sugada ao menos aquele líquido específico – isso porque estamos tratando do meu copo -, deixou de existir, ou evaporou-se? Podemos fracionar tudo em regras cuja solução seja a coerência do óbvio, para não usar termo pejorativo.
Para tudo temos frases que nos traz essa concepção fechada - Bom, nunca me canso de repetir a frase ‘a morte faz parte da vida’, porém mesmo ora tendo consciência disso os fatos nos pegam de surpresa e não encontramos saída para aquilo que parecia, podia e, possa ser tão óbvio, tão objetivo.
Mas penso que as coisas são assim propositalmente. Pois acredito que é preciso que estejamos presos para não sairmos no momento em que não podemos sair – um canal hídrico? Infância? Relacionamento? Leis? -, sei lá se isso se trata de destino. Hoje desacredito e acredito em tudo, até em mim mesmo.
Imaginemos a contenção numa escala perpendicular, ou seja, uma realidade que num determinado momento será surreal, senão, impalpável, mas que logo se encontrará para o tocante ao fato de existir, ou seja, formar uma realidade coesa.
Posso simplificar a vida do Pedro e da Carola, o Pedro gosta da Carola, mas ele vive em Guarulhos, trabalha em uma adega como recepcionista, é poliglota – estamos falando de francês, espanhol, italiano e inglês -, está cursando engenharia química em uma universidade federal e ainda não tem dinheiro para aquisição de seu carro próprio, apesar dos seus sete anos dedicados a carreira profissional, três a universidade, o que subtrairíamos nove anos dos seus 28 completos no dia 28 de janeiro deste ano.
Já a Carola tem 26, fala inglês e está cursando espanhol, com muita dificuldade, não porque ela não tenha condições para pagar o curso, mas é que não consegue habituar-se com a pronúncia verbal da América Latina. Ela está terminando o curso de assistência social e pretende cursar relações públicas, por isso dedica mais de 1/3 do seu salário de recepcionista de call center à cursos de línguas. Tem cabelos negros, lisos sob altura do ombro, pele clara e olhos castanhos. Aprendeu a bordar aos sete anos, apenas observando sua mãe bordando no sofá. Numa determinada época colocou na cabeça que queria se casar, e que isso aconteceria logo, tratou de organizar e bordar o enxoval aos 15 anos de idade com a ajuda das tias Helena e Erondina, senhouras rondonienses típicas da região rural.
Carola nunca saiu do seu Estado, conheceu Pedro na Internet, através de uma sala de bate-papo no portal da UOL, se identificaram pelos nicks, ela adorava Kid Abelha – isso há seis anos -, e ele de comida doce, seus respectivos nomes eram: Mel e Pintura Íntima. O assunto rendeu: aparências, sexo, drogas, sexo, idade, sexo outra vez, sexo, sexo, sexo, métodos contraceptivos, sexo, desejos, dinheiro, mentiras na Internet, música, rock, Kid Abelha, flan de chocolate, sexo, mel com aveia, sexo, mel sobre o corpo e sexo. Depois decidiram falar sobre o futuro, e já se imaginaram casados, mas ele precisava vê-la, ao menos em foto mesmo sem o rosto. As pernas e bumbum eram contemplativos. Ela não precisava disso, o discurso dele fez com que ela idealizasse a vida e a morte em menos de vinte minutos.
“Eu estou aqui há quilômetros de você, e se não fosse um desses fatos inusitados não estaríamos tão saudosos um pelo outro, certo?” Errado! O Adalberto tem a melhor das intenções e está a oito metros da casa dela.
“Te desejo tudo de bom, ótima percepção do mundo, coerência, amabilidade, emoções a flor da pele e muita atitude, contradições, paradoxos, e comedimento, porque de certa forma isso pode não ser a vida, no entanto, é o que nos faz senti-la”. Por que as mulheres têm que ser tão densas, se o que é bom de viver é curtir as coisas sem contextualização? (...) Alguns passam por muito em curto tempo, outros levam anos para viver um único fato. A liberdade, por exemplo, vive correndo atrás de mim, e eu vivo correndo contra ela por estar preso em conceitos pragmáticos e dualistas talvez, não tenho respostas.
domingo, 20 de maio de 2007
Coexistência
Todo mundo invejava o casamento de Adriano e Júlia. Ah, mas que fique bem claro: uma inveja saudável – se é que isso existe. Os dois viviam sempre juntinhos, trocando juras de amor e sorrisos cúmplices.
Enquanto isso, nos bastidores da relação...
- Há algum problema? Há algo de errado nesse texto? Por que você insiste em me boicotar? Não consigo entender as suas recusas...
- Eu te entendo, dizia Júlia.
- Pára de lixar essas unhas e olha para mim. Fala comigo, Júlia.
Júlia franziu a testa, passou a lixa no canto da unha do dedo indicador pela última vez, pegou um chumaço de algodão cuidadosamente, com as pontas dos dedos. Na outra mão pegou um frasco de acetona, molhou o algodão, e, enquanto fazia um bico com os lábios, como se fosse beijar alguém, esfregava o algodão nas unhas, assoprou-as ainda úmidas e olhou para todos os dedos das mãos, como se estivesse dizendo a si mesma, “é linda a minha mão”. Levantou-se, colocou o frasco de acetona em cima da escrivaninha, e saiu. Estava de roupão, gostava de andar de roupão pela casa, pés no chão, e um cheiro de quem acabou de sair do banho. Um perfume suave que aliado aos seus movimentos vagarosos e despreocupados pareciam agredir o ambiente hostil.
Adriano amava o que escrevia. Adriano pensava mais do que escrevia. Adriano teorizava o que escrevia. Adriano odiava se não lessem o que ele escrevia. Adriano queria absorver Júlia. Adriano queria que ambos fossem um, não aquele um metafórico que simboliza união. Ele queria domínio. Adriano não queria ser ela, mas queria que ela o compreendesse em todas as ocasiões. Com o passar do tempo Julia descobriu que a resposta mais apropriada para as indagações de Adriano era, “eu te entendo”.
- Sabe, andei pensando em nós dois. Nos últimos tempos tenho estado muito preocupado com o próximo livro. Precisa compreender que depois daquela resenha, na Folha, sobre o meu último livro, tenho a minha grande chance. Preciso me superar no novo livro. Pela primeira vez um crítico literário conseguiu vislumbrar a magnitude dos meus escritos. Mas, para que eu possa ter sucesso nesse trabalho, você precisa colaborar, somos um. Você é minha inspiração.
Essas palavras foram proferidas no banheiro, Júlia tomava banho enquanto Adriano, sentado na tampa do vaso sanitário, proferia seu discurso. Há muito tempo Júlia aprendera viver em silêncio. A cantar em silêncio, a pensar em silêncio. E, silenciosamente, cantava uma música. Adriano proferindo seu discurso e Júlia imaginando notas musicais, violinos, um coral de vozes... O banho estava prazeroso, a água quente, as suas idéias distante da frieza que habitava o lado de fora do box. Adriano desistiu de falar. A última palavra que Júlia ouviu foi, “dormir”. Sentiu-se aliviada ao ouvir aquilo. Saiu do banho, passou creme por todo o corpo, fitava o seu corpo no espelho quando percebeu a banheira refletida logo atrás de si, deu um sorriso ao lembrar que foram poucas às vezes que usaram aquela banheira.
Chegou no quarto, Adriano escrevia obstinado. Agora, ela já percebia uma alegria no seu olhar, percebia que ele tinha encontrado o ponto certo de sua narrativa. E quando ele se percebeu sendo admirado, ficou sem jeito.
- Júlia, agora vai! Já tenho tudo o que preciso aqui.
Júlia se recostou no sofá-cama do quarto, ali mesmo perto da escrivaninha, cantarolou uma música em silêncio para não atrapalhar o marido, e adormeceu. Não era submissa, tampouco era feminista, não era infeliz por viver em silêncio. Ela também xingava em silêncio, brigava em silêncio...
Júlia era toda nulidade, negação de si, pura abnegação, só nunca concordou em ler os textos de Adriano, não gostava de literatura. Nunca discriminou o marido por ser escritor, nunca fez nenhuma cobrança, sempre o apoiou e, de certa forma, se sentia orgulhosa com o sucesso do marido. Mas, Adriano queria ouvir críticas, opiniões, sugestões... E Júlia oferecia silêncio.
Um dia Júlia foi embora em silêncio. Não deixou carta, não deixou telefone e endereço. Adriano está escrevendo um romance, iniciou o segundo capítulo, mas busca inspiração para prosseguir escrevendo depois da frase “eu te entendo”.
sábado, 19 de maio de 2007
O submundo
Vivo no submundoDentro de um mundo
Que não me entende
Sinto a minha hipocrisia
No seu mundo
E dos percalços surgidos no meu submundo
Vivo no meu mundo
Na busca da minha sobrevivência
No encontro da minha identidade
Perdida entre os mundos
Que não me entendem
Vivo no mundo
Escondido entre as máscaras
Em um submundo
Que só ele me entende
sexta-feira, 18 de maio de 2007
O Amor e a Ética
O ambiente universitário era diferente daquele ao qual se acostumara. Desde que enviuvara, era um homem bem diferente. Com poucos amigos, nenhum vício, o excêntrico horário de se recolher, impreterivelmente às oito e meia da noite, fizera dele um recluso, uma espécie de asceta literário que preenchia seu tempo entre livros e aulas. Não que fosse um tipo ancião, pragmático. Beirava aos cinqüenta, mas ainda era bem apessoado e demonstrava no máximo uns trinta e oito. Seu modo de vida inspirava diferentes reações, que iam da admiração ao escárnio.
Mas as últimas semanas estavam tornando o campus pequeno para ele. Como professor de segundo grau, sempre soubera tratar com as platônicas paixões devotadas a ele pelas alunas, todas adolescentes, que embora no geral fossem na sua maioria belas, ainda não haviam deixado de lado alguns traços característicos da infância. Conversava pausadamente, explicando que era velho demais, que ainda encontrariam um jovem de bom coração que lhe devotaria o mesmo apreço e por aí ia. Isso bastou em noventa e nove por cento dos casos. O que ele não contava, era encontrar o número que faltava para fechar a porcentagem na faculdade.
Amanda era uma morena trigueira, de belos olhos e de um corpo digno de um desenho de Rembrandt. Logo na aula inaugural, ele sentiu-se novamente fuzilado por aquele olhar castanho, profundo e inquietante: agora ela não tinha mais aquele ar de menina-moça, havia se tornado uma mulher extremamente atraente e sensual. E o pior, é que ela sabia muito bem disso e tirava partido da situação. Não foi difícil reconhecer a caligrafia do cêdêefe da sala no primeiro trabalho dela. Sabia muito bem como convencer um homem. As perguntas que ela lhe lançava durante as explicações, os questionamentos no final das aulas, em um tremendo esforço para ficar a sós com ele, o retrucar lânguido do aperto de mão, tudo aquilo tinha o seu quinhão de tentação.
Ele se apoiava na ética própria de nunca se envolver com alunas. Muito embora não tivesse um relacionamento sério desde a morte da esposa. Casou-se com a primeira namorada, quatro anos de vida a dois, muitas recordações, nenhum filho, uma morte trágica: o amor nunca fora realmente um terreno fértil para Arnaldo. Já era agradecido pelo que havia vivido, mexer novamente nas placas que soldavam seu coração não teria sentido, podia abrir alguma ferida antiga. Vivia quase só e isso lhe bastava. O quase era personificado na figura de Antenora, misto de empregada e conselheira, que há quinze anos era quem cuidava de sua residência.
E era justamente por todo este conhecimento da sua governanta, é que o Prof. Biroswki não acreditou quando ela disse que alguém o esperava no salão. Ele estava como sempre, na imensa biblioteca herdada dos seus ancestrais, lendo ou relendo algum volume de certo interesse e ouvindo Caruso, no caso Ridi Pagliaci. Ficou um tempo absorto, pensando no inesperado da visita, mas como o recado teve como ênfase a palavra urgente, mandou que trouxesse quem o esperava.
Era Amanda, como ele imaginava. Chegou a admirar a audácia dela. Ao serem deixados a sós, a moça não perdeu tempo em dizer seu intento. Nem precisava.
Atravessou a espaçosa sala, dirigindo-se entre a mobília ricamente trabalhada, ornada com peças de alto valor histórico e venal, detendo-se diante dele.
Usava uma espécie de capa de couro, do tipo que se usa em dia de chuva, mesmo estando em pleno verão. Estacou a centímetros do rosto dele, puxou levemente a cinta que cingia sua vestimenta, abrindo-a por inteiro. Não usava nada por baixo e exibiu todo esplendor daquele corpo macio que convidava ao pecado. Com um movimento rápido, jogou a capa ao chão.
- Dá-me um bom motivo para não tomar tudo isto só para você.
A voz dela era imperiosa, o olhar faiscava vontades e demonstrava toda a determinação de uma mulher em querer algo, ou alguém. Arnaldo olhava estático, desta vez fora pego de surpresa e que surpresa. Suas conhecidas e elogiadas capacidades intelectuais nada poderiam fazer para ajudá-lo no momento, não sabia que decisão tomar por instantes. Atingido como que por um raio, dirigiu-se para a larga porta. Abriu uma das partes e gritou pela governanta. Agora era Amanda quem não sabia o que fazer: a chegada da empregada, que vinha se desculpando com o patrão foi recebida com um potente e demorado beijo de língua, daqueles que se vê no cinema, mas com uma força maior. Parecia um beijo que demorara muito para acontecer.
Sentindo-se novamente a garota do ginásio que fora preterida pelo mesmo professor, Amanda abaixou-se, pegou suas roupas e saiu cabisbaixa. O beijo ainda continuava. Não precisava de outra explicação.
O sair da visitante, bastou para acabar com a magia do ósculo. Antenora estava vermelha como um pimentão e olhava atônita para o professor. Este, tremendamente perturbado, girou nos calcanhares e foi para o nunca freqüentado barzinho que inutilmente preenchia um dos cantos da ante-sala. Serviu-se de uma dose avantajada de whisky e bebeu de um só gole, como um inveterado bebedor. Suas idéias estavam muito mais que confusas. Começou a se lembrar da fisionomia da garota em todas as aulas, o olhar apaixonado, a decisão quase suicida de encontrá-lo ali, com a paixão aflorando por todos os poros. Sentiu-se um canalha por não haver ao menos conversado com ela, tentar explicar algo que ele agora sabia que não era verdade. Ela mexia com ele, que, por conta de sua ética arcaica, não se arriscara a aventurar-se. Voltou à biblioteca, para se desculpar com sua funcionária.
Ao adentrar o vasto salão, deparou-se com Antenora nua em pêlo, parada com os braços abertos em convite. Olhou a diferença daquele corpo com mais anos que ele próprio, os seios arfando, o sorriso banguela, pois a dentadura fora arrancada pela força do beijo:
- Ah, meu amor, há treze anos espero este momento!
Disparou porta afora, pegando o celular jogado na mesa.
- Alô, aqui quem fala é o Professor Biroswki, preciso imediatamente do telefone de uma aluna. O nome? Amanda. Amanda Gouveia...
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Farfalla - Parte Final.
Com água correndo por entre pedras... Algumas flores colorindo a paisagem (brincando de florescer) e muitas árvores de caules largos, os quais meus braços (sozinhos) não conseguem abraçar.
No topo de uma montanha, da altura do meu sonho, um solitário chalé com varanda e um olhar enigmático que percorre a extensão da paisagem que alterna sol e chuva, numa composição tão lenta que a alma parece sair de um sopro da palma das mãos de um fio condutor...
“Então, surge um pensamento: Um dia... Lá será um lugar para se chamar de lar!”
E num aceno silencioso de pequenos dedos ligeiros, lanço o sorriso menina ao ar e me apresso em passos rápidos e faceiros... Rumo a paisagem... Rumo ao horizonte que sempre foge porque nunca sou rápida o bastante...
E roda a ciranda da vida... As flores murcham em seus galhos e as folhas se desprendem... Parecem que ganham asas, mas não, o vento as socorre e sepulta uma a uma no mesmo chão que agarra meus pés para que eu não encontre o azul dos olhos meus...
Aos poucos, meus passos abraçam uma lentidão... Se demoram e o meu sorriso? Foge para os bicos dos muitos pássaros que colorem os ares com suas penas coloridas... (às vezes, fazem lembrar um arco-íris). Eles são meninos arteiros... Passam em vôos rasantes pela relva... Brincam na areia, como se água fosse... Disputam o azul dos olhos meus e trazem a pele uma saudade gostosa, daquelas que abraçam com calma e a gente suspira profunda e intensamente percorrendo vilas de nossas lembranças...
E os pássaros insistem no vôo e eu apenas aprecio com meus pés ainda pregados ao chão e tudo que resta é um sonho, que já não me acompanha, prefere a sombra de uma árvore qualquer, perdida entre a eternidade e seu fim derradeiro...
Então meus pés tentam rodopiar como antes, até faltar o fôlego – já não conseguem mais... Se atrapalham entre uma marcha e outra. Parece até que a chuva que cai, acha graça... Enquanto goteja pela paisagem, uma melodia percorre meus lábios e a voz pouca, já cansada ensaia um antigo refrão... Uma cantiga. Ah! Sinfonia... Adágio!!! E toda a paisagem segue no compasso lírico de uma marcha silenciosa por entre folhas e vôos e eu apresso meu passo numa dança de movimentos que se repetem... Agora com mais calma. Já não corro mais pela relva como antes e o horizonte está lá... Cada vez mais distante!
E no chalé, um sorriso antigo se reinventando de quem aprecia a tudo e parece se divertir com isso... O tempo passa para todos, para a chuva, para o sol, até mesmo para os vôos dos muitos pássaros que não se repetem, embora na distração do meu olhar (já não mais tão atento) eu acredite que eles ainda sejam os mesmos...
Ah! E quando passa pela varanda um vento mais forte, trazendo consigo o cheiro adocicado da chuva, o qual já não sei mais se é ilusão ou verdade... Encontro aquela mão pequenina de dedos ligeiros acenando ao vento para mim... Engraçado como se parece com alguém... Ah! A memória já não acusa a lembrança e eu tento retribuir o aceno e o sorriso familiar... Mas o cansaço me vence...
De repente, os passos da pequena admiradora ganham “asas” e correm ligeiro pela paisagem... Lá vai ela... Munida de uma ingenuidade singular ao percorrer o horizonte... Lá distante, acreditando que se for mais rápida, ele irá ser alcançado!
Estranha sensação que percorre a alma e faz parecer que o chão já não me prende mais... A imagem distante, daquele velho horizonte parece se aproximar cada vez mais dos olhos e a alma... Agora, quem está mesmo distante é a pequenina de dedos ligeiros que parou de correr e voltou a acenar!
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Maria Baderna
Maria: Baderna ou VISIONÁRIA?