domingo, 19 de agosto de 2007

Jogos



Você acha que sabe
Com suas armas e jogos
mas deixarei você na linha
perdendo todo o seu tempo por nada

No seu mundo
Você não sabe o que há
Cada um tem que ser o que é
E você tenta manipular

Observarei os seus passos
O movimento do cinismo
Nos olhos da traição
Você se envenena no seu próprio ódio

Eu estarei aqui
Assistindo na platéia
Você perder o seu tempo
E ser sufocado pela sua ira

sábado, 18 de agosto de 2007

Making Off

Sentado, elegantemente vestido com um roupão azul, defronte seu trailer, um Vegueros descansado no cinzeiro, perto da taça de Velve Clicquot, estava ele entretido com a leitura de um de “seus Machados” preferidos: uma coletânea de contos do gênio de Cosme Velho. Costume antigo, durante estas leituras sempre atinava de colocar alguma música que tivesse algo a ver com o que lia. No caso, havia escolhido uma das Polonaises de Chopin. Um mestre deve ser apreciado ao som de outro, pensou. Era de se estranhar, para um incauto observador, vê-lo naquela paz e quietude, de óculos bifocais no rosto, compenetrado no livro e com um semi-sorriso condescendente no canto da grande boca. Ele era uma das personificações da maldade, o ser que somente ao citar do nome, já enchia de medo e pavor aqueles de coração mais fraco; a perfeita definição de um ser malvado, também pudera: era nada mais, nada menos que o Lobo Mau. Eis o motivo da incongruência inicial.
Enquanto me entretinha apresentando o elemento em questão (para usar o jargão policial), eis que uma outra personagem sorrateiramente adentrou os imensos estúdios “Faz de Conta”, onde o primeiro relacionado estava, como já disse, se entretendo com boa leitura. E isto é uma coisa muito importante; a leitura abre horizontes quase ilimitados; Canis lupus da silva (seu nome de batismo) descobrira isto bem cedo. Pois bem, a sorrateira visitante veio chegando de mansinho e quando estava prestes a surpreendê-lo foi agarrada por um par de mãos fortes:
- Ahá! Pensou que podia ludibriar a segurança!
- Calma, deixa eu só trocar umas palavrinhas com “seu” Lobo.
- Você sabe muito bem que mister Lobo não dá entrevistas.
Impressionado com a coragem da garota, uma bela repórter de cabelos negros, ondulados como um dia de mar agitado, possuidora de belos lábios carnudos e uma voz instigante, o astro das fábulas levantou os óculos interessado:
- Pode deixá-la, Arlindo.
- Mas mister...
- Tudo bem, sei que você está fazendo seu trabalho, mas esta jovem também está. E acho que será benéfico trocarmos algumas impressões, nem que seja em off.
O guarda, embora relutante, acatou o pedido. Vai entender estes artistas, pensou enquanto se afastava meio emburrado.
- Olha, não me tenha por uma paparazzi qualquer. Trabalho para o “Além da Lenda Post” e me pediram que lhe fizesse algumas perguntas.
- Você é uma foca, não?
- Como você sabe?
- Bom, como o Arlindo disse, não sou chegado aos microfones ou gravadores.
- Mas isto têm algum motivo em especial?
- Bom, seu comportamento já o demonstra.
- Meu comportamento?
- Claro, já está me interrogando – riu de maneira afável. A garota enrubesceu.
- É, acho que você têm razão. Se quiser, posso me retirar.
- Não, fique. Acho que já está na hora de colocar alguns pingos nos “is”, além de lhe ajudar a dar uma lição ao seu chefe de redação.
- Qual lição?
- Que a peça que ele queria lhe pregar, vai sair pela culatra. Bom, aproveite bem as perguntas, porque elas serão poucas. Aceita uma bebida? – Um sorriso se insinuava.
- Quer dizer que vai me deixar entrevistá-lo?
- Uma pergunta a menos. Suco ou champanhe? Ah, a partir de agora, podemos passar para o modelo de entrevista, assim você poderá se sentir mais à vontade.
A.L.Post - Suco, por favor... Então, como o senhor começou sua carreira?
Lobo Mau - Você, por favor – Após servir o copo da repórter, voltou a acender o cubano.
A.L.Post - Ok, como você começou sua carreira?
Lobo Mau - Deixe me ver. Venho de uma alcatéia grande, do interior, mas apesar de sermos muito chegados e termos basicamente as mesmas vontades, vi que aquele negócio de sair como um lobo solitário, uivando nas noites, até formar minha própria alcatéia era meio arcaico. Decidi me dar um tempo, enquanto aproveitava esta época que é muito importante na vida de um macho alfa. Comecei a fazer teatro por conveniência dos costumes, pois geralmente temos que atuar para vivermos em comunidade, daí para o cinema foi um pulo.
A. L. Post - Mas como um ser tão mau como você conseguiu se infiltrar neste meio?
Lobo Mau - Uma das muitas calúnias atribuídas a minha pessoa neste negócio. A propósito, poderia suprimir este “mau” no meu nome? Chame-me de Lobo, a partir de agora. – O aceno de cabeça da repórter indicou que ela atenderia.
A.L. Post - Mas de onde advêm isto?
Lobo - Bom, em geral, no começo da carreira somos obrigados a aceitar papéis que não nos agradam, ou a fazer alguns tipos de produção que nos envergonham no futuro. É o caso da Ovelha Negra. Na falta de oportunidade, fez uma ponta em um filme pornô, o que lhe granjeou a alcunha pela qual é conhecida. Acho que foi por causa da roupa de couro, da máscara e daquele chicotinho...
A.L. Post – Quer dizer que tudo neste mundo é encenação?
Lobo - Bom, uma boa parte. Mas reitero que somos seres tão normais quanto quaisquer outros.
A.L. Post – Mas e aquela estória da Chapeuzinho e da Vovó? É verdade que assediou a garota durante as filmagens?
Lobo (pensativo)- Um dos meus melhores trabalhos...(pigarro) Veja bem, o que saiu na imprensa na época foi para dar mais visibilidade ao filme. Cheguei, sim, a sair uma ou duas vezes com a Vovó (que na verdade só é mãe), mas como bons amigos, entende? A Chapeuzinho era uma criança na época, seria até um crime. Se bem que, agora, passado tanto tempo, é triste ver alguém que prometia tanto estar atolada em produções um tanto quanto “duvidosas”...
A.L. Post – Que tipo de produção?
Lobo - As da Ovelha Negra... Mas cada um com seu cada um, não?
A.L. Post – E as acusações do Lenhador?
Lobo - Ah, quem levaria a sério um cara que mata árvores para viver? Sou do Greenpeace, tenho sérias reservas ao comportamento daquele senhor.
A.L. Post – Mas o Pinocchio corroborou o que ele disse.
Lobo - Acho interessante aquele cara de pau tomar partido dele. Um sujeito feito de madeira concordar com um madeireiro. Cheira a medo. E olha que tenho faro para isso.
A.L. Post – Falando no filho do Gepeto: Tanto ele quanto a Rainha Má conseguiram se eleger nas últimas eleições. Há rumores que você também se candidataria.
Lobo - Bom, com o nível da nossa política, acredito que os dois estão, como pode-se dizer, “em casa”. Os talentos verbais do boneco (que alguns dizem ser uma marionete, embora eu não tenha uma opinião formada sobre o assunto), mais os poderes especiais da Rainha, dão a ambos ótimas condições para se manterem entre seus novos pares. O que acho difícil é o primeiro cumprir as promessas de campanha e a segunda não fazer desaparecer parte do erário. Mas se assim agirem, não estarão sendo tão diferentes dos que lá se encontram.
A.L. Post – Uma última pergunta: e o coração deste canídeo, como vai?
Lobo - Semana passada fiz um eletrocardiograma, está melhor a cada dia, segundo minha enfermeira particular.
A garota desligou o gravador, após um lento cruzar das belas pernas, agradeceu:
- Seu Lobo, nem sei como lhe agradecer!
Um sorriso largo, que cobriu toda extensão da imensa boca descortinou-se, ouvidos em pé, olhos fixos no alvo, passou um dos braços pela cintura da repórter e deu uma piscadela, das mais safadas:
- Pode deixar isso com o Lobão aqui. Você está em boas mãos...

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Pequena Reflexão

De avião corria o risco de não chegar ao destino; de ônibus o problema eram os assaltos e, de carro, temia pelas crateras nas rodovias.
Resolveu então abrir um livro. Definitivamente, a melhor viagem era aquela para dentro de si mesmo.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Manchete



Bandido estupra e mata anciã. Traficante vende, não entrega e esfaqueia. Parou no sinal e perdeu o carro. Pivete chapado mata por um relógio quebrado. Pedreiro faz sexo com nenê da vizinha. Mais uma rebelião no presídio.


São manchetes diárias dos nossos jornais. Na verdade não são manchetes, são apenas chamativos das páginas internas do jornal. Às primeiras páginas cabem as verdadeiras notícias de destaque: política, economia e esporte. Os fatos corriqueiros de morte e violência, de tão comuns ficam com as páginas centrais. Os acontecimentos só recebem relevo quando o algoz ou a vítima são pessoas de notório destaque. Se o seqüestrado for apenas rico não receberá sequer uma linha dos jornais.É a banalização da morte, a vulgarização do crime. É o cotidiano. Ninguém mais se importa.Os presídios estão superlotados, os policiais não têm formação, os processos percorrem um lento e burocrático caminho, as leis estão obsoletas e se contradizem, sempre há mais uma instância a ser recorrida, a corrupção atinge até juízes. As estatísticas informam que menos de 20% dos criminosos acabam condenados e destes, menos de 15% cumprem toda a pena.O bandido tem a certeza da impunidade. Ao cidadão cabe esperar apenas pela justiça divina. Ao perceber à sua volta um rastro de terrores ela passa a desejar a morte do malfeitor. A morte preferencialmente em julgamento sumário e execução em praça pública.Se não houver uma reviravolta em todo sistema, breve tornaremos à Idade Média e teremos como manchete: Povo brasileiro exige pena de morte.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Dai-nos

A noite corria pela janela
E os anos pelos meus dedos.
Enquanto milhares
Oravam a Ave Maria,
Eu me prostituia,
Com a cara e coragem...
E amontoava o pão de cada dia.
Profana sacanagem.

Que bobagem!



Me

sábado, 11 de agosto de 2007

ebook Estrada para o Infinito e ezine BDE

Lancei, em 03/08/2007, o pulp Estrada para o Infinito, em homenagem ao BDE.
é uma história louca, dum sujeito de moto que acaba numa vila de Amazonas. o problema é que houve o apocalipse e o mundo está infestado de mortos-vivos.
com prefácio de Me Morte
Baixe o ebook aqui.







O Bar do Escritor completou dois anos de discussões, brigas, confusões e xingamentos por conta da bebida literária que é servida em nossas mesas virtuais. Tanto debate criou fortes laços de amizade entre os membos desta comunidade do Orkut. No E-ZINE especial estão publicadas as Histórias do Bar, os textos em homenagem (?) ao BDE. São poemas, contos e crônicas contando um pouco como é ser um dos nossos bebuns de letras. Uma experiência única, alguns nunca se recuperaram.
Conheça tb o BLOG do BAR.

A palma da mão branca


A palma clara da mão
faz do homem irmão
e esbofeteia com precisão

Em todos é branca
mas a igualdade manca
falta a unidade franca

Esta branca mão
é paz
ou rendição?

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

in.quie.ta.ção

Me enlace
Me abrace
Enquanto ainda sou moça e
me torça o pescoço
(não precisa ser com força,
basta quebrar o osso)

não quero me ir de cansaço
nem quero me ir de doente
(de fígado, de rim, de baço)!
prefiro ir de repente.
não quero morrer numa cama,
sofrendo com a dor me fazendo calo
que seja de queda
de quebra
de tiro.

prefiro morrer de estalo
faz bem mais
o meu estilo.

quero um piscar pra morte breve
que não passe
do espaço de um soluço

pra mim tem morte certa.
não quero morrer na siesta,
prefiro morrer de susto.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Invencionice Literária

Não sou como fui sempre. Talvez esta inquietude revele o que existiu debaixo deste ornamento esquálido; este corpo que se sustenta na descrença e incompreensão do fato de ser um vivente a caminhar sozinho junto à multidão de almas mutiladas.Abro mão da vida plausível que cultivei ao longo dos anos; funcionário público a despachar documentos na repartição, fazendo e refazendo relatórios, emitindo e omitindo dados, manejos necessários à profissão, para desvelar da loucura de ser escritor.Resolvi assumir a possibilidade de morrer de fome e, mesmo assim, tentar escrever uma história que se sustente por si só. Vivo minha solidão na intensidade necessária, sob a luz artificial, acompanhado de um ou outro gole de vinho seco que me seca a alma ainda mais. Sinto o vacilar do pensamento e, este vacilo se propaga, conduzindo as mãos ao ato incontinente de “masturbação filosófica” que me levaram a mundos e profundezas que desconhecia além das palavras.Converso e desconverso em meu íntimo. Imprudência. Sou assim, imprudente em atitudes. Precipito em decisões ilógicas e amorteço a queda em crenças vãs. Adultero minha credencial de literato para ter direito à prostituição gratuita, onde poderia chupar ossos e bucetas sem medo, nem vergonha. Sem o horror de ser destituído do Prêmio Nobel de Literatura e, continuar condicionado a escrever “romance de quinta” que enche os olhos das leitoras suburbanas e tupiniquins que desconhecem a valia dos clássicos. Nem dão à mínima se faz sentido ou não. Querem mais é se deleitar naquelas páginas melodramáticas que sempre terminam em final feliz.Em minha astúcia de coveiro e semeador, semeei discórdia por onde passei. Reinventei a escrita, rabiscando murmúrios de delinqüentes e transviados, enxugando os pratos cuspidos que tantos outros puseram de lado. Hediondo me tornei e, odiado firmei meu pacto de só dar ouvido aos loucos, irremediados do povo. E, assim fiquei em minha costumeira aflição de temer a morte e o itinerário que se constrói durante a vida. Meu futuro previ inusitado, mas, como prever o além vida(além morte)? Não há como julgar; aqui se faz aqui se paga. E minha conta a pagar já estourou o limite.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Tome Nota

Comprar travesseiros novos: pra perceber como a vida pode ser gostosa.
Tomar três banhos por dia: pra sentir que a natureza não mendiga suas posses.
Gritar dentro do armário: pra ouvir os ecos de nossa própria consciência.
Chorar dentro de um copo: pra não esquecer os motivos que nos emocionam.
Massagear os pés: pra perceber que somos nós mesmos que nos impulsiona para frente.
Despejar o lixo: pra levar pra fora as dores e os males da alma.
Sorrir para o gato de porcelana: pra lembrar que você é uma pessoa normal.
Ler bulas de remédio: pra descobrir como somos frágeis.
Tome nota do que você precisa fazer, mas faça apenas o que te faz melhor.

domingo, 5 de agosto de 2007

Sermão do Tempo

Enquanto eu espero o tempo passar,
O tempo passa por mim,
Mas eu não o percebo.
Quando ele me diz:

- Caro infeliz,
Esquece-me!
Apaga-me da tua mente,
Pões fora teu relógio;
E abraças as horas
Que correm o seu curso lógico.
Não queiras fazê-las parar,
Nem, muito menos, mais rápido andar,
Apenas por um pedido
Infantil, desesperado,
Teu.
Saibas que elas não se curvam
Nem ao pedido despótico
De Deus.

Acaba-se assim o sermão do tempo.

E eu, que apenas percebi
A linguagem suave do vento
Espero-o ainda.

Ele se cansa e passa.
Infeliz por sua língua
Incompreendida.
- fado de toda
linguagem divina -

André Espínola

sábado, 4 de agosto de 2007

Máscaras

Máscaras - Nicolas Delgado

resgatei pedaços
de máscaras deixadas no tempo
por restos rasgados de eus do passado
sentimentos postergados
folhas dilaceradas,
molhadas por tempestades escuras
queria navegar
pela razão que flutua
em mares além do horizonte
deixada em sustento ao pranto
que cegou-me os olhos
como vendas de encanto
em desatinado reencontro
floresci como hibisco roxo
e fiz-me exalar perfume ao vento
serenando corações petrificados
ofereci alento
hoje tenho a máscara do contentamento
que pulsa num sorriso
esbanjando adolescência
de saber-me livre das amarras da existência

Caroline Schneider


quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A fábula do vidro e do tijolo

A fábula do vidro e do tijolo
pela vidraça vê-se o muro
vê-se furos
no paladar!

não há o que se esconda
e se oponha
à dor de fronha
e a amores de chafarizé

tudo tão caro
que o metal não pode pagar
beijara teus tijolos
e ainda trazia na língua
os esporos alheios

enganando-se cotidiano
e os olhos secos se fecham
na esperança da chuva
da fonte na praça central.