segunda-feira, 2 de abril de 2018

labirintos

as palavras estão para o papel
não quero dispensar mais nada
sem calor, sem frio, sem verbo
as escolhas se calaram com
o assombro do vento
tudo é sal e salitre
o que do mar me sobra
é a sombra do tempo
a onda que não quebrou
as palavras não estão para nada
calaram em algum lugar que não sei
dispersaram antes que eu abrisse
a boca e enrugasse os olhos
as coisas pedem socorro
e eu já desisti de salvar
minotauros dentro de mim
batem cabeças contra paredes
as palavras são monstros.
LM@rq

domingo, 11 de março de 2018

Vestido de Papel - Brincadeira Alada - ZenOrigami MK



"Olhava as crianças brincando 
com os pássaros na calçada 
e não conseguia distinguir 
de quem eram as asas"


"Brincadeira Alada" papel garimpado de caixas e baús, dobras de Marcia Krone "ZenOrigami MK"  

poesia: Joakim Antonio
origami: ZenOrigami MK

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

retomadas buscas

Sempre que chovia, e só quando chovia, saía pelas ruas procurando a família.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Blue moon I



Equidistante
um ponto. Sou
onde tu estás

Apaixonante
um amor, vírgula
sem se explicar

Mirabolantes
meus pontos: dobram
pra te falar

Desconcertante
teu olhar! Exclamo
num ponto' ar

Joakim Antonio



Imagem: Lua, em Fortaleza, Ceará. by Cristina Macedo


Blue moon, foi um exercício poético, feito a partir de um pedido de fotos da Lua, no facebook, do local onde meus amigos estivessem. Para cada foto recebida fiz um texto, em poema ou prosa poética, no mesmo momento em que recebia a foto. No total, foram sete fotos recebidas.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

pensa na carne como ilha


escura e transparente
finita e eterna
uma carne-sangue que não pertence
suposta matéria osso e tutano
que fende e apesta
sou a face dessa forma
um encaixe do não encaixa
a carniça manca
presa no desespero



LM@rq

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Verde



Em passo tribais, sou natureza. A grande tartaruga e o mundo em arte, sobre suas costas. Busco me encontrar em cada ato. Rastreio minha cor no asfalto, mas ela falta. Entre árvores de cimento e janelas mágicas brilhantes das ocas de pedra - já para o natal, me desencanto. Passo de borboleta a lagarta e me arrasto, querendo algo mais. Minha tribo não me satisfaz, tem caciques demais e Xamãs de menos. Então, mudo do local, busco voz longe dos galhos de fios, mais perto da água, aumentando o azul do céu. Mas sinto que ainda não é minha cor. Já com o encanto do mar, ouso voar, aperfeiçoar minha visão, ver o outro lado do mar. Agora o clima é noir. As cores não são quentes como no meu lar. A casca usada é pesada e muita, até alguns olhares são frios. Mas por dentro me encontro, sentindo um vislumbre do que virá. Passo a aceitar novas cores, ensinos, amores e o que pintar. Sem perceber, o Tempo brinca e viaja comigo, retorno e me vejo em casa. Seu presente, grandes asas. Só assim vejo o todo. E noto. Uma menina passando e a cor dos seus olhos. Um papagaio que repete, Seja, infinitamente. A folha rasgada de um livro antigo, com o Santa Claus original. O mar, em um tom além do azul. O cabelo de outra menina, num tom incomum. E penso em árvores, pássaros, frutas e maturação. Encontrando rotas, onde só veem paredes. E meu coração bate forte. Ao encontrar a palavra certa, para sua cor.

Verde!

Joaquim Antonio


Imagem: Jeannette Priolli - série " VERDES " 2017
1.50 m. x 1.50 m. x 0.10 m. acríclica s/ tela

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

se a elegia do homem supera


a rudeza oblíqua do universo afônico
não cale poeta, peço-te, não cale
aventa-te com tuas boas e más palavras
do parapeito do décimo andar
que cada verso seja uma queda brusca
e repentina
rumo ao infinito vago do vazio
LM@rq

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Pré-ideia


No inverso da letra, um número conhecido.
Um palhaço de verso, num mundo de circo.
Ele rima e alguém grita, numa estrofe qualquer.
- Ali, pega ele, o ladrão de mulher.

Joakim Antonio


sábado, 11 de novembro de 2017

Insistentes

Num mundo cego, poetas insistem em enxergar. E com suas bocas miúdas, gritam "cuidado", para todos. Mas como convencer quem não vê a xícara transbordar.

Num mundo duro, poetas dão socos em ponta de faca. E com suas mãos imperfeitas, sangram como escudo, para todos. Mas como convencer quem não vê o sangue jorrar.

Num mundo doente, poetas fazem chá. E com suas ideias líquidas, tentam fazer diferença, para todos. Mas como convencer quem não vê possibilidade de se curar.

Num mundo normal, poetas são loucos. E com suas mentes poluídas, declamam versos, para todos. Mas como convencer quem não ouve além do que consegue gritar.

Num mundo caótico, poetas são Dom Quixotes. E com suas lanças entintadas, escrevem tudo, para todos. Mas como convencer quem lê e não enxerga nada lá.

Joakim Antonio

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Apontados



Cortaram-lhes
os pulsos
de modo errado

Cortaram-lhes
na carne
até a alma

Cortaram-lhes
a visão
dos intentos

Cortaram-lhes
na frente
dos dois lados

Eunucos do espírito
restou apontar
sem parar

Joakim Antonio


Photo by Sinan Arslan

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

citações inventadas (7)


O Ministério da Liberdade Lógica adverte:

"Este produto pode afetar a ordem dos fatores."

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Transpassando




Poesia

Transpassa qualquer compartimento e por não ter, em sua essência, nada que lhe tolha a forma. Se achega, se amolda, transforma.

Joakim Antonio


Imagem:  Azzurro by ValentinaWhite

domingo, 13 de agosto de 2017

evolução


Brasil:
de país do futuro a país do futuro do pretérito,
8.515.759 km² de "poderia ter sido".

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sempre


Sempre exposto
até o osso 
da canela
sendo batida
onde não pensam nela

Sempre torto
até o raso
do bolso
sendo furado
onde não pensam nele

Sempre bobo
até o fundo
da alma 
sendo sugada 
onde não pensam nela

Sempre poeta 
até no fim
do abismo
sendo pássaro
onde não pensam nisso


Joakim Antonio


Photo by Sergei Sarakhanov 
Russia - rolleiflex 3.5t  
ilford fp4 125

terça-feira, 11 de julho de 2017

Ambulante



há causador
há corredor
há zelador
amor e dor

a faca da mão
a ponta do pé
a flor da pele
contrapartes

o frágil não
o humano sim
o acéfalo assaz
sino duplo

um grito surdo
um grito mudo
luto
luto

eclipse
sem
fim
...

Joakim Antonio



Imagem: Vendedor ambulante by MiSA-MiiSA

sábado, 24 de junho de 2017

Àqueles que nos odeiam

Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Movidos por uma paixão
de proporção desmedida
são capazes de tudo
o tempo todo
Algo próximo do insano os impulsiona:
um amor à revelia
(ou às avessas)
que se alegra com a nossa ruína
Não dormem
e se o fazem
não sonham com nada além de estratégias
para alimentar a chama de nossa insônia
Incansáveis em seus propósitos
é impossível mencioná-los
de qualquer forma que seja
e não dimensionar
o tamanho da inveja
que os alimenta
Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Não reconhecem fim de semana
feriado, dia santo:
seriam funcionários exemplares
se ao trabalho se dedicassem
como se debruçam sobre nosso itinerário
Em suas vidas miúdas
estão agora mesmo escolhendo com afinco
o nomes dos fakes
como se fossem
os nomes dos seus futuros filhos
Na falta de um nome
– as vezes falha a inspiração –
um perfil anônimo, em rede social
cumpre a função
Só repetem, afinal
o que seus pais fizeram com os nossos pais
(que isso de ser um merda
quase sempre se herda)

Rafael Nolli
01/06/17

domingo, 11 de junho de 2017

Lembrança adormecida


Batalhou até se tornar a pessoa mais rica do mundo. Logo depois, gastou sua fortuna para que conseguissem inventar uma máquina, onde você pudesse escolher a lembrança que queria de volta. E logicamente, foi o primeiro a usá-la.

Nesse dia, chegou usando chinelo de dedo, uma regata e calção de futebol. Sentou-se calmamente na cadeira do aparelho. Sorriu pra todos e piscou maroto para uma cientista na platéia. Fez um aceno de sim com a cabeça e ligaram o aparelho. Houve um pequeno alvoroço. Logo o cientista e inventor, pediu silêncio absoluto e fez a pergunta primordial.

Qual é a lembrança que o senhor mais deseja na vida?

E ele, fechando os olhos, respondeu:

O cheiro da minha Mãe!

Joakim Antonio



Imagem: By Alejandro Alvarez

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Tornar-se


Embrenhar-se na mata, fazer-se folha, tornar-se nada, espaço para encantamento de versos. Diluir-se no útero da terra, espalhar-se por completo, esquecer-se no tempo, voltando a ser verbo. E então, sob a luz do olhar, renascer.

Joakim Antonio

Imagem: https://www.instagram.com/poetajoakimantonio/

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Embriagado


Todas as coisas e ideias tendiam para a esquerda. Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita. Então, rolaram para o centro e por ali ficaram, no equilíbrio frágil de uma mesa de boteco.
O álcool e a política têm efeitos semelhantes.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Eu comum




E eu te batizo comum.

Não terás nada de extraordinário e serás lembrando num pedaço de papel. Habitarás guardanapos, papel de pão e talvez até uma seda, que quando queimada, dirão que tu faz a cabeça.

Serás lido, pichado, esquecido e queimado nas ruas, aquecendo corpos já febris de ti e dando tua vida, aos que nos dias frios, um simples cobertor nunca aquecerá a alma.

Serás conversa de bar, misturado ao choro de perda da mulher amada, aos risos de comemoração do primeiro filho e ao vômito do bêbado, após os gritos de Toca Raul.

Eu te batizo poeta, habitando bancos de praça, igual a mim, o mais comum dos comuns.

Joakim Antonio


Imagem: "Morador de rua com as mãos sobre a cabeça da estátua de Carlos Drummond de Andrade. “O Pensador” da praia de Copacabana." Photo by Willer José, RJ, 2012