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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O último cigarro


     O último cigarro.
     O primeiro do dia.
     A primeira tragada lhe provocou uma certa tontura, típica do primeiro vestígio de fumaça invadindo brutalmente o pulmão.
     A última noite não lhe oferecera muitas recordações e o cheiro do último copo de whisky ainda lhe saia pelos poros. Não se lembrava da última vez em que saíra de casa - dias, semanas?
     O primeiro gesto foi se sentar e soltar lentamente a fumaça, desenhando uma cortina branca pela luz fraca dos primeiros raios de sol que passavam pela janela. Os cortes, rasos, no pulso, ainda ardiam.
             Cinzas no chão.
     O último cigarro seria um momento para reflexão, planejamento, mudanças - 
o primeiro pensamento que lhe veio a cabeça, enquanto tragava novamente, dessa vez mais pausadamente, quase um suspiro.
             Fumaça
     As últimas horas da noite anterior lhe vieram em flashes à mente.
     As primeiras lembranças, vagas, não lhe serviram como base para um reflexão. Estranhas. Esparças. Esfumaçadas
             Cinzas no chão
             Melhor ir mais longe, no passado. Tragou novamente.
     Primeiro, lembrou-se rapidamente da mãe. Estranho, pensou.
             Fumaça
     A última vez que visitara a mãe, prometera que iria mudar, parar de fumar, lembrou-se.
             Melhor pensar em outra coisa. Tragou. Profundamente.

             Fumaça

             Cinzas.
             Melhor pensar em alguma coisa, pensou.
             Tragou.
             Fumaça.
             Cinzas
     Primeiro pensar, depois refletir. Mas pensar em quê? Não havia nada para pensar.
             Melhor, então, planejar, buscar mudanças, tragou.
             Fumaça.
     Última tragada, não há mais tempo.
             Cinzas.
             Melhor deixar isso pra lá, bobagem, concluiu jogando a bituca no vaso do cacto morto.
             Fumaça
             Melhor apanhar mais um maço na gaveta antes de sair, refletiu, talvez passasse na casa da mãe mais tarde, planejou, e não queria ficar sem cigarros pelo caminho.
     Mudou o cato de lugar, talvez voltasse a viver com um pouco de sol; soprou as cinzas do chão e saiu sem protetor solar.



Isaac Ruy

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Influente

O mendigo, folheando o jornal, que lhe serviria de coberta, viu uma notícia anunciando que a obra "A fonte", de Marcel Duchamp, fora escolhida como a arte moderna mais influente da história.
Perguntou a uma mulher de óculos, sentada no ponto de ônibus, com cara de professora, o que significava "influente". Ela não soube explicar, ou não quis, mas o menino, que estava ao seu lado, retirou um enorme livro da mochila e leu em voz alta, para que ele escutasse. "Influente: que influi; que tem autoridade, prestígio; que exerce influência sobre os demais".
O mendigo voltou para o banco e, depois de muito observar a imagem do "mictório assinado", que ilustrava a reportagem, levantou-se e começou uma caminhada com passos firmes e destino certo.
Influenciado pela obra, pretendia assinar todos os mictórios e vasos sanitários do banheiro público da praça.
No caminho, já imaginava a quantos não "influenciaria" com aquele gesto simples, mas artístico, de assinar o local onde os homens urinam. Teria, desse modo, "prestígio, autoridade".
Chegando ao banheiro, notou que já havia assinaturas por todo lado: paredes, portas, chão, teto e até no espelho quebrado. De fato, não havia nenhuma assinatura nos mictórios, mas naquele momento lhe pareceu tão menor, insignificante e tolo assinar naquele lugar, que se escondeu em uma das cabines e ficou ali, cabeça baixa e em silêncio, sentindo-se envergonhado a pensar que aquele era, de fato, o lugar mais apropriado para que assinasse.
Levantando-se para sair, observou a quantidade de desenhos e frases escritas na porta. Seria aquilo arte também? Provavelmente sim. Ao menos parecia ter dado mais trabalho e ser mais artístico que a assinatura no mictório.
Questionou-se, refletiu e, depois de muito ler e observar a arte que o encarava, sentou-se e, “influenciado” pelas pornografias descritas e ilustradas na porta, masturbou-se ali mesmo.
Saiu do banheiro, voltou para a praça, jogou a página da reportagem no lixo, se cobriu com o restante do jornal e, feliz, refletiu que, de fato, ele existia apenas para ser influenciado, não para influenciar ninguém.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Arrepio ambíguo


Noite chuvosa,
os corpos nus,
molhados,
deitados no chão,
arrepiados...

frio ou tesão?

Isaac Ruy

quinta-feira, 8 de março de 2012

Donadecasahipocondríaca

acordoucom
dordecabeça
levantoulabirintite
trêscapsulas
começoualimpeza
dobanheiro
refluxogastrite
esfregouchãoparede
artroseartrite
doiscomprimidos
limpouquartos
herniadedisco
salaevaranda
hipoglissemia
quarentagotas
lavouasroupas
brancasecoloridas
leveanemia
cincopílulas
passoudobrou
fortesinusite
escolheufeijão
asmabronquite
picouacarne
esquentouarroz 
oitocomprimidos
úlceranervosa
lavoucopos
arritmiatremedeira
noventagotasduaspílulas
secoupratos
capsulascoloridas
guardoutalheres
arrumougavetas
espasmosalucinação
comprimidospílulasgotas
fraquezacovulsão
morreucaída
entreaspanelas
depressão

Isaac Ruy
 
 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pequenas histórias

Pequena história sobre o homem que apesar de não fumar disse à esposa debruçada na janela que ia até a venda comprar cigarros...


Saiu de casa no crepúsculo
e nunca mais voltou.


Pequena história sobre a esposa do homem que apesar de não fumar disse que ia até a venda comprar cigarros e nunca mais voltou...


Ainda o espera debruçada na janela
fumando um maço por noite


Isaac Ruy
rabiscoserrantes.blogspot.com

domingo, 8 de janeiro de 2012

Meu Deus!

Ali:
trabalhando, comprando, comendo
- repetidamente e compulsivamente.
Concentrado, se divertindo
                                         frente a TV
distraidamente...
Meu Deus!
é uma máquina.

Isaac Ruy

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sociedade anônima


I
acordou no chão frio
com a boca amarga
e com a roupa suja
de vômito seco
pensou em quanto tempo 
estava ali
mas deitou novamente
não importava 
era só mais um dia 
como qualquer outro


II
fumou o cigarro
sentado na privada
um vestígio de prazer
num dia difícil
para não desconfiarem
deu uma descarga
que levou junto
a bituca
e seus sonhos
de criança


III
aurora
juntou as latas de refrigerante
caixas de doces
garrafas de suco
embalagens de salgadinhos
amontoou no carrinho
e então fez sua primeira
e única
refeição do dia
crepúsculo


IV
penteou os cabelos
passou batom
rosa
sua cor preferida
colocou o vestido
rosa
seu preferido
e foi trocar sua infância
por dinheiro
na esquina mais próxima


V
passou o dia
na fila
gemendo 
chorando
implorando uma chance
à aquela que 
agora
dormia 
no túmulo
de sua barriga


VI
noite de chuva
encontrou um canto seco
para deitar
se cobriu com o jornal
molhado
que estampava a notícia
da morte do amigo
queimado
os olhos abertos
também choviam


VII
atento
olhava a mãe e a criança
o modo como sorriam
o carinho que lhe era estranho
ausente
num ato de coragem
se aproximou 
e levou a bolsa 
para matar a fome
que lhe acariciava as entranhas


VIII
dividia o que tinha
com os amigos
naquela 
noite
era uma lata
queimando crack
uma ponta de baseado
e um pouco de
tristeza
e abandono


IX
no semáforo
passava pelos carros
pedindo ajuda 
por ser surdo-mudo
os motoristas
em solidariedade
se faziam
de cegos
protegidos pelos vidros fechados
e pelos óculos de sol


X
na calçada
as mãos
como pétalas
se abriam para pedir a esmola
os pés
cheios de feridas
espinhavam o olhar alheio
lhe garantiam a subsistência
e não saravam
graças a Deus


Isaac Ruy





terça-feira, 8 de novembro de 2011

TOP

Linda, 
nariz empinado, 
encarou as vitrines, 
não olhou para os preços, 
rica, 
olhar de modelo na passarela.

Elegante,
batom e biquinho, 
desfilou pelo espelho, 
não olhou os defeitos, 
magra, 
rostinho de modelo de revista.


Sensual,
lânguido rebolado,
atravessou a avenida, 
não olhou para nada,
fina,
corpinho de  modelo atropelada.

Isaac Ruy 

sábado, 8 de outubro de 2011

Borderline

Era uma pessoa difícil, vivia cortando relações. 
No fim, sozinha, só lhe restaram as cicatrizes.

Isaac Ruy

 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

oh, lepse...


este sou eu,
frente a etnerf
com a imagem do presente

analepse do que fui
prolepse do que serei
recordações
e projeções

encarar a si mesmo
não faz bem ao ego
                                  nego

melhor seguirmos enganados
que encarar a realidade -
lindos
como
sempre

estamos apodrecendo
enquanto amaciamos a carne,
esticamos a pele
e maquiamos os vermes

a beleza está nos olhos de quem vê
tenho medo
prefiro não encarar
e se não estiver nos meus?

assim ao menos vou bonito,
imagino,
e que me esperem no fim da passarela
dessa 
vida
bela

e se insistem em perguntar
como vai?
respondo sempre
muito bem, obrigado

melhor mentir
a encarar os cacos
de fato
me mato?

não

aguardo a morte chegar
sorrindo
com sua cara 
que muito me agrada
de caveira
seca

ao menos vou melhor que ela

Isaac Ruy

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Espera

Esperava já havia 27 anos.
Todos os dias sentava na cadeira, ou debruçava na janela, ou deitava na rede da varanda a esperar.
Um dia, enquanto cuidava do jardim, o tempo nublado anunciava chuva, ouviu um barulho.
"Oh meu Deus, é ele... como pude me ausentar da casa? Espero que não pense que não o aguardava..." - Correu com uma expressão incerta entre sorrisos e lágrimas.
Chegou  na casa, sem fôlego, e nada encontrou. 
Era só o mensageiro dos ventos. 
Mesmo assim preferiu esperar mais um pouco na cadeira de alpendre.
"Quem sabe não é um sinal..."
Ficou ali, sentada, esperando a chuva acabar e as nuvens se abrirem para as estrelas.
"Melhor ir dormir, é tarde. Se ele chegar de manhã, só espero não estar com cara de sono".

Isaac Ruy

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Espelho

Depois de chorarem juntos,
sorriu para o sorriso dela.
A cumplicidade os tornava idênticos,
ela canhota, ele destro.

Isaac Ruy

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Clara

Clara, sinto falta de tua voz, por isso sussurro ao teu ouvido. Porque não cantas mais? O que farei nos dias tristes, como esse, sem tua voz?
 
Clara, tua palidez lânguida exala uma paz que se reflete no silêncio amargo deste salão. Pelas flores em teu cabelo e teu vestido branco rendado poderia dizer que estás vestida para uma festa, se todos a tua volta não estivessem de luto.
 
Clara, agora só resta a treva. Nossos olhos já não se encontram, pois tuas pálpebras rígidas não se movem, assim como não se encontram nossos lábios, pois os teus mantêm essa sobriedade fria. 
 
Clara, não sei se ainda sonhas, mas enquanto dormes teu sono, saibas que fico, insone, a velar-te, sonhando acordado com o dia em que despertaremos juntos no paraíso.
 
Isaac Ruy

domingo, 8 de maio de 2011

Vingança

Foi surpreendida pelo encarar de oito olhos atentos e ameaçadores.
Assustada e apressada, pegou a única arma que estava a seu alcance: o sapato de sair.
Com apenas um golpe a aranha se transformou em vestígio na sola do sapato.
Mas a morte ainda era pouco.
Foi para o baile e dançou a noite toda sobre o cadáver.