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sábado, 15 de março de 2008

Desencanto do que não foi




Sei que fodi formosa com tua cabeça
Que adormeci teus pulmões
E elegi tuas verves

Coração negro
Escandalizando teus bailes pálidos
Mas para tuas pétalas não tive
Agulhas, nem pelicas
Faltou cítaras e paletas para teus transes

Não fui heroína
Nem abstinência
Dos teus vícios

Fui o desperdício e as migalhas
Dos restaurantes vazios
Pousada das moscas e mendigos

O choro do marmanjo menino
Escondido entre as coxas da devoradora
Sexo barato e frígido
Nem teus pulsos magros
Foram altares
Nem minhas pernas tortas manjares

Detonou-se mais caverna
De amor imaginário
Que virou senha
E catástrofe
Bonequinho enfaixado
Romance adulterado
Nunca existido

Morreu instantâneo
No íntimo gole
Em copo de cristal contendo veneno de rato
E sórdido lirismo
(imagem : pintura de Camille Rose Garcia)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Brinquedo das madrugadas brancas




Meu realejo de música estúpida
Tirai a sorte do meu maníqueismo triste
Dos fantasmas que comigo dividem a cama
E estamos quites
Das mentiras que engulo como sobremesa
Fui plastificada,encaixotada
Adquirida por uma criança
Que comigo nunca quis brincar


Virei túnel e absinto
Para ratos roerem meus sonhos
Fica aqui mais um instante!
Meu próprio ser é para mim
Lugar medonho
Meu corpo não tenho sentido
Sou vândala das madrugadas brancas
Saqueio,engano,vacilo
Ensaio coisas estranhas

Oro em altares rubros
Marginalizo feras mansas
Aprendiz do obscuro
E ainda assim o brinquedo da criança


sábado, 15 de setembro de 2007

Insônia


A cama vazia pulsa pelo meu corpo
Mas estou encarcerada na febre
Jaz vivo no caixão do alvoroço
Aquele que inventa o que não deve


Não quero dormir
A noite é felpuda
escorrego entre seus dedos
e desmaio no travesseiro que urra


Sonho um sono que me leve
vazio e transparente
frágil como uma pluma
não insiste em me deixar doente


Quero brincar no escuro
Desvendar as almas penadas
passear no cemitério
Com um cadáver de mãos dadas

terça-feira, 15 de maio de 2007

Arranhão

Acolher pragas
Semear o tétano da alma
Como se fossem as flores do campo
(enforcadas em maio)

Cuspir no amado prato
Recolher o humilhado rabo
Dentre as trêmulas pernas
Para não perder o ritmo
do rebolado

Falsificar o documento da existência
Clonar o poço da urgência
Manter-se em pé na corda bamba
feita de nervos e algodão
dizer sempre não
Quando o sim anseia um sibilo cristalino
e a alma um arranhado pequenino

Sonata enluarada...
somente parte de uma canção mais depravada

(nada que eu possa fazer pela poesia!)