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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Adágio para instrumento de barro e manhã sem sol



Quebrado. Em tantos pedaços. Olhava os cacos no chão e mal conseguia acreditar. Não que se tratasse de algum vaso chinês da dinastia Ming. Era apenas um coração. Tosco. De barro. Sem verniz. Partido. O seu. Só lhe restava chorar. E isso era pouco. Ah, muito pouco...



Márcia Maia


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Folhetim


Sexta-feira. Carnaval. Meio-dia e meia. Ao telefone, ele diz que tudo foi lindo e deve ser guardado como um pequeno tesouro. Para sempre. No seu coração. Dele. Que não suportaria sofrer de novo. Ela ri. Disfarça o nó na garganta.Conversa mais um pouco. E desliga. Com um beijo. Foram tantos, pensa, olhando a fantasia sobre a cama. E não sobreviveram a um único carnaval. 




Márcia Maia


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Fim de linha

Esperara hora e meia e quando o maldito do ônibus passou, não parou. Mais meia hora, um novo se aproxima, reduz a velocidade e segue adiante, sem parar. Tem impressão de ter visto o motorista observá-la por um instante, antes de tornar a acelerar, mas não tem certeza.
Começa a chover. Chuva de vento, como se já fosse agosto: não adianta tentar se abrigar. Não há mais ninguém na rua, àquela hora. Só ela, a chuva e o ônibus que tarda a passar. Quando, uns quarenta minutos depois, avista mais um se aproximando, toma uma decisão radical e se põe, em pé, no meio da rua, encharcada, acenando com as duas mãos. Das duas, uma: ou o ônibus pára ou a atropela, porque, depois de tantas horas à espera, está disposta a tudo e dali não arredará o pé. E mais uma vez o ônibus passa. Como uma rajada de vento. Morno. Sobre ela. Sem parar.
Exausta, senta-se à beira da calçada. A chuva parou. A noite já quase finda. E em sua mente uma pergunta, como um eco, se repete: terá realmente morrido quando o botijão explodiu na cozinha do motel onde trabalha ou será apenas a continuação do pesadelo onde sonhou a tal explosão? E, por não saber a resposta, permanece à espera do próximo ônibus. Talvez apareça alguém para esperar com ela. Ou, quem sabe, com um pouco de sorte, da próxima vez, haja alguém recém-desencarnado, como ela, à direção.



Márcia Maia

domingo, 20 de novembro de 2011

Beatriz


Nem bela, nem atriz. Beata, tampouco. Um retrato desbotado na parede. E um soneto esquecido num caderno. Aberto e roto.



Márcia Maia


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pequenas obscenidades

Pensava sempre nele nessa hora. A hora em que, casquinha de sorvete à mão, lambia lenta e delicadamente as bolas. Deliciando-se em dobro. A relembrar outros jogos de língua. Em tardes distantes. E por vir.



Márcia Maia

sábado, 20 de agosto de 2011

Por um instante


Na sala de espera, mulheres. A maioria acima dos quarenta. Cuidando de suas vidas. Sós. Exceto duas, sentadas ao lado dos maridos. Dois casais. Um, urbano, classe média, elegante. Outro, do interior, roupas simples, faces marcadas de sol e rugas. E por um instante, só por um instante, aquele em que, quase simultaneamente, as duas entraram na sala de exames, de mãos dadas com os companheiros, a solidão descompassou os corações das outras mulheres, sentadas sós, na sala de espera.



Márcia Maia


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sem remédio


ASL-90.004/305.B12 acreditou quando lhe contaram que, na face oculta da Lua, havia uma caverna aonde, durante a lua nova, os andróides se transformavam em humanos assim que nela penetravam. Buscou-a com afinco. Nada encontrou além de areia, pedras e uma bandeira antiga, listrada e rota. Desolada, lançou-se no espaço na esperança de que algum raio a atingisse e destruísse. O que não tardou a acontecer.


Márcia Maia

(Sem amém, Ed. Moinhos de Vento, Recife, 2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Aniversário

No dia em que a dor abrigou-se em sua casa, tomou uma decisão. Colocou na parede, um calendário. E enquanto dia a dia, mais tirana do que hóspede, invadia e devastava os recantos mais secretos de sua alma, ela esperava. A cada manhã, tendo sobrevivido a outra noite de terror, lágrimas, medo, e solidão, arrancava uma folha do calendário. A cada dia, uma dor, uma folha, menos um dia. Assim viveu durante quase um ano. Contando dias. Rompendo prazos. Colando cacos de alma e coração. Migalhas de amores. Agora, apenas uma folha restava. E a dor cicatrizara feito rocha em seu peito. Mas ainda imperava soberana sobre a casa. Acordou cedo. Fechou portas e janelas com cuidado. Em cada canto, porta, armário, piso, pia derramou solenemente a gasolina. E antes de riscar o fósforo e pôr fim à invasão e à tirania, arrancou a última folha do calendário.


Márcia Maia

de Sem amém, Ed. Moinhos de Vento, Recife, 2011.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

"En écoutant la pluie"


1,65, ele disse. Altura é problema pra você? Não. É só uma questão de escolher sapato, do tamanho do salto, do alto dos seus 1,76, ela respondeu. Um pequeníssimo silêncio se seguiu. Ele às voltas com sua altura real. Ela a pensar que casal estranho formariam. Se bem que em tempos de Carla Bruni e Sarkozy, altura era o de menos. Nua, diante do espelho, ela riu. Então, amanhã às seis? ele perguntou. Amanhã às seis. Quando o amanhã chegou, chovia a cântaros. Às seis, tudo era enxurrada. E ela, que tanto desejara aquele encontro, esquecendo Carla Bruni e Sarkozy, ligou o computador, abriu um vinho e preferiu ficar em casa.



Márcia Maia

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Touché!


— Está doente de quê? ele perguntou.
— Da alma, respondeu.
— Impossível! Você não acredita em alma!
— Nem ela acredita em mim...



Márcia Maia

sábado, 20 de novembro de 2010

Um mundo perfeito


Árvores sempre verdes. Repletas de flores e frutos. Eterna primavera. Quase verão. Sem inverno. Todos saudáveis e belos. Jovens e ricos. Sem exceção. Aboliu-se doenças e lágrimas. Mesmo as de alegria. Baniu-se a morte e a paixão. Aos poucos, todas as emoções foram sendo esquecidas. E a paz se instalou nesse mundo perfeito. Onde se vivia a salvo da vida. Sem amor. Sem dor. Sem morte. Sem paixão. Sem partidas. Sem medo. E todos foram mediocremente felizes. Para sempre.



Márcia Maia

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Para sempre


De olhos fechados, eu me movia para cima e para baixo, como um pêndulo, no movimento circular que ele, sob mim, mãos machucando-me o seio esquerdo e a cintura, tanto gostava. Gozei primeiro e, sem pressa, esperei até que ele gozasse, para cravar o canivete, três centímetros e meio à direita da metade do pescoço, abrindo-lhe, a um tempo, a jugular e a carótida, no momento exato em que, dentro em mim, ele jorrava. Sempre ouvi dizer que morrer na hora do orgasmo eterniza o gozo.



Márcia Maia


em Dedo de Moça, uma antologia das escritoras suicidas

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Manhã de vento e frio em Copacabana






















Domingo de maio, azul e ventoso, mar agitado, em Copacabana. Manhãzinha, caminhava pela calçada, quase vazia. Sozinha. Pensando nas coisas da vida. Na vida como ela é. Na falta de Nélson Rodrigues, em silêncio, sentei ao lado de Drummond. De costas para a avenida, de frente para o imenso mar.
O mar sempre me fascina e apazigua, sem sentir, disse em voz alta. Ainda mais agora, com tantos amigos que vez em quando, do outro lado, à beira-dele se sentam e, com carinho, me buscam, me olham.
De onde você é? me perguntou, sorrindo, o poeta. E eu, me perguntei qual foi a última vez que vi uma estátua sorrir. Talvez tenha sido Adriano, ou Atena, não em Roma nem na Grécia, mas no Louvre, em Paris.
Do Recife, respondi.
— Poetisa, decerto. Ou prefere que eu diga poeta, como agora se usa dizer?
— Prefiro poetisa, sem ofender a língua, embora a palavra poeta soe muito mais bonita. Mas, a bem da verdade, sou médica.
Ele riu. E eu me aconcheguei um pouco mais, no casaco azul, de linha fina que mal me protege do frio.
— E os seus poemas, quem os escreve? A médica?
Touché, pensei, sem querer dar o braço a torcer.
— Com certeza. Pois que a médica e a poetisa não são uma única pessoa?
Touché, ele respondeu, como se me lesse o pensamento.
E ficamos os dois em silêncio. Ele olhando para a avenida e eu com os olhos molhados de tanto mar.
Que diabos estava fazendo ali, sozinha, num domingo de manhã, conversando com uma estátua? Tudo bem que era a estátua de um poeta, mas ainda assim, uma estátua. Será que a solidão se me chegara a tal ponto? E o vento soprou mais frio.
— Posso lhe perguntar uma coisa? A voz do poeta me roubou aos pensamentos.
— Certamente. O que quiser.
— Tem algum poema meu que toque fundo o seu coração, que esteja entre os seus preferidos?
Pronto! Era só o que me faltava! Por que tinha que parar e me sentar ao lado dele? Não podia ter seguido meu caminho, com um simples Bom dia, Drummond, ou ainda sem nada falar? Mas não, tinha que sentar, procurando sarna para me coçar. Tinha encontrado. E agora, que diria? Nunca fui muito fã da sua poesia, poucos poemas seus me comovem e não lembro de nenhum? Mas, se serve de consolo, é-me exatamente assim a poesia de Pessoa? Nem morta!
Ele me olhava, com um esboço de sorriso no olhar, por trás dos óculos, como se me adivinhasse o pensamento.
— Não lembra nenhum? Ou não gosta de nenhum?
Ele riu e eu pensei que detesto estátuas falantes.
— Não é que não goste, é que, sinceramente, conheço pouco a sua poesia. E assim, de supetão, só consigo lembrar dos mais comuns, de José e o da pedra, que não são meus preferidos e dos quais você já deve estar um pouco saturado.
Ele riu alto, como nunca pensei que riria. Aliás, nunca pensei que ele risse. Nem em vida.
— Boa saída pela tangente. Além de poetisa e médica, vai ver, você é geminiana.
Foi minha vez de rir. Alto e bom som.
— Sou, sim. Então...
— Então?
— Então, melhor deixar de bobagem e falar claro.
— Muito melhor, com certeza.
— É que realmente conheço pouco a sua poesia. Conheço muito melhor a do seu amigo Emílio Moura. Ela me fala mais perto, como se me lesse. Ao contrário da sua, que, desculpe a franqueza, quase sempre pouco me diz.
Ele me olhou com carinho, pôs a mão sobre a minha e disse:
— Não há o que desculpar. Eu sempre disse que Emílio era o maior poeta das Geraes. E a Poesia é assim, tem muitas vozes. Uma para cada poeta. Uma para cada leitor. E como dizia o Nélson, em quem você pensava quando aqui sentou, toda unanimidade é burra, não acha?
Que alívio!, pensei, rindo. E lembrei de uma conversa entre poetas bem vivos, que tivera uns dias antes. Onde se falara sobre a grandeza da Poesia. Sobre o seu ir além de picuinhas, além dos rótulos. Sobre o seu abrigar tantas formas e fórmulas, díspares, diversas entre si. Sem julgamento. Sem discriminação. Sobre ser o fazer poético fado e sina. Modo e necessidade de sobrevivência, como o respirar.
— Melhor você ir andando. Começa a chuviscar.
De novo, a sua voz me roubou aos pensamentos.
— Estátua não se importa com chuva, frio e vento, mas poetisa nordestina e viva pode adoecer, se resfriar. Mesmo sendo médica.
Ele tinha razão. A chuva engrossava. Beijei a sua mão e me levantei.
— Obrigada, Poeta. Tornou minha manhã menos só e mais feliz.
— Eu que agradeço. Há muito não conversava assim. Posso fazer um pedido?
— Mas é claro! O que quiser.
— Quando voltar para casa, numa noite qualquer, leia aquele meu livro branco, que seu amigo Oswaldo recomendou, você comprou e nunca o leu.
Nem sei se fiquei vermelha, ou se bege, empalideci, naquele frio. Sei que por dentro, sorri. Touché, again, pensei.
— Leio sim. Prometo. E quem sabe, venho aqui para conversamos sobre ele. Numa manhã de sol. Menos fria.



Márcia Maia

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Quarto-crescente


A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.



Márcia Maia


terça-feira, 20 de julho de 2010

Longe do Paraíso

Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.


Márcia Maia

domingo, 20 de junho de 2010

Inferno astral



Derrapou e caiu. Um segundo de descuido, e estava no chão. A droga do tênis novo, todo cheio de riquififfis, salamaleques, amortecedores de gel e silicone, não era à prova de chuva. Menos ainda de calçada esburacada, folhas caídas e lodo. Deveria vir com um aviso: impróprio para uso no outono/inverno. E agora, a perna doía, a calça cheia de lama, por pouco não se rasgara, a mão arranhada, sangrando, a sombrinha quebrada. E três prestações da porra do tênis ainda por pagar.




Márcia Maia

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Voragem

Abriu a janela e deixou que entrasse a chuva. Até que a casa-casa se tornasse casa-rio, casa-mar. Até que surgissem as primeiras algas e uma areia fina recobrisse o que era ladrilho e mármore. Até que o primeiro peixe, veloz e prateado, reinventasse prazeres e caminhos. E então, só então, adormeceu.


Márcia Maia