domingo, 25 de setembro de 2011

Cortina de letras





É difícil talvez esconder-se na sombra das palavras. Por mais reticente que somos. Pelo menos o segredo está ali enclausurado nas entrelinhas, como um elemento que instiga. Algo singelo que fica subliminar por trás de uma doce cortina. No mais, existem palavras que destoam bem essa nossa cumplicidade com os sentimentos que permeiam deliciosamente pelo suor do nosso corpo e pelo aroma afetuoso da alma. Elucidações evidenciadas no âmago dos traços. 

Louvamos porque somos brindados com a nossa melhor face. Exposta saborosamente com o teor externo com a qual as palavras são capazes de exprimir. Descrições palpáveis de sentimentos não táteis, essências invisíveis, que são peles que envolvem os nossos mais profundos anseios. Muito do nosso calor fica vívido nas letras, como que embrulhando nossos desejos, nossas aspirações e nossos impulsos mais ardorosos, ou nossas vontades mais sublimes. A verdade fica exposta nos mínimos detalhes, fazendo com que a cortina transpareça o palco. 

A escrita faz nos sentir assim, meio que despidos por esse véu que aniquila o medo. Um elo que destoa do cinza e contrasta com a cor pulsante da alma imensamente bela e verdadeira que revela segredos. As palavras demonstram bem a matiz que somos; fragmentos coloridos da essência mais plena da alma, que mescladas formam nossa parte mais inteira e real. São várias cores entrelaçando-se, para formar a pintura exata da alma. Ou estrelas brilhantes escondidas pela cortina das nuvens. O encanto fica ali, subentendido, mas nunca totalmente à mostra. 

O dedilhar oculta o encanto que encena por trás das cortinas. Letras são apenas ensaios de uma cena maior, de um ato mais explícito. São pontos de cruz que costuram bem os tesouros mais íntimos e preciosos da nossa vida. E tudo o que sobrevive nas sombras, canta solenemente e se faz presente de alguma forma impossível de explicar. A alma estribilha em sonhos, em formas não palpáveis, em mensagens não visíveis; e tudo o que torna a alma mais condizente com sua forma de instigar, de não se fazer óbvia. O bonito é esta revelação sem revelar; este degustar sem comer. 

Por trás da cortina de letras é que preparamos o verdadeiro espetáculo. Há poucos convites. E poucos podem entrar. O tesouro mais oculto em nós não é encontrado de forma fácil. Por mais que as palavras sejam transparentes, elas apenas convidam. Só que no silêncio. Tornamo-nos habilidosos em nos ocultar, mas também em atrair. Torcemos para que colham no mais distante deste horizonte de letras o sentimento que plantamos. Este é o passaporte de entrada. Para se achar basta ter sensibilidade. É isto que aguça o olhar do coração. 

É quando já estamos inteirados de boa parte do mundo de alguém, que as cortinas se abrem, e o show fica à mostra. Estando lá, apenas uma certeza concreta: é impossível não aplaudir.

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