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sábado, 25 de outubro de 2014

Paraíso

Foto: Tony Pérez



Não precisei ir
tão longe
para encontrar
o paraíso

Achei-o
no céu da tua boca

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A face por trás da máscara

Ilustração: Ivelin Trifonov



A chuva, fraca, respingava morna em seu rosto magro, de semblante abatido. Sentia o calor embriagar-se até o coração. Sem delongas fugia. De algo, de alguém e de si. Percorria a penumbra de uma rua assaltada pelo pavor da madrugada. Uma noite fragilizada pelas badaladas de horas vagarosas e impertinentes. Sob as gotas pesadas rastejava os pés sem rumo, sem direção, carregando em suas mãos a culpa pelo ato desvairado e descomedido.

O coração palpitava quase sonolento, sofrido pela tensão suscitada há pouco. Tremia com o frio que preenchia o íntimo. As nuvens se recolhiam como uma cortina fechando o espetáculo. Conclusão épica, mas trágica; um desfecho como o fim de uma leitura, onde o fim não agrada; de um dia retirando-se, em trovoadas, para a noite comparecer. Era o fechamento de um ciclo. Abrupto. Revelador. Assustador. Seus dedos convalesciam diante do que restou. Não havia alento. Só dor.

Os passos lhe conduziam até o mirante. Mas ele sentia ir ao inferno. Mais do que quando vira. Os nervos explodiam. Mas não como antes, em cólera. Agora era de impotência e apatia. Era o resultado de um ser acometido pela adrenalina de vestir o rosto com uma indelével mácula. Sua feição era outra, era a de alguém escalpelado, com a máscara caída, com outra face construída por um vil momento; um fatídico acontecimento que o traumatizou.

Parou diante da sacada do mirante. O rio brilhava em reflexo com a luz estrelada da noite. Os olhos culposos refletiam a dor de outros olhos que o fitavam estáticos, chorosos. A imagem que ali ficaria eternizada. Seu choro era contido, engolido pelos soluços fortes, impávidos e sem ritmo. As estrelas não entenderiam o alcance de sua consternação. Faltou hesitação e medo, um receio que o impedisse. Mas ao vê-los, ao flagrá-la, o ódio permeou suas veias, desabando qualquer máscara humana que ainda lhe cabia.

A cena se repetiu pela sua mente em segundos. A culpa que lhe abraçava tinha toneladas. Arrependera. Sua nova face, antes oculta pelos demônios, formou-se no sussurro de um peito amargo, de uma tentação malévola, atendida na pressão da dor. Com um tiro matou o amante. E em segundos que pareciam séculos, matou a mulher de sua vida logo após, a quem lhe contemplara como se pedisse misericórdia. Segundos horripilantes para quem caiu em si minutos depois ao ver o sangue de sua amada. Abraçou-a em uma fúnebre despedida e disparou em fuga, ensandecido.

Agora diante da sacada do mirante, chorava pela face do desespero. Ouvia ao fundo a sirene de polícia. Nenhuma prisão seria mais dolorosa do que a imagem que ficara de lembrança. Num ato consciente, mas vestido em loucura, apontou a arma em seu próprio rosto. O cano entre os olhos lhe afundava na alma. Não hesitou. O som ecoou pelo horizonte. As estrelas cintilaram, testemunhas de seu próprio julgamento. O rio levemente se ondulou e pássaros próximos, assustados, alçaram voo para longe. E o mundo viu um homem se matar pela face que ele nunca queria ter desmascarado de si mesmo: a da vingança.

domingo, 25 de maio de 2014

Na busca por uma luz





“Não ganha quem não enfrenta. Não encontra quem não arrisca buscar. Ao enfrentarmos nossos piores medos e obstáculos, a luz fica ao nosso alcance.”


No caminho que percorremos, em busca de respostas, topamos com muitos obstáculos. O preço para conseguir encontrar razões e motivos pra viver, ou, até o sentido real de ser nesse mundo, nos leva a vivenciar experiências insólitas, e nos dá plena consciência que existem coisas que não são mensuráveis. Aí então é que reside a questão. E tudo o que nos empurra e nos faz seguir o passo recai por entre nossos braços, fazendo com que abramos os olhos e possamos enxergar um lado obscuro e embaçado. Na busca por uma luz, notamos que certo ritmo pode causar frustrações, tropeços e decepções. Caminhamos no escuro, desbravamos o mais íntimo de nossas almas, com o intuito de encontrar uma finíssima luz nessas trevas, para que a nossa mente possa iluminar um pouco. Nessa incessante caminhada, lentamente vamos observando que se não fizermos esforços, não progrediremos, não avançaremos pelos medos, pelas angústias e aflições.

Vamos acostumando e aprendendo a lidar com a dor, com as dificuldades, com os dissabores de derrotas, com as faces cruéis da realidade. Então nesse ínterim passamos por provas, por vivências que marcam nossa vida, que nos torna humanos, capacitados em aprender, a errar e descobrir nos erros, nas atitudes, as respostas para muitas dúvidas, e para alcançarmos um nível de aprendizado mais condizente com a situação. O que nos alimenta é aquela sede pela felicidade, pela busca por motivos reais pra continuar de pé, pra manter aquele sorriso no rosto, e aquele brilho no olhar. O que nos instiga sempre a perseguir novos rumos é a vontade de crescer, aprender, e descobrir nós mesmos e Deus. O que estimula é a chance de viver do lado de pessoas fora de série, de extremo carinho e simpatia. Que a cumplicidade torna sólido esse viver.

A busca nos faz fortes, conscientes de tudo que nos cerca e nos envolve. Na constante luta que travamos para apurar mais os sentidos, chances são nos oferecidas, portas abertas, rotas a serem escolhidas. Na busca por uma luz precisamos saber escolher que caminhos devemos tomar. A escuridão nos impede de ver o que está pela frente. Não temos como saber qual caminho é o correto, apenas tentar avaliar e tomar uma decisão baseada em instintos, intuições ou simplesmente impulso. Viver é seguir a cegas. Devemos descobrir por si só o que cada caminho nos reserva. Essencialmente descobrimos mais tarde que não importa qual caminho tomamos, mas sim o que vamos aprender e descobrir durante o percurso. É o que o percurso nos proporciona e nos ensina que se torna importante.

Nessa busca percebemos aos poucos que o fim não existe, e que tudo nos faz seguir até um destino sem fim: felicidade.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A Lagartixa




Ele escondia os sonhos numa velha gaveta na escrivaninha da sala. Os amores ficavam na estante da sala, agora empoeirados pelo tempo e pelo descaso. As lembranças estavam coladas no mural do quarto, porém desbotadas e desorganizadas. As dores foram espanadas para debaixo do tapete, as vitórias e os tesouros encaixotadas no sótão. As alegrias foram aprisionadas no porão e a felicidade escapuliu pelo ralo do banheiro... 

A fé, tão pujante foi expulsa de casa. A esperança que tanto queria adentrar ao recinto fracassava ao topar com as janelas e a portas trancadas. Tudo se foi quando ele deixou de viver. Tudo findou quando se escolheu morrer. Apenas a solidão esfriava suas espinhas, cutucava com dedos ásperos a sua vaga alma, perdida em si, alienada e abstraída do mundo.

Os olhos trancafiaram as belezas mais profundas e incisivas, as bonitezas que se alastravam faceiras pelo seu coração - agora triste e amuado. A chama tinha se apagado e o escuro dominado o seu íntimo ferido e desalmado. Quem o faria? Quem o salvaria? O sangue já não corria tão escarlate quanto antes, nem tão morno quanto deveria. A vida esvaía-se com ferocidade a te sua indiferença pessoal, seu abandono a si.

Mas tudo mudou quando uma pequena e fina luz encontrara um mínimo espaço para penetrar na sala, desvencilhando-se por uma brecha entre a cortina e a janela. A luz incidiu bem em seu peito. Isso o alertou, aqueceu e o inquietou. A poesia e a esperança tinha um jeito estranho de reviver as coisas mortas. Quem ia imaginar que uma lagartixa faria a cortina se mexer o mínimo suficiente para a luz adentrar... Coisas curiosas da vida.

A luz – e a lagartixa - reavivou sua vontade em viver, em ser feliz. Ele saiu do limbo e renasceu ostentando o sorriso mais lindo que já se viu.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Soneto do meu amor pra sempre




Há um amor, um amor que me é tanto
Há um coração, uma vida a qual me atento
E dentro de mim, há de ser sempre contento
Uma eterna poesia, linda, a cura para o meu pranto

Eis que me é finda ternura, um contentamento
Uma delicadeza, sentimento fiel sob terno manto
Um amor que me deduz, sem segredo, com encanto
Perene existência, que ilumina, finda com o sofrimento

Em mim ele é livre, e na alma vive sereno
Meu amor é pra sempre, meu mais belo efeito
Com singeleza, (este amor) me aceita num lindo aceno

E finda; permanece; no meu coração é o eleito
A poética que, eterna, seduz o meu ser
Meu amor é o que me dá forças pra (sobre)viver

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre amizades




- Promete nunca esquecer de mim?
- Não preciso.
- Porquê?
- É impossível esquecer os melhores amigos.

sábado, 25 de maio de 2013

Ruptura




Um pressentimento, uma solene tentação
Do som ecoando pelo coração
Notas de encanto guardadas na mão

Uma previsão, do rompimento da dor
Enclausurada no quadro sem cor
Evitando o despertar singelo do amor

Um desgaste que perpetua no ser
Emoções que se alimenta ao ver
Desejos ocultos no amanhecer

Uma sombra que busca esvair
No quebrante da alma a cair
Enlevo que no fim irás ressurgir

Querer é um simples início de amar
É ruptura, a chave para destrancar
Melodias de uma alma a sonhar

Amar é no fim tornar a romper
O lacre que evita a esperança crescer
Ruptura da dor, flores a envolver.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Confesso






Queria poder te pintar um sorriso
ver na tua face o brilho colorido
uma alma imersa num campo florido
e te ter, num risco do qual preciso

Sonharia fagulhas de luz pra te dar
e concederia uma paz sublime
para poder ver tua alma aconchegar
no colo da alegria, que anseias abraçar

Mas meu poder, é menos do que quero
E o querer, é mais do que posso
Saibas que é imenso o meu esmero
para provar o quanto te gosto

Mas não posso mais que falar
e à distância te entregar
certezas de um querer bem
ao teu coração, refém

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Da estrela...




– Lá está ela! 
– Não adianta, não sei qual é... 
– Tu não vês? É a de brilho mais bonito! 
– Ah! Pra mim são todas iguais! 
– Mas pra mim ela é única.
– Devem existir milhões neste céu, como você consegue encontrá-la? 
– Eu a amo!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

No Oculto





Estou no oculto, no subliminar, nas entrelinhas, nas reticências, dentro dos parênteses. Eu estou atrás da cortina, debaixo da cama, dentro do quarto trancado. Meu desígnio é estar perto, mas ao mesmo tempo longe. Porque eu estou apenas no desejo, na ânsia e na fome; Na tinta da caneta, no papel não feito, nas jóias que não brilham. Estou no aperto, no lotado, em grandes espaços, no oculto da fantasia, dos contos de fadas, nos livros de sabedoria. Minha vida é estar no canto, observando como espectador, tudo em volta, girar como uma roda. É contemplar a vida no auge do limiar, no limite do horizonte.

No oculto ninguém me vê, estou invisível, apenas paralelo ao mundo real. É no oculto de um olhar, de um piscar, de um grande bocejo, ou em uma palavra não dita. Estou dentro do cheio, fora do oco, estou limpo no sujo, sujo no limpo. Estou nos bastidores de um filme, atrás das câmeras, na luz que não ilumina, na sombra que não é escura. Sou coadjuvante das pessoas, sou a sombra, a lágrima que cai, o abraço que nunca foi feito, a mão que nunca foi apertada.

Estou no oculto, no sótão, no porão, na prisão, sozinho na imensidão; estou sem estar num lugar sem existir, invisível no visível, visível no invisível, estou preto no branco, branco no preto. Na reta da curva, na curva da reta.

Estou apenas em mim mesmo, no finito do infinito...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Em defesa do amor





A dor pode ser uma consequência de amar, mas não do amor. O amor é como a rosa acima do caule. O sentimento está acima, numa condição de perfeição. E o caule somos nós, o alicerce que sustenta o amor. Os espinhos ao nosso redor é nossa inexperiência em compreender o verdadeiro ato de amar. É por isso que machucamos ou nos ferimos às vezes ao praticá-lo. Amar é como colher o amor para si, o que nos deixa sujeitos a sentir a dor que os espinhos da nossa limitação em ostentá-lo podem causar. Porque somos humanos em constante crescimento, imperfeitos a ponto de não sabermos amparar este sentimento com a sábia plenitude. Há então como culpar a rosa pela ferida que os nossos espinhos causam? Não...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Palavras perdidas...




Palavras de paz
com frio e calor
palavras de afeto
brilho e fervor

Palavras tão doces
colhidas na flor
palavras não ditas
perdidas no ardor

Palavras poéticas
com muito clamor
palavras perdidas
de um sonhador

Palavras escritas
sonhadas com amor
palavras perdidas
esquecidas na dor...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O fim da noite







O silêncio era um fim. Um fim que passava lentamente.



E foi isso que ele pensou. Andando solto pela calçada, tremendo de frio e com fome, ele sentia a dor aumentar na medida em que a temperatura do corpo diminuía. Ele arquejava sôfrego, e sentia-se fraco demais pra dizer algumas palavras. Não tinha mais força pra pedir socorro. Seu rosto demonstrava um pouco de pânico, mas tinha uma principal expressão de carência. Caminhando sem rumo, com apenas uma bermuda rasgada, sem camisa, ele procurava algo em que pudesse se esquentar. Mas o vento aumentava seu ritmo a cada segundo. E isso o enfraquecia mais. O lugar tava ermo, um pouco vazio, mas considerando sua situação não era perigosa. Quem iria machucá-lo? Ele conhecia os poucos marginais que rondavam a região. Tornara-se amigos de todos da redondeza, porém ao escolher não seguir os modos de vida deles, não o ajudavam em nada. Também não o maltratavam, com a condição dele não atrapalhar a “área” deles. Ele estava sozinho.

O menino ao passar numa lata de lixo, instintivamente revirou as coisas, para ver se encontrava algo de comer. Mas não teve sorte. Não tinha nada que ele pudesse mastigar. Além da fome profunda, o frio estava penetrante demais. Nem os becos ajudavam. Nem um espaço sequer das avenidas tinha calor suficiente. Era inverno, a pior época pra quem morava na rua. Ele andava pelas ruas com alguma esperança. Sempre que se via nessas noites caudalosamente gélidas, ele corria contra o tempo. Ao passar na frente de uma casa, ele olhou uma família ao redor da mesa, todas juntas, antes do jantar. Talvez naquele momento eles estivessem orando. Ele viu duas crianças, uma menina, toda rosada, linda, aparentando 6 anos, e um garoto, todo sorridente, mais novo que a menina, talvez 4 anos. Eles estavam abraçando o pai. Logo abraçaram a mãe. Era uma cena linda, mas ao mesmo tempo doída para ele testemunhar. Lágrimas se projetaram pelos seus olhos cansados, cheios de olheiras. Ele mais que ninguém desejava tanto estar ali no lugar de um deles, abraçando seu pai, sua mãe. Chorou silenciosamente, desejando tanto estar num conforto de uma casa, no seio de uma família. Queria ser amado, querido. Mas não era.

Seus pés fraquejaram com a emoção, e ele sentou na beira da calçada, tentando lembrar algo em relação a seus pais. Mas nada. Ele nem sabe como foi parar na rua direito. Ele sobrevivia com muita perseverança, mas com pouca alegria. Talvez a esperança que lhe dava força seria o sonho de um dia poder morar em uma casa, e ter o conforto de uma família. Ele desejava, com muita força que a “noite” da sua vida acabasse de vez, e ele pudesse ver e sentir finalmente a luz e o calor do sol. Ao pensar nisso, ele esboçou um meio sorriso esperançoso. Passou suas mãozinhas pelo rosto, pra enxugar as lágrimas e levantou. No momento em que estava voltando a andar, ele foi percebendo a mudança na escuridão, e sentindo uma leve iluminação vinda do horizonte, pronta para clarear a cidade. Ele nem percebeu, mas tinha ficado horas ali na calçada, chorando e sonhando. Em cerca de poucos minutos, ele foi vendo magistralmente o sol surgir resplandecente no céu, tornando a noite, dia de novo, e enchendo de calor seu corpo. Ele abriu um largo sorriso, como se tivesse acabado de receber o maior presente de toda a sua vida. E era mesmo. Era sempre assim, todo dia, quando o sol nascia. É como se a tristeza e o frio da noite, não tivesse existido, e apenas a felicidade do dia, vinda da luz e calor do sol o contagiasse por completo.

Foi o fim de mais uma noite. Talvez não o fim da “noite” de sua vida, mas um pedaço dela. Por que enquanto houver um sol pra ele vislumbrar todo dia, ele jamais perderia a fé e esperança por uma vida feliz, sem dores, sem fome, sem frio, e com uma família, uma casa.

domingo, 25 de março de 2012

Sublime exílio






Do que adianta tentar,
se nem sei falar...
O que seria possível?
Se nada me faz te achar...

Que luz é essa
que estás a me cegar?
Vivo no escuro mental
e no branco total.

Sei que estou a ficar preso,
agarrado em tem seio,
disforme em seu colo,
belo nesse anseio.

Fico a pairar,
num exílio, sem amar.
Procuro-te muito,
mas não sei poetar.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Palavras...




As palavras podem ser bonitas
Mas bonito é o sentimento por trás delas
As palavras podem até encantar
Mas encantador é o que elogiamos com elas

As palavras podem até chora
Mas nunca na dimensão exata da dor
As palavras podem até amar
Mas nunca na imensidão do amor

As palavras podem até abraçar
Mas sem nunca ter o calor
As palavras podem até beijar
Mas sem nunca ter dos lábios, o sabor

As palavras não podem falar tudo
Mas tudo pode ser dito sem ser falado
As palavras não podem sentir
O que apenas é sentido ao ser amado

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Melodia pura




É uma pureza desmedida, transbordada num tilintar íntimo dos corações. Dá para sentir no ar a essência tremeluzindo como uma luz irradiando a escuridão. É apenas doce, suavizado em momentos ternos, incapazes de serem descritos, muito menos compreendidos. É volúpia de inverso deitadas no verso da ternura branda do querer, que penetra delicadamente, aflorando no peito sonhos de verão, regalos de vida na totalidade das emoções. É uma sensação cristalizada no finito alcance dos olhos, amansada no alcance infinito do coração. 

É possível nem mesmo notar e ainda assim sentir. É um mistério tão imenso quanto o universo e tão brilhante quanto a luz das estrelas. É como uma pluma a sobrevoar campos floridos, arrebatando a essência pura imersa no ar, para pousar sensibilidade somente por estar. É um afago delicado, presente na meiguice de um sorriso. É um sonho roubado para ser vivido. É um misto de calmaria e ansiedade; uma intensa magia que sustenta os sonhos mais afetuosos e alicerça os pedaços do âmago da alma. É um vento brando que acalenta a pele, que acolhe o calor das brisas e repousa calidamente no mais íntimo, sem pedir licença. 

A exuberância das sensações alimenta a chama mais tenra presente no coração, realinha a órbita do universo interior e concede esperança onde só tinha dor. É uma implosão de amabilidade, adornada com pérolas translúcidas de indelével querer. Vive no querer intenso, dentro de uma maresia enigmática, e de cores indecifráveis. Enfeita-se na inocência, distante do mais torpe teor. É uma presença que dorme nas franjas do carinho e reflete no espelho dos olhos, que permite perpetuar-se na aurora dos horizontes, dispersando fragmentos amorosos por todos os pedaços do ar. 

É um enlace de paixão, uma força tenaz, capaz de colocar as pétalas despetaladas no lugar. É um afã incontrolável, vívido numa mansidão calma incompreensível, transparecida em uma incólume sensação de prazer. É uma sensação que vem para infindar delicadeza e afabilidade no peito, e tremeluzir o brilho incessante de uma candura imensurável de contentamento. É um afeto explícito, coberto com uma viçosa nuvem de aconchego. É tudo e ao mesmo tempo nada. É inteiro, mas não tem medida definida. Tem a dimensão que nós queremos que tenha. 

É sinfonia entoada nas tardes de primavera. É canção que não tem letra, mas toca. Não se vê, apenas sente. É amor, melodia pura a ecoar.

domingo, 25 de setembro de 2011

Cortina de letras





É difícil talvez esconder-se na sombra das palavras. Por mais reticente que somos. Pelo menos o segredo está ali enclausurado nas entrelinhas, como um elemento que instiga. Algo singelo que fica subliminar por trás de uma doce cortina. No mais, existem palavras que destoam bem essa nossa cumplicidade com os sentimentos que permeiam deliciosamente pelo suor do nosso corpo e pelo aroma afetuoso da alma. Elucidações evidenciadas no âmago dos traços. 

Louvamos porque somos brindados com a nossa melhor face. Exposta saborosamente com o teor externo com a qual as palavras são capazes de exprimir. Descrições palpáveis de sentimentos não táteis, essências invisíveis, que são peles que envolvem os nossos mais profundos anseios. Muito do nosso calor fica vívido nas letras, como que embrulhando nossos desejos, nossas aspirações e nossos impulsos mais ardorosos, ou nossas vontades mais sublimes. A verdade fica exposta nos mínimos detalhes, fazendo com que a cortina transpareça o palco. 

A escrita faz nos sentir assim, meio que despidos por esse véu que aniquila o medo. Um elo que destoa do cinza e contrasta com a cor pulsante da alma imensamente bela e verdadeira que revela segredos. As palavras demonstram bem a matiz que somos; fragmentos coloridos da essência mais plena da alma, que mescladas formam nossa parte mais inteira e real. São várias cores entrelaçando-se, para formar a pintura exata da alma. Ou estrelas brilhantes escondidas pela cortina das nuvens. O encanto fica ali, subentendido, mas nunca totalmente à mostra. 

O dedilhar oculta o encanto que encena por trás das cortinas. Letras são apenas ensaios de uma cena maior, de um ato mais explícito. São pontos de cruz que costuram bem os tesouros mais íntimos e preciosos da nossa vida. E tudo o que sobrevive nas sombras, canta solenemente e se faz presente de alguma forma impossível de explicar. A alma estribilha em sonhos, em formas não palpáveis, em mensagens não visíveis; e tudo o que torna a alma mais condizente com sua forma de instigar, de não se fazer óbvia. O bonito é esta revelação sem revelar; este degustar sem comer. 

Por trás da cortina de letras é que preparamos o verdadeiro espetáculo. Há poucos convites. E poucos podem entrar. O tesouro mais oculto em nós não é encontrado de forma fácil. Por mais que as palavras sejam transparentes, elas apenas convidam. Só que no silêncio. Tornamo-nos habilidosos em nos ocultar, mas também em atrair. Torcemos para que colham no mais distante deste horizonte de letras o sentimento que plantamos. Este é o passaporte de entrada. Para se achar basta ter sensibilidade. É isto que aguça o olhar do coração. 

É quando já estamos inteirados de boa parte do mundo de alguém, que as cortinas se abrem, e o show fica à mostra. Estando lá, apenas uma certeza concreta: é impossível não aplaudir.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Acredita(r)




Acredita
E sinta a verdade te abraçar
Tenha fé no amor
Que a paz te alcançará

Acredita
Perceba a fluência amansar
Tenha sensibilidade
E não deixe de sonhar

Acredita
Há respostas para a prece
Sinta com louvor
O amor que te aquece

Acredita
A felicidade está ao lado
Aceite com leveza
O teu destino é abençoado

Acredita
Não tenha pressa do amar
É uma certeza
Para quem sabe esperar

Confia
Na esperança e no sonhar
Alimente a alma
Com a força do acreditar

sexta-feira, 25 de março de 2011

Soneto do encanto



A luz que faz cortejo no ar
O brilho presente no céu
A canção que toca sem parar
O bálsamo que encanta ao léu

O encanto cativo no jeito de ser
A paz infinda no modo de olhar
O poema mais simples de escrever
A confissão mais bela de entoar

A ternura no enlevo da flor
O afeto mais puro a se ofertar
A pintura mais simples da cor

O arroubo causado pelo mar
A força refletida no temor
A alma imersa no amar

sábado, 25 de dezembro de 2010

Amor mudo



Não existem obstáculos que impeçam o amor de surgir.


Eles se viam todo dia. Seus olhares eram a ponte que os unia. Seus sorrisos eram pinturas de um amor espontâneo. Seus olhos permitiam, a cada um, preencher-se no mais íntimo um do outro. Sempre nos mesmos horários. Após acordarem; antes do almoço; antes e após assistirem a série preferida deles; no fim do lanche da tarde; após a janta e antes de dormir, já com as estrelas no céu e a lua clareando a noite (por sinal, o horário preferido de ambos).

Nesses momentos sempre conseguiam ficar frente a frente. Mesmo a uma pouca distância, eles encontravam uma felicidade jamais sentida em toda a vida deles; uma sensação de alegria transcendental, nunca vivida na amplitude das sensações anteriores, aos quais eles, naturalmente, estavam à mercê. Encontram nessa nova maneira de viver, uma fonte prazerosa de amor. Amavam-se plenamente.

Viviam separados, mas na essência juntos. Fitavam-se e, apenas nesse ato simplório, sentiam-se capazes de compartilhar as mais tenras e doces declarações. Era fantástico o tamanho entendimento que tinham sobre cada um. Simplesmente encantador aquela ternura que se findava em seus encontros distantes. Os momentos em que uniam seus olhos eram os que mais davam razão à suas vidas.

Tudo que aparentemente os impedia de viver já não importava. Viver era uma realidade visível. Tudo parecia valer a pena. Essa paz grandiosa que se firmava entre suas almas bordava um amor imensurável, de rara beleza. Como se a doçura envolta compusesse melodias únicas, embalando as horas em que se amavam com o olhar. Tudo era minimamente encantador. O resvalo no ar só escondia um amor puro, difícil de ser visto hoje em dia.

Ele num prédio. Ela, noutro. Ambos tetraplégicos. Ambos mudos. Ambos se viam apenas pelas janelas, a uma distância de alguns metros. E nos raros momentos em que suas mães os colocavam de frente para a janela, para admirarem o mundo lá fora e respirar ar puro, eram os minutos mais felizes de suas vidas. E assim amavam-se, pela distância curta que suas residências tinham uma da outra; pela janela, que abria as portas de um amor que jamais alguém imaginou, mas surgiu.

Muito mais do que qualquer coisa, eram pelos olhos, as janelas das suas almas, que ambos verdadeiramente se presenteavam e adentravam no mais íntimo da cada um. E assim descobriram-se, numa das mais ternas e emocionantes intervenções do amor de Deus. E assim encontravam-se todo dia, com a intenção singela de se amarem e serem felizes. Para os dois, nem todos os obstáculos que a nova vida lhes oferecia era capaz de impedir essa magia que encontraram um no outro. Tudo parecia possível e pequeno quando seus olhos se encontravam.

Jamais deixaram de ser ver, desde que descobriram o amor um no outro. Porém, houve um dia em que, curiosamente, ele não a viu do outro lado da janela. Isso o atormentou muito. E para alguém que não podia esboçar ou fazer qualquer gesto, nem falar, era imensamente frustrante (e doloroso). Mas antes que seus olhos derramassem lágrimas, sua mãe entrou no quarto. “Filho, adivinha quem veio te visitar?” E com um leve aceno no rosto, sua mãe confirmou. “Ela!” Seus olhos brilharam e, com uma das poucas coisas que ele sabia fazer de melhor, ele sorriu o sorriso mais bonito da sua vida. E não era preciso traduzir mais nada do que ele sentia. Mais nada...