sábado, 8 de agosto de 2009

Apenas vestígios


Não sei dos meus caminhos
de amanhã.
Nem de hoje daqui a pouco.

Sei que tenho pernas
e espasmos de intuição.

E prazer nos labirintos.
E tenho cestas de maçãs.

Detenho um grito rouco,
e pressa em seguir chão.

Meus rastros se perderam em
ânsias,

e certos pedaços de asfalto
são apenas ruas sem importância.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Antes que a morte se revele a única saída
Caminharei meus passos trôpegos em busca de abrigo
Deixarei em suas casas minhas cartas de desculpa
...............................................E despedida.
.
Antes que a morte me venha como solução precisa
Direi meus amores aos amores que nunca tive
Sairei nu sob a chuva da maneira que sempre queria
................................Esta será minha despedida.
.
Antes que a morte me tome e me possua inteiro
Confessarei meus desejos insanos e débeis fantasias
Escreverei as poesias não vividas e caminharei
...............................Rumo a minha despedida.
.
Antes que a morte venha como recompensa
Beijando-me a pálida face e o coração se farte em viver
Dançarei solitário à sombra da cidade adormecida
.........................Assim se dará minha despedida.
.
Antes que a morte venha e se acabe a vida
Serei eu, no fundo do poço sem fundo,
Um oco no eco do mundo, vazio no tempo profundo
............................Fazendo minha despedida.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Diálogo fúnebre sobre a Vida

Let Wisdom Guide by Adam Howie

Disse-me a Morte
que a sorte
não é sequer
contorno de linhas perdidas

o amor
a busca de uma sombra no arvoredo,
que seja igual à minha

e a felicidade
é Vê-la chegar
e sem medo
entregar-se
num suspiro
de saber
Ter Sido

Caroline Schneider

domingo, 2 de agosto de 2009

Palavra

A palavra é banal
Mas todo mal que dela provém
Não se sustenta
Em uma língua seca

A palavra, mal dita,
Banal, ressuscita o verbo,
A verve que tua boca,
Resseca

A palavra, então,
Maldita,
Te apimenta a língua
Em lembranças meninas

E em teus lábios renasce
Palavra
Afinal
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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Retrato Falado

Imaginá-lo pensando em um céu esterilizado, completamente
desabitado, não é exercício de muita poesia. Não há poesia
alguma em vê-lo esmagado pela solidão.

Seus planos sangrentos, encharcados de crueldade, nem
devem ser mencionados. Nunca matará ninguém.

É tomado de pesadelos que acorda: seus projetos de esfaquear
pelas costas, incendiar casa com gasolina, atropelar e fugir,
nunca sairão do papel. Logo o sangue congela nas veias.

No fundo do poço o escape que lhe ocorre é cavar.

domingo, 19 de julho de 2009

Dos silêncios



abro os olhos e vejo que o carro está de cabeça para baixo não consigo virar o pescoço cadê meu filho preciso me concentrar calma 1 2 3 preciso sair daqui abro a janela me arrasto me corto no vidro o outro carro todo quebrado também maluco desgraçado meu filho no meio da estrada ai meu deus está morto filho filho o motorista ele me chama desesperado pede socorro tento alcançar meu filho consegui está morto mesmo e agora o que eu faço meu deus ele me chama de novo eu me arrasto até ele a estrada está vazia ele pede socorro pede desculpas eu me aproximo e puxo sua cabeça para fora do carro ele agradece chora eu ponho a mão na sua boca e tranco seu nariz ele se debate e se debate eu não consegui me despedir do meu filho e fico quieta ali matando o tal do motorista devagarinho ele ia morrer mesmo ele consegue soltar um som pela boca eu aperto mais a mão e digo

-Shhhh quieto. Quieto.

domingo, 12 de julho de 2009

Biblioteca



Naquele prédio imponente

Repleto de palavras ilustres

Só restava espaço para o silêncio, reverência

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tez necessária

Da lástima em forma líquida
sobra o rímel escorrido na face

judia!

Envergo(nho)-me
pelas chibatadas
rumo ao campo
de concentração

E de novo tentar entender
é correr atrás da sombra
(vão)

Rosto borrado
atualmente antigo

A guerra nada mais é
que a menina que rouba risos

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Reciprocidade inegável

Um amor era o que eu não tinha. Na verdade sofrer era o melhor sinônimo para ele. E você não pode acreditar que tudo de repente mudou, da noite para o dia...

- OK, Sr. Tomas na próxima semana continuaremos com nossa conversa.
- E o que faço até lá?
- Bem, continue tomando seus antidepressivos e não chegue perto da sua ex.

Tomas faz parte da classe de seres chamada "amantes". Convenhamos que o amor tem um lado bom, embora você rapidamente esquecerá qual é ao deixar de amar.

E nossa historia não acaba aqui, vejo vocês em breve.

sábado, 4 de julho de 2009

Mendigo estrelas



Mendigo estrelas
a me tombarem luz
pelas calçadas

Em noites escuras
vago, sem rumo,
nas madrugadas
Anseio ver - quem sabe -
aquela cadente
que inda mantenha
deserdado brilho
que seja qual à jura nunca dita
que seja igual a sede que me voga

Mendigo estrelas...
pois sem elas, minha noite empalidece
e a solidão toma o tamanho do Universo

Caroline Schneider

quinta-feira, 2 de julho de 2009

...

Respiro teu perfume
em meus dedos de seda
Me alimento do teu gosto
em meus lábios crispados

Na fina pele
percebo teus gemidos
Na ponta da língua
me abasteço
de você

E o poema nasce assim,
órfão de sentidos
repleto de ti

Se esparrama
como sêmen
sobre a pele incauta

Ocupa o espaço
onde, antes,
nada.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Quaresma

na quadragésima hora
as badaladas avisaram
que chegavas
cobri teus olhos

panos arroxeados
sombras e flores
te escondiam da ressurreição
em que tateavas

dedos longos que escapavam
deslindando pele e sonho
tuas asas de anjo torto
a me adivinhar!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Classificados

V
23/02/04
para Oledir Cruz


* Vendo fazenda com cem cabeças de gado leiteiro, sede própria e dez homens para abate.
* Procuro um motivo para procurar.
* Racista frustrado compra pele branca para ter sua ideologia edificada.
* Bicicleta sem pedal procura ciclista sem pé para um passeio descompromissado.
* Vendo esperma de rã. Rua 5, bairro 6, quadra 7.
* Poeta desempregado se oferece para trabalhar de mecânico hidráulico.
* Compro ovos de ornitorrinco.
* Patrícia Fossa Escura oferece seus serviços: sexo virtual e masturbações telepáticas – sujeito à consulta de crédito.
* Vendo ovos de ornitorrinco.
* Ofereço-me para jantar em sua residência. Falo baixo, tenho modos, sei manusear os talheres. Lavo os pratos. Todos.
* Canibal vegetariano procura psicólogo – de preferência gordo.
* Sósia de Marx se oferece para trabalhar de Papai Noel.
* Compro esperma de rã. Rua 7, bairro 6, quadra 5.
* Obra composta por lexicógrafo promete esclarecer dúvidas, duvidas?
* Vendo um rim em bom estado de conservação ou troco pela quitação de um carnê nas casas Bahia.
* Vendo por um bom preço, em ótimo estado, um ano de uso, documentos em dia, linda cor. Tratar na casa ao lado.
* Vendo pandeiro, cavaco e timba ou troco por guitarra elétrica, bateria e baixo.
* Futuro suicida compra revólver de grosso ou médio calibre para se proteger dos assaltos constantes na vizinhança.
* Vendo, pela metade do preço, esse espaço.
* Caríssima Neguinha, eu te imploro, volte para mim! Eu não sei o que fazer sem você, eu já tentei de tudo... pelo amor de Deus, volte para o seu Pretim!
* Fã desesperado do Jota Quest procura com extrema urgência um especialista otorrino.
* Espírito malévolo, recentemente desencarnado, procura médium (de preferência Kardecista) para esclarecimentos metafísicos.
* Vendo, ótimo preço, fita cassete virgem, ainda na embalagem.
* A solução dos seus problemas: vendemos Deus. Suaves prestações. Satisfação garantida! Todos Domingos, na Igreja mais próxima de sua casa!





(do livro Memórias à Beira de um Estopim)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Uma pausa na literatura



Não é fácil perder alguém em um acidente de carro. Os familiares e amigos que ficam não tem o tempo necessário para elaborar a iminência da perda, quando, por exemplo, a pessoa querida é acometida de uma doença que a enfraquece pouco a pouco.
Já vivi essa situação três vezes: tive dois primos que se foram em acidentes de carro; ambos estavam sozinhos e aparentemente foram vencidos pelo sono.
No caso de Marcela, uma psicóloga brilhante, colega de faculdade, foi diferente. No dia das mães de 2004, ela saiu cedo de casa para comprar flores para a mãe. Na ponte Costa e Silva - aqui em Brasília - quando estava a cerca de 50 km/h, foi atingida por um idiota que voltava de uma festa a fantasia.
Ah, antes que me esqueça: o imbecil estava a mais de 120 km/h em um lugar cuja velocidade máxima permitida é de 60.
O assassino sobreviveu ao acidente e ainda responde ao crime. Marcela morreu na hora.
Quatro meses depois, a mãe dela não aguentou a perda e usou um coquetel de remédios para ir de encontro a filha...
As fotos aí de cima foram tiradas no balão que dá acesso ao aeroporto de Brasília. Faz parte de uma campanha do governo para conscientizar a população através do choque. O carro não é de "mentirinha", pessoas morreram nele justamente por causa da combinação álcool-trânsito.
Para problemas radicais, alternativas de solução radicais. Seria também interessante que o governo colocasse tais instalações na frente de escolas infantis e faculdades, boates, bares da moda, etc...