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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Renúncia



Destituo-me de qualquer titulo,
Entrego-te a pena para que faças dela o que quiseres,
Não sou o que imaginas, tampouco o que desejas,
Sou um aluado devaneando sonhos!

Renego qualquer herança,
Os rabiscos nos muros são mais sinceros,
Mais honestos, mais poéticos,
Estas palavras, aqui rabiscadas, nada valem.
Servem apenas de muleta onde escoro meu corpo fatigado
Tentando equilibrar-me sobre as pernas que já não andam!

Meu rótulo é a cortina cerrada,
É o final da cena, o aniquilamento no escuro das coisas!

domingo, 7 de julho de 2013

...

Ecoam dissonâncias
Absurdas palavras
e erros

Um grito estranho
nas sombras
                   da noite

Espada em riste:
iminente batalha
em busca do nada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

(...)



Eram simples tentativas de se comunicar com o mundo. Não lhe cabiam as simbologias. Nem mesmo as linguagens. Apenas a deformidade dos acontecimentos. Algo como um terremoto interior. Os passos em que caminhava pela rua eram meio trôpegos. Torpes eram os caminhos. Não haveria lugar no mundo. Lugar aonde pudesse se refugiar do inconcebível. Jamais se resignara. Em tempo algum haveria de se curvar. Poderia quebrar-se ao meio. Poderia partir-se inteiro: não se curvaria. Não se ajoelharia diante de reis nem de deuses inoportunos. Era inquebrantável na descrença. Contudo, era esperançoso. Não se admitia mergulhado em fatalismos. Sua capacidade de crença estava direcionada à potencialidade do ser humano. Sem maniqueísmos sabia das direções e impulsos racionais que nos levam a prática do bem ou do mal. Nunca separou os semelhantes em joio e trigo por achar a parábola inconveniente. Preferia acreditar em pessoas desajustadas socialmente. Ele, por exemplo, não se alinhava ao comum das gentes. Vivia a parte. Observando os acontecimentos sem desprezar os fatos. Afinal, era preciso refletir. Antes de tudo, antenava-se nos novos ritmos da cidade que cada dia mais se tornava intransitável. Carros, desvios, gente descolada demais, tresloucados fugindo de si mesmos nas cracolandias (ou tentando se encontrar num ambiente hostil que lhes ofusca a visibilidade). A polícia e o Estado expulsando essa gente dos centros. Levando-os sabe lá para onde. E, aqueles mesmo descolados aplaudem a limpeza das praças. Que sumam com aqueles pobres chupadores de pedra. Fumar unzinho pra relaxar é coisa de bacana – é até legal – não essa loucura que está solta nas ruas; esses tresloucados analfabetos que ficam empestando a cidade: ora roubando ora na mendicância.

Não se tratava de um jovem transviado. Viver na alucinação diária é calamitoso. É corre- corre para estudar. Formar. Ser alguém direito. É a luta para se ter um emprego para a sobrevida que levamos a esmo. Se adequar é difícil. Corta o cabelo, apara a barba, camisa dentro da calça, cinto a combinar com os sapatos. Gel no cabelo. Perfume. Cheiro de gente de bem. “Que merda é essa em que estou me transformando? O retrato do vizinho imbecil do AP 804. Agora só me falta uma colocação na repartição pública. Vá se fuder – vidinha mofina.” Tenta provar pra si mesmo que é um desajustado. No fundo sabe que não é. Segue todos os padrões e ditames da moda. Seu pensamento é escasso de sobriedade. Está sempre a repetir frases alheias. Disfarçando de intelectual de boteco. Se houvesse um interlocutor a altura discutiria Nietzsche. Falaria horas inteiras de como somos produto do meio. Ou das relações do homem contemporâneo e os meios de produção. Porém, todos os seus encontros são banais e se forjam nas inúteis futilidades diárias. Qualquer encontro ou conversa é como uma avalanche de parvoíces onde os assuntos estão incrustrados da grande torpeza televisiva. E todos os homens parecem modelos saídos diretamente daqueles programas de auditório desqualificados onde toda mentira gera polêmica sob o trajo de verdade indissolúvel. Impossível ser honesto nas amizades, exprimir os pensamentos que o atormentam, compartilhar experiências. Afinal, todos estão ligados na vibe. Altas discussões sobre a validade do título inédito conquistado de forma invicta por aquele time de milhões de torcedores. Nada mal aquela jogadora de vôlei gostosa que saiu pelada na revista desse mês. E vai cerveja, vai tira gosto, mais cerveja e tira gosto. E o papo não muda a fita. Sempre a mesma falação. As lutas do Ultimate. Aqueles trogloditas a se encararem dentro de um quadrado (octógono, tá bem?) rosnando como cães raivosos. Ah, barbárie! Seja bem vinda à vida desses reles mortais. Ah, barbárie! Seja bem vinda ao cotidiano de nossas crianças. E assinam os canais de Combate. E discutem as regras do jogo, ou mesmo a falta delas. O objetivo é finalizar o adversário (ainda não estão autorizadas as mortes, mas basta César, fazer o sinal de aniquilamento e elas virão). Banalidades. A vontade de estar trancado no quarto entre os livros e discos. Ouvindo Blues, curtindo Jazz.  Lendo Bukowski e se mijando de rir com as sacadas bem humoradas: “você tem que trepar com um grande número de mulheres/ belas mulheres/ e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.” Sentado diante do notebook tentando escrever alguma coisa que preste. E que não esteja infectado das patranhas diárias. Mas ele sabe que é impossível não contaminar-se. É impossível viver sob um escudo que o deixe isento. É impossível sair ileso, não sofrer danos nas retinas, nos tímpanos ou na alma. Mesmo que feche os olhos, tape os ouvidos, em algum momento, virá a chuva de banalidades. E, não adianta livros, discos, filmes. Não adianta ser cult, cool ou anarquista. A presença da mediocridade nos assombra. E esta sombra é o que nos envolve diariamente tentando nos converter, tentando nos convencer de que somos todos iguais e que devemos continuar sendo iguais. 

sábado, 7 de julho de 2012

Cronicazinha Inútil


Homem carregando fardo - Goya

Não sabia que era tão difícil ser gente grande. Se o soubesse antes, pediria para ficar miúdo; menino entre os outros a correr atrás de sonhos e bolhas de sabão. Rabiscando mil palavras ocultas em códigos inexplicáveis no chão de terra do quintal dos fundos. Pediria para permanecer menino, brincando de esconder nos quintais vizinhos; roubando frutas frescas nos eternos pomares de minha infância.

Se soubesse o quão angustiante é ser homem feito, pediria pra continuar um calça-curta a jogar bolas-de-gude e soltar pipas; a cobrir a cabeça com o cobertor por ter medo de escuro e, descobrir-me repentinamente, devido o escuro também estar dentro dele. Pediria para todo homem ser menino. Que os amigos nunca se afastassem. Que a vida nunca fugisse de nosso domínio. Que todos os dias fossem domingo, ou feriado, ou dia santo, para poder brincar na praça, ver a banda passar. Que todas as festas fossem de congado ou marujada, reizado ou folia. Que todas as manhãs fossem de sol com chuvas leves à tardinha. Que todo o tempo fosse primavera, enfim.

Ah! Se eu soubesse como é ser grande e nos ombros um fardo a carregar. Se eu soubesse como é ser homem e suportar a dor de viver. Pediria eternas manhãs de canários, bem-te-vis e pintassilgos. Insistiria em meus tempos de moleque a andar no mato e ver o sol no primeiro instante da aurora avermelhando as montanhas que circundam o meu lugar primeiro. E, não amargaria estas noites de insônia na distância dos dias, sendo corroído por essa melancoliazinha latente a que chamamos saudade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Variações do tempo


O tempo escorre nas têmporas
E a inocência vai cedendo lugar
Às certezas inconvenientes

Os dias festivos e ingênuos
Permanecem na memória
A mostrar o quão brutos
                   [nos tornamos

Aventureiros sem medos
Desbravamos emaranhados
Enfrentamos mistérios
                     [e sortilégios
Negamos nossa fragilidade
Encaramos a morte
Sem crê-la possível

Mas, viver! Só agora.
Não por medo da proximidade
De um possível final
Não pela ameaça,
Que, desavisados, sempre
Fora iminente,
Desde os tempos pueris

Agora sim, é tempo da felicidade
Almejada,
Tempo de fazer os gostos
E viver, enfim, pra si mesmo
Resgatando nas lembranças
As alegrias da vida que passa
E vivendo dia a dia
As possíveis alegrias
Que ainda, assim, nos arrasta!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Atemporal



Poemas escreviam
na tessitura das manhãs
manhas instigando sonhos
florescência inquietante
inquirindo desafios

Poemas escreviam
na casca de árvores envelhecidas
profusão de ecos e silêncios
um hino ressoando livremente
nos confins dos tempos

Poemas escreviam
nas gotas escoando imprecisas
imprevisíveis memórias crescentes
se expandem latentes
arrastadas ao vento

Poemas escreviam
na imponderável simultaneidade
eventos circunscritos na pele
marcas rudimentares
mapeavam os vincos
do tempo

Poemas escreviam
na vertiginosa soleira:
poeira assentada
na funda ampulheta.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Outras Confidências




Não sou funcionário público,
Tampouco tive gado, ouro e fazenda.
Na parede, nenhum retrato
Resgata-me da profusão sentimental
A inflar saudades em meu peito.

Vivo submerso em sonhos e retalhos,
histórias e improvisos;
a tristeza aqui dentro instalada
é amálgama de ferro corroído.

Se eu trouxesse todas as prendas exemplares,
Todas as notas de canções já esquecidas
Transmutava essa tristeza descerrada
Em completa explosão de alegria,

Mas, por hábito, abracei o sofrimento,
isolado mergulhando em noites brancas,
de outros tempos da vida erigi lembranças
que se esvaem simplesmente em contradança

De tão porosa a alma está incomunicável,
ferido o orgulho
maquiado qual ferrugem
de tanta mágoa
me encerro em outra pauta
escrita apenas da alegria que em falta.

domingo, 7 de agosto de 2011

Rio do Tempo


Sinuosidade a correr
Caudaloso, intenso.
Vertente margeia
Intensidade perene.
Rio grande, rio do tempo,
Temperamental desafio;
Transbordante
Avançando no eito,
Transpondo margem
E leito
Feito onda de mar.
Enchente
Enxurrada
Rio invasivo
Evasivo
Rompendo divisas
Correndo, correndo
Escorrendo
Dos montes
Alastrando em meus olhos
Irrompendo no peito
Vazante que jorra
Intempestivamente
E chora
Rio-abaixo,
À beira, à margem
Da vida que vagueia
Rio intenso,
Rio vivo
Rio lento
Serpenteante
Rio do tempo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Uma tentativa poética***

A poesia se move silenciosa
No interior das coisas
Como serpente à espreita
Espera o tempo exato
Num bote certeiro
Mordendo as palavras
Arrastadas ao ninho
Úmido e fecundo
De pensamentos indomáveis

A poesia é como o urro da fera
Na noite escura
Cerceia a presa, se impõe
Enclausura o verso
Em cadeias extensas
Devora, domina, suprime
Significados

A poesia arrasta em sua onda
O poeta –
Que anda em sonhos, em círculos,
Em sendas – perdido.

Como gato acuado
Ela salta, cai de pé,
Se equilibra nos telhados,
Sob a luz da lua
Uiva ociosa no cio.

Impúbere debutante
Em sonhos de ontem.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Velhice

No copo sobre a mesa
- a dentadura.

Roupas velhas,
jornais e revistas.
tudo que preciso
era guardado
sob o colchão.

um pedaço de papel
uma caneta
um verso qualquer -
atropelado -
enrolado em teus cabelos.

Trêmulo, ainda rabisco palavras,
construo desaforos,
desabafos que se perdem
sem rimas ou objetivos.

Da música lembro-me vagamente.
Descompassados sorrisos
ao trinado de Miles Davis.


A poesia ainda pulsa
desordenadamente.
Os versos se perdem,
pendem do peito
entre os retalhos da vida.

sábado, 7 de maio de 2011

Tudo fantasia




Toda força que se move
De dentro para fora
Como explosão de estrelas
Que se chocam

Todo o delírio que invade
As sombras da alcova
Como o silêncio de morte
Que nos atravessa

Todo segredo que se esconde
Ante o manto fúnebre
Como um corpo febril sob a seda,
Que nu, se oculta

Todo lampejo que vibra
Entre códices e signos
Como o contágio de dores
Que nos aniquilam

Toda forma que se define
Entre o acerto e o erro
Como estetas de idéias
Que reinventam mordaças

Toda loucura que move
Entre a prosa e a poesia
Como mulher seminua
Que nos conduz à orgia



quinta-feira, 7 de abril de 2011

ESFINGE



ESFINGE


Sob a sombra da noite fria
Invoco seu precioso nome
Esperando com alegria
Tua carne saciar-me a fome

Tateio teus horizontes,
Teus montes e cordilheiras
Embora no pequeno regato
É que mato minha sede

Escorro por tuas sendas
Colado em tua pele
Langores submersos
Em alma que padece

Nas curvas de teus recantos
Me cravo e desfaleço
E entre teus montes me afogo
Sonhando o recomeço.



segunda-feira, 7 de março de 2011

(...)

A poesia passou suja e maltrapilha
à minha porta, pediu comida
pediu esmola para matar a fome e a sede

não lhe dei ouvidos,
nem sequer alguns centavos
agora, a me ver de esguelha,
atravessa a rua
indo bater em outras portas

comigo não flerta de longe
nem envia sorrisos
que a tantos distribui

para mim, apenas um dedo em riste,
que me aponta obsceno
lembrando-me o que não fiz.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Para uma cidadezinha qualquer



Pequeno mimo a perder-se ao longe
                                              [nas Gerais
Em furtivos fatos de antanho se via
A mocidade anêmica e trivial fobia
A expandir-se a sombra do horizonte
                                                   [extremo
Oh, diminuto espaço, protuberância
 se cravar nos montes – com que ânsia
Almejas alcançar os céus?
A qual sorte de ventos
Deixaste o teu triunfo crendo a vida
Imenso carrossel?
Oh, pobre menina, por que deixaste
                                               [a trança
Envolvendo-se em longos dramas
Sem exercer nenhum papel?
Coadjuvante de um filme sem regras
Suas noites são matizes de carolas
                                             [que rezam.
E tu, pequenina, dormes.
Inocente e febril em desejos recalcados
que ninguém vê.
Pobre cidadezinha distante
que agora como antes
em gemidos reprimidos segue a desfalecer.
Descanse em paz cidadezinha 
Sob os escombros da modernidade
Mergulha no caos – deserto dissonante –
Em lupanares de excentricidades.

_____________________________

***não consta autor do quadro no site:  http://www.dreamaid.com/viewProductAction.do?id=937

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Breviário d’versos

Breviário d’versos

1.

quero a palavra disforme
análoga à forma das nuvens
prenúncio de coisas tardias
vazio sem nome –
             buraco negro a engolir estrelas.

quero o verso vazio
poesia de coisa nenhuma
silêncio em seu contrário
vazio sem nome –
             Sputnik a vagar no espaço.

quero o regresso à terra
o abraço do solo escuro
anúncio de coisas inúteis
vazio sem nome –
              Morte a engolir a vida.

domingo, 7 de novembro de 2010

Canção de ninar a menina rosa e flor




para Ana Izaura

vem me ninar, amor;
com teu calor que sei
ter o ardor de quem
se abre feito flor.

Vem, menina, na dor
que sempre me detém
quando estou tão só.

Vem me ninar, meu bem;
com uma canção de cor
que vem além do ser
em seu refrão de amor.

Vem, menina em flor,
sorriso sem igual
fazer um vendaval
neste meu coração.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dos quereres e do espanto



sob o manto escuro da noite
vem teu corpo aos meus assombros
privilégios feitos de açoites
forçar-me o fardo sobre os ombros

ante prazeres e desconfortos
o gozo singelo de um coice
a ceifar-me o peito a foice
de quereres absortos

do céu ao chão reluz febril
a inconstância de suas tranças
aos nossos olhos o teu ardil
inveterado feito dança
transpõe as chamas em acalanto
num último grito de espanto.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

É inútil a palavra

É inútil a palavra

Aflorando das murchas manhãs de inverno
Rasgando a carne de nomes que se confundem
A outros nomes e almas que se dissipam
Na neblina turva do ar sepulcral
Que se eleva
Na orla intangível da vida.

É inútil o verso
Travestido de incongruências e dissonâncias
Que escapam entre os dedos
Transbordando medo e insônia
Tédio da vida escassa de anseios
Que perpetua a inalterável
Transposição rotineira das horas.

É inútil a poesia
Impregnada do ocaso dos dias cinzentos,
Seu sopro morno nas têmporas
Rotulando o caminho impreciso
Em tempos de angústia e espera
Lamento intenso – quimera –
Por ver toda a vida perdida.

sábado, 7 de agosto de 2010

A rosa

créditos da foto: Flávio Offer


Os pássaros cantam.
A rosa...
a rosa se cala
em busca de encantos
provindos da própria alma!



*** Poesia do Livro "Cata Ventos", 2005.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Poeminha

Poeminha

Contudo me darei inteiro
Mesmo que de mim
Reste apenas um pedaço.

E do pouco que terei
Para oferecer-te
Ter-se-á a melhor parte.

No que há de mim perdido em frangalhos
Há, enfim, precioso fragmento
Das partes imputadas em cabais momentos
Meu inteiro é tudo que preciso

Te oferto em meio a risos
pequeno estado de contentamento
Dividido em partes de improviso
O que a ti agrada plenamente!