Mostrando postagens com marcador Sérgio Bernardo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sérgio Bernardo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Fuga

Sempre que sonhava com cobras constritoras bastava um salto, preciso, para escapar. 

Foi a mãe que o encontrou enforcado junto à cama.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Babilônia 2007*

Para não ver como gueto
esse bairro impróprio
esculpido na pedra
há que ouvir sua gente

e nas casas 
entender o sorriso
saborear a lágrima
beber do café
ou da coca-cola

subir o escadão
desintelectualizado
sem sociologias
e antropologias
mas com a alma aberta
a tudo o que entrar:
toda a humanidade
das pessoas simples
que penam 
mas também festejam
cozinham o feijão
criam os filhos
odeiam e amam como o resto de nós

estar lá
como um iniciado
nos mistérios do mundo
e enfim decifrar
outro de seus códigos:
favela sobre o morro
— algo como
a vida numa estante.


                   * Assistindo, em janeiro de 2007, ao documentário ‘Babilônia 2000’, de Eduardo Coutinho (1933-2014)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

CICLO

O menino come terra
depois
a fome de sempre
e a terra come o menino

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A MORTE ME VISITA

Um morto
com aqueles olhos sem horizonte
iguais aos das bonecas
não pede nada

Aceita as missas que mandam rezar:
nele não há mais dúvidas nem certezas

A um morto
não interessa se comemos
o que fotografamos
nem se teremos o cuidado de alguém
perto de estarmos como ele:
mortos

Um morto
(lhe foi tirada a propriedade de pagar)
não nos deve nada


[Sérgio Bernardo Correa, poema inédito em livro]

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

ABERTURA

Do asfalto
fez-se um inferno à revelia:
desde antes, quando à partilha
faltou grande parte.
Quando a cidade inaugurou-se
com desníveis e arestas,
exclusão na argamassa
de cada muro
ou edifício,
contrários entre as ferragens.

A diferença abriu-se sem testemunhas.


[in "Asfalto", Selo Off Flip, 2010]

terça-feira, 2 de julho de 2013

LIVROS DA ESTANTE

Como quem inaugura lápides
encontrou a poesia de Pound
entre os ossos do frango 
(já de dois dias)
comido frio no desjejum
: alimentou-se da primeira
embora tenha vomitado o segundo no chão da copa.

As plantas dos pés enraizadas no piso
de repente imaginaram caminhos possíveis
: estava suspenso pela poesia
ente que não conhece a imobilidade.

Um livro
depois outro.

Um poeta
depois outro.

Plena manhã
e ele engravidando cemitérios.



(poema inédito em livro)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

INABITAÇÃO

O que move a invasão
são os músculos sem força
e uma vontade de ferro
de rachar o asfalto:
deixar para trás
o trânsito dos ratos,
as fezes dos pombos.
Um abrigo morno
de futuras mães
de futuros 
invasores de espaços
sem habitantes.
Quase moradia,
mas parede e teto.


[Sérgio Bernardo, em "Asfalto", Selo Off Flip, 2010]

segunda-feira, 2 de julho de 2012

FRACTAIS


O dia
compõe em mosaicos
meus instantes

Amanheço fragmentos
e durmo
ilusão de conjunto
na mais total
incompletude

Como quem se mira
em espelhos quebrados
restauro
utópicos fractais
de mim

ainda encontro a forma
de esculpir-me
um corpo indivisível


        
             [Sérgio Bernardo]                                                               



                                              


sábado, 2 de junho de 2012

KAFKIANO

O poema
essa metamorfose
do pensamento


                        Sérgio Bernardo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MORTE COM PÃES


Comprou pães e morreu. Simples assim. Nada com a pompa de uma ópera.
Entrou na padaria, escolheu pães mais clarinhos, chegou a ter na língua seu sabor milenar, depois voltou à calçada, sentiu uma dor do lado e morreu amparado por um desconhecido.
Aquele senhor disse que ainda era bem jovem, aquela moça suspirou que era um homem bonito.
No fim a rua apagou a imagem: o óbito foi esquecido pela dureza do asfalto, alguém levou a sacola com pãezinhos.
(Sérgio Bernardo)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

CONDOMÍNIO AGORA


O monstruoso edifício,
a pressa nos elevadores
engole gentilezas diárias.
O bom-dia se perde
esmagado pelos decibéis
dentro de ouvidos adolescentes.
O esfregão do zelador
trafega entre a urina dos cães
e a terra solta por sapatos.
Ninguém desacelera os passos
para admirar um vaso com violetas
que a mulher do síndico trouxe de uma festa.
Mora-se ali:
viver seria uma outra coisa.

[Sérgio Bernardo]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LIVROS DA ESTANTE


Como quem inaugura lápides, encontrou a poesia de Pound entre os ossos do frango (já de dois dias) comido frio no desjejum.
Alimentou-se da primeira, embora tenha vomitado o segundo no chão da copa.
A planta dos pés enraizada no piso de repente imaginou caminhos impossíveis.
Estava suspenso pela poesia, ente que não conhece a imobilidade. Um livro, depois outro. Um poeta, depois outro.
Plena manhã, e ele engravidando cemitérios.
                                                                           [Sérgio Bernardo, 2011]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Não sou da mesma raiz que Jack


Uma vez um crítico, falando sobre Tropa de elite, afirmou que antes, ao se fazer cinema, se buscava uma conscientização maciça, um coquetel de ensinamentos em dose única para o inconsciente coletivo da plateia. Opinou que o filme talvez seja uma experiência antiartística. Os que vão assistir a filmes assim estariam em busca não de mais um triler de violência enquadrado na ancestral fórmula maniqueísta. O público, de fato, estaria atrás de alimentar sua necessidade de vingança.
            Eu me pergunto, apenas, como procurar resolver nossa vingança enrustida numa sala de cinema. Ou lendo um conto. Ou visitando uma mostra de quadros. Busco nessas formas de arte, ainda (e, se for verdade o pensamento daquele crítico, talvez seja dos poucos que restam), respostas que me afirmem que não somos seres acostumados à violência, à corrupção, ao ódio. E que me garantam que nada disso virou norma, culto ou instituição.
Não me interessa na arte a antiarte. Ela já está nos jornais e pode deixar em paz os livros. Está nos noticiários da tevê e não precisa se transformar em imagens para as câmeras dos cineastas. Um livro ou um filme que desperte minha sede de vingança contra um assassino me provaria que estou preso ao chão pela mesma raiz que ele, e não passaríamos de dois troncos crescendo sob a ilusão de estar separados. Não tenho, juro, qualquer ligação subterrânea com Jack, o estripador.
O mundo, muito mais que de vingadores, tem é necessidade de artistas. Estes, com suas músicas, obras, imagens e poemas, não consta que já deram a alguém motivo para uma vendetta. Nem mesmo ao V.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O violino

Entrou no ônibus com a grande caixa escura que continha um violino. Seu assento era na janela e foi tratando de depositar com todo o cuidado o volume na prateleira sobre os bancos, como uma mãe colocaria seu bebê no berço. Pensou que se o ônibus corresse além do normal poderia danificar o instrumento. Teve a ideia de retirar umas camisas usadas de dentro da bolsa e com elas fazer uma “cerca” de proteção. Pronto. Estava bom. A caixa não deslizaria no porta-volumes.
Sentou-se no lugar marcado no bilhete. Arriou as costas da poltrona e fechou os olhos. Um universo de melodias lhe brotava da mente desde criança. Bastava cerrar os olhos como agora e a música nascia fácil, sinfonias e mais sinfonias que ia ouvindo por dentro, recolhido em si mesmo, abraçado a seu silêncio. Belas e únicas, suas sinfonias interiores o tornavam o maior compositor de todos os tempos, mais virtuoso que Mozart ou Beethoven. E apenas um mortal podia ouvi-las. Era, a um só tempo, compositor e plateia, instrumentista e regente.
O ônibus correndo e ele a escutar sua obra inédita, surgida nota por nota enquanto as rodas iam devorando a massa asfáltica...
Pena mesmo era nunca ter podido estudar música, não dominar nenhum instrumento. Tentara uma vez o violão, mas lhe faltava concentração, pendor, aquela vontade visceral que faz a gente se mover em direção a um objetivo. Jamais tivera nas mãos um violino, que, aliás, nem era seu. Era de um amigo que estudava música no Rio de Janeiro. Estava tão só transportando-o, porque o outro viria mais tarde com muita bagagem e um teclado. Mas os demais passageiros não sabiam disso e, vendo-o com a caixa, com certeza o teriam na conta de um violinista. Não era. Apenas construía dentro dele sinfonias perfeitas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A morte como prato do dia

Num curta-metragem assistido em uma mostra de cinema aqui na região a verdade se mostrou mais crua do que nua: vivemos um tempo de relação íntima com a morte. Mas não a natural, que vive perto de cada um e ninguém quer pensar na sua existência. É a morte brutal, chocante, que tem a ver com a desvalorização da vida a que chegou a sociedade tecnológica, esta morte que ronda como um espectro nosso pensamento.
Basta acordar e tomar conhecimento do que andou acontecendo no planeta para se convencer de que a morte violenta é um dos males do século. Talvez nem tanto doenças, pois mesmo com as incuráveis hoje é possível conviver anos a fio; nem tanto a desmoralização política, incapaz de se ocultar aos nossos olhos como antes. O que agora nos assombra são os homens-bombas explodindo em algum lugar; são os assassinatos cotidianos em nossas cidades, mesmo nas pequenas e não mais pacatas; as grandes catástrofes que muitas vezes poderiam ser amenizadas, voltasse o homem a ter com a natureza o entrosamento ancestral, de respeito e até mesmo reverência.
A arte, em todas as suas formas, precisa estar comprometida com o seu tempo. Mas deve apenas lhe servir de espelho, refletindo fielmente sua deformidade com o objetivo de um insight nos muitos alienados, ou reinventá-lo – Cecília Meireles afirmou que “a vida só é possível reinventada” – com outras formas, tintas e leituras, levando o indivíduo consciente a uma possibilidade de reversão do atual descrédito em relação à humanidade? Refletir a questão é como estar no meio de um labirinto, com um monstro faminto à espreita. Algo necessário, porém, pelo próprio instinto de autopreservação.