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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sui Generis

 David Bekham em publicidade contra a impotência veiculada em 2009
                                        
Recosta-se exausto na cadeira de madeira com assento acolchoado. Respira fundo ao ponto de extrair uma lágrima dos olhos, mas não permite que caiam. Na tela do computador o alerta do programa de conversação instantâneo lhe chama atenção. Pousa a caneca vermelha sobre o descanso na escrivaninha, cruza as pernas repousando um pé sobre o outro e ri, ainda com melancolia no rosto pálido e lânguido.

Há dúvida para iniciar a conversa. Antes que o impulso leve as mãos a alcançar o mouse, para e olha para o lado esquerdo, olhos pequenos, testa franzida, grenha alvoroçada. Fricciona a parte superior do lábio com a arcada inferior de dentes inexplicavelmente corrigidos, brancos, belos. Coça com a mão os cabelos crespos com alguns pontos de lã. Acabara de levantar da cama deixando-a desarrumada. Ergue a cabeça e avista o teto, inspira fundo de forma lenta e racional. Os olhos procuram no azul da parede algo além da luz cintilando a íris. Estala os dedos das duas mãos, expira intenso e revolve a tela.

As piscadelas do programa cessaram, embora permaneça em destaque. Lembra-se do leite com canela na caneca vermelha. Sorve um gole, dois... Quatro e já está frio há horas, ainda que note o dissabor apenas no quarto gole. Toca o mouse, mas não consegue abrir a janela de conversação. Agora um suspiro. Por quê? Uma forte corrente de ar penetra a vidraça entreaberta revoando as treliças. Oh!? Nada além do vento sorrateiro despenteando a pequena sala azul com armários brancos modulados.

O leite. Ali, dentro da caneca vermelha, choco. A tela acesa na área de trabalho cujo plano de fundo remete ao Saara. E seus olhos. Negros como a aspereza do luto. Perfídia de quem apenas deseja o encontro. O intento lhe toma. Faz-se o feito e ri, mesmo inerte ri, conservando-se pequeno o riso, ri de dentro para fora e se deixa levar:

- Oh moleque como cê tá? – Lê a pergunta com a expressão da dúvida. Perdendo-se atrás de uma resposta.

- Oi, tô bem e você?

Nada nos próximos vinte segundos. Pensa com o indicador na iminência de fechar o programa, até se surpreender com uma nova mensagem:

- Por que faz que não me vê?

- Não faço que não te vejo. Só não quero ser inconveniente.

Súbito. Teme perder o diálogo.

- Pois fez, fiquei te esperando.

Novamente coça a cabeça. Sorri e responde:

- Então, tô aqui.

- Tá muito triste nessa foto.

Assusta-se observando a foto apresentada na janela do programa. Fecha-o e abre novamente para certificar-se de que se trata da mesma foto que vê.

- Qual delas?

- Nessa mesma.

- Da boca? Como dá pra saber, só tem minha boca?

- Mas uma simples boca fechada.

- É, acho que eu sou assim mesmo: uma simples boca fechada.

- Abra, eu tô triste.

Não sabe o que escrever em resposta ao que recebe. Pensa, franze a testa forçando os olhos para enxergar melhor o que lê. Não pode ser! Mas está escrito. Pretende seguir sem prerrogativas:

- Por que você está triste? Quando falo eu falo demais, muitas palavras e gosto... isso incomoda você. Não precisa de minhas bobagens.

- Cê não fala bobagens.

- Mas também não falo, ninguém nunca ouve. Ninguém.

- Ouve quando cê fala?

Paralisa. Como assim “Ouve quando cê fala?”. Espanto de quem duvidasse ser o mesmo com quem mantinha diálogo. Suspira e replica:

- Às vezes sim, mas não preciso me levar a sério, Rafael.

- Me chama de novo de Rafael? Adoro ouvir cê me chamar.

Sorri com amplidão, descendo a ponta do nariz em direção à boca, enrugando as bochechas. A diversão inesperada lhe atrai, mantendo-a no diálogo vazio e desencontrado sem idéia do que acontecerá. Eriça para digitar nervosamente as palavras:

- Rafael, como é se sentir imortalizado?

- Sempre quero ouvir você me chamar!

- Me diga, como se sente sendo imortalizado?

- Eu sou para os que gostam de mim.

- Talvez você nunca tenha oportunidade de ler o que escrevi sobre você.

- Pô! Me sinto muito bem!

- Queria saber como você se sente... você está imortalizado em palavras, num ideal de amor impossível, desencontrado... incompreendido.

- Isso é utopia? Minha vida falha e ouve sempre um grito...

Não acredita no que lê, desfaz o sorriso construindo uma preocupação singela e consternada. Tem dúvida se insiste na pergunta, por isso se resguarda no pensamento e tentativa de análise da última frase. Os dedos nervosos impulsionados tentam algumas palavras, mas as deletam. Não pretende ser inconveniente. Não o quer, precisa que ele esteja entregue e necessitado de sua resposta, contudo, ele não responde. Novamente uma segunda tentativa de forçar a questão, por fim se resguarda e suspira fundo.

Levanta-se e vai até a cozinha num balouçar descompassado de pernas lisas e cumpridas. Os pés descalços deixam o assoalho manchado de suor à medida que segue o próximo passo, no tornozelo uma tornozeleira prata com pingente de crucifixo caindo sobre os pés longos e formes. Retorna com um copo d’água pela metade. Ao se sentar na cadeira a camisa do pijama se levanta na altura do cóccix, em que se vêem algarismos romanos tatuados na pele alva seguidos de palavras em vermelho. Um erre delineado se esconde atrás do tecido que oculta o latim de um verso iniciado em ‘D’ no caminho dos pêlos penetrando as nádegas manchadas com leves estrias. Substitui o descanso e digita anedotas na caixa de diálogo encerrada sem que ele entenda ao menos o porquê.


Conto de Túlio Henrique Pereira, publicado no Caderno de Estudos do Discurso e do Corpo - Brasileidade, Subjetividades e Corpo: em torno da literatura de Túlio Henrique Pereira, Marca de Fantasia, João Pessoa, 2012.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Fagulhas



A água de uma poça evapora lentamente
Esvai-se a cada marcha abrupta que faz centelhas
Nenhuma outra pessoa as vê como vejo
Insprando a mente num galgar de ideias
Fazendo-me esquecer de lembrar você

Os gravetos na fogueira lentamente se queimam
Esvai-se a cada assopro de vento que faz centelhas
Nenhuma outra pessoa as vê como vejo
Inspirando - pequenas almas flutuando pelo ar
- as fagulhas
Como sonhos leves que galgam
e galgam até se apagarem
Lentamente...

Seu corpo cansado ao repouso da cama
Simplesmente
Enquanto ao observá-lo busco parâmetros
Um paradoxo para justificar minha alegria em te ver
Porque nenhuma outra pesoa o vê como vejo
Conspirando ao inspirar-me, pressupondo-se do seu riso
Falso riso

Das poucas vezes em que me abraçou e se oferta

Embora previsível, de tudo que oferece, vem isso:
Fagulhas que galgam...
Momentos...


Poema de Túlio Henrique Pereira publicado originalmente no livro O Observador do Mundo Finito - São Paulo, Scortecci Editora, 2008.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Imagem Semelhança?



(pais e filhos)

Quando criança
Na ciranda de roda
Mamãe ralhava comigo
- Boneca não é brinquedo de homem!

Papai em seus ombros largos
Braços longos
Dedos fortes
Coxas grossas
Ventre cedido
Barriga disposta
Cabeça ereta e altivo
Nada se parecia comigo
Sequer aquela mulher furtiva

- Menino olhe para frente
Joãozinho não mostre o umbigo
Porte-se direito
Não curve as costas
Não mostre o dedo
Saliente o peito
Diminua o riso
Não perca a hora
Desfaça o joelho
Engrosse a fala
Ande com calma
Modos de mocinho

Automatizo meus atos
Inclinado a não querer
Decidindo o já disposto
Proeminente a contendas
Disritmizo o meu gozo
Automatismo dos hábitos:
- Não soo avant-garde por querer!


Poema de Túlio Henrique Pereira publicado originalmente no livro Antologia Amante das Leituras 2010 - Coimbra, coordenado por Ana Maria Gomes e Júlio A. B. Fernandes

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O OUTRO LADO DA VIA COM BEATRIZ DE LAS HERAS HERRERO


Entrevista concedida à pesquisadora espanhola Beatriz de Las Heras Herrero da Universidad Carlos III de Madrid.


Beatriz de Las Heras - ¿Por qué empleas el cuento como marco de construcción de alguna de las historias que escribes?
Túlio Henrique Pereira - Não sei se compreendi bem a pergunta. Mas vou tentar respondê-la mesmo assim, tentando abordar as duas possibilidades. A primeira, porque utilizo o conto para abordar histórias? E segunda, porque utilizar a estrutura do conto para construir quadros de histórias, enfim... O conto tem uma estrutura mais objetiva do modo de escrita. Sou muito influenciado pela leitura que fiz das obras de Nelson Rodrigues, e me lembro que a cada conto ou crônica eu sofria de um êxtase, ele contava uma vida toda em poucas palavras, isso me fascina. O fato de no conto você não explicar tudo é outra técnica ou estilo que favorece a leitura dessas histórias, pois o leitor pode completar as lacunas com o seu imaginário. Acredito que o conto permite ao leitor uma interação que o romance muitas vezes não permite, e que a poesia às vezes impossibilita, porque requer um entendimento mais elaborado. A estrutura do conto permite que uma história comece sem o seu início e termine sem que haja um fim. É como pensar no sujeito que sai de manhã de sua casa para ir ao trabalho e ao longo do seu dia acontece algo inesperado. Esta minha escrita tem a intuição sensível de ser rodriguiana, embora me permita inserir elementos textuais que fogem da objetividade da escrita do Nelson Rodrigues. Tenho a intenção de povoar os acontecimentos com as palavras que não são faladas, mas que têm a sua graça e o seu espaço nesse mundo do cotidiano moderno.

Beatriz de Las Heras - ¿Qué influencia tiene en tu cuento la figura y obra de la poetisa ORIDES FONTELA?

THP: Não creio que tenha uma influência direta, mas creio que todos os textos que li ao longo da minha vida influenciaram na escrita dos meus contos, poesias, romances e teatro. A escrita de Orides Fontela me fascina, é uma poetisa filósofa. Ela rompe com a ideia da arte pela arte, da poesia por ela mesma. Ela propõe o debate a partir da poesia, conta uma história em sua poesia. O Brasil ainda não descobriu as construções de Orides Fontela, o que é lamentável, mas creio que ela é a Avant-garde de nossa geração. Seus poemas, que considero estudos do interior humano, são praticamente inéditos dos leitores. Em O Outro Lado da Via, especialmente... Eu já havia escrito o conto, e este conto fala de afetuosidades, idealizações, vislumbre... E quando o editava para enviá-lo à editora, relendo-o me lembrei que a Orides Fontela tinha uma opinião singular sobre essas temáticas, ela fala de lucidez ao se referir ao amor, então eu pensei, é isso. O amor é lúcido, somos conscientes de nossos vislumbres, do que idealizamos ou do que escolhemos para seguir, embora isso nos fira. Mas, será que não queremos sentir essa dor?  Vi que havia ligação entre a concepção dela com o que eu havia exprimido nos personagens deste conto, então decidi homenageá-la com uma epígrafe. De modo que, se alguém quiser entender melhor o sentimento do conto pode ter a possibilidade de esclarecê-lo na obra da Orides, ou também um modo de efetivar uma continuidade da leitura do conto.
 
Beatriz de Las Heras Cómo definiría el autor O Outro Lado da Via
THP: O autor de O Outro Lado da Via é também uma personagem. Posso dizer que ele existe em meio a multidão, e também posso dizer que ele não existe em lugar nenhum porque ele observa. Quem observa, de certo modo, deixa de existir, é mais ou menos como fala o poema Descarte no livro O Observador do Mundo Finito, “desapareço quando penso/quando não penso inexisto” (PEREIRA, 2008, p. 27). O autor neste caso é aquele que deixa de viver para viver a vida alheia, aquele que goza com a folha amarelada caindo da copa da árvore. Observar detalhes demanda tempo, absorvê-los e depois exprimi-los leva quase que uma eternidade. É por isso que escrevo pouco e publico menos ainda. Quero ser fiel ao que existe, mesmo que só exista no campo das ideias.

Beatriz de Las Heras¿Qué es la vida para Túlio, el escritor?
THP: A vida é uma construção. O escritor Túlio Henrique Pereira tem várias concepções para definir a vida. Ela pode ser uma maluquice do humano, pode ser a perdição deste também. Mas não a perdição no sentido de suas práticas, mas sim da ideia de vida que elegemos; sua sistematização, seus códigos, leis, símbolos... É tudo tão sistematizado e tão fechado em si, que não sobra muito espaço para a vida de fato. Porque depois que o corpo desfalece, para nós ocidentais a vida deixa de existir, mas para o escritor que aqui reflete ela continua. E continua a partir da virtualidade que ela já existia.

Beatriz de Las Heras¿Que relación hay entre el teatro y la manera de escribir?
THP: Engraçado essa pergunta, porque antes de escrever qualquer coisa pensando na materialidade do livro, eu escrevia textos para interpretá-los. Sou fascinado por cinema e música. Mas antes de visualizar a atuação do ator em cena e o resultado da direção, ou a interpretação de quem canta, eu visualizo o texto. É o texto que estabelece o elo entre o desempenho, seja da música, da dramaticidade das personagens com as sensibilidades do expectador, ouvinte, leitor. Sou atraído pela possibilidade sensível que a palavra me possibilita. No texto quero imprimir essas sensações, por isso a escolha de algumas palavras que estão em desuso, quando escrevo deixo fluir o fluxo, deixo que as palavras se aproximem, e quero que elas se encaixem harmoniosamente na leitura de quem lê, mas quero que elas dramatizem e tenham significado no contexto. O texto para mim é dramaticidade, é filosofia, racionalidade, prazer.

Beatriz de Las Heras¿Te consideras una persona tímida? Tú mirada sobre las cosas que escribes parece ser la de una persona que mira con atención lo que le rodea sin intervenir demasiado, como en segunda línea. Observando con detenimiento cada detalle.
THP: Eu sou muito tímido. Muito mesmo, aprendi a lidar com minha timidez ao longo da minha inserção nos espaços que não me pertenciam. O meu universo eram os livros, o cinema, a música e tudo isso dentro de um quartinho pequeno, mas que paralelamente se constituía no maior universo já pensado por mim. No conto quero uma verossimilhança, quero aquilo que foi visto ou pensando, com a mesma lógica do tempo que foi visto ou que foi pensado. A ação no conto é lenta, até parece inexistir, mas existe porque representa exatamente aquilo, o cotidiano, que de tão óbvio, muita gente não valoriza mais. Eu gostaria muito de sentar em um banco de uma praça pública e ficar olhando o comportamento das pessoas, mas ficar olhando fixamente, absorvendo aquilo, e ir mais além, tentar entender o que elas pensam, e o porquê de agirem daquele modo. Fascina-me o comportamento alheio. Não me conformo com as terminologias que se encerram em si, tais como o ladrão, prostituta, mendigo, gordo, michê etc,. Eu quero saber o que faz um sujeito roubar, se prostituir, mendigar, engordar... Quero saber o que atravessa suas práticas, seus caminhos, e como esses sujeitos se vêem e enxergam seus antagonistas. Com que paixões e afetos eles lidam e se deixam construir. Nada é óbvio demais pra mim, eu quero possuir essas complexidades em sua essência. Ou ao menos tentar me aproximar delas. Gosto de olhar o comportamento dos rapazes jovens no meu país. Está acontecendo um fenômeno, que não sei se é apenas no Brasil, mas é uma loucura, os rapazes de 14, 16 anos, que na minha geração eram crianças, se parecem com a representação de Hércules feita pelos gregos. Estão com os corpos muito docilizados, estão tomando anabolizantes ou se acabando na academia para alcançarem uma normatividade, que nem sei se eles entendem do que se trata. Então para mim eles deixam de existir em função da existência de um personagem, e meus personagens vão a fundo nessa ideia da existência e da normatização. É essa psicologia da vida que me fascina. Mas encerrando, infelizmente não posso observar os sujeitos de modo tão fixadamente, então construo práticas de observação, nas quais acredito que não percebam que os observo, mas os observo do momento que me contemplam.  

Beatriz de Las HerasHay algo de sensitivo en tu cuento, de obsesión por marcar las sensaciones (ya sean táctiles, olfativas, visuales, …) con palabras, como si el lector pudiera sentir lo que sienten tus personajes. ¿Qué hay de cierto en esto?

THP: Antes de escrever eu sou leitor. E sou leitor do que escrevo, principalmente. O ato da observação me transporta para o observado, ou seja, me coloco no lugar daquilo que observo. Sinto aquilo que observo e quero que as palavras remetam a ideia do que quero mostrar. O conto tem que ser catártico, e quem vai promover essa catarse é a palavra e sua estrutura na frase. Quando as palavras não são escolhidas adequadamente o sentido se perde e o texto vira superficialidade. As palavras existem em multiplicidade exatamente porque conduzem a sentidos múltiplos, se nos resumirmos a repeti-las de modo referencial, como se faz no texto informativo, deixa de ser arte, deixa de fazer sentir e passa a apenas noticiar. O livro é mais que um produto de informação, ele é um produto artístico nutrido de sensações, energias, vidas e as palavras são a síntese de tudo isso. Desse modo elas precisam ser funcionais no sentido de manter a magia da literatura, precisam cumprir sua função de abstração, de misticismo, de generosidade para com aqueles que lhes decodifica no ato da leitura. Trabalhei por dez anos da minha vida na redação de jornais relevantes no meu Estado e sei bem o que configura um texto referencial, não quero que este estilo de texto prevaleça na minha literatura, mesmo que isso me custe o anonimato.

Beatriz de Las Heras¿Qué hay de Túlio en el cuento “O Outro Lado da Via”?
THP: Há o experienciado. Sentires e saberes que me atravessaram ao longo da vida até aqui. Vislumbres. Por exemplo, quando remeto o leitor até os sentidos olfativos da esfiha recheada com creme de leite e milho. Essa passagem no conto foi inspirada em uma cena da minha vida, quando era uma criança muito pobre que andava de pés descalços com outras crianças pela rua, e me lembro que havia uma quitandeira no meu bairro que morava perto de uma praça. Sou fascinado pelos espaços das praças públicas. A quitandeira morava na esquina, de frente para a praça, e quando brincávamos na praça sentíamos o cheiro de seus quitutes, e corríamos todos para a casa dela e ficávamos admirando a beleza dos salgadinhos, mas apenas olhávamos com os olhos e lambíamos com a testa, pois éramos todos muito pobres e não tínhamos moedas para comprá-los. O sabor das esfihas eu nunca experimentei, mas consegui imaginar como seria se os tivesse colocado na boca, ou sentido a textura daquela massa macia na pontinha dos dedos. Muitos dos contos e, especialmente neste, aparecem de mim as idealizações daquilo que não vivi, mas que imaginei. Ou daquilo que presenciei na rua, no passeio pela praça, nas férias na fazenda observando os lagos, os riachos... No mais, o Rio dos Bois existe e está localizado em Goiás, próximo à Itumbiara, a cidade onde nasci. É um rio muito lindo e caudaloso... Quando o observava, ainda na infância, desejava muito que as vidas dos outros pudessem se encontrar às suas margens.

sábado, 21 de maio de 2011

O dia do orgulho

Michelangelo Merisi da Caravaggio, (1571 – 1610). Sacrifício de Isaac. Óleo sobre tela, c. 1598 - 116 cm × 173 cm (46 in × 68 in)

Todo domingo à noite, a sala de aula simples, com paredes enfeitadas de cartazes fabricados pelas crianças do jardim, é ocupada por uma turma de adultos em busca do tempo perdido. As aulas eram diárias no início, mas logo flexibilizaram o horário, pois muitas mulheres casadas reclamavam do período das aulas, alegando a insatisfação de seus companheiros quanto ao atraso no jantar, outros cursavam faculdade e os demais ou faziam inglês ou trabalhavam no turno noturno.

Inicialmente a turma era formada por trinta, atualmente vinte e seis alunos freqüentam o curso: gestão empresarial. Um cursinho de dois anos – todos ali buscam qualificação para se candidatarem a uma vaga no mercado de trabalho que estava escasso na pequena cidade de Itumbiara, localizada ao sul do Estado de Goiás. Com tanta dificuldade no país, o único setor admitindo mão de obra é esse, o indivíduo precisa escolher entre montar seu negócio ou arriscar uma vaga na indústria. A cidade é cheia de pequenos comerciantes.

O professor Mário entra, imponente, com toda a sua altura e altivez: respeitado por todos e admirado pelas solteironas de plantão. Grande momento na sala, sem dúvida era a entrada dele.

Apesar das constantes investidas das alunas, ele se mantém indiferente. Consegue ser esquivo o tempo todo; homem de pouca conversa, nenhuma exposição de sua intimidade; nunca chama a atenção de ninguém, por nenhum motivo; mesmo quando as tagarelices se excedem até o final da aula.

Mantém a voz firme e aveludada sempre no mesmo tom, desde o inicio de uma explicação até o “boa noite” de despedida sempre motivo de fofocas ao final da aula. Tinha cabelos castanhos e sedosos, vestia-se sempre de roupas sociais com cores mortas, mantinha a barba serrada e a pele limpa: “o homem ideal para qualquer mulher” suspiravam as plantonistas solteironas.
A cidade acabara de promover grande movimento em respeito ao Corpus Christi, neste ano deu-se no dia 10 de junho, quinta-feira, prolongando o feriado. Todos os alunos do curso participaram da barraquinha que, além de angariar recursos para as paróquias através de leilões e comercialização de comidas típicas, realiza neste ano um seminário com o tema: “A reeducação cristã para o fim da tolerância do pecado no Século XXI”, até o professor Mário conhecido como um respeitado mestre em exatas, contribuiu com suas palavras carregadas de sabedoria e legitimidade. Tudo isso só fora possível, por intermédio das carolas, que freqüentavam o curso, ardorosas por aquela figura.

O domingo após o feriado foi especial: término de outono, quase início do inverno, estava muito frio. Todos extasiados pelos frutos que o feriado de Corpus Christi havia provocado na pacata cidade. Não se falava em outra coisa, a não ser nas premissas do “abençoado professor Mário”, “o anjo que faltava à comunidade”, “o santo que caíra do céu para levantar Itumbiara e outros blá, blá, blás...”, o fato é que nem mesmo o Padre Gusmão com todo o seu discurso, sem falar na longevidade, fora tão elogiado pelo povo quanto o contido Mário.

Como de costume ele entra, deixa a pasta sobre a mesa e sem nenhuma palavra nos impõe o silêncio. Pega um giz, faz uma breve linha vertical na lousa e escreve o seu nome, e respectivamente a data do ano. Se vira para a classe e retira a blusa de lã que o protegia do frio. Diz a todos “boa noite” como nunca dissera anteriormente; um sorriso enorme no rosto feliz combinando com a estampa colorida da camiseta; um belo arco-íris sob a palavra “Rainbow”.

sábado, 21 de março de 2009

DEDICO...

Aos andróides negruscos,
vadios pelas ruas
mendigos e cadáveres não identificados
sonhos herdados
e contradições

Aos obesos
e às fétidas criancinhas pobres
feios e torpes senhores pagãos
corações solitários sofrendo insônia

e à dona Francisca,
por toda descrença
e desgosto

Às Marias, Terezas, Josés e Eurípes...
todos que desconheço...
submersos no limbo
frívolo do sorgo

Às feias,
magérrimas,
corcundas
aos
caquéticos
insolúveis
e feios

garotos e garotas
de programa
da TV
e do corpo

analfabetos,
belos

índios, japoneses, negros e louros
cancerosos, diabéticos, aidéticos...
condenados e loucos, gays e sádicos

À dor e ao sexo,
milagre e tédio
dos vivos e mortos

À toda escória sempre lembrada
aos potentados e seus ministérios
à toda razão...
à Glória!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

MARIA

A lua banha Maria Silva, não sabe ela, nem quer saber se alguém um dia vai despertar um sentimento caro por si. Ou esteja o corpo necessitado do prazer experimentando o corpo de alguém que acredita estar no gozo a razão da sua existência. Sua libido deseja serenidade que se faça sem esforço, do contrário se sacia o desejo da vontade de encontrar resposta no outro, a morbidus avassala lhe trazendo o retornável desejo de saciá-lo novamente. Sendo assim, é sucessível ou nada além de uma experimentação continuada. Então Maria Silva, que mais quer além de suas palavras é encontrar contentamento dentro e não prelúdio que não se acaba.

Traz a música que representa seu destino e passado “Como Nossos Pais” um dia foram, interpretados ícones ou massas. Limitados de vertentes, que agora traga explicitamente pelas ruas do Rio de Janeiro de Jobim e Vinícius, por jovens meninos não sem juízo, mas contaminados pela liberdade que os aprisiona no olhar fatídico de Maria, que se pergunta diariamente o porquê, Maria? Por quê, Maria?

E sofrer a experimentação do corpo livre da conseqüência, ou com essa (conseqüência e/ou experimentação) implícita, guardada em qualquer lugar que não seja a mesma caixa onde está a frustração vivenciada por milhares, entre eles sua mãe, Maria?

É, Maria! Você caminha o olhar nessa lua que te banha, pensando um dia viver aquilo articulado por sua idéia, mas aí, será a prática a sua ideológica experiência? Talvez sim, se o tempo a congelar para que desfrute no seu tempo o que o seu corpo um dia permitira. E talvez não prevaleça, já que a oxidação física não tarda, nem a custa de medicina, tecnologia ou banho de cheiro nas minas do rejuvenescimento que no homem habita.

Só tenha momentos Maria. Só tenha momentos porque a vida assim se concretiza. E siga o vento, porque o Norte, o Sul, o Sudoeste e o Oeste trazem as boas novas para o seu complexo contentamento, que só trará o contento que vigia, quando você se permitir a qualquer prelúdio infundado, Maria.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O PRATO DO DIA

Cometi o pecado de conversar com meu prato. Tinha barbatanas e olhos azuis, escamas cromadas e uma calda lânguida e real. Ninguém podia acreditar que o fiz, sem piedade, parecido com os homens do norte, sul, leste e oeste da terra. Perguntei-lhe o nome, ele não respondeu. Depois desabafei quanto as minhas dores e insucessos – acho que ele riu de mim, e eu, nem percebi – ele riu: como pôde?

Antes de comê-lo pensei em não comê-lo e torná-lo meu amigo, porém, ele era meu prato e só me via como seu predador. Não podia me amar como se ama aos amigos, embora fosse ele a única presença viva em meu espaço.

Ele sabia muito sobre a física quântica e as disparidades da política social. Questionou-me a relevância da perda e dos sentidos invólucros de materialidade e estima demasiada. Não havia terras que ele não conhecesse, sejam essas nacionais ou estrangeiras, orientais ou aqui mesmo no ocidente. De tudo ele sabia, e não sabia pouco de tudo, sabia tudo de tudo como a certeza da morte. Eu pedi para que ele falasse comigo, mas sua sabedoria transcendia apenas os olhos – espelhos quem refletem o Danúbio e a sobriedade desnuda -, tão azuis quanto os céus a espreita do crepúsculo.

Convalescente ele não chorou, mas secou minhas lágrimas e amenizou meu sofrimento. Poderia ter escrito um poema, ou copiado alguma de suas reflexões em um artigo. Mas não se tratava mais de mostrar o que os outros não viam, tratava-se de ser, tão simples quanto um rego ao encontro de um rio. Ou ainda mais simples, tal como o vazio da noite ao findar de um dia agitado.

Eu o comi, depois de cometer o pecado do diálogo o comi vorazmente, impiedosamente enquadrado às etiquetas.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dia após dia

Fotografia: Alsksander

Eis a hora de minha morte
Enquanto dia, tardo solitário
Sob um sol sem nome nem visco
Vejo profundo, sinto, sublimação
Sutil como o copo guarda água

Agora é o dia, quando dia findo
Temo o céu aberto, sem nuvens
Sem sombra a proteger o rio
Evaporando lentamente gotículas

Contudo, se voltam do céu as nuvens
A desaguar nas margens, subtraem
Toda a gente deste mundo
Pelo ontem e o que se foi

Acalme-se, acalme-se
Todos os dias passam e ninguém sente
O dia vale o fruto que nasce
Enquanto vivo a espatifar-se ao chão

Eis agora a sombra do horizonte
Pranto triste que o faz disforme
Glória contida, alegria pobre
Sempre, sempre irrevogável

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Les autres

Ils ne savant pas s’oublier de moi
Ils rient et bâillent tout le temps
Ils adorent se perdre dans le temps
Ils jettent ses desires sur moi
Ils croient que je ne comprends pas
Ils observent mon alluse et rient
Ils ne savant pas que je ne peux pas


Tradução do original de "Os outros" do livro "O observador do mundo finito".

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

DORIAN GRAY


Ela veio como ninguém antes
Sentou-se calma tragando medo
Delirou calada memória fumê
Taciturna víbora enciumada
Pegou da pele fogo aceso e sorriu
Iluminou a casa com tristes olhos
Restando nada, apenas ela dentro

Quando ela entrou e a viu: silêncio
Nada que fizesse a esqueceria
Furtiva e enciumada perderia razão
Embora medo faltasse até os olhos
Atravessou dentro até o pico
Do outro lado distante visível dela
As duas se vendo em contrito ódio
Delas que nunca amaram senão suas

Ele veio tarde desnudo de pressa
Isento de cólera e recalque aproximou
Ela o olhou ao longe e ela também
Ele a viu e depois ela, diferentes passos
Voltou-se consigo tédio e provimento
Viu que ela o viu e que ela o viu
Ele parado no meio entre elas e ele
Divido o olhar em duplo pensamento
Esgueirou-se tarde à malemolência

Sutil caminhou dos quatro à chapelaria
Dolce & Gabbana em ziguezague no ar
Vislumbrando Kendalls curvilíneas tragou
Pára no hall entreaberta à saída estática
Ela os olhou antes de ir embora sozinha
Ela a viu sair vislumbrando bailado e classe
Ele a viu sair respingando rastros e tons
Ela os deixou ficar exprimindo medos e vontade

Pensou a vida oferecido nada senão ela
Tentou a dor despossuído tanto quanto eles
Desejou manter-se unida a pouca posse
Mas triste definhar pôs-se necessário
Relutando o norte visco do desejo
Dietética paciência aflita despediu-se

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Via Crucis


Do alto do segundo andar de um prédio classe média avista um rato morto no telhado da garagem visto de cima. Pela janela lateral, o prédio largo de quatro andares e seis janelas, começa a se esconder atrás da nova construção de um outro edifício. Do lado esquerdo, outro em construção, mais imponente, estreito e vertical. Homens trabalhando durante todo o dia, e o corpo do rato estirado na curva da eternite.


Os carros vão e vem freneticamente, alguns faróis se acendem em plena tarde, velhos correm ao atravessar a rua sobre a faixa de pedestre, enquanto crianças dão risadas na esquina em seus uniformes sujos na saída da escola. Alguns pais carregam as mochilas de seus filhos e nem os notam, apanhando as folhas do arbusto esverdeado.


A cidade conserva casas de arquitetura antiga e muitos penteados também. Uma jabuticabeira se espreguiça do fundo de um quintal qualquer e as motocicletas apressadas buzinam para que o pedestre se apresse. Todos os telhados guardam sujeira, todos os ônibus aguardam por um sinal.
Seu Virgílio, do alto do segundo andar, suspira e tem a sensação de que tudo ultimamente vem perdendo o sentido. Não sabe se é nostalgia de sua mocidade, se o cansaço não lhe permite felicidade, mas as coisas não contemplam o mesmo sentido. Não mesmo.


A cidade vai se perdendo de vista no horizonte, quanto concreto o separa de sua juventude, ou quanta juventude se separa de sua mocidade? Ele já não é apenas um senhor de meia idade. Não pode sair à rua para caminhar sozinho. Luzes se acendem, uma a uma, de modo gradativo e quase imperceptível, tal como os fios brancos agredindo os raros louros no couro cabeludo e aquela sensação de vitalidade mortal.


Um dia quando ele beijou a primeira namorada no carona do amigo Ronildo, não conseguiu entender que Lena chorava por um sentimento maior que aquele momento. Não poderia pensar em outra coisa, senão no desejo de que tudo terminasse do modo comum para qualquer homem viril em sua idade. Sentimentos díspares em idades iguais. O momento para ele prova de sua moral, para ela transcendia o corpo. E Lena consentiu aquilo por três finais de semana até sua partida em um ônibus sem cor e devotamento. O céu parece o mesmo, no lugar do passado, como resquícios de vento penetrando os orifícios da vidraça.


Tudo possui nome, mas não possui face, são flashes em representação de algo que nunca aconteceu: a vida. O que seria agora, se não fosse o que viveu?
Virgílio sofre de gota e diabete. Os músculos murcharam sem que percebesse, o abdômen liso derramou-se e o ânus toma mais o seu tempo, que um dia lhe tomara o pênis.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Lançamento "O Observador do Mundo Finito"



Composto de realismo cotidiano o livro é a visão do eu sobre o todo que o cerca, a família, relações humanas, sexualidade, política, mitos e filosofia.
Lançamento

Atualmente na Bahia, Túlio Henrique, assumirá uma agenda curta de lançamento do livro “O Observador do Mundo Finito”, nos próximos dois meses. No dia 08 de março, o evento ocorrerá na Letras & Prosa – livraria e café, em Vitória da Conquista na Bahia, e logo depois em um dia de autógrafos na livraria Nobel no Conquista Center, também em Conquista.

Posteriormente, no dia 20 de março Túlio Henrique, levará seu observador para as cidades de Uberlândia, Catalão, Itumbiara e Goiatuba, ambas as cidades sem local e datas confirmadas. No entanto, em agosto, o lançamento do livro será na 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, na capital paulista.


Pontos de venda

Até junho de 2008 o livro será disponibilizado nas melhores livrarias do ramo no Brasil. Por enquanto é comercializado na Internet, a partir da Livraria Asabeça: http://www.asabeca.com.br/ e Livraria da Lua: http://www.livrariadalua.com.br/ ao valor de 21,50.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dia após dia

(São Jerônimo - Caravaggio)
Eis a hora de minha morte
Enquanto dia, tardo solitário
Sob um sol sem nome nem visco
Vejo profundo, sinto, sublimação
Sutil como o copo guarda água

Agora é o dia, quando dia findo
Temo o céu aberto, sem nuvens
Sem sombra a proteger o rio
Evaporando lentamente gotículas

Contudo, se voltam do céu as nuvens
A desaguar nas margens, subtraem
Toda a gente deste mundo
Pelo ontem e o que se foi

Acalme-se, acalme-se
Todos os dias passam e ninguém sente
O dia vale o fruto que nasce
Enquanto vivo a espatifar-se ao chão

Eis agora a sombra do horizonte
Pranto triste que o faz disforme
Glória contida, alegria pobre
Sempre, sempre irrevogável

domingo, 21 de outubro de 2007

O menininho na Rua das Flores no Bosque das Emas depois da curva inesperada do esquecimento


Havia um menininho ali, parado. Observando o dia como ninguém nunca o fizera. Parecia compreender ou ver o que ninguém tinha visto antes. Era um menininho de olhos grandes, lacrimejados e corpo franzino, e era belo por isso. Por ser ele, peito intumescido, boca ávida, lágrimas estancadas em olhos imensos e negros... imensos olhos com íris negras.

Ele não parava de olhar o vão do dia, apenas via o que ninguém via. Havia certeza em sua visão, verdade maior que o tempo que se exauria e ninguém mais. Ele era só um menino sem educação, mas único, cheio de mundo e de sutilezas na porta de uma casa de barro ornada de flores, flores lindas e vermelhas num contraste límpido com sua pele preta e tenaz. Sob o forte sol do meio dia e o pó das ruas descalças.

A janela de madeira corrompida, entreaberta e o portal denunciavam cupins deixando explícita a harmonia entre aquele menininho, sua mãe e seus amigos. Amigos noturnos que não presenciavam o dia. Mas lhe traziam sonoridades para o seu ninar cansadinho e fúlgido na noite que de vazia nada tinha.

O menininho escapuliu um riso tímido dos lábios ávidos. Trouxe alegria da alma que enxergava a vida no vão. Fantasiou o dia obstante como água de chuva em dia de verão. Fez chover nos olhos a incerteza do estado presente entre a esquina e sua casa à esquerda da Rua das Flores no Bosque das Emas depois da curva inesperada do esquecimento. Lá... naquele dia, no começo da tarde.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A liberdade de uma vida

Lucien Freud - Naked girl asleep (1968)


Um pouco de contradição, vodca, introspecção, intelectualidade, romantismo e amizade. Coisas necessárias para o sentir da vida num final de semana. Ah, ouvir rock – odeio rock! -, mas Janis Joplin é um pouco de tudo isso que tenho vivido.

Uma sensação de liberdade, perdição e vontade de se encontrar mesmo estando perdido num decaedro. No meio do mato, num ambiente inusitado e pouco relevante se comparado a tudo já vivenciado por um mero adolescente recluso dos prazeres triviais. Cheio de vontades, dentre elas a de sentir o que um corpo comum possa sentir. Acho que os jovens do início do século 21, assim como os outros, sentiram a mesma coisa nesses dias, se não todos, pelo menos aqueles preocupados em dar significado a sua passagem por esse mundo louco e sarcástico... Não preciso trocar o telefone celular por um com câmara acoplado, nem com visor colorido, afinal, só preciso de um telefone. Preciso!? Do que preciso?

Revolucionar o dia como naquele tempo pelado e entorpecido se tomava as ruas, numa vanguarda intrínseca às razões dos sonhos. A utopia sem fim, rebelada com simultaneidade e nudez, entre correntes e opressões lacrimogêneas... pelas Sorbonnes e o desfrute da carne transformando o momento de uma humanidade frustrada em suas respostas.

Os grafites e a cola nos braços, dividindo espaço com lenços e reboques. Em transgressões fictícias, no entanto mordazes, tornaram-lhes jovens. Os tornaram capazes de sentir, aquilo que hoje já nem sinto quando teatro minha toxidade numa rua urbana sem muro vivo, inscritos de artes como o nascimento do homem ao ser fecundado no óvulo. Quando Janis Joplin surgiu? Por que a música existe? Qual o propósito dessa mulher, que indiferente de muitos roqueiros de seu tempo até o nosso, sofrem num mundo insólito e superdosado, ou se marginalizam pela peculiaridade de seu psiquismo? O que seria a marginalização intelectual?

Dopar-se até o cérebro escarnecer a alma? Ou ter no gozo o ópio da pureza? Eu quero ceifar esses medos e gritar que o intelecto me cega no mundo que existo sem existir. Virar do avesso com meu sexo barato, comprado no canal aberto da madrugada vazia. Sem entender que a transgressão selvagem e a criação deusificada caminham juntas na mesma calçada restada às prostituas sem nenhum intelecto continental.

Não sei se preciso de álcool para entrar em sintonia com aquilo que realmente seja. Sei que a sensação de me sentir flutuar num mundo concreto e limitado faz bem por alguns segundos. Quando é impossível ser um cara de 23 anos e não se lembrar das vontades escritas por Maria Mariana antes que tudo se acabe. O sentido de tudo talvez não exista: a nostalgia, alegria, paixão. Vontades talvez não existam. O mundo talvez exista pelos simples fatos... algumas lágrimas, risos e uma história para contar sobre eles. A teleologia desses termos deixo para quem queira.

A idéia de padecer sempre me veio como uma solução difusa, embora, pertinente para o acometimento da tristeza e a peculiar melancolia facial expressada rotineiramente. O que contradiz o fato de eu ser o oposto daquilo que pensava ser, e que hoje de manhã acreditei ser e a tarde já não era mais. Mas agora a noite já nem existo mais. O que me faz ser o paradoxo contínuo de tudo que acredito ser diariamente, numa inflexão como medida para todas as coisas, visualização errônea e desnecessária das coisas. Imprudência nas atitudes e desmantelo daquilo que deveria ser tratado com esmero e delicadeza.

A morte me parece uma pluma suspensa no ar, pairando sobre as folhas da figueira, abacateiros, hortênsias, jasmineiros... pouso forçado na terra. Pluma de algodão disforme; penugem de ave disforme; dente-de-leão disforme como o vento leve como a vida nesses dias inteiros de lucidez. Embora, tanto queira abrir a porta e as janelas para deixar a esperança entrar na casa que abrigo no espetáculo trazido pelo vento da tarde. O corpo como uma semente flutuando alto, alto e perdido. No refluxo dum sortimento interiorizando-me.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

DE REPENTE

Há muito tempo atrás numa pacata e pequena cidade do interior do Sertão Nordestino morava um amor de garotinha, negrinha de pele sedosa e amorosa como ninguém. Ela vivia encantando o coração das pessoas: Ynaê, filha caçula, irmã de dona Gorgulha que vivia a cantarolar – nesse tempo os pais tinham filhos quando os outros já eram adultos, hoje isso pouco acontece.
Como tudo na vida muda; ao som das músicas e muito bem querida, Ynaê cresceu e mudou. Conheceu Miltinho, seu fiel amigo, mas consigo esmoreceu. Não que Miltinho fosse triste, mas sim docinhos, carinhos e proteção deixaram de fazer parte de seu coração. Agora seus desejos cresciam e se tornavam reais, e no prelúdio em comemoração as festividades natalinas “Asa Branca”, além de ser cantada para ela, significava paixão e um desejo enlouquecedor queimando o peito sem arbitrariedades para o resigno. Queria o mundo solto para amar um menino, enquanto a ela amasse por esse mundão sem cerca todo de Deus e dos dois.
Noutro dia, no caminho até uma matinê na escola Ynaê conheceu Godofredo, menino que para ela – novo na cidade – era perfeito, mas tinha um grande defeito, que era ser namorador. Subitamente se tornaram íntimos e Miltinho não existia mais, pelo menos para Ynaê. A cada dia eles se conheciam, trocavam segredos e se beijaram pela primeira vez. Estavam sempre juntinhos conversando bem baixo no banco da praça.
Os vizinhos e amigos se chatearam, cruzaram os braços e curvaram o pescoço. Não mais careciam de oferecer-lhe carinho nem prosa, nem versos na escola, nem coca-cola no bar do Bartolomeu, pois Ynaê, apesar de apaixonada parecia menina levada que só queria falar de amor e do prazer de conviver com o baeco. E nada do que os vizinhos dissessem ou fizessem a menina se sentia abalada, e estava diuturnamente grudada na barra da calça do torengo. Cabra da peste ciumento, que não deixava livre o passeio do lado direito para nenhum marmanjo tocar o fio de lã da saia tricotada por sua mãe que presenteara Ynaê.
Certo dia, solteirona e despeitada, Gorgulha pôs-se na janela a fofocar com Vivinha, a tia e vizinha despertando inversores cheios de pudores paralelos as leis do viver: “Vai embirar? É lasca ou há de sofrer? É preta com toda glória do brau essa Ynaê. Não pára de abufelar mãinha, vai abufelar a tia e o arraial sofrê. Pensa ser casa de noca, vive pra cima e pra baixo com esse ababacado, pra modo de quê?”, outra vizinha gritava: “Bamburim pebado quem jogá faz o laço, deixa o barco corrê!”
Gorgulha se apossou dos falatórios, saiu apressada até a sacada e em sua mãe foi despejar. Pobre Ynaê enamorada, ao que chegou levou palmadas e no quarto ficou a chorar, olhando as paredes cercando a sala, os três reis magos abençoando a casa, decidiu não mais ficar. Logo fugiu pela janela deixando uma carta no criado da sala onde havia um abajur.
No campo encontrou um cavalo, montou no coitado e Godofredo procurou. Ofegante e dissimulada Ynaê o beijou, abraçando-o e ao apertá-lo lhe contou: “Não podemos nos ver mais meu alvorecer. Quero muito querer, mas não poderemos mais!”. Seus olhinhos brilhavam, sua respiração acelerada, a boca suava como uma garrafa d’água petrificada ao degelo. “Quero amar você Ynaê – dizia Godofredo, cheio de desejo e de bem-querer – não importa o que digam, não pense, só sinta o que queremos viver!”.
E no crepúsculo do nascimento de Cristo, Ynaê questionou o viver, já que o sentido se perdera só de imaginar a distância daquele que lhe trouxera um sentido e o enternecer. Os amantes se abraçaram e assim ficaram olhando um para o outro, observando a noite passar. E com repente o amanhecer não tardou, o dia logo chegou e destemida Ynaê foi à lagoa se encontrar.

sábado, 21 de julho de 2007

Anteontem, ontem, antonte e o amanhã

Foto: Adenor Gondim




A porta da rua está aberta e observo do outro lado da calçada o claro sol que aos poucos ofusca meus olhos, como nas lições de Maktub talvez, ou mesmo na ânsia de tentar alcançar a luz que me cega. Os dias têm passado lentamente quando tudo parece caminhar para o foco, embora sejam lentos, naqueles momentos em que a têmpora nervosa luta consigo em busca da ausência.

Quince Jones desperta desejo em mim como Maria Bethânia e a terra. São elementos naturais que me provocam o gozo do apartar... um caminho simples pela estrada de terra que me cerca neste instante instigando vôos lisérgicos dentro do mais puro sentido de resignação.

Ontem eu escrevia cartas, recitava poemas e sonhava viver eternamente. Ainda não existiam calamidades nem várzeas à serem colhidas. O mundo era opaco, apesar da clarividência solar e do ressoar lúgubre dos pardais. Não existia a modernidade do silêncio nem mesmo a frieza da solidão. Mas, sim, um cavalo de madeira feito com o rodo velho cheio de farpas arranhando as pernas. Havia emoção salutar e saltitante, o grito, o vívido pensamento leve da eternidade. Agora penso ter sido isso, unilateralmente.

E quando descobrimos que durante a tarde as borboletas não dormiam, nem nos comovíamos com isso, nem dormíamos com elas. Beirávamos a cotovia burlando o ocaso desacreditando mesmo crentes de que tudo os pudesse insurgir. Uma bomba presa nas vísceras sem nome, cordas dadas como no brinquedo do vizinho, baterias novas com a equivalência de um riso em desuso.

Há frouxidão no tempo solto e pleno, sem a sutil consciência do que passou e, por mais que a vida se demonstre cíclica, jamais a veremos adequada ao curso presunçoso do que foi vivenciado. Mesmo que haja, nesses dias, ramificações esverdeadas de uma grama original, massageando nossos pés aos passos curtos em direção do futuro, mesmo que ofuscado. Ouvindo, enquanto exista direção, uma luz brilhar dentro, brilhando intensamente ao som de Jevetta Steele e até Ted Hawkins expulso do Bronx pra ser jogado num lixo do Itanhanhém.

Enquanto a porta se fecha esqueço que tenho braços abertos e gosto de música no cérebro podendo tocar. Esqueço do sol amarelo na rua jogada para fora de mim, e afrouxo a vida com que insisto chamar de minutos, fazendo-me esquecer do chinelo e do bermudão jeans, a bicicleta e o coração de Elis livre, livre entoando a jovialidade que senti nos dias em que ouvia uma multidão desenfreada tatear.

Quando a hora mágica acertar o caminho, quando eu me perder deste caminho não vou querer encontrar, nem lembrar de mim nenhum segundo. Ruflarei asas num pensamento distante onde ninguém me encontre perdido, pois que ninguém se encontre em si, nem eu comigo, fechando o caminho à usura, o afrontamento e a solidão das emoções que nos comovem e aos minutos... sim, aos minutos que nos mostra findos.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

The Postmodern Condition

Gosto de observar e ouvir a água caindo no chão seco seja esse, apenas terra fofa, chão batido, concreto ou asfalto. É mágico fixar o olhar nas células sendo sugadas pela terra e algumas gotículas invisíveis a olho nu se evaporando.
Talvez esteja ai a simbiose do existir em contrapartida com o inexistente, porém, nesse caso a água existe, então depois de ser sugada ao menos aquele líquido específico – isso porque estamos tratando do meu copo -, deixou de existir, ou evaporou-se? Podemos fracionar tudo em regras cuja solução seja a coerência do óbvio, para não usar termo pejorativo.
Para tudo temos frases que nos traz essa concepção fechada - Bom, nunca me canso de repetir a frase ‘a morte faz parte da vida’, porém mesmo ora tendo consciência disso os fatos nos pegam de surpresa e não encontramos saída para aquilo que parecia, podia e, possa ser tão óbvio, tão objetivo.
Mas penso que as coisas são assim propositalmente. Pois acredito que é preciso que estejamos presos para não sairmos no momento em que não podemos sair – um canal hídrico? Infância? Relacionamento? Leis? -, sei lá se isso se trata de destino. Hoje desacredito e acredito em tudo, até em mim mesmo.
Imaginemos a contenção numa escala perpendicular, ou seja, uma realidade que num determinado momento será surreal, senão, impalpável, mas que logo se encontrará para o tocante ao fato de existir, ou seja, formar uma realidade coesa.
Posso simplificar a vida do Pedro e da Carola, o Pedro gosta da Carola, mas ele vive em Guarulhos, trabalha em uma adega como recepcionista, é poliglota – estamos falando de francês, espanhol, italiano e inglês -, está cursando engenharia química em uma universidade federal e ainda não tem dinheiro para aquisição de seu carro próprio, apesar dos seus sete anos dedicados a carreira profissional, três a universidade, o que subtrairíamos nove anos dos seus 28 completos no dia 28 de janeiro deste ano.
Já a Carola tem 26, fala inglês e está cursando espanhol, com muita dificuldade, não porque ela não tenha condições para pagar o curso, mas é que não consegue habituar-se com a pronúncia verbal da América Latina. Ela está terminando o curso de assistência social e pretende cursar relações públicas, por isso dedica mais de 1/3 do seu salário de recepcionista de call center à cursos de línguas. Tem cabelos negros, lisos sob altura do ombro, pele clara e olhos castanhos. Aprendeu a bordar aos sete anos, apenas observando sua mãe bordando no sofá. Numa determinada época colocou na cabeça que queria se casar, e que isso aconteceria logo, tratou de organizar e bordar o enxoval aos 15 anos de idade com a ajuda das tias Helena e Erondina, senhouras rondonienses típicas da região rural.
Carola nunca saiu do seu Estado, conheceu Pedro na Internet, através de uma sala de bate-papo no portal da UOL, se identificaram pelos nicks, ela adorava Kid Abelha – isso há seis anos -, e ele de comida doce, seus respectivos nomes eram: Mel e Pintura Íntima. O assunto rendeu: aparências, sexo, drogas, sexo, idade, sexo outra vez, sexo, sexo, sexo, métodos contraceptivos, sexo, desejos, dinheiro, mentiras na Internet, música, rock, Kid Abelha, flan de chocolate, sexo, mel com aveia, sexo, mel sobre o corpo e sexo. Depois decidiram falar sobre o futuro, e já se imaginaram casados, mas ele precisava vê-la, ao menos em foto mesmo sem o rosto. As pernas e bumbum eram contemplativos. Ela não precisava disso, o discurso dele fez com que ela idealizasse a vida e a morte em menos de vinte minutos.
“Eu estou aqui há quilômetros de você, e se não fosse um desses fatos inusitados não estaríamos tão saudosos um pelo outro, certo?” Errado! O Adalberto tem a melhor das intenções e está a oito metros da casa dela.
“Te desejo tudo de bom, ótima percepção do mundo, coerência, amabilidade, emoções a flor da pele e muita atitude, contradições, paradoxos, e comedimento, porque de certa forma isso pode não ser a vida, no entanto, é o que nos faz senti-la”. Por que as mulheres têm que ser tão densas, se o que é bom de viver é curtir as coisas sem contextualização? (...) Alguns passam por muito em curto tempo, outros levam anos para viver um único fato. A liberdade, por exemplo, vive correndo atrás de mim, e eu vivo correndo contra ela por estar preso em conceitos pragmáticos e dualistas talvez, não tenho respostas.