quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Notável


Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavisados.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Fogo, consequências e alguma adoração

“En el fondo, todas las mujeres son putas y quieren que se las trate como putas…
 ¡Mezclado con un poco de adoración!”  (Anaïs Nin - Henry y June)





Deixei de lado as conversas e algumas redes sociais nas quais me entretia deitada na cama, cansada, mas insone. Acontece muito comigo, o corpo pede descanso, mas a cabeça continua inquieta, as idéias pululam. Foi pensando nas possibilidades de não-sei-o-quê que as horas multiplicaram-se, nem vi o sol nascer. Com o calor matinal, adormeci.



...


Chamou uma, duas, três vezes, abri os olhos e ele estava lá, não posso negar que gostei de vê-lo, mesmo depois de tanto tempo, ainda não me acostumei com seus hábitos, sumia repentinamente e da mesma forma retornava aos meus olhos, à minha boca...

-Bom dia.
-Bom dia...

Conferi o relógio, dez da manhã, como gostaria de ter dormido mais!

Na verdade, eu sempre o recebia meio na defensiva, enciumava-me e pensava em perguntar por onde e com quem andou no tempo em que estivera ausente. "Preciso ser mais dura, isso sim!" - prescrevia-me mil mudanças de comportamento, mas nunca conseguia tal façanha. Bastava que a inspiração voltasse para que meu espírito se enchesse de alegria e de uma vontade inconfessa de dizer-lhe apenas que "não há orgulho no mundo que vença a necessidade que sinto de seu toque, ela é tão grande que, em certas noites, converte-se em uma dor física vinda não sei de onde."

Tanto me disseram para não brincar com fogo! Não adiantou, agora é preciso aguentar: o corpo queimando e o coração ardendo são apenas consequências.


-Como você está?
-Com sono...

Afundei a cara no travesseiro, tinha consciência do estado de desordem de meus cabelos, nem eu me animava com minha própria aparência pela manhã. Ele esboçou um sorriso, mas falou sério:

-Então eu vou ter que acordar você.

Respondi com um não prolongado e puxei o lençol, quase escondendo o rosto. Teimoso como só ele, puxou de volta, descobriu-me e aproximou-se.

-Pensei que não queria mais saber de mim...
-Deixa disso.
-Mas é, estava tão distante e...
-Agora estou aqui.

Beijou-me os ombros e o pescoço, sendo terno e ao mesmo tempo quente, ele fazia com que todas as outras coisas do mundo se tornassem secundárias, mas eu sabia que não deveria acumular expectativas para além do momento de entrega. Encarava-me antes e depois de aceitar a boca que eu lhe oferecia, como numa transição, minha ansiedade dava lugar ao desejo crescente e eu deixava sempre que me lesse do início ao fim. Deslizou as mãos em meu busto, por cima do short doll verde, sentiu como me arrepiava os mamilos, meu tesão era a resposta que buscava. Encontrou, satisfeito.

-Deixa-me ver esses seios lindos...
-Não, você prefere os menores, eu li!
-Cala a boca!

Era gostoso dever-lhe alguma obediência, despia-me habilmente e eu sabia que só pensava em como encaixar-se em meu corpo da melhor forma. Afastando-me as pernas, mergulhava em meu sexo e recolhia meu prazer na ponta da língua - assim ele me dava sua adoração.








***

domingo, 1 de dezembro de 2013

Medusa



as pétalas de seus olhos desceram
por minha rubra face
instalaram-se entre minhas clavículas  
como aperto de polegares em asfixia

ver o que vi em todas as outras
e não supor que era assim tão óbvia
só nos ferem os que amamos
mea culpa, não tomei nenhuma precaução

quebro uma promessa que fiz e peço
que me deixe agora
que não congele minhas resistências
nem estilhace o que restou

um espinho ainda está na garganta
não me olhe mais,  nunca mais
quero permanecer pedra
por saber que mal maior é a esperança

sábado, 30 de novembro de 2013

(O)


Onde o som bate as palavras no interior do ouvido interno, é o que ouvimos enquanto lemos. Mesmo sem ler ou escrever com som, escrever é uma extensão de o ser: interior de (o) ser, interior do ser, interior ao ser. Seja, disse.
Fazer – Dezembro
(O) – Novembro
Caso – Outubro
Mistura – Setembro
Dogma – Agosto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

é preciso desaprender a viver 
Resta-lhe pouco tempo para tudo. Resta-lhe pouco tempo para quase tudo. Resta-lhe pouco tempo para nada. Resta-lhe pouco tempo. Não resta mais. Acabou.

MENINO! TIRE A MÃO DO SOL!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

Acidente

imagem: camerART 

Morreu gente
morreu gente no acidente
gente olhando
comentando
uns filmando 
outros rezando
o resgate trabalhando
enquanto a gente observa
o que foi um veículo
o que foi gente
o que foi.
Todo dia morre gente.
O resgate é rápido
a morte é imediata
e a dor é certa
da gente que fica olhando
da gente que fica.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Povo das sombras


O povo das sombras aparece sempre no mesmo horário, junto com as sombras, assim que o sol nasce. Sempre muito cedo, ainda na madrugada, mas, aparentemente, sem nenhuma ajuda de qualquer deus.
Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.
E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Aprendizado


Aprenda menino
faça direito
há um bom futuro
num curso que dê dinheiro

Aprenda menino
dê a mão a palmatória
foi assim que seus avós
escreveram nossa história

Aprenda menino
tire sempre altas notas
há uma cinta na vermelha
abraços e sorrisos na cola

Aprenda menino
nós construímos esse mundo
faça só o que queremos
que você herdará tudo


Joakim Antonio



sexta-feira, 1 de novembro de 2013


musa morta




ele finge para não delatar-se
e sob a musa seminua
o carrasco impera
como quem sente mais
que deveras sente
sustenta o soluço
quase não