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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Surpresa de Natal

O homem descuidado deixou entreaberta a porta de seu quarto enquanto tirava a roupa de Papai Noel. Seu filho, seis anos e bisbilhoteiro que s[o ele, boca aberta e cutucando o dente-de-leite mole, exclamou:

- Pai!

O homem esboçou uma explicação. Diria que era auxiliar do Papai Noel, representando ele naquela casa,  já que a agenda do bom velhinho era cheia. Ou, se não colasse, revelaria a verdade, que não havia Papai Noel coisa nenhuma. Assim, ao menos receberia o merecido crédito pela bicicleta que o garoto ganhara, paga com o seu dinheiro suado, sem mão-de-obra de elfos. Mas não foi preciso, a surpresa do menino era outra:

- Eu pensava que a barriga era falsa. Você tá gordo, pai!

Envergonhado, o pai só pode gargalhar:

- Ho ho ho!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas


Acreditar nos seus sonhos, crer que o dia de amanhã será ainda melhor, achar que a humanidade está dando certo... Tudo isso está correto. Mas não se engane: o otimismo em excesso pode ser um problema. É importante ter os pés no chão, até porque no caminho há degraus. E quando a vaca estiver indo para o brejo, mais do que gritar “força, vaquinha, você consegue!”, pode ser útil chamar um guincho.

Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas é o livro de estreia do escritor mineiro Luís Fernando Amâncio. A obra é uma compilação de narrativas cômicas e trágicas - muitas vezes cômicas justamente por serem trágicas.

O autor foi selecionado pelo Prêmio LiteraCidade Jovem – 2014, na categoria Livro de Contos, o que lhe rendeu a publicação da obra.

Exemplares do livro podem ser adquiridos no link: 


Luís Fernando Amâncio

domingo, 26 de outubro de 2014

Milagre eleitoral

Quando eu era criança, achava o feio, bonito: gostava de ver, nos dias das eleições, as ruas cheias de papéis, os santinhos dos candidatos. Chegava até a janela da minha casa e via aquele cenário, outrora tão familiar, agora salpicado de cores. Quase um carnaval e seus confetes.

Evidente que não era a sujeira o que me agradava. Era a situação em si. Para as crianças tudo que é atípico tem o frescor de uma descoberta. Aos meus olhos, dia de eleição era quando as ruas amanheciam enfeitadas.

E, curioso, eu ficava pensando: como as ruas ficavam daquele jeito? Na noite anterior à eleição, a cidade normal; amanhecia e era papel para todo lado. Quem fazia aquilo? Como era? Eu ficava imaginando - chegava meia-noite e a rua ficava lotada, candidatos com ternos e seus cabos-eleitorais com bonés e bandeiras, cuidadosamente deixando santinhos pelo chão, para convencer o eleitor descuidado que saísse de casa sem saber em quem votar.

Certa noite, já adolescente, eu voltava para casa na madrugada anterior a uma eleição. A chuva e os bares fechados por conta da Lei Seca me deixaram sóbreo o suficiente para ver o “fenômeno” acontecer. Vi carros parando em esquinas e seus ocupantes lançando a papelada para fora. Jogavam e aceleravam até a rua seguinte. Som de motor e rádio FM. Simples, direto e, o pior, sem glamour algum.

Claro, foi uma decepção, devastou as memórias imaginárias que perduravam da infância. Mas foi bom, em todo caso: aprendi que emporcalhar as vias públicas é feio, e o feio, ao menos nessa caso, não é bonito.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Belo Horizonte à meia-noite

Vultos se movem nas sombras. Espectros dão risadas, que ressoam malignas envolvidas pelo silêncio de todo o resto. A urbanização mineira funciona e, na madrugada, não há trânsito.

Um sujeito surge e balbucia coisas inaudíveis. Esforço-me numa leitura labial. Fracassada. Ele segura um boné, parece se tratar de uma oferta. Faço minha cara de “foi mal, não tenho dinheiro”. E é verdade, do contrário estaria num taxi.

Seria um boné roubado? Ou uma artimanha para me roubar?

À (meia-) noite, todos os gatos são pardos (assaltantes em potencial), diz a sabedoria do assistir-Jornal-da-Globo-tomando-chocolate-quente-enquanto-o-mundo-lá-fora-é-todo-malvado.

É verdade, eu corro risco. Preciso ficar alerta. Consola-me o fato de assim ser a vida, por todos os lados, perigosa. Mas o maior dos riscos, ainda acredito, é morrer de tédio.

No céu não há estrelas, apenas prédios obscuros. Tampouco vejo carruagens ou automotivos dos anos 1920 para me transportar para qualquer “Era do Ouro”. Dou-me por satisfeito em adentrar o primeiro ônibus que me levará para casa. 

Vida pé-no-chão. Tudo que reluz geralmente é ouro de tolo.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Selfie

Esticou o braço, apontando o celular para o seu rosto. Olhou para o lado. Apertou a tela. Click.

Ergueu o celular, fez um biquinho, de leve. Apertou a tela. Click.

Mudou o celular de mão, balançou os cabelos e os jogou no rosto. Pôs a língua para fora, no canto da boca. Click.

Pôs óculos escuros no rosto. Click. Mordeu os lábios. Click. Fez carinha de “to chupando limão”. Click. Pôs um pirulito na boca. E click.

Visualizou as fotos na tela. Se curtiu. Aí, postou tudo no feicibuque. E esperou os outros curtirem.
Mas pouca gente se manifestou.


Ficou triste. Procurou uma frase de efeito para ilustrar sua tristeza. Achou uma da Clarice Lispector.

sábado, 26 de julho de 2014

Análise Crítica II

- Olha, filho, veja bem. Seus textos não são ruins. Mas ...eu não sei. Acho que você poderia mudar seus temas. Escrever sobre coisas que as pessoas querem ler. Não sei. Talvez escrever sobre coisas fofas. Sabe?

- [Ele coça o queixo, olha para os pés – precisa cortar as unhas dos dedões - põe as mãos nos bolsos da calça] Coisas fofas, mãe? Bom... Eu poderia, então, escrever um diálogo com filhotes de tartarugas... É. O que você acha?


- Uhn... Filhotes de tartaruga. Eu acho que coisas fofas talvez não seja o seu filão. Vamos pensar em outra possibilidade.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Aclamação

A cortina deixou uma fresta e ele olhou para fora. Daquela altura, a vista era bem ampla. Abaixo, uma multidão em frente ao prédio. Um garoto apontou o dedo: tinha sido reconhecido. Outros também ergueram a cabeça. Logo todos. Gritavam seu nome, agitavam cartazes. E ele sorriu: era célebre, finalmente.


O policial percebeu o descuido e o puxou pelo pescoço. E enquanto retornava para o interior da sala de espera, ele ignorou que, após seu nome, a população adicionava um adjetivo  - culpado.

sábado, 26 de abril de 2014

Pelo bem da espécie

 - Pô, cara, por que você é tão mal humorado? Custa tanto dar umas gargalhadas de vez em quando?


- É que eu estou treinando para ser um velho rabugento.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Análise Crítica

- Sabe, filho, você até que escreve bem, isso dá para perceber. E é criativo. Mas as suas histórias... elas não chegam a lugar algum! De verdade. Aí fica chato. Você precisa escrever histórias mais bonitas, que passem alguma mensagem, entende?

- Ah, mãe, mas eu me inspiro na vida. As coisas não vão, necessariamente, para algum lugar.

...

- Filho, acho que está na hora de você voltar para a igreja, viu.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Meu Deus é o Sol

Não consigo acreditar em Deus, nesse velhinho moralista me vigiando lá de cima, tomando conta do meu corpo com cara feia. Não dá. Meu deus é energia, cara, é a vida, a cadeia alimentar, a Lei da Gravidade. É o Sol.
...
Bom, se ele é o Sol, eu prefiro ficar afastado de Deus em dias quentes.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

terça-feira, 26 de novembro de 2013

sábado, 26 de outubro de 2013

F5

As mãos à cabeça
A testa na mesa
E os dedos marcando no pulso
O ritmo da aflição

“A internet caiu”
Disseram-lhe
E ele bufou
Que dessem notícias novas
Que disso sabia há nanossegundos

Foi até a janela
A manhã estalava de fresca
Precisou semicerrar os olhos
Forçado pelo esplendor do dia.

Tanta coisa lá fora
Porram
Tanto o que fazer...
Poderia ir até o centro comprar churros
Surfar no teto de um ônibus
Conversar com alguns velhinhos na praça.
Só exemplos

Havia perspectivas
Ok.
Mas ele não queria nada daquilo.
Voltou ao computador
Teclou F5

E a internet havia voltado.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Da chuva

Lá fora, a água cai indiferente ao tédio que causa. Gosto de ver, pela janela, como a chuva deixa a paisagem turva. E de adivinhar o caminho das gotas que deslizam pelo vidro.


Quando mais jovem, costumava correr nos dias chuvosos. Então, eu aprendi a ter medo de resfriado.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Peixe Morto

Houve tempo para ele perceber o quanto o ar era mais leve do que a água do aquário. E de rodopiar algumas vezes. 

Mas o chão se aproximando impediu maiores reflexões.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O gigante acordou

Diante do televisor, o cidadão assistia o noticiário. Escândalo de corrupção, crimes hediondos e box do Kenny G pela Som Livre. Até que:

__ Basta __ ele exclamou, socando a mesa de centro.


Procurou uma operadora de TV a cabo.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Deus é Amor

__ Conheço uns caras que se gostam e umas minas que dizem não viver uma sem a outra. É amor. E Deus diante disso?

__ Deus é amor, não é bagunça! Isso tá errado! Essas pessoas precisam de CURA.

Onipotente e onipresente, Deus acompanhou o diálogo e se transforma em Chaves para se pronunciar a respeito:




domingo, 26 de maio de 2013

Tudo é possível


__ Você pode fazer tudo o que quiser, meu amigo. Não deixe ninguém e nada te intimidar. Seus sonhos são possíveis de se realizar, sejam eles quais forem. Basta acreditar e trabalhar por eles.

__ Eu queria encostar minha língua na ponta do meu nariz.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Conhecimento é vida. Ou não.


“Conhecimento é vida”

Diz a placa de publicidade

Da instituição de ensino.


“Saber muito é pecado”

Diz o corpo, estendido,

Há poucos metros dali.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tempo para recordar


O pai se ergueu do sofá, caminhou até a janela e, de costas para o filho, começou a discursar:

__ Garoto, dias assim me remontam aos anos em que passei na cadeia. Dias terríveis, angustiantes. Neles, as horas escorriam lentas e dolorosamente. Como eu sofri, meu filho, como eu sofri.

Uma pausa. Cabisbaixo, o pai cobriu os olhos com a mão, enquanto gesticulava negativamente com a cabeça.

__ Eu cometi um erro, filho. Fui seduzido pelo caminho mais fácil e paguei por isso. Por favor, pelo que há de mais sagrado, não faça o mesmo.

__ Tá bom, pai, vou ficar atento a isso. Mas... o quê te lembra da cadeia nos dias de hoje? O céu nublado? O ritmo desacelerado do domingo?

__ Não, o arroz empapado da sua mãe. Hoje, o almoço foi uma tragédia, igual aos da penitenciária.