
Condenado que fui à vigília, não temo a visita do ladrão, pois não haveria de vir enquanto não me ausento. Por isso, mantenho os olhos bem abertos e, fixo-os na fumaça que se expande. Vivo acocorado, prestando reverências às sombras. Minha vigília se faz sob um fiapo de luz, pois a incandescência me cega e a escuridão me assusta. É insuportável a ausência, porém, prefiro ocultar-me. Há muito tempo não tenho nome. Resumo-me a números. Talvez seja um desmemoriado que se perdeu obtuso. Talvez seja apenas a transfiguração de um ser desfigurado: obra inacabada que se viu ruir. Minhas mãos, porém, se alongam. Volteiam meu corpo num abraço mecânico. Em minha cabeça ecoam os sons das sirenas, alarmes, ruídos, batidas, estalos, estampidos. Tudo ecoa desordenadamente ferindo os tímpanos e a alma. O calor me toma o corpo. Castigo que escolhi voluntariamente em meu masoquismo. Todos os meus membros são o prolongamento da máquina. Eu, indecifrável robô, tenho sonhos mórbidos. Um olhar confrangente sobre os outros que, em fila indiana, esperam o seu prato mofado para, como eu, amofinar-se no constrangedor fazer diário.
Minha obrigação é vigiar. Vigio a luz para que não se apague; a porta para que não se feche; o ventilador para que não gire demasiadamente. Vigio o pó suspenso, a poeira, a fuligem. Vigio o bem para que não se sobreponha ao mal e o mau para que não destrua o bom. Vigio as frutas podres: Adão e Eva no jardim perdido.
Sou o olho que olha, o ouvido que ouve, a boca que fala, o coração que palpita. Sou tudo e nada. Um ser sem nome, sem identidade. Sou o vigilante: aquele que não dorme, nem repousa. Designam-me por um número de uma imensa cadeia. 1263. Sou eu. Agente 1263 do setor norte. Treinado e qualificado para vigiar – olho do olho do olho. Todos são números. Agentes qualificados, treinados para diversos fins. Abrem, fecham. Acendem, apagam. Enroscam, desenroscam. Tudo simultaneamente e sincronizado, numa mecânica inigualável. Todos sinergicamente unidos, embora afastados. Não se tocam, não se sentem. Não tem afeto ou afeição: são números, e, números não sentem, nem se reconhecem, pois números apenas se somam, se multiplicam, se dividem, se subtraem.
Não procuro me redimir de meus males. Foram causados a mim mesmo. Fiz do labor a condenação, prosseguindo em vigília. Não finquei os joelhos ao chão por não haver altar ante meus olhos. Não, não consigo enxergar magnitude na filha de Tântalo. Ela se gloria de sua abundância; como se bastasse a si mesma. Ela e sua descendência. Ela e seu cabedal do medo e arrogância. Engoliram-me, regurgitaram-me e, sobre mim vomitaram seu asco. Tu não és deusa, filha de Tântalo! Como curvar-me a ti, se nem a Apolo ou Juno, Zeus ou Hera, Minerva ou Latona, presto reverência? Logo tu, mortal, queres que me prostre? Não. Vai-te como veio desconhecida forma. Vai e deixa-me com meus destroços, submerso em meus escombros.(...)