Como quem inaugura lápides
encontrou a poesia de Pound
entre os ossos do frango
(já de dois dias)
comido frio no desjejum
: alimentou-se da primeira
embora tenha vomitado o segundo no chão da copa.
As plantas dos pés enraizadas no piso
de repente imaginaram caminhos possíveis
: estava suspenso pela poesia
ente que não conhece a imobilidade.
Um livro
depois outro.
Um poeta
depois outro.
Plena manhã
e ele engravidando cemitérios.
(poema inédito em livro)
terça-feira, 2 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
monções
não há argumentos neste lugar
só olhos vesgos de um mentir torto
tão verdadeiro quanto notas de seis
pois as de dois já existem
não peço nada além de sua presença
e nem assim se sente satisfeito
com o desprendimento grevista
sem platéias ou discurso inflamado
vermelhos, não de dor e sim de torpor
os lábios riem e mangam de repique
o piquete de elogios vazios
e críticas destrutivas
acusa-me: "mentirosa, mentirosa"
como se ser falsário e ludibriador
fosse mérito apenas dos impuros
e cruéis de plantão
nunca tive medo das palavras atravessadas
cheias de desprezo e de escárnio
pois quem desdenha em algum momento
quer apenas adquirir algo com preço de lambuja
essa liberdade sonora que prega
é tão tênue quanto fumaça no vento
e saiba que nada se perdeu
é a velha lei da relatividade
ou talvez a farpa no olho do outro
estamos sempre presos a algo que desgostamos
ou que no mínimo não nos orgulhamos muito
e a maioria dos castelos são de areia
que a onda da realidade teima em derrubar
para quem não gosta de clichês
a vida ensina que poucos saem deles
e perdi a conta de quantas rimas pobres
habitam meus poemas de baixa qualidade
e não paro mais pra contar
já não me interessa quem é
ou de quanto espaço precisa
não temo estrelas ou buracos negros
como digo as coisas acabam sem deixar de ser
e mais uma vez me olha nos olhos
simulando uma quase verdade
como se já não conhecesse a marcha
aquela de arranque que precede a fuga
tantas vezes já vi outros aqui
fazendo o mesmo que faz agora
não sabe pedir ou implorar
mas se dá à demagogia verborrágica
do confronto sem causa
desaprendi de esperar
mas nada mais há além do tempo
e ele passa rápido demais
para que eu fique só olhando.
domingo, 30 de junho de 2013
BOAS HISTÓRIAS
«Quando conto as minhas viagens, embora não compreenda, há
um encantamento em seus olhos.»
Será que você compreende o encantamento? Compreende! Ele
também compreende, o que o encanta, mais do que a você. Com «embora não
compreenda» deixa-nos, enquanto leitores, perante uma incompreensão. A qual
aceito tenha, não compreende o que seu pai compreende e o encanta. Compreenda,
meu comentário é a preparação para meu próximo testamento, vou então escrever…
Mina:
BOAS HISTÓRIAS
Para meu pai, sem anos feitos, deixo depois de ter sido,
tudo que fui. Foi que não lhe adiantará de muito, assim sendo, fica a saber o
que perde. A minha colecção de memórias arquivadas de A a Z e de z a a… Como as
poderia aceder é fácil, ido para a Eternidade ficaria a sonhar as letras em
combinações infinitas, com suas fintas e remates: golooo… Glorioso destino me
dou: - Boas histórias, meu Pai.
Grande texto o seu, com a ressalva feita. Desnecessário mostrar
o que não mostra, convencer sem convencer. Com «embora não compreenda» teria de
vir, deveria vir, algo que compreendêssemos: algo que seu pai (personagem passivo
na narração) não compreendesse. O encantamento é a compreensão total! Abraço.
sexta-feira, 28 de junho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Deus é Amor
__ Conheço uns caras que se gostam e umas minas que dizem não
viver uma sem a outra. É amor. E Deus diante disso?
__ Deus é amor, não é bagunça! Isso tá errado! Essas pessoas precisam de
CURA.
Onipotente e onipresente, Deus acompanhou o diálogo e se
transforma em Chaves para se pronunciar a respeito:
terça-feira, 25 de junho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Do vinagre e seus usos
Eram especialistas em conter
Bastava meia dúzia de cães e seus lacaios
ou um pequeno pelotão de farda
armados com um pouco de ódio
– que já vem de fábrica –
e um up grade que adquirem na jornada
Tudo se dispersava diante do pelotão
montado sobre ferozes cavalos
polícia e bandido (doutores de terno & gravata)
de mãos dadas para distribuir porrada
e a ordem era mantida para a glória
dos privilegiados (uma certa
gente diferenciada)
Eis que o rumor da multidão
abafa o som das botas e das bombas
daqueles que pagávamos para nos matar
Ninguém recua até que o sol venha iluminar
as vidraças q u e b r a d a s
*
domingo, 23 de junho de 2013
Horário de verão
imagem: xxHeartlessx
Hoje vi esse sorriso, tão divino!
que por ele:
teceria mil colchas de retalhos;
juntaria os cacos;
me retalharia em postas;
e se não fosse em vão
lhe faria uma resenha;
escreveria um romance;
arrancaria seus olhos frios
e no lugar, diamantes
para adornar seu sorriso lascivo.
O dono do sorriso, tão menino!
não buscava ser perfeito
mas, que remédio,
se o mal já estava feito?
quarta-feira, 19 de junho de 2013
domingo, 16 de junho de 2013
Memes
Para nossa alegria
Hoje é dia de rock, bebê!
Vamos todos tomar uns bons drinks,
e comer uns sanduíches, íches, íches
menos Luíza, que está no Canadá.
Que deselegante!
Isso é muito falta de sacanagem...
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Vendo-me
Rendo-me a esta situação deplorável, entrego-me a este
sujeito desprezível, deixo-me levar como cadela afável
E vendo-me, no espelho, ajeito batom e rímel.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Respeito, Amor e Paz
Se te afasta do amor
Te joga na dor
Prega o preconceito
Contra cor, classe
Raça?!!? Não somos todos humanos?
Mais de 7 bilhões de manos
Se mexe com seu direitos
Assim como transformaram
Os gays, nos novos pretos
Com novas senzalas, Palmares, guetos
Só não vê quem não sofre mais
Liberto pela lei, do ventre livre $ocial
Se costuma esconder-se
Atrás de uma benção, ciência
Passe, unção, hóstia, mantra, ordem
Costas largas, músculos, armas, dinheiro
Textos sagrados e frases, escolhidas a dedo
- A um ainda vale, a sete não usamos mais
Esqueça o que eu faço, veja como eu grito mais
Se leva ao ódio e aversão
Diz quase sempre guerra e quase nunca paz
Aumenta tanto o medo, que leva amantes da paz
Que transformavam inimigos, se armar até contra amigos
Do lado daqui, do lado de lá
Aumentando cada vez mais a tensão
Não se engane irmão
Sem amor
Não-É-Deus-Não
Joakim Antonio
Imagem: http://rapemcartaz.wix.com/colecartaz
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Raízes
Meu pai é um sujeito rude, sem leitura: analfabeto de pai e mãe. Com quase oitenta anos. Uma aparência envelhecida e um olhar cansado. Seus cabelos desgrenhados e a boca de dentes escassos lhe dão um ar engraçado, quase de não levá-lo a sério, afastando-o totalmente de outro homem que conheci. Houve um tempo em que me dominava o medo de aproximar-me dele. O peso de suas mãos e de suas palavras me assustavam. Incompreendidos que ficávamos em nossa incomunicabilidade. Com o tempo, descobri que tudo aquilo era um hábito herdado: toda a rudez e ignorância não passavam de artifícios inconscientes que ele usava em nossa educação. Queria nos tornar gente a qualquer preço. Queria-nos honestos, trabalhadores, adestrados, assim como ele.
Apesar
de tudo, exercia um fascínio sobre mim. Uma admiração na forma como era capaz
de cultivar em nós o medo. Seus olhares enviesados, suas palavras, o barulho de
suas botas na escada eram capazes de nos silenciar instantaneamente.
Sobrevivemos todos. E prosseguimos cada qual com suas idiossincrasias. A
capacidade de abaixarmos a cabeça ante os nãos da vida e essa aceitação
subserviente de todas as coisas que não nos são possíveis são traços herdados,
além da timidez e essa afetação silenciosa a nos apaziguar com o mundo.
Os
tempos mudaram. E nele todas as mudanças se precipitaram. E pude perceber sua
vulnerabilidade. Pude ver que sua incapacidade de expressar seus afetos era
também herança. Compreendi que não se podia encontrar culpa em seus atos; que
não havia leviandade em suas atitudes e que isso não vinha de seu espírito. Não
havia maldade, senão desamparo: o mesmo que eu sentia diante de seus pés. Quase
uma tradição de falta de afetos. Algo que repercute em nossos encontros.
Silêncios entrecortados por frases enviesadas, conversas simplórias sem os
vícios dos abraços, muito menos os beijos na face. Com ele, nenhum excesso.
Nenhuma extravagancia, nenhum exagero. Não partilhamos o hábito dos presentes:
nem em aniversários, dias de natal, dia dos pais. Há em nós uma rudez herdada.
Um afastamento que transita de gerações anteriores.
Contudo,
hoje nos entendemos melhor. Ele não viaja. Viveu em poucos lugares, pouco
conheceu. Enraizou-se, ficou comodamente preso à terra. Quando conto as minhas
viagens, embora não compreenda, há um encantamento em seus olhos. Ficamos
ambos, nos admirando em silêncio. Minha admiração se estende a sua capacidade
de com o passar dos anos adquirir certa calmaria, certo apaziguamento,
mergulhado em seus afazeres diários. Seus cuidados com as galinhas, com as hortaliças,
suas plantações e colheitas de feijão e milho; as mandiocas e bananas que leva
à mesa. Essa aparência de quem alcançou a plenitude. Os traços de felicidade
que se misturam aos vincos do tempo e seu rosto não aparentam mais a rudez que
tanto me espantava. Posso perceber a alegria que é meu retorno a sua casa. A
satisfação que é para ele matar seus melhores frangos e preparar aquela
galinhada que comerei fervorosamente com apetite de padre que encerra o jejum
quaresmal.
Há
uma espécie de serenidade. Talvez a idade a silenciar os impulsos. A acalmar o
espírito impetuoso que o guiava. Talvez o cansaço de uma vida fatigada. Ou a
ausência de qualquer necessidade além do que se construiu.
sábado, 1 de junho de 2013
destruidor...
a geada do porvir
é impiedosa
e talvez tome seu visgo
mas se sobreviver a tudo
com vigores primaveris
cortarão seus talos
venderão mais que essência
para enfeitar mortes
amores e regalos pueris
e se seus jasmins imperam nobres
em seus viveiros de salamandra
deixe-os de sobreaviso!
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