segunda-feira, 29 de março de 2010
aura rara
quarta-feira, 24 de março de 2010
Considerações a respeito de um homem nu, em 1926
Há alguns anos minha avó veio morar conosco. Costume antigo, sempre está contando algumas histórias, que traz fresca na memória. Todas repletas de matéria-prima para crônicas nostálgicas ou papos descontraídos em mesa de bar.
Vivendo em fazendas, ou em pequenas cidades do interior de Minas, fala de como sua avó fora laçada numa tribo de índios – não recorda o nome da tribo ou o estado onde ocorreu o fato; fala de como certa vez fora levada com suas irmãs para a cidade para verem o espetáculo do acender dos postes. A tecnologia, então, consistia numa lamparina movida a querosene e o protagonista da cena um homem qualquer, que vinha acendendo lâmpada por lâmpada, iluminando o caminho.
Recorrente em seus assuntos é uma porção de revoluções que ela presenciou. De repente chegavam homens, ninguém sabe de onde, nem servindo a que propósito, e levavam os jovens para lutas em outros cantos. Ela nunca mencionou se esses voltavam esfarrapados, mutilados ou se não voltavam nunca. Tampouco isso vem ao caso.
Era menina, e a década provável os anos 30/40. Penso sempre que batalhas poderiam ser essas, travadas nesses confins do mundo, onde a vida era completamente diferente da contada nos livros de história e nos almanaques de farmácia. Por aqui a bastilha ainda não havia caído, a Rússia sequer existia, e Napoleão, que tinha banhado o mundo com sangue, poderia tanto ser uma lenda mitológica como um santo católico.
Quase sempre concluo que se trate de disputa de fazendeiros – coronéis donos do mundo – lutando pela expansão de suas propriedades, ou promovendo um rotineiro massacre nos latifúndios vizinhos. Uma dessas aventuras, é certo, se trata da segunda Guerra Mundial. Essa, devidamente documentada, passou em sua Macondo recolhendo as motos e os veículos que supostamente seriam enviados para a Europa. Meu avô tivera a sua motocicleta confiscada. Se ela fora para a Europa servir de cavalo motorizado para as tropas aliadas ou se ficou nas mãos de algum burocrata, passeando nas ruas da capital, não é possível saber.
Porém, nenhuma dessas histórias me tocou mais que a saga de Mané Pelado. Num momento em que a ordem do dia consistia em buscar lenha nos campos repletos de cascavéis e cuidar das criações, alvo constante dos predadores naturais e das intempéries da natureza, a paz estabelecida era quebrada pela figura esguia, completamente nua, que ficava rodeando as casas e ao primeiro sinal se lançava às matas e sumia.
Por um descuido, pode parecer que estamos falando de uma assombração, que naquela época realmente existia aos montes. As histórias de lobisomem, de extraterrestres, são um caso a parte. Mané existia mesmo e tudo indica que era um louco, fugitivo de algum lugar, ou, em outra hipótese, um abandonado pela família que sobrevivera comendo raízes, roubando ranchos, capturando pequenos animais.
Mas quem era esse ser que costumava invadir as casas quando todos saíam para a colheita, ou à pesca, para beber o leite recém ordenhado? Quem seria esse homem que aproveitava os descuidos para invadir as residências, comer o pão, beber a pinga, tirar um cochilo em cama quente? Seria uma vítima dessas revoluções, com a sanidade ferida em combate diante da visão do holocausto? Seria um pensador, que um pouco atrasado, mas sozinho e com os recursos que possuía, percebera que a vida que se levava nas cidades era um câncer e o mundo caminhava para o abismo?
Conta a minha vó que, certa vez, sua mãe ao notá-lo se esgueirando nas imediações da casa atirara nele com a carabina. Ele saindo em fuga, para voltar no outro dia, é uma imagem que me impressiona muito.
O que foi feito dele, ninguém sabe. Por certo, onde caiu morto ficou até que a natureza encarregasse de consumi-lo. Encontrado por caçadores, talvez tenha sido enterrado na beira de algum riacho, num túmulo coberto de pedras que o musgo engoliu. Em última instância, pode-se crer que tenha recobrado a lucidez e retornado para casa, onde filhos e mulher já haviam se esquecido do luto.
No mais é isso, ficando cada um com o fim que mais lhe apetecer.
*
terça-feira, 23 de março de 2010
Mentiras que vão, mentiras que vem...

_Oi querido! Já está todo mundo aqui, só falta você...
_Eu sei, mas ainda vou demorar um pouco. Como estão as coisas por ai?
_Todo mundo se divertindo muito, ela é uma ótima anfitriã, tenho que admitir.
_Ahã... ela é boa em muitas coisas...
_Ah não! Você vai começar a elogiá-la pra mim? Eu a conheço muito bem, seis quais são as qualidades dela, assim como sei quais são as suas, mas parece que você não conhece as minhas...
_Delícia, te conheço como a palma da minha mão e sei que você está magoada comigo, mas por favor, não faça nada para se arrepender mais tarde.
_Querido, eu amo você e nada mais me importa...
_Eu também amo você, e você sabe disso, mas por favor não faça drama à essa hora.
_Drama? Eu? Não estou fazendo drama!!! Como você acha que eu deveria agir? Estou sozinha na festa da sua esposa, na sua casa, e ela está só esperando por você para compor a imagem do casal feliz e cortar o bolo... eu não sei se consigo mais fingir que não sinto nada... Você prometeu...
_Sei o que prometi meu amor, mas tente entender, quando eu casei com ela eu queria construir uma história, mas de repente apareceu você com seus lábios carnudos e esses seios fartos, parecendo que iria resolver todos os meus problemas, me oferecendo um mundo novo, e eu não pude resistir... mas não consigo deixar minha mulher, entenda...
_Entenda uma ova! Eu fico todas as noites te esperando, sozinha, e você aparece quando bem quer, além de me fazer passar por situações ridículas como essa...
_Mas você não é minha convidada para essa festa, lembra-se disso???
_Como poderia me esquecer do que estou fazendo com minha irmã? Ela que sempre me ajudou em tudo, me ouviu, me acolheu... Você não passa de um grande canalha!
_A culpa agora é minha? Você sabia como eu era antes mesmo de se insinuar pra mim! E não reclame, eu faço o máximo para manter vocês duas felizes o tempo todo, você pensa que é fácil pra mim?
_Você pensa que é muito bom não é mesmo? Pois saiba que ela desconfia de você, ela já me confidenciou isso uma vez, mas não acredito que ela desconfie de mim, já que eu sou família... ela sabe que eu tenho alguém, mas não imagina quem seja.
_Não é possível, eu procuro ser o mais natural possível, principalmente quando você está por perto... como foi que ela...?
_Não seja ridículo! Que mulher não desconfia de um marido que fica quase a semana toda viajando e quando está em casa nunca larga o celular? Ela não é boba, e eu não agüento mais essa situação. OU_VOCÊ _DÁ_UM_JEITO_ NISSO!!!...
_Clarinha, o que foi? Aconteceu alguma coisa?
_Não Lia, fique tranqüila, continue sua festa, está tudo bem.
_E o Anderson que não dá sinal de vida hein...
_Calma meu bem, ele ainda vai chegar a tempo, você vai ver. Tente falar com ele mais uma vez. - Você viu só o que eu tenho que fazer? Enganar friamente minha própria irmã. Onde eu estou com a cabeça que não abandono esse caso com você e vivo minha vida como tem que ser? Porque eu sou incapaz de fugir e arrumar um cara que goste de mim de verdade, que me mereça?
_Por que eu gosto de você exatamente assim, como você precisa ser amada, e não te enganei um só minuto, não vou deixar minha esposa para ficar com você.
_Canalha! Ingrato! Infelizmente eu te amo demais... mas não pense que ela não vai saber disso um dia...
_Você não seria capaz...
_Não me desafie. Experimente não aparecer em minha casa hoje depois dessa festa ridícula para você ver se eu não conto tudo pra ela. Não tenho nada a perder.
_Cale a boca! Tenho outra chamada, espera ai. – Oi meu amor! Sim, já estou a caminho, mas o trânsito está muito ruim... assim que eu sair desse túnel eu....
_Você sempre tem resposta pra tudo não é mesmo. Espere, ela está vindo na minha direção, parece que vai falar alguma coisa... – Oi Lia, estou numa ligação.
_Eu sei Clarinha, mas você já está aí sozinha faz um tempão. Não quer se juntar à alguns amigos meus, eles querem muito te conhecer?
_Lia, já te falei para não tentar me arrumar namorado, eu não tô afim... E tem mais, já está na hora de você saber de uma coisa. Só um instante – Oi querido, vou falar um segundo com a minha irmã e a gente já conversa tá. Te amo, um beijo.
_Sua louca! Não abra essa boca, eu acabo com você... – desligou na minha cara.
_Minha irmã querida, o que eu vou te falar dói mais em mim do que em você, mas não tenho mais como esconder isso...
_Fala logo, tá me deixando nervosa. É alguma coisa com o Anderson?
_Calma... não sei como explicar mas... por favor me perdoa... é que eu não lhe comprei nenhum presente de aniversário...
_Ah! Mais essa agora. Querida, não se preocupe, ter você aqui já é mais que suficiente. Mas chega, me dá esse celular e vá conversar com o pessoal. Divirta-se um pouco!
_Eu amo você.
_Eu também. Me dá aqui um abraço... Olha lá, quem é vivo sempre aparece. O Anderson acabou de chegar. Amor! Que cara é essa?
_Oi meu amor, você está bem? O que essa ordinária te fez?
_Calma querido, não fale assim com minha irmã... ela só estava se desculpando por não me trazer presente, não é nada importante, não é Clarinha?
_Claro Lia, eu jamais magoaria você.
_Sua irmã é um doce querida. Eu gosto dela quase como se fosse minha própria irmã.
_Ah! Anderson, que ótimo. Somos realmente uma família feliz!
_Somos sim meu amor, muito felizes, os três.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Olha o livro aí, minha gente, vamos chegando!
Acho que isso deixou a notícia ainda mais feia.
Não sei o que eu fiz com o celular, algumas pessoas me pararam no meio do caminho (qual caminho?) para perguntar o que tinha acontecido, empurrei-as todas, xinguei outras, que saco.
Fui até o banheiro pra chorar em paz, mas aí, quer saber, que saco tudo isso, vou embora.
Chamei o elevador, demorou pra subir, fui até à janela, era alto, e me matei ali mesmo.
terça-feira, 16 de março de 2010
Teste do sofá
Chorou de raiva não só pela confiança traída, pela honra ultrajada, pelo talento ridicularizado, pelo corpo exposto.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Exercicícies
o que,
além do que se disse,
ela sereia?
Fosse Alice também uma sereia
ela não seria só Alice:
seria uma sereia Alice.
E o que faria Alice nesse caso,
(o de ser menina)
além de meninices?
Faria sereialices.
Sereia só é melhor
que somente Alice?
Então melhor sereia
(aquilo)
que uma Alice a litro.
sábado, 13 de março de 2010
Quem???
- Alô.
- Alô, quem está falando?
- Com quem a senhora quer falar?
- Quem está falando?
- Fernando? aqui não tem nenhum Fernando, não senhora.
- EU QUERO SABER QUEM ESTÁ FALANDO!!!
- Ah, sou eu, o Jesuíno.
- Escuta, Jesuíno, a Beth está?
- Quem? Anete?
- NÃO, A BETH, BÉÉ-TEE!!
- Ah, não tá, não. A senhora quer deixar recado?
- Tá, diz a ela que a Márcia ligou. Eu ligo de novo depois.
- Quem? Ivone? É para ela ligar?
- NÃO! MÁÁRCIAAA...
- Ah, tá certo, dona Ivone, eu digo, sim. Bom dia pra senhora.
- NÃO!!! NÃO É IVONE, É MÁR...
- tuuu... tuuu... tuuu...
"Beth, a Márcia ligou. Um beijo, Carlos"
sexta-feira, 12 de março de 2010
Aviso aos desavisados
Segue abaixo um conto (que não está no livro):
Bons costumes
quinta-feira, 11 de março de 2010
Pequena Morte
Na primeira vez, acordei primeiro e fiquei olhando ela dormir, seu peito subia e descia calmamente, compassadamente como um relógio preciso, já era dia e eu amei estar ali. Continuávamos abraçados, encaixados, não era mais virtual e continuávamos conectados. Admirava seu semblante calmo, amável, havia um leve sorriso mesmo estando dormindo. Deslizei as costas da mão pelo seu rosto, descendo pelo pescoço, por sua pele cor de bronze e seu cabelo agora selvagem, depois da guerra travada ali naquele campo de batalha. Como agora, não tinha o mínimo de sono, queria guerrear mais, mas também adorava ver ela em paz. Ainda mais quando a paz era dupla, pois nessa luta ninguém sai perdendo apesar de acabarem os dois morrendo. Uma pequena morte é verdade, mas que sempre é buscada, pois com ela o corpo para no tempo e apenas por um momento, as almas se fundem, voam e dançam para retornarem completas, repletas um do outro e de si mesmos. E todo dia eu quero morrer de novo.
Joakim Antonio
quarta-feira, 10 de março de 2010
Mais Insólito
Foto: Ana Luisa Kaminski
domingo, 7 de março de 2010
Loucura&Silêncio
serias mais que abstração nesta linguagem de ícones
que se movem como formigas gigantescas
a carregar consigo as lembranças.
Não fosse este silêncio
regressarias de tuas viagens, mesmo com ressaca de viver
ou tédio a corroer tuas esperanças que em vão
se movem como ratos a remexer latas na despensa.
Não fosse esta loucura
estarias presente em meu cubículo a bater-me na cara,
coagindo-me a dizer mentiras que lhe agradam,
apenas para salvar-lhe da névoa que encobre teu rosto.
Não fosse este silêncio
viria possuir-me o teu espírito em noites sem lua
em tempos de mistério e sombra, simplesmente
pra fazer gracejos e brincar sobre meu corpo quente.
Não fosse esta loucura
não serias só palavras rabiscadas por mãos trêmulas
em muros carcomidos, onde a alvura da cal
não esconde os desfavores do tempo.
Não fosse este silêncio
não terias ido embora pra longe destes olhos
deixando a este louco apenas o consolo
de versos obscenos no espelho do banheiro.
Mas, terias me libertado.
Desatando os nós que nos envolvem;
quebrando este silêncio que devora
as entranhas sufocando em nós o ânimo.
Quebraria este espelho que revela
a nossos olhos as misérias
a que nos condenamos;
Romperia o cordão que injeta em nós venenos.
Abortaria, pois, este desvanecimento
que nos rouba lentamente um do outro,
tornando loucura a tudo que um dia
dissemos querer da vida.
sábado, 6 de março de 2010
O Observador
Estou sentado, não vejo, mas sei que meus olhos olham pra mim.
Alguma secreção, secreção?, é. Algum visgo verte das minhas cavidades oculares.
Como eu posso ter certeza que meus olhos estão virados pra mim…? Não sei, será que estão.
Isso me assusta…
Viro a cabeça para cima, tentando conter a coceira no nariz. Escorre alguma coisa na minha boca. Me afogo. A cabeça que se move, a cabeça, a mão no rosto, o espirro.
Um espirro irrompe e jorra mais coisa viscosa em cima de mim.
O lugar onde ficavam os olhos doeu pungente quando espirrei.
Lembrei dos dedos.
Os dedos permanecem manchados, sim… Eu sei que permanecem porque ainda não lavei as mãos. Manchados de sangue e lágrimas involuntárias e puz e tudo mais que saiu e continua saindo do lugaro onde ficavam meus olhos.
Será que eles estão olhando pra mim?
Acho que sim. Marquei bem o lugar.
Marquei.
Sentei na cadeira, amarrei meu tronco pra não me mecher, as pernas, pra não cair. É! Marquei.
Fiz dois pequenos buracos na mesa e memorizei a rotação exata que eu deveria pousar os olhos.
Marquei o lugar certinho.
É… Sim…
Eles estão virados pra mim. Tenho certeza.
Você vai voltar, vai me encontrar aqui, de novo, e vai dizer dessa vez que eu não me enxergo?
Pf…
Imbecil.
.
Willy Barp
quarta-feira, 3 de março de 2010
conversa de namorados
lento movimento dos planetas, esse ápice martirizado dos meus sentidos,
da verdadeira materialidade da água, da madeira, de onde vem realmente
essa coisa que ouvimos o mahler tocar, do cheiro da tangerina como diz
o gullar
(ela) tá! chega amor, vamos mudar de prosa, e não pra e. a. poe,
por favor



