quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Mate


Desde o casamento, acostumou-se a ser tratada como uma rainha - indo para onde quisesse, quando quisesse. Quase todos os desejos lhe eram atendidos, com exceção dos que revelava apenas entre quatro paredes. No entanto, devido às regalias, as dificuldades do marido pouco lhe incomodavam até aquela tarde chuvosa.
Ao arrumar as gavetas, para evitar que os velhos pijamas embolorassem, encontrou as cartas e bilhetes. Descobriu, naquele momento, que ele só se interessava pelas outras rainhas.
Tomada por ira, desgovernada, deixou-se levar pelo primeiro peão que cruzou pela casa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Interregno



a alma
acalma

no 
olho 
do furacão

há calma
há alma

Joakim Antonio



Imagem: Pause by Aegis illustration

sábado, 24 de dezembro de 2016

essas palavras murmuradas pelas varandas


1
eram três ou quatro
viviam às margens
conspirando
pequenos & rudimentares
como peças
se desgastando dentro da engrenagem

2
muitos não eram
pois deixavam rastros por todo lado
e era coisa pouca
como o resto que deixa um ou dois ratos

3
Eram três ou quatro
não se sabe ao certo
porém era óbvio que o número bastava:

incomodavam
uma dor pequena
tipo uma espinha / uma cutícula inflamada

4
Muitos não eram
e quando vinham à tona
estava claro
a luz os incomodava

semelhante ao pirata
ou seu prisioneiro
que passou tempo demais no porão
preso em ferros
ou comendo escondido as provisões

5
eram três ou quatro
e no meio das pessoas
– contra quem atentavam –
poderiam passar despercebidos
mas não passavam:
os denunciava uma marca secreta

não se podia explicar o que era
nem precisava



Rafael Nolli. 04/12/16 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Insatisfeita


- Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida!
- Está me chamando de coisa?

domingo, 11 de dezembro de 2016

Oremos



E assim
deixo um pouco
de mim

Prometeu que nada traz

Inflamo
GRITANDO
até ficar rouco

C
a
i
o
meio
B
o
b
o

Levanto logo
e rogando
imploro

Que tenhamos paz


Joakim Antonio


Imagem: Innocence lost humanity found by Curlie_11

domingo, 4 de dezembro de 2016

essas palavras murmuradas pelas varandas


1
eram três ou quatro
viviam às margens
conspirando
pequenos & rudimentares
como peças
se desgastando dentro da engrenagem

2
muitos não eram
pois deixavam rastros por todo lado
e era coisa pouca
como o resto que deixa um ou dois ratos

3
Eram três ou quatro
não se sabe ao certo
porém era óbvio que o número bastava:

incomodavam
uma dor pequena
tipo uma espinha / uma cutícula inflamada

4
Muitos não eram
e quando vinham à tona
estava claro
a luz os incomodava

semelhante ao pirata
ou seu prisioneiro
que passou tempo demais no porão
preso em ferros
ou comendo escondido as provisões

5
eram três ou quatro
e no meio das pessoas
– contra quem atentavam –
poderiam passar despercebidos
mas não passavam:
os denunciava uma marca secreta

não se podia explicar o que era
nem precisava


sábado, 12 de novembro de 2016

Pontinhos


Durante a noite, na praia, viu as luzes dos barcos em alto mar, isolados. Pensou em quão triste seria viver dessa maneira, passar o dia no mar, trabalhando, e à noite virar um pontinho em meio a outros pontinhos perdidos na escuridão.
No caminho de volta para a cidade, reparou nos pontinhos, todos empilhados, mas, ainda assim, isolados.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Benção


Às vezes a gente faz planos e coloca no papel. Eu tenho um jeito esquisito de fazer, eu falo pro céu. Não aquele céu bonitinho das historinhas da igreja. Eu falo pro ar, eu canto pra terra. Eu sopro as palavras pra irem pros ouvidos certos. Pode ser até esquizofrenia, mas eu falo com a poesia, minha madrinha escondida, minha deusa, minha criadora vinda do infinito. E tudo que eu pedi nunca me foi negado e eu nem sabia que era ela. Mas às vezes parece um teste, daqueles que você se pergunta que lição você não aprendeu. Qual matéria repetiu e o porquê. Não posso reclamar de falta e faz pouco tempo que aprendi, com ela mesma, que eu devia aprender a pedir. Essa semana eu pedi, como ela me ensinou, pronunciando aos quatro cantos do mundo, pedindo pra buscar. Veio como poema, apareceu como amigos, sorrisos, pessoas bonitas por dentro, trouxe algo além do que eu previ. Então nesse momento, só tenho outro pedir. 

Poesia, sua benção! 

Joakim Antonio 

(poeta nas hora vagas, amor nas horas cheias)


Imagem: Feel the rain on your skin by Incredi

terça-feira, 1 de novembro de 2016

ventilador

nada rompia o silêncio
integrado ao ar
que vinha de fora
quase tudo era manso
quando não ranço

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Nada a perder


Sem ter uma casa para levar desaforo, armou o barraco

 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Absinto


Eu
Recinto
Portas abertas
Ninho
Janela da alma
Fascínio
Língua encarnada
Instinto
Dentes caninos
Pedindo
Lua prateada
Caminho
Uivo cantado
Sigilo
Eu
Absinto

Imagem: Absinthe Spirit by Memno

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Confissão


"Não, papai, com a fivela, não! Ele é pequeno, ainda! Bate em mim, pode ser? Fui eu que fiz, papai, não foi ele, não! Bate em mim, papai! Por favor!"

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Final do verão


Ao final do verão, as cigarras invadem a cidade. Chegam queimadas pelo sol, trocando de pele.
As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é uma ameaça constante.

domingo, 11 de setembro de 2016

Todo mundo cabe

Todo mundo cabe dentro de um poema. Irá sorrir, chorar, ou enraivecer-se. Dependendo do que ele viu, sobre si mesmo. Por isso é interessante postarmos coisas antigas, quem já o leu terá novos olhos e sempre haverá quem não o leu, ambos, nos mostrando o que há no seu coração.
Não existe poema sem arma_dura, mas só fere-se quem dá soco, quem suavemente o ama, apaixona-se.

Assim é!