domingo, 4 de dezembro de 2016

essas palavras murmuradas pelas varandas


1
eram três ou quatro
viviam às margens
conspirando
pequenos & rudimentares
como peças
se desgastando dentro da engrenagem

2
muitos não eram
pois deixavam rastros por todo lado
e era coisa pouca
como o resto que deixa um ou dois ratos

3
Eram três ou quatro
não se sabe ao certo
porém era óbvio que o número bastava:

incomodavam
uma dor pequena
tipo uma espinha / uma cutícula inflamada

4
Muitos não eram
e quando vinham à tona
estava claro
a luz os incomodava

semelhante ao pirata
ou seu prisioneiro
que passou tempo demais no porão
preso em ferros
ou comendo escondido as provisões

5
eram três ou quatro
e no meio das pessoas
– contra quem atentavam –
poderiam passar despercebidos
mas não passavam:
os denunciava uma marca secreta

não se podia explicar o que era
nem precisava


sábado, 12 de novembro de 2016

Pontinhos


Durante a noite, na praia, viu as luzes dos barcos em alto mar, isolados. Pensou em quão triste seria viver dessa maneira, passar o dia no mar, trabalhando, e à noite virar um pontinho em meio a outros pontinhos perdidos na escuridão.
No caminho de volta para a cidade, reparou nos pontinhos, todos empilhados, mas, ainda assim, isolados.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Benção


Às vezes a gente faz planos e coloca no papel. Eu tenho um jeito esquisito de fazer, eu falo pro céu. Não aquele céu bonitinho das historinhas da igreja. Eu falo pro ar, eu canto pra terra. Eu sopro as palavras pra irem pros ouvidos certos. Pode ser até esquizofrenia, mas eu falo com a poesia, minha madrinha escondida, minha deusa, minha criadora vinda do infinito. E tudo que eu pedi nunca me foi negado e eu nem sabia que era ela. Mas às vezes parece um teste, daqueles que você se pergunta que lição você não aprendeu. Qual matéria repetiu e o porquê. Não posso reclamar de falta e faz pouco tempo que aprendi, com ela mesma, que eu devia aprender a pedir. Essa semana eu pedi, como ela me ensinou, pronunciando aos quatro cantos do mundo, pedindo pra buscar. Veio como poema, apareceu como amigos, sorrisos, pessoas bonitas por dentro, trouxe algo além do que eu previ. Então nesse momento, só tenho outro pedir. 

Poesia, sua benção! 

Joakim Antonio 

(poeta nas hora vagas, amor nas horas cheias)


Imagem: Feel the rain on your skin by Incredi

terça-feira, 1 de novembro de 2016

ventilador

nada rompia o silêncio
integrado ao ar
que vinha de fora
quase tudo era manso
quando não ranço

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Nada a perder


Sem ter uma casa para levar desaforo, armou o barraco

 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Absinto


Eu
Recinto
Portas abertas
Ninho
Janela da alma
Fascínio
Língua encarnada
Instinto
Dentes caninos
Pedindo
Lua prateada
Caminho
Uivo cantado
Sigilo
Eu
Absinto

Imagem: Absinthe Spirit by Memno

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Confissão


"Não, papai, com a fivela, não! Ele é pequeno, ainda! Bate em mim, pode ser? Fui eu que fiz, papai, não foi ele, não! Bate em mim, papai! Por favor!"

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Final do verão


Ao final do verão, as cigarras invadem a cidade. Chegam queimadas pelo sol, trocando de pele.
As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é uma ameaça constante.

domingo, 11 de setembro de 2016

Todo mundo cabe

Todo mundo cabe dentro de um poema. Irá sorrir, chorar, ou enraivecer-se. Dependendo do que ele viu, sobre si mesmo. Por isso é interessante postarmos coisas antigas, quem já o leu terá novos olhos e sempre haverá quem não o leu, ambos, nos mostrando o que há no seu coração.
Não existe poema sem arma_dura, mas só fere-se quem dá soco, quem suavemente o ama, apaixona-se.

Assim é!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

oculta

pedinte e em chamas
valia-se do silêncio
frio e arrebatado
de quem desistiu

resignada observava
o que mais queria
como quem olha
uma vitrine vazia

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Fim dos dias do vilão


Engana-se quem pensa que, algum dia, ele arrependeu-se.
Morreu sorrindo aquele cínico; Sabia que a mídia, a seu serviço, na terra ou no inferno, o transformaria em herói.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Tocando



Às vezes, ao tocar outro, sente-se o barro. Dispensamos a mão e tocamos o pulso, como se tocássemos o coração. Sentimos a fogueira da alma e então, ouvimos a canção do outro. A ode que o Oleiro recitou ao nos dar forma, colocando um abismo em cada um, preenchido por um salto com amor. E de repente, no caos da própria voz, cantando desejos, você lembra de um olhar e sorri, ao perceber que o momento acontecera antes mesmo do que pensou.

E em algum lugar, olhando os dois, o Oleiro sorri também.


Joakim Antonio




Imagem: Final-Touch by ZaGHaMi

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

agrado


visto-me de rendas
se quero-te

meu escravo

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Quem?


quem vai nos proteger de nossos anjos protetores

quando quisermos viver

e eles vierem nos poupar as dores?