sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tempestade de chumbo


Aversão a origem e ao meio

às verticalidades engessadas

cruzadas por asfalto-fluxo


tencionados processos cotidianos

 (tempestade de chumbo)

construto ruído 

ruiu..........

ruínas de ego


-do outro lado do mundo:



 imersão passiva em morosidades


-do outro lado do mar:



diverso imprevisível!


No oceano demasiado profundo, devo

emergir ou submergir?!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Meu aniversário


Dia 09/02 foi o meu aniversário. No meio de tantos parabéns, via telefone, "facefone" e sms, parei para pensar no tanto que é um aniversário. Não é um dia que você e milhões de pessoas nasceram mundo afora. É o dia de cada milho dos milhões. 

Aniversário é um réveillon particular.  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pôncio "Pilates"

Inicialmente, aquele professor de academia se mostrara atencioso e compreensivo com as moçoilas e balzaquianas; mas logo tirou a máscara e conquistou logo o peitoral definido mais desejado da academia. Questionado, disse que, se ninguém partia pro ataque, ele é que não ia perder tempo...


A mulherada não o perdoou; apelidaram o vil rapazote de Pôncio Pilates.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O ovo


Sentia que estava sendo cozido.

ELE: Tô com fome.

Ele disse alto, pra ela ouvir. Abriu a geladeira e pegou um ovo na porta.

ELA: Vai comer agora?
ELE: Vou.

Ele respondeu com uma certa rispidez. Era uma reação. Não tinha certeza, era apenas uma sensação, mas achava que estava sendo cozido.

ELA: A gente precisa conversar.

Ela queria conversar. Ele sabia o que significava aquilo.

ELE: Li num livro que quando alguém diz que precisa conversar é porque não tem nada mais a ser dito.

O fogo estava aceso. No fogão.

ELA: Eu gosto de você.
ELE: E?

A panela cheia de água estava sobre o queimador do fogão. O ovo, suspenso.

ELE: E?

Repetiu. Mas o silêncio permaneceu.

ELA: Acho que a gente precisa ficar longe.

Soltou o ovo na panela. Um pouco de água cai fora da panela e atinge o queimador. Quase apaga o fogo que ainda estava aceso.

ELE: Por quê?

Silêncio.

ELA: Não sei. Mas acho que é melhor.
ELE: É muito bom saber que você tem argumentos sólidos.

Ela se irrita. Ele tampa a panela.

ELA: É isso, acho que a gente não tá se entendendo.
ELE: Claro que não, você quer ficar longe de mim e eu quero ficar perto de você. Estamos em um impasse.
ELA: Mas eu só quero ficar longe um pouco. Não é definitivo.

Silêncio.

ELA: A gente só precisa respirar. Precisa de espaço. Pensar.

Ele pode respirar bem, não acha que está apertado e não precisa pensar.

ELE: Tem razão. Como você quiser.

A água ferve. O ovo chacoalha levemente dentro da panela. Estava sendo cozido.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O sangue nos jornais *

por J. Rodolfo Lima

. As fileiras de barracos são separadas por vielas muito estreitas . Num canto há um volume coberto com papéis presos por pedras e um sapato. Algumas pessoas começam uma aglomeração que a polícia, em vão, tenta dispersar.

corpo sem nome
o jornal de ontem
cobre a notícia de amanhã

. O vento frio da manhã agita as pontas do papel. Na viatura um soldado ouve mais ou menos atentamente enquanto no rádio, entre soluços e chiados, soam as mensagens da corporação. O outro soldado, em pé ao lado da viatura, parece uma estátua. O tempo parou por um momento: nada se move, nada se ouve. O vento traz de volta o movimento e os sons.

aurora cinzenta
o vento traz
um novo dia

. O cordão de isolamento recém instalado já é pouco para manter as pessoas à distância. Tem-se a impressão de que todos que passam, param por um instante. Dos que ficam, a maioria são mulheres. Algumas trazem bebês no colo, algumas vêm cercadas de crianças de vários tamanhos. Qualquer rajada de vento aumenta a expectativa de que o papel voe e algo se possa ver do que está embaixo.

na manhã fria
a caminho do serviço
a breve atração

. De um lado, o jornal se tinge de sangue, que escorre vários metros viela abaixo. E segue descendo, escuro, viscoso, fazendo desenhos incompreensíveis no chão. Agora já há um círculo bem definido de pessoas ao redor. Por onde o sangue escorre, dá-se passagem. Crianças andam e brincam por toda parte. Algumas, é inevitável, sujam os pés na lama, mistura de sangue com o barro do chão. Também, ninguém nota ou parece estranhar.

represa rompida
não é para o mar
que este rio corre

. Chegando a perícia, a expectativa cresce. A polícia pede à multidão que se afaste. Um soldado pede às pessoas que levem suas crianças para casa. O círculo recua talvez um metro e pára. Aos poucos vai voltando à posição original, como se houvesse uma pressão, uma mola, que o puxasse. Alguns curiosos mais ousados se aproximam e voltam, numa onda muito lenta de movimento.

nada mais a fazer
senão se distrair
com a tragédia alheia

“... sabe quando a gente joga uma pedra na água e aparecem aquelas ondas, aqueles círculos correndo pra fora?
É como se fosse o contrário: aos poucos, o círculo se fecha...”

será este o assunto
nas mesas, nos bares?
“meninos, eu vi”

. Os policiais afastam um pouco a multidão, a cada vez que a roda se fecha. O corpo é descoberto: está numa posição estranha, não parece natural. Era jovem, tinha o cabelo muito curto, bermudas, camiseta, chinelos “de dedo”. O rosto está apoiado no chão, o boné ao lado. Foram vários tiros, três na cabeça. Alguns dos presentes o conhecem: “morava logo ali embaixo”, mas ninguém ouviu nada.

para sobreviver
é preciso aprender
a não saber nada

. O corpo é despido, virado, examinado, recolhido. A multidão fascinada assiste a tudo. O rabecão leva o cadáver. A multidão se dispersa. A perícia e os policiais militares também se vão. Sobram, no chão, alguns papéis sobre a mancha de sangue. O dia, enfim, começou. A mancha, agora coagulada, ficará até a próxima chuva.

o sangue nos jornais
não é só
em preto e branco


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*publicado originalmente em http://ecosdiversos.blogspot.com

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Luto

Regou o túmulo por dias, até secarem os olhos, vermelhos e ásperos.

Uns dizem que foi por compaixão.
Outros sussurram que foi por culpa.








texto do livro Colcha de Retalhos

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Manisfesto Pau-Brasil




Leu o manifesto
Sentou-se Oswaldo
Se sentiu de Andrade
Olhou em volta
Paredes, móveis e carro na porta
Todos feitos de madeira
Leu novamente o título
Abriu um grande sorriso
Sentiu-se Poeta

Joakim Antonio


"A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos." Oswald de Andrade



Imagem: Capa do Livro de Poesias "Pau-Brasil" de Oswald de Andrade. Ilustração por Tarsila do Amaral.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Festa

Gosto de olhos tristes
que se desmancham em sorrisos
em álcool, em sambas, em sons,
em qualquer coisa que não explico.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

[...]



Eu não sei fazer poemas
A métrica não se deixa dominar
E as coisas que quero dizer parecem ficar sempre soltas
Não sei se me lanço em um poço (pouco) de indiferença
ou se vou pleitear a conquista de mais uma noite
Escrevo com a euforia de quem está aprendendo a subverter os sentidos.


Sei que enquanto você sai na noite
Fria e solitária como nunca conheci
Perambula pelas ruas e entra em um bar
Buscando uma distração ou sempre mais uma dose
Eu vou estar em casa dormindo o sono dos não-tão-justos
Ouvindo música
Estudando gramática mesmo contra a vontade
Ou girando por algum salão de festas iluminado
Não gastando nada em mim além das sandálias.


Nunca havia desejado tanto que os fins de semana chegassem logo
Cansada de tantas ausências, fatigada pelo excesso
De coisas desinteressantes que eu busco superar
Como naquela manhã de domingo na qual descobri
Que a coisa que mais me encanta e atrai é o contraste
Da tua pele, branca como parece impossível que seja a alma
Na minha cor que reflete outra ascendência
e uma preferência pelo calor cultivada de sol-a-sol.


Trazes no peito um amor alviverde
Enquanto meu melhor sono é sobre o escudo do inimigo
E eu que já oscilei em temperamentos e hormônios
Ando até esquecida do salgado gosto das lágrimas
Porque não é como uma brisa afetada que me tocas
Mas o que me inspiras é uma certa violência de gestos e palavras
Na expectativa abrasadora de tuas idas e vindas.


Não sei que aspirações me são lícitas
Se nos diferenciamos na ambição
Da vida eu não sei querer nada que não seja o muito
De ti, meu pecado é sempre querer mais um pouco
Quando estremeço no teu colo o mundo parece ser menos adverso
E é por isso que me entrego ao gosto de que me vires ao avesso
Mas não sem querer te prender a mim numa sutil dominação. 


*

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Pequenas histórias

Pequena história sobre o homem que apesar de não fumar disse à esposa debruçada na janela que ia até a venda comprar cigarros...


Saiu de casa no crepúsculo
e nunca mais voltou.


Pequena história sobre a esposa do homem que apesar de não fumar disse que ia até a venda comprar cigarros e nunca mais voltou...


Ainda o espera debruçada na janela
fumando um maço por noite


Isaac Ruy
rabiscoserrantes.blogspot.com

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os enforcados


          
           Antes a vexatória condenação que o estigma da desonra.  Morrer dependurado ao mastro é menos vergonhoso que o heroísmo infecundo do delator. Sempre haverá quem defenda o desagravo, a impertinência. Sempre haverá quem defenda o contrário. Sempre haverá dois lados na mesma moeda. Sempre haverá o carrasco e o condenado. E, do alto do púlpito, um missionário a dizer as prédicas, enredando em seu discurso, a magnitude do fato. Exaltando o lacaio. Incitando a traição nefasta. Mefistófeles cochichando gracejos ao ouvido da populaça. Sempre haverá um motivo, afinal. A infâmia é um exemplo supremo para coagir rebelados. Para debelar ações e levantes. É preciso criar artifícios. Falsear documentos. Aniquilar inimigos. Conjurar.
Foi escolhida a data. Ornamentos foram espalhados pela cidade. Bandeiras, flâmulas e estandartes. Brasões e escudos. Lençóis estendidos nas balaustradas dos casarios. Janelas fechadas seguidas por escuras cortinas a ocultar o interior das casas. Como num baile de máscaras – tudo estava oculto sob a maquiagem – a tragicomédia de um teatro inventado. Todos os fatos transbordavam invencionices. Desde a acusação ao cadafalso. Desde o julgamento à execução dos condenados. Tudo uma mentira intragável que só o povo enganado engolia de bom grado.
Mas como saberiam enganados se conheciam apenas uma versão dos fatos? Versão esta, inimaginável em outros prados? Não. Não sabiam. E, festejavam. Como em noites de Santos e levantamento de mastros. Bebericavam, à porta das adegas, sem saber-se parvos. Ansiando pela hora triunfal em que os condenados seriam arrastados da masmorra aos pés da forca no centro da praça. Eis que surge o carrasco. Encapuzado em negro tom, aveludado. O manto negro e tons dourados. Estrelas e estigmas em ouro lavrado. Acenando as mãos à multidão que gritava: “Morte aos traidores da Pátria! Morte aos traidores da Pátria!”  Jovens e crianças se misturavam, suarentos de tanta devassa. Punhos cerrados erguidos bem altos; gritavam juntos a mesma bravata: “Morte aos traidores da Pátria! Morte aos traidores da Pátria!”  E, sobre o palco do massacre encenado, o carrasco agitava a massa exaltada. Erguia o braço, pedia aplausos, algazarras.  Estimulava o grito e o refrão enervado: “Malditos sejam os traidores da Pátria! Morte sem pena aos traidores da Pátria!”   Pouco a pouco, a praça estava intransitável. Pessoas surgiam de todos os lados e o lugarejo de população minguada apresentava o espetáculo às centenas de milhares. O prefeito em camarote erigido na sacada do casario oficial observava o povo e, lá do alto, também acenava, retribuindo o entusiasmo dos pobres diabos.
Eis que surge dos pórticos da cadeia, dois homens franzinos, tão mal alimentados. O corpo arqueado, fraqueza da alma. Arrastados por robustos e rudes comparsas, das cenas que o povo espera extasiado. Tão belas as fardas oficiais. Coturnos lustrosos de tanta graxa. A boina no alto da testa calva, dando imponência a inúmeros soldados. São tantas autoridades espalhadas nas sacadas. Observatório insólito de tantas mágoas. Prefeitos, padres, bispos e comendadores. Promotores, juízes e advogados. Todos, em nome de Sua Majestade, praticam os ritos do punho covarde: “mãos de ferro aos inimigos da Pátria.”
Ninguém reconhece os rostos bastardos, mal sabem o motivo de toda a contenda. Esperam apenas a morte consumada daqueles que toda a pátria condena. A poucos importa os nomes e a descendência, pois, mesmo que vivos, caminhem entre eles, já estão mortos em sua sentença. Cospem-lhes o rosto, batem-lhes na cara. Insultam, falam mal, praguejam. E, os condenados arrastam suas correntes. Guiados pelas mãos de seus executores. Levam sobre os ombros o fardo da infâmia. O triste vexame da condenação. A cabeça erguida, olhando no rosto de um povo doente a colocar um laço no próprio pescoço. Não há o que fazer. Nem porque pedir clemência. Resta-lhes o orgulho sombrio dos condenados que erguem o olhar nos confins do tempo e crêem na justeza de sua morte. Nunca saberão se houve sucesso em seus empreendimentos. Jamais terão respostas precisas sobre a eficácia das sementes lançadas nesse solo infecundo. Nem mesmo as gerações posteriores saberão. Pois, apenas eles têm a medida deste instante que se aniquila ao último sopro de seus pulmões. Há quem se orgulhe dos heróis assassinados. E, há quem se orgulhe dos assassinos. Há quem respeite os revoltados. E, há quem os condene à ruína. São dois lados idênticos. Duas forças que se retraem e se atraem retesadamente. Onde há bem está o mal amalgamado. E tudo se contrai no mesmo casulo.
Ao centro do tablado, cada qual sob um mastro, ouviu a sentença ser recitada aos brados: “Sr Barão Isidoro de Alcântara Atalaia Vasconcelos Sobral, neste instante, sob as Leis Régias deste Império, és destituído de todos os títulos, que outrora lhe foram concedido em nome do Rei. Passando a ser um miserável condenado pelas mãos do Império, recebendo a pena máxima em nome do Rei e diante de Deus Nosso Senhor.”  É passada a corda em torno do pescoço. Extasiado, o povo ovaciona o Rei. Num sinal de braços o orador pede silêncio e prossegue: “Sr Duque Artur da Alvorada Resplendor Simões, neste instante, sob as Leis Régias deste Império, és destituído de todos os títulos, que outrora lhe foram concedido em nome do Rei. Passando a ser um miserável condenado pelas mãos do Império, recebendo a pena máxima em nome do Rei e diante de Deus Nosso Senhor.” Uma segunda corda fora ajustada ao outro pescoço. E, a massa aplaudiu fervorosamente o carrasco que voltou a cena.
Nada fazia sentido aos condenados. Morrer não seria a pior desgraça. Ainda que vexatório fosse o fato. Estavam diante de desconhecidos. Os parvos sequer sabiam de quem se tratava. Ali não havia ninguém das famílias. Os títulos, anteriormente mencionados, só eles sabiam nunca existirem.  A lição seria mais bem medida, tratando-se de homens ilustrados, com estirpe e índole de boa família.  Isso pouco importa. As cordas no pescoço ajustadas, o bispo a pronunciar suas prédicas: “Deus salve a alma indulgente dos condenados. Tende piedade, Senhor, Rei dos Céus, dos pecados dessas pobres almas desgarradas. Em sua infinita bondade, abrandai a pena que os aguarda na eternidade.” Aberto o alçapão, num solavanco, os corpos dançaram no ar, como um par numa valsa sombria. Findo o espetáculo macabro a praça se tornou deserta novamente. Alguns curiosos iam mais perto do cadafalso observar a face estrangulada. Outros benziam-se, afastando rapidamente. Até que os dois enforcados ficaram sozinhos. Balançando ao ritmo do vento. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

LIVROS DA ESTANTE


Como quem inaugura lápides, encontrou a poesia de Pound entre os ossos do frango (já de dois dias) comido frio no desjejum.
Alimentou-se da primeira, embora tenha vomitado o segundo no chão da copa.
A planta dos pés enraizada no piso de repente imaginou caminhos impossíveis.
Estava suspenso pela poesia, ente que não conhece a imobilidade. Um livro, depois outro. Um poeta, depois outro.
Plena manhã, e ele engravidando cemitérios.
                                                                           [Sérgio Bernardo, 2011]

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

uma lembrança para Godot




ressaca

para dois seres sensíveis e machucados meias palavras não cabem, então a tarde caiu leve, nos embriagamos com Manoel de Barros e sorrimos. a noite correu falante, pouco álcool e muita poesia, para dois poetas o bastante para se compreenderem. a madrugada reservou um banho de piscina e a lembrança de tantos erros, copos vazios e almas cheias. ao amanhecer chuva forte e janelas abertas, Neruda e Pessoa molhados no chão. palavras encharcadas e inteiras.

suor

acordei mais cedo que o de costume, aliás não dormi mais que duas horas...
nessas fases de pouco sono e literatura transbordando pelos poros, lembro-me de que matéria somos feitos.
tenho amado você nesses dias. não há porque esconder o sentimento que salta aos olhos e enriquece as palavras.



vapor

hoje senti sua falta de uma maneira que jamais senti. seu silêncio acompanha-me nos banhos matinais que batizo com seu nome, quanta ternura posso encontrar num banho morno? sim, pois o que ferve não é a água e o que fere não é o não dito. o espelho estava embaçado e tirei a toalha que me envolvia para me ver melhor, nunca vi meus olhos tão opacos como hoje.



insônia

não dividi meus segredos, pois repartir tira-me o sono. não direi desaguei meus engodos e que em algum momento abri meu coração. nunca achei justo sujar águas claras em falácias pernoitadas. foi-se o tempo que dava espaço para estrangeiros, que apenas esquentam minha cama e na manhã seguinte abandonam minha morada. mas saiba que me dói ainda a lembrança de vê-lo sair. foi único que partiu deixando-me suas lágrimas em meus olhos.


paramare

não farão falta as flores de plástico que deixara sobre o balcão, mas faltou a noite passada. o relógio batia insistente
a melodia que já sabemos de cor. pobre a moça que encontrá-las e enfeitar com elas o coração. a jardineira daqui não é obstáculo, nem foi colocada ali como um adorno de janela, amado. é só um lembrete de como tudo é breve e belo, um suspiro perfumado de vida, paraísos artificiais. não arrancaria nenhuma delas para você, trazem a essência rara das horas que perco ao regá-las. tempo que não temos para o agora.


alento


as as coisas têm nos afastado, não é querido? o coração está bem, mas não consigo parar de fumar, o que é ruim. mas o que não é? estou amando, como sempre... coração vagabundo, como diz Caetano! me divirto com meus mancos, como sempre e a saudade de você é enorme! tem o dom de me reanimar! meu texto de Kerouac está aqui, crescendo e crescendo, como um diário de bordo mal escrito e pouco reverberado. saber de você é uma tábua de salvação, um arquipélago baldio nessa vastidão de mar revolto! pesa-me a idade e os sorrisos já estão gastos quase tanto como a pele,  já não tenho o mesmo visco. ando até meio aborrecida, pois as coisas, quando convalescemos, se tornam mais lentas e monótonas. mas não me queixo a vida é gueixa querendo se dar!



inércia

decerto a mansidão do deserto se curve à imensidão das águas, mas enquanto não, seco. é o calo em desalinho, forma obscura de um tempo vão. onde não há amar ou fúria, onde se cala a devassidão. esse seu rosto cálido, descrito em conta de arrimo é só a fuga de um querer pobre que não quer cura. decreto é a luxúria de se entregar a outros corpos enquanto só se deseja a solidão.


desilusão

mostrou-me a realidade turva para uma manhã chuvosa, independente da transa da noite passada, não com você, faço odes poéticas ao que vivi e se é a isso que se resume toda a histeria e febre humana: "uma boa e bela foda", que seja! e se ela vier bem acompanhada da ilusão, de bebida barata e promessas frívolas, melhor ainda! quem já teve o corpo rasgado não só por falos, mas também por faca afiada não se daria ao luxo do amor puro e imaculado. faço coro, é boa hora para um café amargo, meu amado!



ainda o café

acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco.  sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo.


horizontes

o certo é que sou alucinada, pois há tons e tons. e onde uns distinguem apenas o branco e o negro, o contraste do papel com as palavras de poeta qualquer, eu vejo cores. renega o que sente, esse rubor nas vísceras, essa paixão desesperada que não ousa relatar e faz-se míope. deixo que furem-me os olhos mas não nego a fúria, dessa que se enxerga vermelho em manchetes de crimes passionais, amarelo em classificados de domingo e verde no fundo de amanheceres quadrados dentro de garrafas vazias de bebida.


lamento

quando saí de sua casa, naquele domingo fatídico, as coisas desabaram sobre de mim, encobrindo parte do que sou e todos os meus passos. antes do avião alçar voo e me trazer de volta à rotina, os pulmões esvaziaram e as palavras calaram num só grito, até o fim do fôlego e com o passar dos meses desisti de chamar. tudo que via era brisa sua vindo em minha direção e disparando os alarmes de solidão. com o tempo não havia mais vento à espreita ou esperas furtivas, só há agora esse silêncio aterrador.



despeito

para que serve o amor, afinal? uns diriam que serve para resgatar almas perdidas e trazer o milagre da auto-aceitação. outros diriam que serve para inundar os corpos de hormônios, feromônios, suor, odores desagradáveis e satisfação celular. para tantos outros um amor só serve para curar outro. a partir de hoje, me entregarei ao mau gosto barato, desses vendidos pelas putas e suas meias arrastão furadas, em becos escuros e pontas de rua, afinal nunca duvidei que nasci para as sarjetas.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Eu ainda era criança
Era dia do meu aniversário
Minha mãe preparava pra mim uma festa surpresa
Eu nunca tinha ganhado uma festa surpresa
Pensando nisso fui até a cozinha perguntar por que nunca tinham feito uma pra mim
”Essa aqui era uma festa surpresa”, minha mãe disse, amassando um brigadeiro.