ressaca
para dois seres
sensíveis e machucados meias palavras não cabem, então a tarde caiu
leve, nos embriagamos com Manoel de Barros e sorrimos. a noite correu
falante, pouco álcool e muita poesia, para dois poetas o bastante para se
compreenderem. a madrugada reservou um banho de piscina e a lembrança de tantos
erros, copos vazios e almas cheias. ao amanhecer chuva forte e janelas abertas,
Neruda e Pessoa molhados no chão. palavras encharcadas e inteiras.
suor
acordei mais cedo que
o de costume, aliás não dormi mais que duas horas...
nessas fases de pouco
sono e literatura transbordando pelos poros, lembro-me de que matéria somos
feitos.
tenho amado você
nesses dias. não há porque esconder o sentimento que salta aos olhos e
enriquece as palavras.
vapor
hoje senti sua falta
de uma maneira que jamais senti. seu silêncio acompanha-me nos banhos matinais
que batizo com seu nome, quanta ternura posso encontrar num banho morno? sim,
pois o que ferve não é a água e o que fere não é o não dito. o espelho estava
embaçado e tirei a toalha que me envolvia para me ver melhor, nunca vi meus
olhos tão opacos como hoje.
insônia
não dividi meus
segredos, pois repartir tira-me o sono. não direi desaguei meus engodos e que
em algum momento abri meu coração. nunca achei justo sujar águas claras em
falácias pernoitadas. foi-se o tempo que dava espaço para estrangeiros, que
apenas esquentam minha cama e na manhã seguinte abandonam minha morada. mas
saiba que me dói ainda a lembrança de vê-lo sair. foi único que partiu
deixando-me suas lágrimas em meus olhos.
paramare
não farão falta as
flores de plástico que deixara sobre o balcão, mas faltou a noite passada.
o relógio batia insistente
a melodia que já
sabemos de cor. pobre a moça que encontrá-las e enfeitar com elas o
coração. a jardineira daqui não é obstáculo, nem foi colocada ali como um
adorno de janela, amado. é só um lembrete de como tudo é breve e belo,
um suspiro perfumado de vida, paraísos artificiais. não arrancaria nenhuma
delas para você, trazem a essência rara das horas que perco ao regá-las.
tempo que não temos para o agora.
alento
as as coisas têm nos
afastado, não é querido? o coração está bem, mas não consigo parar de fumar, o
que é ruim. mas o que não é? estou amando, como sempre... coração vagabundo,
como diz Caetano! me divirto com meus mancos, como sempre e a saudade de você é
enorme! tem o dom de me reanimar! meu texto de Kerouac está aqui, crescendo e
crescendo, como um diário de bordo mal escrito e pouco reverberado. saber de
você é uma tábua de salvação, um arquipélago baldio nessa vastidão de mar
revolto! pesa-me a idade e os sorrisos já estão gastos quase tanto como a pele,
já não tenho o mesmo visco. ando até meio aborrecida, pois as coisas, quando
convalescemos, se tornam mais lentas e monótonas. mas não me queixo a vida é
gueixa querendo se dar!
inércia
decerto a mansidão do
deserto se curve à imensidão das águas, mas enquanto não, seco. é o calo em
desalinho, forma obscura de um tempo vão. onde não há amar ou fúria, onde se
cala a devassidão. esse seu rosto cálido, descrito em conta de arrimo é só a
fuga de um querer pobre que não quer cura. decreto é a luxúria de se entregar a
outros corpos enquanto só se deseja a solidão.
desilusão
mostrou-me a
realidade turva para uma manhã chuvosa, independente da transa da noite
passada, não com você, faço odes poéticas ao que vivi e se é a isso que se
resume toda a histeria e febre humana: "uma boa e bela foda", que
seja! e se ela vier bem acompanhada da ilusão, de bebida barata e promessas
frívolas, melhor ainda! quem já teve o corpo rasgado não só por falos, mas
também por faca afiada não se daria ao luxo do amor puro e imaculado. faço
coro, é boa hora para um café amargo, meu amado!
ainda o café
acusa-me, amor! sim,
admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. se
uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o
sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou
pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que
me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece,
tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda
permanecerá, pelo menos por algum tempo.
horizontes
o certo é que sou
alucinada, pois há tons e tons. e onde uns distinguem apenas o branco e o
negro, o contraste do papel com as palavras de poeta qualquer, eu vejo cores.
renega o que sente, esse rubor nas vísceras, essa paixão desesperada que não
ousa relatar e faz-se míope. deixo que furem-me os olhos mas não nego a fúria,
dessa que se enxerga vermelho em manchetes de crimes passionais, amarelo em
classificados de domingo e verde no fundo de amanheceres quadrados dentro de
garrafas vazias de bebida.
lamento
quando saí de sua
casa, naquele domingo fatídico, as coisas desabaram sobre de mim, encobrindo
parte do que sou e todos os meus passos. antes do avião alçar voo e me trazer
de volta à rotina, os pulmões esvaziaram e as palavras calaram num só grito,
até o fim do fôlego e com o passar dos meses desisti de chamar. tudo que via
era brisa sua vindo em minha direção e disparando os alarmes de solidão. com o
tempo não havia mais vento à espreita ou esperas furtivas, só há agora esse
silêncio aterrador.
despeito
para que serve o
amor, afinal? uns diriam que serve para resgatar almas perdidas e trazer o
milagre da auto-aceitação. outros diriam que serve para inundar os corpos de
hormônios, feromônios, suor, odores desagradáveis e satisfação celular. para
tantos outros um amor só serve para curar outro. a partir de hoje, me
entregarei ao mau gosto barato, desses vendidos pelas putas e suas meias
arrastão furadas, em becos escuros e pontas de rua, afinal nunca duvidei que
nasci para as sarjetas.