quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Verde



Em passo tribais, sou natureza. A grande tartaruga e o mundo em arte, sobre suas costas. Busco me encontrar em cada ato. Rastreio minha cor no asfalto, mas ela falta. Entre árvores de cimento e janelas mágicas brilhantes das ocas de pedra - já para o natal, me desencanto. Passo de borboleta a lagarta e me arrasto, querendo algo mais. Minha tribo não me satisfaz, tem caciques demais e Xamãs de menos. Então, mudo do local, busco voz longe dos galhos de fios, mais perto da água, aumentando o azul do céu. Mas sinto que ainda não é minha cor. Já com o encanto do mar, ouso voar, aperfeiçoar minha visão, ver o outro lado do mar. Agora o clima é noir. As cores não são quentes como no meu lar. A casca usada é pesada e muita, até alguns olhares são frios. Mas por dentro me encontro, sentindo um vislumbre do que virá. Passo a aceitar novas cores, ensinos, amores e o que pintar. Sem perceber, o Tempo brinca e viaja comigo, retorno e me vejo em casa. Seu presente, grandes asas. Só assim vejo o todo. E noto. Uma menina passando e a cor dos seus olhos. Um papagaio que repete, Seja, infinitamente. A folha rasgada de um livro antigo, com o Santa Claus original. O mar, em um tom além do azul. O cabelo de outra menina, num tom incomum. E penso em árvores, pássaros, frutas e maturação. Encontrando rotas, onde só veem paredes. E meu coração bate forte. Ao encontrar a palavra certa, para sua cor.

Verde!

Joaquim Antonio


Imagem: Jeannette Priolli - série " VERDES " 2017
1.50 m. x 1.50 m. x 0.10 m. acríclica s/ tela

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Pré-ideia


No inverso da letra, um número conhecido.
Um palhaço de verso, num mundo de circo.
Ele rima e alguém grita, numa estrofe qualquer.
- Ali, pega ele, o ladrão de mulher.

Joakim Antonio


sábado, 11 de novembro de 2017

Insistentes

Num mundo cego, poetas insistem em enxergar. E com suas bocas miúdas, gritam "cuidado", para todos. Mas como convencer quem não vê a xícara transbordar.

Num mundo duro, poetas dão socos em ponta de faca. E com suas mãos imperfeitas, sangram como escudo, para todos. Mas como convencer quem não vê o sangue jorrar.

Num mundo doente, poetas fazem chá. E com suas ideias líquidas, tentam fazer diferença, para todos. Mas como convencer quem não vê possibilidade de se curar.

Num mundo normal, poetas são loucos. E com suas mentes poluídas, declamam versos, para todos. Mas como convencer quem não ouve além do que consegue gritar.

Num mundo caótico, poetas são Dom Quixotes. E com suas lanças entintadas, escrevem tudo, para todos. Mas como convencer quem lê e não enxerga nada lá.

Joakim Antonio

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Apontados



Cortaram-lhes
os pulsos
de modo errado

Cortaram-lhes
na carne
até a alma

Cortaram-lhes
a visão
dos intentos

Cortaram-lhes
na frente
dos dois lados

Eunucos do espírito
restou apontar
sem parar

Joakim Antonio


Photo by Sinan Arslan

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

citações inventadas (7)


O Ministério da Liberdade Lógica adverte:

"Este produto pode afetar a ordem dos fatores."

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Transpassando




Poesia

Transpassa qualquer compartimento e por não ter, em sua essência, nada que lhe tolha a forma. Se achega, se amolda, transforma.

Joakim Antonio


Imagem:  Azzurro by ValentinaWhite

domingo, 13 de agosto de 2017

evolução


Brasil:
de país do futuro a país do futuro do pretérito,
8.515.759 km² de "poderia ter sido".

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Sempre


Sempre exposto
até o osso 
da canela
sendo batida
onde não pensam nela

Sempre torto
até o raso
do bolso
sendo furado
onde não pensam nele

Sempre bobo
até o fundo
da alma 
sendo sugada 
onde não pensam nela

Sempre poeta 
até no fim
do abismo
sendo pássaro
onde não pensam nisso


Joakim Antonio


Photo by Sergei Sarakhanov 
Russia - rolleiflex 3.5t  
ilford fp4 125

terça-feira, 11 de julho de 2017

Ambulante



há causador
há corredor
há zelador
amor e dor

a faca da mão
a ponta do pé
a flor da pele
contrapartes

o frágil não
o humano sim
o acéfalo assaz
sino duplo

um grito surdo
um grito mudo
luto
luto

eclipse
sem
fim
...

Joakim Antonio



Imagem: Vendedor ambulante by MiSA-MiiSA

sábado, 24 de junho de 2017

Àqueles que nos odeiam

Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Movidos por uma paixão
de proporção desmedida
são capazes de tudo
o tempo todo
Algo próximo do insano os impulsiona:
um amor à revelia
(ou às avessas)
que se alegra com a nossa ruína
Não dormem
e se o fazem
não sonham com nada além de estratégias
para alimentar a chama de nossa insônia
Incansáveis em seus propósitos
é impossível mencioná-los
de qualquer forma que seja
e não dimensionar
o tamanho da inveja
que os alimenta
Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Não reconhecem fim de semana
feriado, dia santo:
seriam funcionários exemplares
se ao trabalho se dedicassem
como se debruçam sobre nosso itinerário
Em suas vidas miúdas
estão agora mesmo escolhendo com afinco
o nomes dos fakes
como se fossem
os nomes dos seus futuros filhos
Na falta de um nome
– as vezes falha a inspiração –
um perfil anônimo, em rede social
cumpre a função
Só repetem, afinal
o que seus pais fizeram com os nossos pais
(que isso de ser um merda
quase sempre se herda)

Rafael Nolli
01/06/17

domingo, 11 de junho de 2017

Lembrança adormecida


Batalhou até se tornar a pessoa mais rica do mundo. Logo depois, gastou sua fortuna para que conseguissem inventar uma máquina, onde você pudesse escolher a lembrança que queria de volta. E logicamente, foi o primeiro a usá-la.

Nesse dia, chegou usando chinelo de dedo, uma regata e calção de futebol. Sentou-se calmamente na cadeira do aparelho. Sorriu pra todos e piscou maroto para uma cientista na platéia. Fez um aceno de sim com a cabeça e ligaram o aparelho. Houve um pequeno alvoroço. Logo o cientista e inventor, pediu silêncio absoluto e fez a pergunta primordial.

Qual é a lembrança que o senhor mais deseja na vida?

E ele, fechando os olhos, respondeu:

O cheiro da minha Mãe!

Joakim Antonio



Imagem: By Alejandro Alvarez

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Tornar-se


Embrenhar-se na mata, fazer-se folha, tornar-se nada, espaço para encantamento de versos. Diluir-se no útero da terra, espalhar-se por completo, esquecer-se no tempo, voltando a ser verbo. E então, sob a luz do olhar, renascer.

Joakim Antonio

Imagem: https://www.instagram.com/poetajoakimantonio/

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Embriagado


Todas as coisas e ideias tendiam para a esquerda. Depois, inclinaram-se um bom tanto para a direita. Então, rolaram para o centro e por ali ficaram, no equilíbrio frágil de uma mesa de boteco.
O álcool e a política têm efeitos semelhantes.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Eu comum




E eu te batizo comum.

Não terás nada de extraordinário e serás lembrando num pedaço de papel. Habitarás guardanapos, papel de pão e talvez até uma seda, que quando queimada, dirão que tu faz a cabeça.

Serás lido, pichado, esquecido e queimado nas ruas, aquecendo corpos já febris de ti e dando tua vida, aos que nos dias frios, um simples cobertor nunca aquecerá a alma.

Serás conversa de bar, misturado ao choro de perda da mulher amada, aos risos de comemoração do primeiro filho e ao vômito do bêbado, após os gritos de Toca Raul.

Eu te batizo poeta, habitando bancos de praça, igual a mim, o mais comum dos comuns.

Joakim Antonio


Imagem: "Morador de rua com as mãos sobre a cabeça da estátua de Carlos Drummond de Andrade. “O Pensador” da praia de Copacabana." Photo by Willer José, RJ, 2012