segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FAZER

Fazer é o verbo, em qualquer tempo que se apresente, onde o sujeito se sujeita ao que faz. Faz-me bem lembrar de quem e do que sou, por isso (o) uso, dando-lhe uso.


Fazer – Dezembro
(O) – Novembro
Caso – Outubro
Mistura – Setembro
Dogma – Agosto

sábado, 28 de dezembro de 2013



vou sair pra molhar a chuva
Resta-lhe pouco tempo para tudo. Resta-lhe pouco tempo para quase tudo. Resta-lhe pouco tempo para nada. Resta-lhe pouco tempo. Não resta mais. Acabou.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Iminente

   
“Quando a vista ficar confundida, e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir? Oh, não haverá refúgio!”
Surata 75
 
Nos tempos de minha infância alimentava, à noite, uma náusea sem nome. Achava em silêncio – não havia palavras suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo de inevitável estava próximo de se consolidar.
            Algo ruim.
 
Não sabia dizer se achava que o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor rastejante sobre as coisas coloridas da vida.
 Nem se seria escuro esse caos.
 
Não sabia dizer se esse fim estava sendo urgido numa sala celeste, onde os deuses discutiam com seus investidores um modo viável de esvaziar o conteúdo do cálice e por fim à criação.
Tampouco sabia se os deuses teriam algo a ver com isso.
 
Não sabia dizer se esse desconforto – que me parecia em avançado estágio de consolidação – viajava sentado na cauda de algum meteoro lançado a milhões de anos,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como se fôssemos um navio de H. Mellvile.
 
Não sabia, sentado em meu medo infantil, o que seria essa certeza perversa, tão nítida no apelo  das árvores. O que seria esse conhecimento explícito em mim como um amor inflamado? O que seria essa dor que vinha escondido no prato de comida e tirava o apetite? Que vinha entrelaçado na fala dos desenhos animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito pequeno de menino, uma água tão escura? Quando ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo
 
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas do que em espelhos?
 
Antes de Rimbaud me seduzir para a venda
como escravo sexual aos asseclas do rei de Choa?
 
Fôra antes de cantar a Internacional, as quartas,
ao lado de pederastas, alcoólatras, poetas e açougueiros
 
que ainda acreditavam em Deus aos domingos?
 
Quando compreendi que não era o que se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal, mas a certeza de que o mundo – não apenas eu e as minhas fraquezas – acabaria?

Então aguardei a sua consolidação em noites de trovões, em dias de discussão adulta             – que traçavam o rumo de suas vidas conjugais e a permanência do eu no limiar das coisas alegres
 
Então o aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros de gravuras. Na fala da gente humilde, sempre a rever na cozinha seus temores e suas certezas catastróficas,
complementei minha visão tingindo-a de sangue humano – substituindo árvores tombadas por homens tombados.
 
Não via no rosto das pessoas esse medo que me tirava o sono. Não via em seus gestos de prazer uma tentativa reconfortante de aproveitamento imediato – o fim estava próximo, algo me dizia em forma de pânico pediátrico
 
 – e haveria mortes,
talvez fogo nas ruas e no cabelo das mulheres
 
– e haveria dor no coração
e nos braços ensangüentados das enfermeiras.
 
Não via em seus gestos de ódio uma revolta consciente,
um ato de reprovação:

o fim do mundo talvez caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
 
– e haveria confusão:
talvez mães chorando crianças despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino sem mãe para
                                                                      consolá-lo.
 
Não via no choro das mulheres – tão evidentes – nem na lágrima seca que rolava quando as crianças não estavam um choro ou uma lágrima a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um único pensamento. Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa era a palavra de ordem.
  
 *

“E para cada dia bastará apenas o seu mal”

Mateus 6:25-34

A Lagartixa




Ele escondia os sonhos numa velha gaveta na escrivaninha da sala. Os amores ficavam na estante da sala, agora empoeirados pelo tempo e pelo descaso. As lembranças estavam coladas no mural do quarto, porém desbotadas e desorganizadas. As dores foram espanadas para debaixo do tapete, as vitórias e os tesouros encaixotadas no sótão. As alegrias foram aprisionadas no porão e a felicidade escapuliu pelo ralo do banheiro... 

A fé, tão pujante foi expulsa de casa. A esperança que tanto queria adentrar ao recinto fracassava ao topar com as janelas e a portas trancadas. Tudo se foi quando ele deixou de viver. Tudo findou quando se escolheu morrer. Apenas a solidão esfriava suas espinhas, cutucava com dedos ásperos a sua vaga alma, perdida em si, alienada e abstraída do mundo.

Os olhos trancafiaram as belezas mais profundas e incisivas, as bonitezas que se alastravam faceiras pelo seu coração - agora triste e amuado. A chama tinha se apagado e o escuro dominado o seu íntimo ferido e desalmado. Quem o faria? Quem o salvaria? O sangue já não corria tão escarlate quanto antes, nem tão morno quanto deveria. A vida esvaía-se com ferocidade a te sua indiferença pessoal, seu abandono a si.

Mas tudo mudou quando uma pequena e fina luz encontrara um mínimo espaço para penetrar na sala, desvencilhando-se por uma brecha entre a cortina e a janela. A luz incidiu bem em seu peito. Isso o alertou, aqueceu e o inquietou. A poesia e a esperança tinha um jeito estranho de reviver as coisas mortas. Quem ia imaginar que uma lagartixa faria a cortina se mexer o mínimo suficiente para a luz adentrar... Coisas curiosas da vida.

A luz – e a lagartixa - reavivou sua vontade em viver, em ser feliz. Ele saiu do limbo e renasceu ostentando o sorriso mais lindo que já se viu.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Vigília

imagem: friede

é pedra
pedra que 
afunda
que amarra
e carrega
para o mais
profundo
desespero.
o desapego
vira delírio
e o 
desejo
é vítima
da pedra,
da perda,
da vida
que nos 
cerca
e define
o caminho.
posso contemplar
sozinho
o sol do inverno
mas nunca
escapar da pedra
que afunda
me amarra
e inunda
o que antes era certo
mas agora
é demora.
é demais.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ativistas x Cientistas

Beagles são usados por forças policiais por terem bom olfato. Será que os ativistas resgatarão cães usados por policiais mundo afora?


Embora outros fatos relevantes tenham acontecido no Brasil e no mundo desde a desastrosa invasão do Laboratório Royal por ativistas, acredito ainda que vale a pena discutir esse assunto.
O Brasil está entrando em um caminho perigoso: movido pela inércia do Judiciário e pela corrupção que campeia o Executivo e o Legislativo, a população resolveu não esperar e fazer justiça com as próprias mãos.
O problema é o que cada um entende como justiça.
Nessa semana, dezenas de ativistas pelos direitos dos animais invadiram um laboratório particular legalmente credenciado e roubaram 178 beagles que ali estavam a serviço da ciência; junto com os animais, destruíram também documentos e equipamentos. A alegação era a de que o laboratório torturava os animais e de que o Ministério Público não se pronunciava a respeito.
A primeira vista, é fácil ficar do lado dos ativistas. No entanto, basta um pouco de discernimento e de pé no chão para perceber que a atitude deles prejudicou até mesmo a causa que apoiavam, a de que o Laboratório Royal maltratava os bichos. Agora, sem os animais e os documentos, provavelmente o processo (penal?) será extinto por falta de provas.
Pergunto-me também se o laboratório tivesse convocado cientistas e simpatizantes para fazer frente a invasão. Ou seja: em vez de o Judiciário definir a questão, tudo pareceria se resolver com os grupos se digladiando. Mais Idade Média, impossível.
Não sou especialista em biologia e por isso não posso afirmar se é mesmo possível substituir os animais em toda e qualquer pesquisa. Particularmente, creio que não: programas de computador não me parecem capazes de prever as nuances de cada substância inoculada em um organismo vivo. Os mamíferos em geral são escolhidos para experiências em laboratório justamente por causa disso, visto que sua biologia interna é muito parecida com a dos humanos: todos têm sistemas respiratórios, circulatórios e reprodutivos com os mesmos órgãos que as pessoas.
Em todos os portais de notícias a invasão foi um dos principais assuntos da semana. No Yahoo, que eu costumo acompanhar mais por causa de meu e-mail, foi fácil perceber que cerca de 70% das pessoas que comentavam a notícia apoiavam os ativistas; questionados por alguns dos 30% restantes sobre como os cientistas pesquisariam novos medicamentos sem os animais, as respostas foram estarrecedoras: que se usassem então presidiários.
Embora certamente muitas pessoas não sejam dignas de serem tratadas como humanos, não é rebaixando-as ainda mais que a humanidade evoluirá. Uma das últimas pessoas a levar a sério os experimentos com humanos foi o médico nazista Josef Mengele, e a simples palavra “nazista” ao lado de seu nome já nos faz imaginar as consequências de tais experiências. Ou seja, boa parte dos ativistas parece mesmo acreditar que o melhor é que se usem seres humanos para tais experiências, inclusive não se importando com a eventual morte de tais pessoas. Pretendem criar uma nova ordem mundial e boa parte não se importaria em copiar a ideologia eugenista dos nazistas para tanto.
Em suma, estamos bem de ativistas, hein?

domingo, 15 de dezembro de 2013

Descafeinado


- Comprei um café.
- Nossa!, que original.
- Quer?
- Ah, sim. Adoro creme.
- Mas não tem creme.
- Então, quero. Adoro açúcar.
- Também não tem açúcar.
- Ok. Gosto de xícaras.
- Tá no copo.
Pensou no quão original era alguém comprar um café. Sem creme, açúcar e no copo. Possivelmente, descartável.
- De vidro?
- Descartável.
Sabia.
- Não tem problema. Preciso de cafeína.
- É descafeinado.
Não tinha cafeína.
Nem tinham nada em comum.
E talvez isso fosse a única coisa que explicasse aquele relacionamento. A total falta de sentido naquilo tudo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A dieta do papai *


"Querida, descobri uma coisa legal para perder peso."

"Que bom! O que é?"

"Quando eu cozinho, eu como menos, não sei por quê."

"Sim, querido, quando você cozinha, todo mundo come menos."

______________________________
* Publicado originalmente nos Minimínimos
  (http://miniminimos.blogspot.com)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Notável


Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavisados.



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Fogo, consequências e alguma adoração

“En el fondo, todas las mujeres son putas y quieren que se las trate como putas…
 ¡Mezclado con un poco de adoración!”  (Anaïs Nin - Henry y June)





Deixei de lado as conversas e algumas redes sociais nas quais me entretia deitada na cama, cansada, mas insone. Acontece muito comigo, o corpo pede descanso, mas a cabeça continua inquieta, as idéias pululam. Foi pensando nas possibilidades de não-sei-o-quê que as horas multiplicaram-se, nem vi o sol nascer. Com o calor matinal, adormeci.



...


Chamou uma, duas, três vezes, abri os olhos e ele estava lá, não posso negar que gostei de vê-lo, mesmo depois de tanto tempo, ainda não me acostumei com seus hábitos, sumia repentinamente e da mesma forma retornava aos meus olhos, à minha boca...

-Bom dia.
-Bom dia...

Conferi o relógio, dez da manhã, como gostaria de ter dormido mais!

Na verdade, eu sempre o recebia meio na defensiva, enciumava-me e pensava em perguntar por onde e com quem andou no tempo em que estivera ausente. "Preciso ser mais dura, isso sim!" - prescrevia-me mil mudanças de comportamento, mas nunca conseguia tal façanha. Bastava que a inspiração voltasse para que meu espírito se enchesse de alegria e de uma vontade inconfessa de dizer-lhe apenas que "não há orgulho no mundo que vença a necessidade que sinto de seu toque, ela é tão grande que, em certas noites, converte-se em uma dor física vinda não sei de onde."

Tanto me disseram para não brincar com fogo! Não adiantou, agora é preciso aguentar: o corpo queimando e o coração ardendo são apenas consequências.


-Como você está?
-Com sono...

Afundei a cara no travesseiro, tinha consciência do estado de desordem de meus cabelos, nem eu me animava com minha própria aparência pela manhã. Ele esboçou um sorriso, mas falou sério:

-Então eu vou ter que acordar você.

Respondi com um não prolongado e puxei o lençol, quase escondendo o rosto. Teimoso como só ele, puxou de volta, descobriu-me e aproximou-se.

-Pensei que não queria mais saber de mim...
-Deixa disso.
-Mas é, estava tão distante e...
-Agora estou aqui.

Beijou-me os ombros e o pescoço, sendo terno e ao mesmo tempo quente, ele fazia com que todas as outras coisas do mundo se tornassem secundárias, mas eu sabia que não deveria acumular expectativas para além do momento de entrega. Encarava-me antes e depois de aceitar a boca que eu lhe oferecia, como numa transição, minha ansiedade dava lugar ao desejo crescente e eu deixava sempre que me lesse do início ao fim. Deslizou as mãos em meu busto, por cima do short doll verde, sentiu como me arrepiava os mamilos, meu tesão era a resposta que buscava. Encontrou, satisfeito.

-Deixa-me ver esses seios lindos...
-Não, você prefere os menores, eu li!
-Cala a boca!

Era gostoso dever-lhe alguma obediência, despia-me habilmente e eu sabia que só pensava em como encaixar-se em meu corpo da melhor forma. Afastando-me as pernas, mergulhava em meu sexo e recolhia meu prazer na ponta da língua - assim ele me dava sua adoração.








***

domingo, 1 de dezembro de 2013

Medusa



as pétalas de seus olhos desceram
por minha rubra face
instalaram-se entre minhas clavículas  
como aperto de polegares em asfixia

ver o que vi em todas as outras
e não supor que era assim tão óbvia
só nos ferem os que amamos
mea culpa, não tomei nenhuma precaução

quebro uma promessa que fiz e peço
que me deixe agora
que não congele minhas resistências
nem estilhace o que restou

um espinho ainda está na garganta
não me olhe mais,  nunca mais
quero permanecer pedra
por saber que mal maior é a esperança

sábado, 30 de novembro de 2013

(O)


Onde o som bate as palavras no interior do ouvido interno, é o que ouvimos enquanto lemos. Mesmo sem ler ou escrever com som, escrever é uma extensão de o ser: interior de (o) ser, interior do ser, interior ao ser. Seja, disse.
Fazer – Dezembro
(O) – Novembro
Caso – Outubro
Mistura – Setembro
Dogma – Agosto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

é preciso desaprender a viver 
Resta-lhe pouco tempo para tudo. Resta-lhe pouco tempo para quase tudo. Resta-lhe pouco tempo para nada. Resta-lhe pouco tempo. Não resta mais. Acabou.

MENINO! TIRE A MÃO DO SOL!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

Acidente

imagem: camerART 

Morreu gente
morreu gente no acidente
gente olhando
comentando
uns filmando 
outros rezando
o resgate trabalhando
enquanto a gente observa
o que foi um veículo
o que foi gente
o que foi.
Todo dia morre gente.
O resgate é rápido
a morte é imediata
e a dor é certa
da gente que fica olhando
da gente que fica.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A loja de doces


Mastigava o bolo de nozes com candura.
Até que, gentilmente, cravou o garfo na mão dele sobre a mesa.
E despediu-se com uma voz suave.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Povo das sombras


O povo das sombras aparece sempre no mesmo horário, junto com as sombras, assim que o sol nasce. Sempre muito cedo, ainda na madrugada, mas, aparentemente, sem nenhuma ajuda de qualquer deus.
Preparam seu café antes de você acordar, limpam o escritório antes de você chegar, colocam o ônibus para rodar antes de você se aglomerar ao congestionamento... Ligam os motores e preparam a cidade para você só chegar e sentar na janelinha, exigindo serviço de bordo.
E você nem ao menos os enxerga, faz questão de desviar o olhar.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Aprendizado


Aprenda menino
faça direito
há um bom futuro
num curso que dê dinheiro

Aprenda menino
dê a mão a palmatória
foi assim que seus avós
escreveram nossa história

Aprenda menino
tire sempre altas notas
há uma cinta na vermelha
abraços e sorrisos na cola

Aprenda menino
nós construímos esse mundo
faça só o que queremos
que você herdará tudo


Joakim Antonio



sexta-feira, 1 de novembro de 2013


musa morta




ele finge para não delatar-se
e sob a musa seminua
o carrasco impera
como quem sente mais
que deveras sente
sustenta o soluço
quase não

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CASO

Porque ordem devo dar a ler os testamentos? Deixo a escolha por conta do leitor, a sua sorte ou azar, ou como se possa chamar ao a_caso.
Fazer – Dezembro
(O) – Novembro
Caso – Outubro
Mistura – Setembro
Dogma – Agosto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


não somos capazes de conhecer o mistério que nos rodeia
a vida nos encerrou dentro de nós mesmos
por medida de segurança

sábado, 26 de outubro de 2013

F5

As mãos à cabeça
A testa na mesa
E os dedos marcando no pulso
O ritmo da aflição

“A internet caiu”
Disseram-lhe
E ele bufou
Que dessem notícias novas
Que disso sabia há nanossegundos

Foi até a janela
A manhã estalava de fresca
Precisou semicerrar os olhos
Forçado pelo esplendor do dia.

Tanta coisa lá fora
Porram
Tanto o que fazer...
Poderia ir até o centro comprar churros
Surfar no teto de um ônibus
Conversar com alguns velhinhos na praça.
Só exemplos

Havia perspectivas
Ok.
Mas ele não queria nada daquilo.
Voltou ao computador
Teclou F5

E a internet havia voltado.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Soneto do meu amor pra sempre




Há um amor, um amor que me é tanto
Há um coração, uma vida a qual me atento
E dentro de mim, há de ser sempre contento
Uma eterna poesia, linda, a cura para o meu pranto

Eis que me é finda ternura, um contentamento
Uma delicadeza, sentimento fiel sob terno manto
Um amor que me deduz, sem segredo, com encanto
Perene existência, que ilumina, finda com o sofrimento

Em mim ele é livre, e na alma vive sereno
Meu amor é pra sempre, meu mais belo efeito
Com singeleza, (este amor) me aceita num lindo aceno

E finda; permanece; no meu coração é o eleito
A poética que, eterna, seduz o meu ser
Meu amor é o que me dá forças pra (sobre)viver

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Hefesto/Vulcano/



Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
         Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua...”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo,
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.












quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Fundo do baú

imagem: Tejkou

Sou um brinquedo quebrado
não posso mais brincar...
encostado num canto frio
com os olhos borrados
não tenho dono
nem surpresas a revelar.
Não funciono mais
e nem me importo,
quero o fundo do baú,
a sombra de um boneco moderno.
Quebrei,
por dentro e por fora,
não pertenço a esse lugar
e não posso mais alegrar ninguém.
Nem a mim...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ampulheta

Trago em mim a areia e o vento
o pau e a pedra- o sedimento

tenho a velocidade da queda

entre liames e ditames
comunhão de polaridades
mensuro o ritmo do mundo
na duração que escorre
das balizas do tempo

arranjo entre arcaicos arquétipos
o equilíbrio oculto
entre a noite solar e o dia lunar

estrela errante que irradia rumores das rupturas
na transitividade da eterna espera
no firmamento limite de  envergaduras extremas

meu anima consola meu animus
num  cosmos interno
com suas centelhas vibrantes de luz
conduzindo rumo à imaginação- o fragmento

Entre anjos e arcanjos
áureos altares de bênçãos ancestrais
onde andrógenos insones
buscam nostálgicos pelo equilíbrio
passível de se despertar
no regresso à unidade
na efemeridade do traço
na jubilar conexão

                                Flávia Amaro



*Poema publicado originalmente no blog Imaginação Orgânica em 16/04/13.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Não foi por causa dos churros

Lembrava apenas de um fim de tarde: enquanto ele fumava com os amigos, ela comia churros recheados com doce de leite no carrinho parado à porta do colégio.
Sabia que tinham se falado depois. Chegaram a conversar. Mas aquele momento ficou congelado.
O ano acabou. O colégio acabou. Passou no vestibular.
Fez uma engenharia qualquer, não tinha nenhum interesse. Foi trabalhar num lugar qualquer, não interessava onde. Queria ganhar muito dinheiro. Foi pra longe. Bem longe. Longe, num tempo antes de redes sociais, tempo em que só se conseguia vigiar as pessoas que viviam perto. Longe, ganhou muito dinheiro. Longe, também casou e teve filhos. Casou com uma mulher sem graça e teve filhos pelos quais não tinha o menor interesse. Não lembrava dos nomes deles, às vezes.
E foi essa vida de satisfações que viveu por 30 anos depois daquele fim de tarde. Sem esquecer aquela imagem: ela, churros, doce de leite, carrinho, um vendedor sem hábitos de higiene confiáveis.
Todos os dias, repetia mentalmente o nome dela ao abrir os olhos. Esperava ver aquela menina, já crescida, ao seu lado. Nunca aconteceu. Todos os dias, procurava, onde quer que estivesse, um lugar que vendesse churros, ou uma variação. Nunca encontrou a menina nesses lugares.
Depois de 30 anos, alguém teria a ideia de organizar um encontro. 30 anos era uma data importante. Ficou feliz. Muito. Mas também surgiu um leve desespero.
Ela teria casado, tido filhos, marido bonito e importante? Quem sabe? Ele não sabia. Tinha pesadelos: sonhava que o carrinho de churros descia desgovernado uma ladeira atrás dele, que fugia gritando. Era como ter uma mariposa no estômago. Pensava que ela não o reconheceria. Ou fingiria não reconhecer. Que não lembraria da história. Poderia ter ficado viciada em churros. Comido tanto que engordara. Tanto que nem poderia mais sair de casa. Elevadores não aguentariam. Quem sabe estivesse presa, naquele instante, num quarto de casa, sem poder sair porque não passava pela porta. Quando morresse, bombeiros altamente treinados teriam que quebrar a parede pra retirar seu cadáver. E perdia o controle diante das possibilidades que se apresentavam tão reais. Era uma pena ter parado de fumar.
Numa terça, voltando do trabalho pra casa, percebeu a mariposa no estômago agitada. O braço doía, a boca seca. Os olhos ficaram pesados. O entorno girou. Caiu. Em meio ao metrô lotado, em plena terça-feira. Um disse que era falta de ar; outro, que era o calor; um mais religioso, que era santo.
Enfarte. Não sobreviveria. No caminho pro hospital, sussurrou “churros”. O paramédico, que até gostava de churros, sorriu. Não foi por causa do churros, senhor, fique tranquilo.
O que o paramédico nem ele sabiam, é que nunca haveria a festa. Nem o reencontro. Nem houve a menina. Tampouco a obesa mórbida viciada em churros.
Houve muitas cenas de fim de tarde. E havia o cigarro. E havia os churros.