domingo, 30 de dezembro de 2012

REVELANTE


Revelante o relevo da planificação! Revelar a ideia por trás do pensamento, tentar mostrar o que o antecipa. O penúltimo dia do ano vai ser tão bom como o último dia, para fazer testamento de Tempo de_corrido... apresentado deste modo: 2012 (um de Janeiro - 31 de Dezembro). 
Desde modo se faz a biografia, a mais sucinta de todas, digna de uma lápide! Queria algo de lapidar, já está. Em bruto, o texto está feito. Lapidar mais um pouco a ideia, dar novas faces/facetas, permitir captar mais luz e refractá-la de modo a obter mais brilho.
Um princípio de vida que impressionava os estóicos: encontrar na morte uma aliada, permitir ao fim da vida ser uma constante promessa de aproximação da perfeição: conquistar a serenidade - até ficarem tão serenos que já nem precisariam - respirar.
Imagino um dia, de manhã, revigorada mas sem forças, com o vigor de quem o perdeu, ao escovar o cabelo, olhando o espelho, fechar os olhos e sentir o coração, de vez, deixar de bater. Revelante!? Gosto desta certeza e dú _vida…

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cidades

toda cidade desemboca no

mar

toda sempre

reconstruída de

céus

as pernas dos edifício e

de suas

difíceis

pessoas

constróem o desfiladeiro

das

águas

(

salgado passos

mergulham

)

.


                    - Graça Carpes -

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Milagre de Natal

Naquele dia 25, fez uma promessa: rezaria 10 pai nossos, 10 ave marias e, pra garantir, daria 3 pulinhos se a ressaca passasse.

Nada feito. Não tinha santo forte. Então, foi até a padaria comprar um Gatorade antes que sua cabeça explodisse.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Da estrela...




– Lá está ela! 
– Não adianta, não sei qual é... 
– Tu não vês? É a de brilho mais bonito! 
– Ah! Pra mim são todas iguais! 
– Mas pra mim ela é única.
– Devem existir milhões neste céu, como você consegue encontrá-la? 
– Eu a amo!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Ao novo

foto: Ciril  

Um bom ano
a ilusão dos dias bons, 
o engano desses olhos
insanos, 
repetidos, 
numa nova versão
sem refrão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Seu João


Foi assim. Eu já tinha ouvido falar da má fama dele, de briguento, fanfarrão. Sem falar folgado.

Motivo de a merda toda ter acontecido.  
Mas também, o desgraçado tá acostumado a fazer besteira desse tipo com a raça toda, mas comigo não.

Eu e a minha mulher, a gente tava na porta de casa. Dia bonito, resolvemos sair pra comer alguma coisa. Quando voltamos. Ele tava lá dentro. COMO SE A CASA FOSSE DELE!

Filho de uma puta, pensei.  A vizinha já tinha me falado que ele fazia essas coisas, mas pô, eu sou casado, quer invadir, pega uma casa vazia, tem tanta por aí.

Ficamos do lado de fora, pensando. Começou a chover forte, minha mulher, toda linda, se escondendo embaixo de uma árvore. Tô falando, foi tudo muito rápido. Sou macho. Entrei lá e biquei a cabeça dele até matar. Foda-se que era maior que eu, fiquei doidão e matei mesmo, porra, minha casa, que caralho.

Mãe natureza teu cu, Pardal comigo não tem vez, e se todo João-de-barro é igual, hoje a história mudou.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

luz- coração


Nossas escolhas pautam nosso cotidiano
contundentes marcos históricos
rasgando à fio de corte temporalidades escusas

que te dividem, rotulam e limitam
aqui, não me cabem unilateralidades
minha percepção quando não é múltipla é dual
bricolagem amorfa e indecisa de motivações sem fim

meu mundo fala português, inglês, espanhol, 
francês, turco, mandarim
e tudo de uma só vez

nesta tela a holística a realidade que globalizada engloba o nada navegante
como parecer inerte num mundo tão grande?

imaginação que divaga e consome
errantes pensamentos
somos todos seres projetados
no virtual espaço
imaterial da mente antenada
por emanações eletromagnéticas

quanto mais conheço
menor me sinto
partícula do todo
constituí mas não o é
em abrangência

quanto mais minha consciência se desloca
mais leve me torno para seguir na senda
da contínua escalada rumo à montanha sagrada
emanada da imaginação integrada para
além dos trópicos e dos horizontes
das brumas e da noite
além da ilusão
luz- coração.


                                      Flávia Amaro






segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Os 3 Poderes


Os 3 poderes é uma série que põe em questão pensamentos sobre a sociedade e suas relações com o que entendemos por amor, paixão, desejo, traição, fidelidade, vergonha, etc. Trata de comportamentos, medos e anseios do homem. Expõe conflitos do pensamento humano que, em pleno século XXI, ainda não somos capazes de tratar abertamente sem o julgamento de um olhar pudico e por vezes hipócrita. Por meio dos personagens representados por um coração, um cérebro e um pênis, 
Os 3 Poderes brincam com as maneiras de pensar; ora racionais, ora emocionais e ora sexuais, que reprimem-se e misturam-se diariamente em nosso pensamento.


sábado, 15 de dezembro de 2012

A árvore

Metáforas elaboradas não explicam sentimentos complexos, pensava.
Era quente. O dia estava claro e o sol rebatia nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Era novidade. Quente, claro, sol e desconforto sucediam a queda. Antes, ainda que fosse quente e claro, havia uma sombra delicada e o sol que rebatia nos carros na rua era barrado, entrando pela janela um balançar cadenciado.
Havia, em frente a janela, uma árvore. Com o tempo aprendera que era um flamboyant. Não que isso interessasse. Era uma árvore, isso bastava. Se era um ipê ou uma macieira era irrelevante. Sempre fora sua árvore.
Sempre esteve ali, oferecendo sombra como em um poema escrito sobre infância e nostalgia. Não que gostasse de sentar aos pés da árvore, recostar em seu tronco e receber a brisa suave no rosto, olhando pro céu entre a copa do flamboyant. Isso era poesia. Gostava de estar na sala e não ter os olhos desconfortáveis enquanto lia Tchecov no sofá.
Não ser poesia não significou, em nenhum momento, desamor. Vivia uma intensa relação amorosa com aquele flamboyant. Todos os dias, chegava da rua e, ao entrar em casa, olhava pro alto, em direção a copa da árvore. Quando era criança, carregava alguns galhos. De manhãzinha, juntava os bonecos e construía fortes e trincheiras nas raízes, que levantavam um pouco a calçada. Mais tarde, pegava algumas sementes pelo chão e juntava em uma caixa, sem muito sentido. Achava engraçada a sujeira que a árvore fazia e podia ver o céu entre as folhas. É, talvez de alguma maneira, fosse poesia.
De certa forma, aquela quase poesia era também um prenuncio de tragédia. As raízes fortes iam aos poucos estourando a calçada e os canos em busca de água. As sementes ficavam espalhadas pela rua, assim como as flores. As cigarras sumiram. Havia cupins.
Um dia chegou o botânico. Nunca havia visto um botânico e nunca viu um depois disso. Se fosse teatro, diria que era uma solução dramatúrgica fraca do autor, colocar um botânico ali para explicar o inexplicável, como a empregada doméstica da novela das oito que faz uma pergunta a patroa, protagonista da história, pra que ela possa fazer uma cena tocante, que sirva de gancho para o capítulo seguinte e mantenha a atenção do espectador. Não era preciso verbalizar a morte. Fez-se o silêncio.
Dias depois, acordou com a trilha sonora do corte. Foi até a janela e contemplou a coreografia. A luz do sol banhava o cenário e lá em baixo havia uma espécie de diretor. Não conseguiu pensar em nada.
Os dias seguiram angustiados. Era, sim, preciso verbalizar a morte, pensou. Pegou um caderninho que tinha guardado para essas ocasiões angustiadas. Começou a escrever, nada que achasse gostável. Mas não estava interessado em ser lido, mas em botar pra fora a angústia. Ele sabia, ou achava que sabia, que escrever era uma forma de superar.
O que ele não sabia era que nada que escrevesse seria capaz de cobrir aquele buraco aberto. Que nada voltaria, ainda que inconscientemente achasse possível que tudo voltasse, em breve, a ser como era antes. O que não sabia é que há coisas que não se superam. Há coisas que não voltam. Não pelo que foram, mas pelo que deixaram de ser. Brincar com seus bonecos na raiz aparente do flamboyant foi banal, mas foi. Não haveria mais aquela raiz para servir de trincheira na guerra imaginária. Não haveria sementes, galhos ou flores. Não haveria.
O acordar seria diferente, assim como a sesta. As tardes e os cafés-da-manhã também. Não haveria escaladas, podas, arte naturalista. Não poderia se casar embaixo da árvore. As folhas pequenas, não poderiam ser postas pra secar, trituradas, enroladas em um guardanapo de bar e posteriormente fumadas, em busca de algum estado alterado de consciência, numa tentativa juvenil de fazer haver alguma coisa. Não poderia construir uma casa na árvore, não naquela, pelo menos, e, se não naquela, em qual mais?, não importa, não poderia construir uma casa com a sua madeira nem tirar uma muda. Não seria possível, um dia, quando fosse avô, retirar um galho e fabricar uma espada de brinquedo para seus netos. Tampouco construir um arco e flecha. Não haveria a sombra e a poesia de olhar pro céu entre as folhas da árvore.
Os dias seriam claros e o sol rebateria nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Tchecov nunca mais seria o mesmo. Nem ele.
Metáforas simples também não explicam nada, pensou.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mulher da minha falta de sonhos

Sente o vazio no fundo do travesseiro. Revira-se e estica os braços em busca daquela presença; Uma esperança, nada além disso. Por mais que se deparasse com outro corpo, não seria aquele. Nunca mais foi.

Depois daquela noite, a cama sempre pareceu vazia.








texto do livro Colcha de Retalhos

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Olhos convexos



Olhares planos
Revelações mínimas
Ilusões no olhar

Janela Limpa
Espelho mágico
Olhar convexo

Mundo revelado
Imagens amplas
Dentro d'alma

Pinturas planas
Natureza morta
Estatísticas futuras

Realidade convexa
Presentes reais
Verdades Nuas


Joakim Antonio





segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Imitação de Ícaro




Fazia horas que estava deitado na cama observando o planetário projetado no teto. O quarto estava repleto de velharias, minhas companheiras, desde que Sofia me deixara. De quando em vez abria um livro para manter aquele velho hábito. Já não tinha gosto em leituras, amofinava facilmente com aquela literatura safada. Não suportava os títulos que recebera da namorada, livros esdrúxulos, sem composição, nem conteúdo. Haveria quem os defendesse veementemente, mas, não eu; não fazia caso daqueles livros, preferia ler Baudelaire, mergulhar nos infernos de Rimbaud, me perder nos processos metamórficos de Kafka. Sim. Aquilo era literatura e não esses títulos que mais parecem receituário. Literatura safada. Autores medíocres que querem apenas a fatia do bolo, povinho sem-vergonha. Não dava para ser assim. Decidi escrever. Optei pela loucura deixando ser tomado por uma obsessão doentia. Entrei para o quarto como quem entra para um casulo. Haveria de sair dali escritor, mas por onde começar? Enchi o quarto de livros raros que encontrava em sebos. Recolhia todo jornal literário, inscrevia-me em todos os suplementos. O espaço ficava cada vez menor ante o amontoado de papéis. Os livros empilhavam-se aos montes, pouco lia até que, definitivamente, perdi a razão. Seis meses. Havia seis meses que entrara para o quarto. Vivia debruçado sobre os livros e jornais que se espalhavam vertiginosamente. Dormia em uma poltrona, cochilos curtos, o suficiente para me recompor. Ficava alheio ao que se passava fora daquelas paredes. Saía do quarto apenas para atender a porta, raras vezes, para receber a pizza, o lanche ou os correios. A vizinhança estranhara meu comportamento, mas que importava? Era apenas mais um. Todo dia nascia gente, morria gente. “O homem não se barbeia, nem cabelo penteia. Ensandeceu de vez” - pensavam. Andava pelo quarto metido em um samba-canção, meias de algodão nos pés, ora um livro de poemas nas mãos, ora um romance. Estava me alimentando abundantemente. Meu desejo mais secreto me impulsionava.

Acordei certo dia com a sensação de poder confiscar os mundos, reter nas mãos todos os pequenos universos alheios, tornando-os matéria de primeira essência. Precisava romper o casulo que se formara entorno de mim, voar, sair às ruas tentando capturar os olhares, as dores, os medos, a violência dos homens. Em meu íntimo armava-se um circo, erguia-se uma tenda, formava-se uma imensa aldeia e, todas as civilizações habitavam-no. Gregos, romanos, vikings, maias, incas, astecas, normandos, egípcios, persas, aimorés, tupinambás, botocudos, o mundo inteiro se digladiava em mim. Caminhei por um tempo estranho à minha capacidade de compreensão das coisas e, me vi perdido em um imenso labirinto de imagens contorcidas da realidade. Não havia em mim nem uma faina de prosseguir. Retroceder era impossível, pois não havia caminho de volta, nem o fio de Ariadne a me conduzir. Segui às cegas em meio à multidão insana, desfraldei a espada e corri em direção ao sol. Senti um impulso, me joguei da ponte, voei. Voei alto. Braço erguido, espada em punho, pretendia apagar de vez aquele que usurpara da terra a condição de centro do universo. Decidido estava a destruí-lo, mas num golpe de mestre, fizera com que as asas que meu pai esculpira derretessem, e lançara-me no abismo. A morte não veio sobre mim, apenas destilou o veneno, inspirando-me todo tipo de desejos de vingança, um ódio expansivo inflamava-se no peito – gases que se misturam numa iminente explosão.

(...)

sábado, 1 de dezembro de 2012

flor de tempestade




suas palavras rasgam
as certezas que trago aqui
retumbam nas vísceras
desagregam meu sentido mais ego

essa lira fragmenta danos
nego meu querer mesmo que
as premissas teimem
em redundar no âmago

suas sementes crescem
feito praga esgueiram-se
nas frestas desavisadas
enraízam-se causando dor

desses desejos mui tardios
que sussurram, calado ouço
mas impune à minha súplica
continua a brotar em mim

é como flor de tempestade
desabrocha gentil
impera bela
sem se ater ao que me causa.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

VERSOS PARES

Deixo os meus castelos
no ar, aos sonhadores
e suas mulheres.
As mulheres, sonhadoras,
são os seus homens,
deixo tudo a elas.

Eles, para serem merecedores
das mulheres que têm,
deixam tudo, aos seus
filhos, mulheres e cães.

O meu papagaio fica
para a vizinha, é tudo.

Agora, também, versos ímpares.

Tudo deixo aos seres,
ao ser como eles, aprendi
a respeitar as pedras.

Abro de mão tudo,
deixo os ossos e, as ideias,
levo comigo as que tive.
Ficam as que fiz,

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Eclipse

chuvas disfarçavam  os  céus
assim como máscaras sobre
faces
indiferentes às calcificações e
mesmices
um novo tempo  e  novos
portais se abriram
às sombras as
guerras e as traições
agora
feito ecos de monges budistas as
crianças e seus risos
sonoramente
instrumentam o universo
ao sol...
ofereço meus versos

                  - Graça Carpes

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia

b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos             [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefante - editora Anfisbena, 2012

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Partidas


Depois do imprevisível
já não te sirvo de esteio 
ou guarda-chuva...
não me sustento.
Meus olhos marejam, 
teimosos...
Foi o eco da tua voz
ou o oco em meu peito
que me fizeram esmorecer?
Não ouviremos mais John Legend
de mãos dadas, no infinito.
Eu vou!
Segure-se no balanço, baby,
antes que as folhas caiam
e tomem todo o jardim...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

zero

quando você nada tanto que não sabe se já chegou do outro lado do mar
ou se está nadando em círculos
tanto porque nadar em direção ao nada
dá nisso

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Por uma boa higiene bucal


Ela abriu os olhos.
Sem muitas imagens poéticas sobre o acordar e levantar da cama de uma mulher que habitasse as páginas da literatura, foi até o banheiro e, desviando do espelho, entrou no banho. Terminado, saiu do box desviando mais uma vez do espelho e foi em direção ao quarto, fugindo do outro também. Vestiu-se e foi comer alguma coisa. Como não havia nada que lhe interessasse na geladeira, tomou um gole da coca-cola aberta na porta. Voltou ao quarto, sempre tomando cuidado. Arrumou tudo. Estava quase pronta. Foi então escovar os dentes. Entrou no banheiro, cabeça baixa, sem levantar os olhos. Pegou a escova e passou a pasta. Foi só aí que, suavemente, ergueu o rosto e encarou o espelho ao mesmo tempo em que colocava a escova na boca. Mecanicamente começou o processo e a espuma se formou na boca. Os olhos travados. Corpo travado. Todo. Era aquilo que havia evitado até aquele momento: não queria ver o próprio rosto. Os olhos fundos indicavam sua tristeza. O vermelho não negava o choro óbvio. Não parava a escovação, mas começou a pensar em tudo, tudo que não queria pensar, que havia evitado pensar na noite anterior, que havia evitado pensar naquela manhã. Pensou nele e quase chorou. Mas não, permaneceu escovando. Lembrou do dia anterior, dele e da despedida. Lembrou que fins são sempre trágicos. Alguns diriam ser cômico e ela até concordaria, não fosse com ela. Lembrou que sentira muita raiva no dia anterior e que sentia raiva naquele instante e que, ainda que não estivesse escovando os dentes, estaria com a boca cheia de espuma. Raiva: passou a escovar com força. Raiva dele, do fim. Não dava pra pensar muito com a escova na mão e a língua anestesiada pelo creme dental. Pensou nisso. E teve raiva outra vez. Dele, do fim, do creme dental, daquela rotina maldita. Levantar, tomar banho, comer, vestir uma roupa comportada, escovar os dentes e ir trabalhar. Trabalhar, comer de três em três horas, escovar os dentes após as refeições.
Estava cansada.
Antes e agora. Ele não tinha motivos pra ir. Mas disse que se sentia preso. Que a rotina o aprisionava. Não queria aquilo. Ela sentia a rotina, não gostava da rotina, mas gostava dele. Lutaria contra qualquer coisa. Ele não. Ela terminou de escovar os dentes. Cuspiu, enxaguou a boca, bochechou o liquido colorido que estava na estante, lavou a escova e guardou tudo no armário. Levantou a cabeça e olhou no espelho mais uma vez, encarando a si mesma.
Estava pronta.
Não completamente, é claro. Sentia raiva. Dele, do fim, do creme dental, da rotina, de tudo. Inclusive, da quebra da maldita rotina. No dia anterior, quando ele quis acabar com tudo, acabou com ela.
Não, não estava pronta.
Abriu o armário novamente, pegou a escova e o creme dental. E começou tudo outra vez.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Lua de Chesire

A lua, deitada no céu, sorri um sorriso minguado

Ela sabe que, por estas ruas enevoadas, durante a madrugada, encontrará apenas os bêbados e os loucos








texto do livro Colcha de Retalhos

domingo, 11 de novembro de 2012

Amigos de La Fontaine



Tá de barriga cheia né, safado?
Um queijinho cai bem de vez em quando né, hipócrita?
Euuu?
Não, eu mané. Você mesmo, que gosta de roubar coisas dos filhotes inocentes.
Ha, ha , ha, pelo menos eu não roubo comida de corvo.
Eu não roubei nada, caiu e peguei, tá bem.
Tá nervosa, santa?
Ai meu Santo La Fontaine, você fez de novo.
Pois é, não foi?
Queria que todos soubessem o quão sacana você é, e eu, a pobre raposa inocente, sempre caio nas suas provocações.
Vai reclamar com seu pai, o "Santo".
Sua sorte é que eu não ligo para essa parte, o importante é que ao encenar, acabamos ensinando.
É mesmo, finalmente você tem razão.
Ah, não enche meu saco e quer saber de uma coisa, vamos dormir.
Para quê?
Bom, pelo menos eu não me faço de burro!
Burro é em outra história, ha, ha, ha, ha, ha.
Ai meu La Fontaine, pena que você não pode mais mudar a história, eu ia pedir para mudar de papel.
Tá bom, ia ser, a raposa desafinada, ha, ha, ha!
Tsc, tsc, tsc, cala essa matraca e deita aí.
Tá bom, rabugenta, vamos dormir.
Vamos aproveitar, daqui a pouco alguém abre um livro por aí  e só poderemos descansar quando acabar a história.
Minha linda história, você quer dizer.
Ai meu...
Tá tá tá, não fala nada já to deitando, sua chata. Zzzzzz.... zzzz...
Epa, calma aí, seu corvo mal educado.
Que foi agora, raposa cri cri.
E eles?
Onde?
Ali olhando a gente.
Ah é mesmo, foi mal.
Até amanhã para você que está lendo, ou melhor, diz aí raposa.
Até a próxima história.

Joakim Antonio 

"Sirvo-me de animais para instruir os homens. Procuro tornar o vício ridículo por não poder atacá-lo com braço de Hércules. Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem, o vício à virtude, a tolice ao bom senso... Uma moral nua provoca o tédio. O conto faz passar o preceito com ele; nessa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar, pois contar por contar me parece de pouca monta." Jean de La Fontaine (  Na introdução da sua primeira edição do livro “Fábulas”)  

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

(...)



Eram simples tentativas de se comunicar com o mundo. Não lhe cabiam as simbologias. Nem mesmo as linguagens. Apenas a deformidade dos acontecimentos. Algo como um terremoto interior. Os passos em que caminhava pela rua eram meio trôpegos. Torpes eram os caminhos. Não haveria lugar no mundo. Lugar aonde pudesse se refugiar do inconcebível. Jamais se resignara. Em tempo algum haveria de se curvar. Poderia quebrar-se ao meio. Poderia partir-se inteiro: não se curvaria. Não se ajoelharia diante de reis nem de deuses inoportunos. Era inquebrantável na descrença. Contudo, era esperançoso. Não se admitia mergulhado em fatalismos. Sua capacidade de crença estava direcionada à potencialidade do ser humano. Sem maniqueísmos sabia das direções e impulsos racionais que nos levam a prática do bem ou do mal. Nunca separou os semelhantes em joio e trigo por achar a parábola inconveniente. Preferia acreditar em pessoas desajustadas socialmente. Ele, por exemplo, não se alinhava ao comum das gentes. Vivia a parte. Observando os acontecimentos sem desprezar os fatos. Afinal, era preciso refletir. Antes de tudo, antenava-se nos novos ritmos da cidade que cada dia mais se tornava intransitável. Carros, desvios, gente descolada demais, tresloucados fugindo de si mesmos nas cracolandias (ou tentando se encontrar num ambiente hostil que lhes ofusca a visibilidade). A polícia e o Estado expulsando essa gente dos centros. Levando-os sabe lá para onde. E, aqueles mesmo descolados aplaudem a limpeza das praças. Que sumam com aqueles pobres chupadores de pedra. Fumar unzinho pra relaxar é coisa de bacana – é até legal – não essa loucura que está solta nas ruas; esses tresloucados analfabetos que ficam empestando a cidade: ora roubando ora na mendicância.

Não se tratava de um jovem transviado. Viver na alucinação diária é calamitoso. É corre- corre para estudar. Formar. Ser alguém direito. É a luta para se ter um emprego para a sobrevida que levamos a esmo. Se adequar é difícil. Corta o cabelo, apara a barba, camisa dentro da calça, cinto a combinar com os sapatos. Gel no cabelo. Perfume. Cheiro de gente de bem. “Que merda é essa em que estou me transformando? O retrato do vizinho imbecil do AP 804. Agora só me falta uma colocação na repartição pública. Vá se fuder – vidinha mofina.” Tenta provar pra si mesmo que é um desajustado. No fundo sabe que não é. Segue todos os padrões e ditames da moda. Seu pensamento é escasso de sobriedade. Está sempre a repetir frases alheias. Disfarçando de intelectual de boteco. Se houvesse um interlocutor a altura discutiria Nietzsche. Falaria horas inteiras de como somos produto do meio. Ou das relações do homem contemporâneo e os meios de produção. Porém, todos os seus encontros são banais e se forjam nas inúteis futilidades diárias. Qualquer encontro ou conversa é como uma avalanche de parvoíces onde os assuntos estão incrustrados da grande torpeza televisiva. E todos os homens parecem modelos saídos diretamente daqueles programas de auditório desqualificados onde toda mentira gera polêmica sob o trajo de verdade indissolúvel. Impossível ser honesto nas amizades, exprimir os pensamentos que o atormentam, compartilhar experiências. Afinal, todos estão ligados na vibe. Altas discussões sobre a validade do título inédito conquistado de forma invicta por aquele time de milhões de torcedores. Nada mal aquela jogadora de vôlei gostosa que saiu pelada na revista desse mês. E vai cerveja, vai tira gosto, mais cerveja e tira gosto. E o papo não muda a fita. Sempre a mesma falação. As lutas do Ultimate. Aqueles trogloditas a se encararem dentro de um quadrado (octógono, tá bem?) rosnando como cães raivosos. Ah, barbárie! Seja bem vinda à vida desses reles mortais. Ah, barbárie! Seja bem vinda ao cotidiano de nossas crianças. E assinam os canais de Combate. E discutem as regras do jogo, ou mesmo a falta delas. O objetivo é finalizar o adversário (ainda não estão autorizadas as mortes, mas basta César, fazer o sinal de aniquilamento e elas virão). Banalidades. A vontade de estar trancado no quarto entre os livros e discos. Ouvindo Blues, curtindo Jazz.  Lendo Bukowski e se mijando de rir com as sacadas bem humoradas: “você tem que trepar com um grande número de mulheres/ belas mulheres/ e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.” Sentado diante do notebook tentando escrever alguma coisa que preste. E que não esteja infectado das patranhas diárias. Mas ele sabe que é impossível não contaminar-se. É impossível viver sob um escudo que o deixe isento. É impossível sair ileso, não sofrer danos nas retinas, nos tímpanos ou na alma. Mesmo que feche os olhos, tape os ouvidos, em algum momento, virá a chuva de banalidades. E, não adianta livros, discos, filmes. Não adianta ser cult, cool ou anarquista. A presença da mediocridade nos assombra. E esta sombra é o que nos envolve diariamente tentando nos converter, tentando nos convencer de que somos todos iguais e que devemos continuar sendo iguais. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

estátua de sal




a imagem endurecida
mal chora trancada em si
na esperança de se achar

[calo]
trago aqui
cada palavra
cada respiração
cada som
toda a sensação
rubra, rubra, rubra

[vem]

e que minha retina
te cubra ainda dilatada
e que seus poros
jamais se esqueçam

[garoe]

que teu sorriso
me é bastante
enquanto molha
meu corpo


[vê]

que não há limites
entre o que é nosso
que a loucura é sã
enquanto unos

[sente?]

terça-feira, 30 de outubro de 2012

TESTAMENTO REPLETO


Como sempre, morro antes de escrever o meu testamento. Quero ser levado a sério? Nem pensar! Pensar é a última coisa a fazer.
Bom, está na altura de pensar, tenho de fazer este testamento, que chatice! Quem se terá lembrado de fazer, pela primeira vez, um testamento?
Deixo os meus ossos a quem os quiser honrar e venerar, até achar melhor coisa para fazer e se dedicar a amar as frescas flores!
Já deu para perceber que me custa pensar sobre o que possa sobrar depois de soçobrar, enquanto vivo obro e faço amor, como e durmo: é uma beleza, haja saúde!
Façam o mesmo que fiz, se_ria… tudo. Já está; foi, fui. 

domingo, 28 de outubro de 2012

cantadas para uma moça no metrô


1ª Metrô chega a uma estação: aqui é o paraíso?





2ª você vem sempre aqui esperar isso esvaziar?

A moça




era tão bonita que

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Mercado da Bola


O empresário, seu clube atual e o anterior: tal como uma pizza, sua posse estava divida entre os três. E a briga por umas fatias a mais ia longe.

Em geral, ele gostava disso. Sentia-se valorizado, querido. Mas agora, preso por dirigir embriagado, ficou a dúvida: para quem ligaria primeiro?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

No Oculto





Estou no oculto, no subliminar, nas entrelinhas, nas reticências, dentro dos parênteses. Eu estou atrás da cortina, debaixo da cama, dentro do quarto trancado. Meu desígnio é estar perto, mas ao mesmo tempo longe. Porque eu estou apenas no desejo, na ânsia e na fome; Na tinta da caneta, no papel não feito, nas jóias que não brilham. Estou no aperto, no lotado, em grandes espaços, no oculto da fantasia, dos contos de fadas, nos livros de sabedoria. Minha vida é estar no canto, observando como espectador, tudo em volta, girar como uma roda. É contemplar a vida no auge do limiar, no limite do horizonte.

No oculto ninguém me vê, estou invisível, apenas paralelo ao mundo real. É no oculto de um olhar, de um piscar, de um grande bocejo, ou em uma palavra não dita. Estou dentro do cheio, fora do oco, estou limpo no sujo, sujo no limpo. Estou nos bastidores de um filme, atrás das câmeras, na luz que não ilumina, na sombra que não é escura. Sou coadjuvante das pessoas, sou a sombra, a lágrima que cai, o abraço que nunca foi feito, a mão que nunca foi apertada.

Estou no oculto, no sótão, no porão, na prisão, sozinho na imensidão; estou sem estar num lugar sem existir, invisível no visível, visível no invisível, estou preto no branco, branco no preto. Na reta da curva, na curva da reta.

Estou apenas em mim mesmo, no finito do infinito...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Metamorfose


Lembra? Eu tinha graça... eu corria descalço pelas ruas. Eu ainda sorria. Quando a chuva caía fria e colorida, eu mergulhava nela. Nesse tempo, a mochila não pesava nas costas. Nessa mesma época, eu cantava e não sabia que desafinava, queria tocar piano mas não o abria, queria ter uma horta, mas não cultivava. Sei que você se lembra de quando eu ainda pulava sem motivo, escalava os muros mais altos e ainda tinha equilíbrio... Você não acreditaria no que sou agora: ouço e não discuto, escrevo cartas e as deixo nas gavetas! Agora, determino o lugar das coisas, os quadros nas paredes, as cores e os sabores que ninguém vai provar. Você ao certo se esqueceria de quando eu dominava esse mundo, só com meu escudo e uma espada enferrujada... num piscar de olhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sobre a tolerância


Foi assim: estava sentada na sala de espera quando ele entrou pela porta.
Usava um colete apertado, sem blusa alguma por baixo; uma bermuda, até o joelho, rasgada; uma sandália imunda; e, cruzada pro lado esquerdo do seu corpo, uma bolsa de pano, meio encardida. No peito, um cordão feito artesanalmente.
Aquele primeiro momento foi irreparável.
Foi um choque. Recuperada, em parte, percebeu que ele vinha em sua direção. Foi quando se sentou ao seu lado.
Aquilo mexeu com ela mais uma vez. Sentiu o impacto daquela presença. Como ele poderia entrar ali, daquele jeito? Não percebera sua inconveniência em estar daquela forma? Achava incompreensível.
Ficou observando-o.
Ele cruzou as pernas. Depois, abriu a bolsa e tirou de lá um sanduíche. Os olhos dela se arregalaram. Não acreditou. Desviou o olhar, tentou se ajeitar na cadeira. Não conseguiu: levantou-se e saiu andando. Tentou massagear as mãos, pra se acalmar.
Descontrolada, entrou no banheiro. Diante da pia, abriu a torneira e lavou o rosto. Olhou no espelho durante alguns segundos. Por que tudo aquilo estava acontecendo com ela? Enxugou o rosto e pensou naquilo tudo mais uma vez. Não acreditava ser possível alguém se vestir e se comportar daquele jeito.
Ela apenas queria ir ao médico.
Andava nervosa, queria se consultar com um especialista. Mas e aquilo ali, agora? Como agir? Precisava de uma sessão de meditação urgente. Ou da instrutora de ioga, quem sabe.
Saiu do banheiro.
Foi em direção a sala de espera de novo. Lá estava ele sentado, comendo seu sanduíche. Ela senta. Tenta se manter sob controle. Entretanto, essa não era uma realidade possível. Pouco a pouco, seus músculos iam enrijecendo.
Estava tensa. Tinha vontade de espancar aquele sujeito ali mesmo, naquele instante.
Levantou.
De pé, meio instável, caminhou até a janela. Estava fechada, mas chegou o rosto bem próximo ao vidro. Foi como se pudesse estar um pouco lá fora. Tentou puxar o ar, mas faltava. Voltou em direção à cadeira em que estava, mas não sentou. Passou por ela e foi em direção ao corredor. Baixinho, entoava um mantra.
Desistira da consulta.
Aflita, correu para o elevador. Com a mão, impediu a porta de se fechar e entrou. Sentia-se um pouco melhor. O elevador desceu e, ao chegar ao térreo, ela saiu correndo dele em direção à rua. Enfim, respirou.
Estava livre de toda aquela opressão da sala de espera. Apesar disso, ainda restava um aperto no peito. Não sabia bem o que era. Pensava em cores calmas. Imaginou um quarto azul e respirou fundo.
Foi até a esquina e sentou em um café. Pensou. Tomou um chá. Queria se acalmar. Mas sempre esbarrava em um pensamento: e se ele voltasse? E se encontrasse com ele outra vez? E se, andando pela cidade, ou numa sala de espera qualquer, estivesse frente a frente com aquele ser, mais uma vez?
Não aguentaria.
Pensou, então, na única solução possível: acabar com ele. Ajeitou o corpo na cadeira. Não lhe restava dúvida alguma. Era necessário eliminar aquele sujeito. Não podia perder a oportunidade de resolver a situação. Fixou o olhar na saída do prédio. E esperou.
Esperou até ver seu objeto de ataque. Atravessou a rua rapidamente e foi atrás dele. Discretamente, seguiu o jovem até a esquina. Sinal aberto, carros passando. Esperou o momento exato. Viu o sinal amarelo e o ônibus vindo. Percebeu a aceleração pra tentar cruzar antes do sinal fechar. Foi quando ela tropeçou suavemente, esbarrando nas costas dele. O corpo dele foi pra frente. O ônibus não parou. O corpo dele ganhou o espaço.
Gritos ecoaram pela esquina.
O corpo parou alguns metros a frente. Sob ele, sangue. Ninguém percebeu o que ela havia feito. Ninguém. Ela sorriu discretamente e olhou em volta, tentando ter certeza de seu segredo. Ligou para a emergência.
Estava aliviada.
Ainda na esquina, ouviu quando alguém do lado disse que viu o garoto se atirar na direção do ônibus, que achava ser um suicida. Outra, no meio da confusão, dizia ser sensitiva e que aquilo havia sido um suicídio com certeza. Havia cumprido sua missão naquele dia. Ninguém seria mais incomodado por tamanha indelicadeza como o comportamento daquele jovem. Não encontraria mais aquele ser pela rua. Não mais.
Estava em paz.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Dia Nacional da Leitura / e-Colcha

Hoje, dia 12 de outubro, Dia Nacional da Leitura, lanço a versão digital do livro Colcha de Retalhos



O livro está disponível para leitura online ou download em formato pdf, no sistema "pague quanto quiser, se quiser"

Conto com a colaboração dos amigos para divulgar este lançamento e ampliar o alcance desta obra!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ultrajada



Bandeira hasteada.

Contra a haste,
cupins, serras,
culturas inteiras.

Metade solitária.

Solidária a meio-pau,
encontrada a meio-fio,
enfincada na multidão.

Fulgurante como o sol.

Ilumina a noite,
até virar cinzas,
e talvez, Fênix.

Multiplicada em partes.

Rasgadamente exaltada,
parte por parte,
após regurgitada, de cima.

Bandeira ultrajada.

Por não conseguir chegar,
muito antes,
a quem mais a exalta e precisa.

Joakim Antonio

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Margens Plácidas

para quem já viu de tudo,
não há nada que assuste mais
do que a normalidade.

domingo, 7 de outubro de 2012

Ideias para um romance


Minha admiração se eleva ao fracassado. Aos homens de espírito fraco, aos desconhecidos. A inconcebível presença dos que vivem a margem do panteão. Enxadrista que não fui, valorizei em demasia a nobreza e seus artifícios. Meus desenganos aniquilaram os peões. Desprezando minha condição social, alimentei, por muitos anos, vários sonhos burgueses. Sonhos estes que vi desfeitos ao longo da vida. E, agora, em meu juízo, noto que o fracasso me rondava desde os primeiros anos. Hoje, tépido e ausente do que fui, posso olhar para mim mesmo e ver onde errei na vida. Os caminhos que escolhi e nunca cheguei aos meus desejos. Assento-me em minha poltrona empunhando um livro que leio sem entusiasmo. Ouço canções que em outros tempos me fariam flutuar; neste instante estou alheio, insensível. O único sucesso que ainda possuo é a biblioteca em que estou imerso. Pífias estantes de pouco mais de mil exemplares que fui juntando vida afora. Agora - gordo, hipertenso, grosseiro e fatigado – restam-me as horas que se arrastam ligeiras, feito serpentes. De um ensaio salto a uma poesia, percorro um romance que deixo inacabado sobre a mesa, remexo nos papeis sobre a escrivaninha. Vida inglória esta.
Nunca tive um plano, um projeto de vida. Nunca elaborei uma estratégia para os dias futuros. Embora imaginasse a dureza que seria nunca me preocupei tanto. Contudo, percebo que nada construí. Todos os sonhos que tive, foram apenas sonhos, que como nuvens se desmancharam com o vento. Ah! Se tivesse morrido aos vinte anos. Talvez tivesse a honra de ser lembrado como quem tivera todo um futuro amputado. Talvez houvesse uma nostalgia do que não fui e, todos me dedicassem honrosas homenagens – dizendo que, certamente, eu brilharia. Mas, eu não morri. Tive a chance de ser e não fui. Tive a chance de brilhar, mas escolhi escurecer-me. Sou um tipo vulgar de homem. Destes que se encontram por todas as esquinas. Aparento sabedoria por meus cabelos grisalhos, a sensatez no falar, o bom gosto no vestir, mas, como todo homem comum, sou sisudo, desconfiado. Imerso na angustiosa razão de viver. Meus referenciais ficaram adormecidos no passado. E, a cada pessoa que deixava esta vida, era a minha que se via diminuta. Uma ausência carregada de um mistério imperscrutável. Tempo que se amiudava irrecuperável nas horas inacabadas do ser.
Guardo um livro autografado em minha estante. Um poeta que me fitou a face e me chamou de irmão. Tudo como um relâmpago ficou impresso na página de rosto: “de poeta para poeta”. Foi só. O único reconhecimento de pertencer a um círculo. A partir de então, nada mais de admirável. A vida tornou-se escorregadia. A poesia foi-se pelo ralo dos dias. E, o sentimento de pertencer a algum movimento se dissipou. Na verdade, as palavras eram apenas carícias em um ego inflado. Uma autoafirmação incompreensível que me jogou de encontro ao outro, fazendo-me revelar-lhe minha condição de escritor. Ele escreveu mecanicamente, com meio sorriso nos lábios e grande cortesia. Com o tempo, outros títulos se juntaram a este com outras dedicatórias. Outros pugilistas da palavra travavam esta luta vã no caos que se instala ante seus olhos. Deixavam, assim, relatos apaixonados pela arte de dizer “inutilidades”.

Aquele sentido de pertencimento não mais surgiu. Permanecia afastado das rodas. Um exílio voluntário distava o ponto. Algo dizia: “não estás contido nesse meio.” As grandes rodas pertencem aos literatos. Discutir o mundo, suas transformações, os enfoques sócio-culturais que dividem as nações e diferenciam os povos é coisa para intelectuais. Indivíduos versados nos mais diversos assuntos geopolíticos, capazes de discutir de forma enfática os mais profundos sentimentos da contemporaneidade. Não passava de um versejador de dores de cotovelo. Ora de uns espasmos delirantes, ora de um grito no escuro. Vez ou outra escrevia uns versos. Deixava inacabado um conto que logo se esvaia na mesma velocidade que surgira.  A solidão penetrava os poros e não servia de combustível, aliás, nem as doses excessivas de conhaque intuíam as palavras. Só uma intensa ressaca a corroer a alma.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

doloso




sei dessa angústia
tardia que habita
meus espelhos
matinais

e dessas paisagens
disformes retratadas
em papel de embrulho
descartadas à revelia

por ceder ao alheio
esmoreço em dolos
quantas faces
de Frida encontrarei
em vias expressas
e passeios públicos?

domingo, 30 de setembro de 2012

TESTAMENTOS (C)

VERTICAL III

cresço o desvario
nunca avario
a loucura

é loura
beldade nua

crua coroa de prazer

C

TESTAMENTO I, II, III

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Solução

 
 
fale com o moço de terno
aquele rapaz ali
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sonho

 
 
 
 
 
 
 
e se fôssemos assim todos
repletos de
ar
feito balão sem corda
entre as nuvens do
céu
sobre as águas do
 mar
?
flutuar
 .
 .
 .
 flutuar
 
 
              - Graça Carpes -