terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Medo

O garoto, inocente, adorava dar asas à imaginação.

O irmão mais velho, definitivamente culpado, acrescentava os olhos vermelhos, dentes afiados e garras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Tela de Maggie Taylor


Anatomia de um rio


Às margens desse rio asfixiado,
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias,
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho
antes de seguir viagem; outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.

Nessas águas espessas,
violentadas pelo óleo das auto-estradas,
oprimidas pelo caldo dos bueiros,
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.

Às margens desse rio viciado,
picado pela agulha dos hospitais,
assaltado pela indigestão dos restaurantes,
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.







*

sábado, 20 de dezembro de 2008

Amadeus




Amadeus era um anjo, desses conhecidos pelo nome de cúpido. Na realidade, um anjo inexperiente, mas mesmo assim, por não ter outras opções, o departamento de Relações Exteriores do Céu o convocou:
_ Amadeus, terás que descer à Terra e realizar o encontro entre duas pessoas, uma delas é essa moça – antes mesmo de mostrarem-lhe a foto, Amadeus, curioso, perguntou:
_ Quem é a moça? Como irei fazer isso?
O ministro das Relações Exteriores do Céu se exasperou com a ansiedade de Amadeus, mandou que se calasse e apenas ouvisse. Amadeus estava sentado numa cadeira-nuvem, os pés inquietos, balançando para um lado e para o outro, enquanto ouvia as orientações:
_ Ouça bem, Amadeus, o sujeito ainda é indeterminado, terás que ser criterioso. Essa moça tem se comportado muito bem, planeja formar família, encontrar alguém que realmente a ame. Você receberá duas flechas, uma deverá acertá-la e a outra acertar o homem que mais honesto e sensato lhe parecer.
Amadeus ficou todo preocupado com a incumbência. Chegou a terra e passou dias analisando pessoas. Um bebia demais e certamente a faria sofrer; outro corria no trânsito e tinha atitudes agressivas; outro, não dava importância a seus pais, certamente não seria um bom marido e um dos últimos que Amadeus observou, achou por bem não escolher, porque era baixinho e não serviria para casar com uma moça tão alta e bela... Cansado dessa procura e sabendo que uma flecha já havia sido usada, concluiu que cinqüenta por cento do serviço estava concluído. Achou melhor, sentar, descansar um pouco... Só que, para não correr o risco de perder a flecha, abraçou-se a ela. Sentou-se debaixo de uma árvore e sentiu uma brisa tão agradável que por um momento imaginou estar novamente no céu com suas nuvens frias e confortáveis. O som dos pássaros lhe soou tão agradável aos ouvidos que cochilou abraçado à flecha. A seta atingiu-lhe o peito e Amadeus morreu de amor...
E teve muitos filhos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Prisão


Na calada da noite
Mentes vãs
Doses sutis de vozes
Apedrejam as minha idéias
Obsessiva com os erros
Na voz trêmula
Que sufocam a garganta
No fim da minha fala
Engasgada
Como um corte na veia
Para não pensar
Nas noites sombrias
Do desatato das amarras
Que enforcam
Ao pensar em ti

A Travessia

Matem-me amanhã
e serei novamente um cadáver agradecido
com um sorriso nos lábios
e a tranqüila serenidade
daqueles que não souberam que partiram,
dos que se foram sem se despedir
(lançados ao espaço por desproporcionais choques de massas)
enquanto o corpo descrevia uma parábola descendente
parando no meio do asfalto,
meio morto
(morte de cachorro louco, dia frio, na beira de um meio-fio)
Nós,
os que sempre se vão na hora errada
não queremos mais mundos obscuros
onde as lágrimas não podem passear pelos rostos
e as dores não podem ser acariciadas
à luz do dia
Todos os dias
Por conta dessa noite de virgens loucas
a poesia nada mais é que um momento trágico e mágico
eternizado por uma pena perdida
(no fel da loucura embebida)
servida em cálices altos
aos que se embebedavam
no festim da vida
E por conta de toda esta embriaguez
é que viramos a cidade de pernas pro ar,
somente para encontrar
um par de pernas
cruzadas
Os que vierem depois disso quase nada entenderão
(farão falsos discursos em monocórdios maquinados)
mas o mundo muda de repente
(à revelia)
e a travessia pode se dar à qualquer hora
confirmando assim a única certeza da vida
Meu presente para o futuro é um passado sem glórias
Ainda agarro a felicidade pelos cabelos
e a beijo sem volúpia e sem vontade
apenas para ter o prazer de lhe cravar os beiços

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Arrebatamento íntimo


A neblina recortada pelo verde
simula incêndio na mata da serra,
meu corpo lúbrico no seu aferra,

musgos descem as encostas
do desejo ocultado nos corais,
lambem-me cavalos marinhos,
verde-folha – bananais,

gritos mudos ressoam – corais
nas cordas dos cavaquinhos
onde minhas cobiças urram cantos tribais.





[Imagem de A Rua dos Contos]


Obs: meu dia é 17, foi meu aniversário, se tiver algum problema em postar hoje podem deletar e me comunicar ok?

domingo, 14 de dezembro de 2008

é a solidão
que me carrega
no dorso da palavra
até a beirada do obscuro

onde me atiro
porque me assoma
desde sempre a vertigem
e me assombra mais o medo
do que acabar

e é na queda
que o hálito do abismo
aviventa minhas asas
de inventora do impossível

é a solidão
que empilha silêncios
até emparedar meu grito
e eu, simbionte,
tomo sempre num hausto
o ultimo fôlego
e cavo frestas a lápis e caneta
até eclodir o verso
onde respiro

Iriene Borges

sábado, 13 de dezembro de 2008

Curtinha Encucada

Matheus Costa
Que se encuco
Logo me embico,
Me toca um fuxico
Que quase me caduco.

Até que me emputo e acabo com a brincadeira:


Te pergunto
Desencuco
Desembico
E volto a te amar!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Palavras, não mais que palavras.

Não mais que coisa alguma.

Mas tudo é palavra em suma.

Palavras abocanhadas,

Mastigadas, depois vomitadas,

São palavrinhas mal digeridas

Que tornam a ser
palavras

Depois de cuspidas.

Palavras da boca pra fora,

Palavras
impressas, versadas,

Palavras
sinceras de quem ri

Ou até mesmo de quem chora.

Palavras soltas, aladas,

Perdidas em meio a outras...

Palavras
muitas, palavras poucas,

Ricas, pueris, bem articuladas,

Aquelas com gostinho de anis,

Aquelas que descem amargas.

Algumas escapam da boca,

Outras se perdem na ponta da língua.

palavras que vão de vento em popa,

palavras que morrem a míngua.

Sejam profanas, benditas,

Adjetivadas ou loucas,

São
palavras bem-vindas.

palavras de tesão ao pé da orelha,

Do sacristão à suas ovelhas.

O mundo cabe em uma palavra,

Só alguns corações que não sabem

Que a palavra amor também os cabe.

A palavra instante é curta,

A palavra espera é longa.

A palavra navalha corta,

A palavra tempo cicatriza.

palavras, palavras, palavras...

E são tantas as
palavras

Que mal cabem na boca.

Mas se você não sabe qual usar,

Cale-se, pois qualquer palavra solta

Pode contaminar o ar.

Deixe a palavra sangrar

Até que escorra poesia,

E mesmo que a boca não se abra

Será a poesia a palavra abracadabra

Nesse mundo de
palavras engasgadas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Vingança


Haja serenidade para falar
de música e da pressa do Natal
fingindo naturalidade enquanto
a doutora colhe o Papa Nicolau

Que frango assado mais sem açúcar
e sal! E ainda de brinde:
-Ultrason pélvico transvaginal

Puta que pariu!

E eu já pensando nesta poesia
enquanto a máquina aperta meus seios
no exame de mamografia

- Tem uma ferida,
é preciso cauterização!
Eu imploro até pra Santa Rita
Suplicando: - Isto de novo não!

Laser
Laser
Laser

Chego em casa exausta
e rio ao olhar o meu amor
mal sabe ele que o que consola
é a certeza do dia do indicador

domingo, 7 de dezembro de 2008

Sagrado Coração Profano


I


Sou potencialmente culpado
Uma culpa que vem de gerações ulteriores
Pois do passado só poeira e cinza restam nas vidraças
Espectros e vultos que se avultam do chão sequioso
E, em torrentes, sobem até os vãos das janelas
Lambem as cortinas negras
Que balançam na escuridão da noite silenciosa
Não há espaço para dois corpos num mesmo lugar indefinido
Mas há a indefinição de corpos num mesmo espaço simultâneo
As sepulturas se abrem, esperam desesperadas
Gritam, clamam... querem a carne pálida do indigente,
Mas lhe é negada a oblação
Seu espaço é definido demais e os corpos ainda se contraem
Numa busca desamparada de viver
Vivem o homem e o cão
Vivem a mulher e a serpente
Serpenteiam seus corpos oblíquos a enlaçar o homem
A sufocar o cão
Mas a morte não vem, não vem a doce lembrança,
Não vem o grito, nem vem o silêncio,
Apenas o descompasso absurdo de vultos que dançam
Sob um ritmo alucinado de Valquírias ensandecidas
Eis que surge a espada
A lâmina reluzente e mais nada...

.

.

Flávio Offer

.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Faz tempo bom

eu não sou diferente contigo
acontece que quando estou com você
procuro ser o melhor que consigo

sorrio diferente e sigo estridente
pois no frio, ao sol nascente
minha primavera de alegria amanhece.

não repare agora, estou sorrindo
e se o outono, agora, vai embora
não importa, eu espero a noite chegar.

o teu brilho afugenta minha neblina;
e em falta de minhas palavras, te entrego
a carícia no pescoço sob o teu cheiro.

e como bebo...
tua saliva, língua-à-língua
o teu cabelo eu prendo e puxo,
que esse tempo estive louco pra te ver.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Poesia ao vento

Bate o vento
Sem licença do universo
Ímpeto traz
leva folhas
de poesias inda não vivas
brinca
com os cabelos das meninas
toca pétalas
numa dança colorida
levanta saias
em brincadeiras atrevidas

esta aura que me sopra
despenteia
inspira
e aviva a alma adormecida
justifica
tudo aquilo que se move
e ativa olhares
dedos que se alinham em tempestade
pra que mais uma poesia
ganhe’os ares!

Caroline Schneider

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pétala

Cai a pétala cara a mim.
Rodopia no ar
criando nuances e cores
de pétala que vai.

É rubra enquanto cai, a pétala
que boiando no ar
tornar-se-á exangue.

Como dói ao olhar
o frenético sangrar
da flor voante.

Como sarar em meu corpo
o perene partir desta cor...?

Pétala faz parte do livro Outros Sentidos, lançado em junho.

domingo, 30 de novembro de 2008

Má-fé

Era um povo muito supersticioso. Em meio a outras crenças, acreditavam que cruzar os dedos trazia sorte.

Acreditavam tanto, mas tanto, que cruzaram não só os dedos, mas também os braços, e ficaram esperando.

sábado, 29 de novembro de 2008

parca







Alguém vaticinou
em eras perdidas,
entre sonhos e
quimeras ,
entre uma volta e outra
do fuso
que não nos veríamos jamais.

Trapaceiro decidi
...vou vendado

fecha os olhos
o vaticínio se mantém
e você não terá me visto
nem eu também

pronto
problema resolvido
sucesso garantido
o resto era acessório

tua pele e a minha
tem um mapa
que conheço bem

....vou deixar escritas
Instruções
Em braile
gravadas na pedra

responde,
e qualquer dia te pego...
numa parede qualquer.


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Casa do Jornaleiro


O céu envenenado disseminava angústia pelo vilarejo. Arrastavam-se os transeuntes de maneira silenciosa, com o ânimo que ainda lhes restava. Árvores de galhos secos ladeavam toda a extensão da rua e ofereciam repouso às aves, criando a imagem perturbadora do fim de tarde. Enquanto os habitantes da rua Thanatos gradativamente trancavam as portas, a figura solitária de Mariane tomava forma e seguia em direção à tabacaria. Fazia parte do ritual. A menina da boneca de pano e do vestidinho branco tinha o hábito de brincar em meio à penumbra, em frente ao estabelecimento do pai.

Uma pequena fresta, ao lado da janela lacrada do sótão, permitia ao jornaleiro observar os gestos do vulto que se deslocava na rua. Às vezes, a pouca luminosidade que incidia sobre a região, geralmente advinda da lâmpada da tabacaria, embaçava a visão do jornaleiro, privando-o, momentaneamente, de fitar o semblante de Mariane. Acometido de curiosidade, o observador tentava conservar os olhos na menina, a fim de se surpreender com o inusitado, embora a longuidão dos dois últimos anos não tenha oferecido o novo ao vilarejo. As ações humanas, exercidas naquele local, mostravam-se mecânicas. Não havia disposição, por parte de algum possível sublevador, para cessar o curso natural dos acontecimentos.
Entrou na tabacaria um peão. Encontrou-se com o pai de Mariane, com o objetivo de cumprir as devidas formalidades.

- Uma hora é o tempo que tens. Não mais! – estipulou o dono da tabacaria.

- Uma hora é o tempo que tenho. Sou cliente assíduo. Hei de desempenhar minha fidelidade. – asseverou o peão.

Ao sair da tabacaria, o visitante foi dar com Mariane.- Diga-me, guria, diga-me o nome da boneca.

- ...

- Ara, pimpolha, tenho um brinquedo que irá agradá-la.

Tomando a menina resignada pelas mãos, o peão a carregou para o lugar mais escuro da rua. Após uma hora, ambos estavam de volta à frente da tabacaria.

A casa do jornaleiro, do outro lado da rua, observava tristonha a inocência infantil. Se não estivesse submetida à ociosidade, certamente tomaria atitudes que seu alojado não providenciava. Mas quem espera que uma casa inconformada adote forças para subverter práticas delituosas? Talvez o jornaleiro, que a tudo observa, mas a nada contrapõe.

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Amanhece no vilarejo. Os louváveis trabalhadores caminham infelizes, cumprindo o ciclo inquebrantável da ordinariedade. Mais um dia que se repete!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Último dos Moicanos



Assistiu, com tremendo desprazer, seus semelhantes rasparem os cabelos e tatuarem suásticas nos braços, nas costas, nos tórax, nas nádegas e nas testas.
Agora, sozinho na metrópole, diferente, perseguido e acuado, vê-se em um beco sem saída, à mercê da salivante gangue de emos que aproxima-se ameaçadoramente. Sem vislumbrar melhor desfecho para o crucial impasse existencial, decide praticar o "do it yourself", antigo lema do outrora glorioso movimento punk. Espada em riste, impiedosa e impetuosamente, ataca. Sodomiza um, dois, três, quatro. O suor escorre copioso testa abaixo, provocando ardência nos olhos; a camisa, com a gravura de Sid Vicious, empapa. Exausto, espada vacilante, percebe a iminência do amargo fim. Os emos são muitos, jovens como o movimento do qual são sectários, vorazes, insaciáveis, multiplicam-se como baratas. Quando tudo parece perdido, eis que surge a salvação, ela é careca, musculosa, tatuada e bastante numerosa. Por deliberação unânime em assembléia, os carecas decidiram acrescentar à sua negra lista, na qual já constavam negros, judeus, orientais e nordestinos, os integrantes do movimento Emo. Caíram sobre eles aos socos ingleses, tapas e pontapés. Ao final do rápido e fulminante ataque, a praça era um mar de corpos maquiados, franjas, cabelos coloridos e roupas pretas espalhafatosas. O combate terminara com baixas maciças em apenas um dos polos.
Minutos depois, vieram os judeus ortodoxos que dizimiram os skins. Depois, apareceram os palestinos que destroçaram os semitas. O moicano virou crente de terno, gravata, Bíblia e cabelo moicano, que virou moda.
Alheio a tudo, o mundo prosseguiu seus movimentos ao redor do sol e de si mesmo, azul, redondo e careca como uma bola de bilhar.

Carlos Cruz - 04/08/2008

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O PRATO DO DIA

Cometi o pecado de conversar com meu prato. Tinha barbatanas e olhos azuis, escamas cromadas e uma calda lânguida e real. Ninguém podia acreditar que o fiz, sem piedade, parecido com os homens do norte, sul, leste e oeste da terra. Perguntei-lhe o nome, ele não respondeu. Depois desabafei quanto as minhas dores e insucessos – acho que ele riu de mim, e eu, nem percebi – ele riu: como pôde?

Antes de comê-lo pensei em não comê-lo e torná-lo meu amigo, porém, ele era meu prato e só me via como seu predador. Não podia me amar como se ama aos amigos, embora fosse ele a única presença viva em meu espaço.

Ele sabia muito sobre a física quântica e as disparidades da política social. Questionou-me a relevância da perda e dos sentidos invólucros de materialidade e estima demasiada. Não havia terras que ele não conhecesse, sejam essas nacionais ou estrangeiras, orientais ou aqui mesmo no ocidente. De tudo ele sabia, e não sabia pouco de tudo, sabia tudo de tudo como a certeza da morte. Eu pedi para que ele falasse comigo, mas sua sabedoria transcendia apenas os olhos – espelhos quem refletem o Danúbio e a sobriedade desnuda -, tão azuis quanto os céus a espreita do crepúsculo.

Convalescente ele não chorou, mas secou minhas lágrimas e amenizou meu sofrimento. Poderia ter escrito um poema, ou copiado alguma de suas reflexões em um artigo. Mas não se tratava mais de mostrar o que os outros não viam, tratava-se de ser, tão simples quanto um rego ao encontro de um rio. Ou ainda mais simples, tal como o vazio da noite ao findar de um dia agitado.

Eu o comi, depois de cometer o pecado do diálogo o comi vorazmente, impiedosamente enquadrado às etiquetas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

POEMA # 2

Poema # 2

: impossível sem quebrar uns ossos,
talvez alguns golpes de navalha na face
(como um imprudente zagueiro
ou um barbeiro louco).

: improvável sem queimar algumas casas,
talvez algumas pessoas em praça pública
(como se fazia em nome de Deus
ou de homens alçados a).

: fora de cogitação sem pessoas,
talvez algumas que não existam
(como aquelas dos romances antigos
ou dos sonhos razoáveis).

: impensável sem amor pela vida,
talvez por uma mulher ou por um cão
(como se vê na rua aos sábados
ou nos bares à noite).



*

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Viagem Clandestina

Depois de seis anos trabalhando quase ininterruptamente, eis que vi na minha demissão a oportunidade de ouro de fazer uma viagem (pobre é assim mesmo, só viaja com o dinheiro do acerto ou para correr da seca). Escolhia entre vários destinos possíveis: Caximbó do Aterro, São João da Piriquituba, Taiobópolis e por aí ia, quando meu amigo Batata chegou quase quicando:
- Aí, fiquei sabendo que você tá querendo viajar!
- Querendo não, eu vou passar uns dias no interior, descansar, pescar, sei lá.
- É o seguinte: estamos, eu e o Juvenal, ajeitando para ir para a fazenda da tia-avó da prima da cunhada da minha irmã...
- Como é que é?
- Enfim, a fazenda é de alguém conhecido, tá afim de ir?
- Olha, eu não sei...
- Vai um monte de mulher junto. Só as gatas. – isso merecia uma longa reflexão.
- Que horas que vocês estão querendo sair?
- Sabia que você ia topar. Mas ó, tem que dar um dinheiro para rachar a gasolina.
- Ah, isso é o de menos.
Ajeitei “trintão” na mão do Batata e marcamos de sair no sábado logo de manhã. Estava tão animado para viajar que nem me importava do risco que corria; no geral, todo e qualquer programa idealizado pelo meu amigo sempre dava em merda. Sem contar que quando ele dizia “só as gatas”, na verdade se resumia a uma ou duas bonitinhas no meio de meia dúzia dos melhores canhões Krupp.
O sábado nem bem havia batido as sete da matina, eu e o Batata esperávamos nossa carona no lugar combinado. Diferentemente de outras oportunidades, tudo se materializou na mais perfeita ordem. Juvenal chegou na hora marcada, dirigindo seu valente Gol 1.8, ano 1995, inteirinho. E ainda por cima, cheio de mulher. E mulheres bonitas, na verdade, lindas! Aquilo era uma visão do paraíso:
- Irmão, tu é o cara.
- Sabia que você ia curtir. Vai por mim, essa viagem vai ser inesquecível.
O que deve ter sido inesquecível foi a cara que fiz ao saber do plano do Juvenal; como as três beldades ocupavam o banco traseiro, ele ia no do motorista e o Batata era passageiro-que-abre-porteira-e-conhece-o-dono-do-lugar, não restava assim nenhum espaço dentro do veículo para mim. Teria que ir de ônibus e eles me pegariam na rodoviária do povoado próximo. Era isso ou quando eu chegasse lá que arranjasse uma carona.
- Ó, é muito fácil. Todo mundo conhece a fazenda por lá, além do mais, é encostadinho na cidade, você consegue, safo como é.
- Sei não, Batata. E a grana que eu dei pro gás?
- Pois é, as minas tão meio na pindura, sabe como é.
Assim contra todos os meus instintos, lá fui eu de ônibus para o interior. Acomodado em uma das poltronas do fundo, saquei minha garrafinha de alumínio e tomei um belo gole de bourbon para acalmar os ânimos.
- O Batata me paga essa. Na volta ele é quem vem de busão. – Depois da metade da garrafa eu já dormia o sono dos justos e o dos injustos.
Acordei com o sol esturricando na cara. O ônibus, parado em uma dessas espeluncas de beira de estrada, estava com a tampa do motor aberta e cercado por peças, porcas e parafusos por todos os lados.
- É grave? – perguntei ao motorista que tirava uma de mecânico.
- Fosse gente – dito na pureza do sotaque soteropolitano - podia pedir a extrema-unção, visse?
- Batata, seu filho da mãe.
- Cuma?
- Deixa pra lá. Continua com o moribundo aí.
Adentrei as espetaculares instalações da birosca sentindo meu estômago acordar. E pelo jeito estava em uma mal humor homérico. Esse negócio de biritar sem beliscar nada ainda assassina meu fígado. Talvez até leve o bucho junto. Decidi dar uma olhada nos petiscos; torresminho, kibe com ovo, salsicha empanada, pé de porco, coxinha; o colesterol nadava de braçada ali e ainda dava pirueta. Apontei o pote estranho no canto.
- Aê, que é isso?
- Batata em conserva, vai uma?
- Nem na bala. Vê uma coxinha e um kibe
- E para beber?
- Uma pinga. Melhor, põe logo duas num copo só.
- Para o abrir o apetite, hein? O dono da birosca dava seu “sorriso 1001”, onde somente dois incisivos apareciam, cada um no seu próprio canto.
- Não, é para ajudar a empurrar esse treco pela garganta.
Acho que ele não gostou muito da minha crítica culinária. Nisso uma longa fila de crianças, uma escada perfeita do menor ao maior, sai do banheiro e começa a pipocar pedido de “quero isso, quero aquilo” daqui e de lá. Se a coxinha e a pinga não me dessem uma baita azia, com certeza esses pentelhos conseguiriam. Resolvi ir para fora fumar um pouco e ver a quantas andava o conserto do ônibus. Ou o milagre da ressurreição. Olhava desanimado para aquele monte de peça espalhado pelo chão, quando um anjo travestido de gente abriu a porta de um Doblô estacionado ao lado: o cabelo louro esvoaçante, uma bata branca que revelava os contornos perfeitos de um corpo bronzeado, o provocante perfume que me agarrava pelas narinas, a hipnose dominadora daqueles olhos azul-acinzentados que incrivelmente se dirigiam para mim. Aproveitei a filmada para colocar meu charme de Bogart do Cerrado em prática. Saquei um cigarro com extrema maestria e colei com a divindade:
- Fogo? – dois minutos depois e ela estava quase me passando a senha do Orkut dela. Tenho que admitir, aquele curso de paquera por correspondência valeu cada centavo. Quinze de papo e já sabia que ela era viúva, tinha perdido o marido dois anos atrás, Gérson Ganso, ex-zagueiro do Catulense. Em meia hora, batuta, tinha descolado uma carona com a gata. Ia para a mesma direção, tava dirigindo sozinha, precisando de ajuda na condução, isso é o que chamo de sorte. Quando estava tascando a primeira beiçada, me vi repentinamente cercado pela turba de crianças que havia visto pouco tempo antes, dois casais loirinhos e um japonesinho perdido no meio – ela virou-se repentinamente e animada:
- Crianças, boas novas... – rodopiei-a – Irmãos?
- Filhos. – virou-se de novo – Este é o Juliano, ele vai viajar com a gente daqui para a frente. Esses são Gilson, Gelson, Gérson Júnior, Gilda, Gilvânia, e o Wanderley.
- Wanderley?
- É... O pai dele era nosso jardineiro – sussurrou.
Duas horas de estrada depois, entendi porque ninguém se arriscava a viajar com ela. A doida ia pela estrada como se fosse o Mister Magoo bêbado. Andava um pouco em uma faixa, um tanto bom na outra e seguia cantando junto com a gurizada.
- Eu arrebento o Batata.
- Que cê disse, amor?
A luz amarela, avermelhou naquele ponto. Nem tinha ido pro rala e rola com a gata e ela já tava me chamando de amor? E ainda por cima com aquela molecada cantando “com quem será” o tempo inteiro?
- Arrebentar é pouco. Eu mato o Batata.
Agarre minha garrafinha da sorte, tomando altos goles para ver se conseguia segurar as pontas. A doida aumentava o som do carro e ia gritando as música (aquilo não era cantar, não senhor) junto com os filhos, em um coro desafinado que lembrava o urro de uma manada de quatis com dor de barriga. Concentrei-me em imaginar diversas formas de tortura chinesa para aplicar em meu amigo Batata. Uma chuva fina que começou a vir de encontro a nós e rapidamente se transformou em uma tempestade torrencial, que não deixava ver um palmo à frente. Tentei dizer para a gata ir mais devagar, mas foi como se pedisse para enfiar o pé no acelerador; a estrada foi rapidamente ficando para trás, as crianças gritando, aquela música do fim do mundo, quando o carro começou a girar sobre o próprio eixo, totalmente desgovernado, quando atingiu as amuradas de uma ponte, me lançando no vazio. Ainda pude vislumbrar, enquanto era lançado janela afora, que alguns dos garotos rolavam de rir, achando achavam que aquilo era só mais uma brincadeira. Uns belos filhos da puta, esses sacanas.
E então foi o silêncio. E junto com ele um mar branco, cheio de nada, onde eu parecia flutuar livre de todos os meus medos e receios. Comecei a me dar conta então, que finalmente estava encontrando aquilo que procurei minha vida inteira. Eu estava começando a desfrutar da...
- Vai ficar esticado aí o dia inteiro?
Olhei para o lado e lá estava um senhor vestido de branco e que tinha uma cara engraçada, que pareceu se transfigurar do nada.
- Como é que é?
- Tenho um negócio para te propor. Uma proposta tentadora.
- Propor, o quê? Que estória é essa de negócio, se eu nem sei onde eu estou...
- Ai, ai. Mais um desavisado. É o seguinte; você tá tendo uma E.Q.M.
- E.Q.M. ?
- Experiência de Quase Morte. Era para você ter visto um túnel, vários parentes, o resumo da sua via, mas estamos em uma fase de corte de despesas (morre gente toda hora, o custo dessa parafernália toda é uma nota!), daí que pulamos a introdução. Pois bem, você sempre foi um cara mais ou menos a vida inteira, agora tá entre lá e cá...
- Mas o que realmente me aconteceu?
- Era para ser coração. Básico, rápido e um dos meus favoritos. Mas você se engasgou com um pedaço de coxinha.
- Quer dizer que eu tô morrendo?
- Isso mesmo.
- Ah, se eu morrer eu mato o filho da mãe do Batata! Peraí, quem é você?
- Já me chamaram de vários nomes: Caronte, Nhunhabá, Volstour... Agora me chamam de "o sacana de branco". Sou eu quem leva a galera de um mundo ao outro, bicho, chuchu beleza...
- "galera", "bicho", "chuchu beleza"?
- Pô, xará, os sessenta foram de lascar. Muito psicotrópico, sacou? Mas voltando aos negócios.. Mesmo você sendo um cara meio maneiro, a probabilidade de pegar o elevador descendo tá muito grande.
- E o que eu posso fazer para melhorar isso?
- Seguinte: tava precisando, não, na verdade, tô querendo pegar aquela dona do Doblô, a da mulecada, mas sem a mulecada, entendeu?
- Entendi. Mas se você pode tanta coisa, porque não vai atrás dela sozinho?
- Questão de horário, meu filho. Não tá na hora dela. E vi que você tinha um jeito especial de lidar com estes assuntos. Daí juntei uma coisa à outra.
- Bom, é que... – Será que minha honra começou a ter preço?
- Ah, vamos lá, você tem que me ajudar. – parecia que o velhote não via uma mulher há séculos. No fundo talvez isso fosse verdade, afinal das contas.
- Então você tem como me fazer voltar?
- Claro, seu futuro está muito incerto. Parece até que está sendo escrito por várias mãos. Nunca vi nada parecido. Posso dar um jeito de você voltar no momento propício.
- Mas se eu voltar e fazer esse acordo contigo, quando passar por aqui de novo, pego o rumo de baixo sem escalas, não?
- É verdade. Mas cê já tá quase lá mesmo. E aí topa?
Não me lembro se acenei a cabeça em um sim ou se disse alguma coisa. O que sei é que senti um puxão e acordei deitado em uma ambulância, sacudido pelo choque do desfibrilador operado por uma enfermeira ruiva e extremamente peituda.
- Sorte sua nós estarmos bem atrás quando aconteceu o acidente, gatinho – Eu estava a salvo. Por enquanto.
- E o pessoal do Doblô, as crianças?
- Estão todos bem. Se estivesse usando cinto de segurança, não seria jogado fora do veículo – ralhou com fingida raiva. No final ainda deu uma piscadela.
- Batata, brother – pensei – te devo uma, cumpadre.
Em outra dimensão, um velhinho vestido de branco e extremamente grilado gritava aos quatro ventos:
- Concorrência desleal, essa tal de tecnologia!

P.S. Conto feito em partes, algumas postadas na comunidade "Contadores de Causos":
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=21661322&tid=2491747672918963349

HENDA




A água corre rubra
Permeando as mil colinas
A rua anda aos gritos,
Amanhecido desejo de paz,
Munhungu!
E ferve a dois graus
do sul do equador
as lembranças sórdidas
marcadas pelo horror,
Mukondo!, tristeza!

O lago kivu transborda
Pesadelos e nevralgia
Dos dias vermelhos
Entre tutsis e hutus,
Masoxi!, lágrimas!

Sobreviventes do caos
Balbuciam compaixão
Pelos ventres de kigali,
Fetos contorcem o genocídio,
E clamam absolvição.
Ufolo! < Liberdade!

Maria Júlia Pontes

Ducionário Bantu:
Munhungu= vertigem Mukondo vertigem Masoxi= lágrimas Ufolo=liberdade
Henda = Misericórdia


POstagem de 17/11/2008

domingo, 16 de novembro de 2008

Manchetes de jornal ou Moto-contínuo

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JOÃO HÉLIO FERNANDES









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João Hélio Fernandes
ISABELLA NARDONI










João Hélio Fernandes
Isabella Nardoni
ELOÁ PIMENTEL









Isabella Nardoni
Eloá Pimentel
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Eloá Pimentel
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Refletindo Silêncio

Para longe de mim
Equilibrando-me
sobre o fio esticado
entre sonho e juízo
prestes a estatelar-me
na rudeza dos fatos
prestes a alçar vôo
rumo a pouso impreciso

Para longe de mim
A ressonância da tua voz
provoca tremores
muda o curso da libido
no murmúrio raso
do discurso fluido que escorre
para minhas profundezas

Para longe de mim
Que a figura
debruçada na janela irreal
seja a imagem colhida
pela menina em meus olhos
a ostentar indiferença

Estrela longínqua
refletindo silêncio
no mar

Iriene Borges

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

As três mães




Agradece, criança
cada dia teu
às três mães que tem.
À que te balança
à que vê do céu
e à outra que não convém.

Agradece, criança
às três protetoras
que te fizeram luxo:
Quem cuida por bonança
quem cuida todas as horas
e a que te guardou no bucho

Agradece, criança
quem acompanha teu fado.
Pois conhecem tua oração
- não quem no mundo te lança -
mas a que perdoa pecado
e quem ama por opção.

(Matheus Costa)

sábado, 8 de novembro de 2008

Para plantar lembrança


Não tem mais tic tac
Os relógios correm digitais
Até o merthiolate
Quando uso já não me arde mais

Eu já não ouço o tempo
Mas ainda sinto dor

Não tem mais telegrama
Sentimento é virtual
E a música baiana
Resumiu-se em carnaval

Eu já não mando cartas
Mas ouço os filhos de Canô

E diante das mudanças - Ando
Diante das andanças- Mudo
Diante das mudanças - Muda

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fábula

Foto: Coingny



A palidez da pele e os olhos parados a olhar-se no espelho davam-lhe a certeza da brevidade de seus dias. Não queria crer em mais nada, nem confiaria na existência de algo maior que seus próprios medos. O sentimento que lhe arrebatava em imediatos segundos devolvendo-a estupidamente à realidade era algo indesejável ao mais louco dos homens. Sentia repulsa de si mesma e dignava-se a cortar a pele com um estilete improvisado de gilete. O sangue escorria livremente nas ranhuras manchando os lençóis. Ela se sentia só e sóbria. Soberbamente realizada. Não queria morrer. Nunca sentira necessidade de acabar consigo mesma. Tudo era apenas um belo ritual de auto-purificação. Fixava o olhar na lâmpada negra ao centro do teto e devaneando encantos se via deitada ao centro de um imenso jardim. Roseiras cresciam desordenadamente abraçando-lhe o corpo. Os espinhos rasgavam-lhe a carne encharcando as pétalas de um vermelho púrpuro desigual. Seus lábios simulavam beijos que nunca encontravam uma superfície quente e úmida que retribuísse as carícias ensaiadas. E lá, ao centro do quarto, ficava deitada à espera que o desespero que lhe assombrava tomasse a forma inesperada de um macho que sem qualquer pudor invadisse-lhe a alcova e desfrutasse de toda sua vulnerabilidade. Sonhava digladiar-se, contorcer-se febrilmente, rompendo com todos os valores, escandalizando a quem lhe cobrava compostura. Desejava escandalizar-se, rasgar-se inteira e completamente, sangrar até a última gota de esperança. Gozar minutos inúteis em futilidades bestas. Desejava amar, amarrar-se a sombras, deglutir prazeres frenéticos. Gozar inutilmente. Desejava o mais viril dos homens lambendo-lhe as entranhas, estranhamente desvendando-lhe o sexo. Desejava a mais fútil inutilidade. Um prazer de repente no meio da noite, em silêncios e gemidos de brisa. Em sorrisos e gemidos de brisa. Em gemidos e gritos de vento.
A friagem da noite arrepiava todos os pelos de seu corpo. Inconseqüentes delírios deitada ao mármore frio. O quarto se alargara em um imenso brejo. Acariciando os seios sorria enquanto a outra mão tocava a virgindade despudorada. Fechou os olhos tremulando inteira. Impossível revelar as sensações, impossível nomear-se. Impossível não ser em profundo êxtase. Impossível ser. Quando abriu os olhos percebera quão inútil desequilíbrio. O quarto estava cheio de sapos, saltitantes com suas línguas enormes a lamber as muriçocas que voavam em torno das lâmpadas. Todos os sapos, enormes, miúdos, verdes claros, escuros, marrons. Rãs, pererecas, cururus, sapos-boi, zolhudos, tomates, ceras e todo tipo de anuros. Saltavam ao redor de seu corpo, atraídos pelo cheiro emanado. E, os sapos saltavam sobre ela, lambendo o sangue em sua pele, e surgiam mais sapos, infestando o quarto com um coaxar ensurdecedor. Fechava os olhos tentando lembrar-se do próprio nome, tentando esquecer a saparia, tentando não crer na existência de sua loucura. Mas, ao abrir os olhos podia perceber que havia mais sapos sobre a cama, sobre a cômoda, sobre todos os móveis do quarto. Os sapos se multiplicavam e tomavam conta de tudo. Aos poucos, ela sumia. impossível ver-se ao espelho, impossível vê-la. De súbito, um sapo enorme abrira a boca e engoliu aos poucos aquela criatura que nem mais parecia gente. Sua palidez foi desaparecendo lentamente, enquanto o sapo ficava cada vez mais gordo. enorme. Os olhos do sapo cresciam, seu corpo inchado se expandia pelo quarto. Suas cores transmutavam. Em alguns instantes o anuro explodiu, espalhando uma gosma esverdeada pelas paredes. Lá no chão, um corpo se contorcia misturado a uma estranha placenta. Virgínia renascia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Contra-manual das mentes primárias

Imagine-me estando na tua cozinha
sorrindo e te perguntando onde guardas o café.
Quem sabe tenha mais de palhaço do que estimo
e me envolvo na pele da mais puta palaciana.

Mesmo ainda que falsos, amores, eles existam.
Minha palmeira pela manhã me vê desmontada,
cuido que se esqueça dos gemidos e promessas.

Tenho fantasias para mais de cem prostíbulos.
Abri meu guarda roupa de drag e, que sorte,
descobri esperanças a serem jogadas fora.

Caio de joelhos, de lama sujo o sexo de macho.
Os mesmos desejos nos trazem aqui na sacada,
tenho alma de lince, isso meu cachê não cobre.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Miniconto


Ela e toda sua essência deixavam-se cair sobre seu colo. Naquele momento, não se importaria se todos os pássaros deitassem em revoada e a carregassem ao céu... A morte, não faria o mínimo sentido.

Ninguém consegue viver com tanto veneno... a verdade liberta... o frio seduz apenas os libertinos...

Pensava que nos arredores de suas imagens fractais, apenas um ser conseguira aproximar-se da verdade de suas horas mais inóspitas. E era dele o colo no qual realmente conseguia descansar suas máscaras.

Genuinamente, pensara, não há coração sem razão a lhe oferecer paz. E neste momento ela chorou.

Caroline Schneider

sábado, 1 de novembro de 2008

Reconstrução

Estamos em reforma, e será muito bom contar com pessoas novas e engajadas!
Obrigada aos que se vão e sejam bem vindos os que chegam!
Espero duas coisas, garra ao participar em seu dia e críticas de qualquer cunho aos colegas!
Propagar o MANUFATURA também é muito importante!
E vamos em frente, sempre!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Poesia oca

Escrevia, com rimas e floreios, sobre os próprios sentimentos

Transcrevia emoções com perfeição

Infelizmente, na maioria das vezes, sentia-se vazio

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

densidade




toda a manhã procurei
esconder dos teus olhos
esse peso na alma,
essa inquietude,
essa fome.

é pouca coisa ou, quase nada
um vago temor,
um medo que me espalma
sem pressa
apesar da calma
disfarço,
deslizo.


me escondo,
dentro da folha branca
procurando
sílabas,
palavras,
salvação
nesse poema que me entala

te engano,
te beijo
e sigo

esforço tenso
em tentar ser
densamente leve,
levemente densa



terça-feira, 21 de outubro de 2008

Dia após dia

Fotografia: Alsksander

Eis a hora de minha morte
Enquanto dia, tardo solitário
Sob um sol sem nome nem visco
Vejo profundo, sinto, sublimação
Sutil como o copo guarda água

Agora é o dia, quando dia findo
Temo o céu aberto, sem nuvens
Sem sombra a proteger o rio
Evaporando lentamente gotículas

Contudo, se voltam do céu as nuvens
A desaguar nas margens, subtraem
Toda a gente deste mundo
Pelo ontem e o que se foi

Acalme-se, acalme-se
Todos os dias passam e ninguém sente
O dia vale o fruto que nasce
Enquanto vivo a espatifar-se ao chão

Eis agora a sombra do horizonte
Pranto triste que o faz disforme
Glória contida, alegria pobre
Sempre, sempre irrevogável

domingo, 19 de outubro de 2008

Utopia


Falam que o amor não existe
Lutar por um sonho é para românticos
Ser você mesmo é uma meta distante
Conhecer um mundo verdadeiro é impossível
Viver um conto de fadas é para livros
Dizem que acreditamos em utopias
Na procura de uma vida melhor
Se isso é utopia
Utopia é sermos ignorantes
Em volta de pessoas hipócritas

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ode a Maiakóvski

Salvador Dali

IV

Oh, Maiakovski! Que ânimo te arrebataste
Desta vida estúpida?
Que verme atravessara-lhe a alma
A corroer todas vossas esperanças?

Ah, meu caro poeta, seus versos traduziram
O espírito de uma época...
Teu grito, tua voz ecoaram na revolução.
Mas, onde foste?
Que miserável sentimento tomara conta de ti?

Não compreendo! Lançaste sobre vós,
Sobre vosso próprio corpo, toda a ira,
Todo despropósito em viver.

Oh, meu amigo, por que puseste uma bala
Em teu próprio peito?
Que motivos, que revoltas, que amores?
Tu foste homem, foi poeta.
Decidiste com coragem seu próprio destino,
Escreveste com a pena vossa própria pena,

E eu? O que faço de minha vida?..
Não sou tão homem, nem tão poeta,
Encolho-me sob minha casaca,
Escondo-me nas multidões,
Sou mais um, enchendo o papel de palavras,
Gritando meus silêncios e mais nada.

Ah, meu irmão, meu camarada...
Se houvesse em mim uma gota de coragem
Chegaria “às vias de fato”, esmagar-me-ia, pois.
Mas, não sou grande como vós,
Nem tenho sobremaneira vossa postura,
E, meus versos são calejados, inspirados
Na insatisfação que é a vida: que vida!

Ah, se pudesses me ouvir!
Que conselho me darias, proletário poeta?
Há tempos a vida perdeu a cor e razão
E minha inspiração está no enfado, no tédio.
Não encontro sentido na revolta, na luta,
Tudo se transformou em uma névoa obtusa,
Numa escuridão infinita, que nem percebo
O brilho da vida.

Sim, terei um dia, no desconsolo de um quarto
Escuro, a hombridade de silenciar-me.
Calarei para sempre esta voz
Que insistente vos declara minha covardia;
E, quando cessar-me de ser covarde,
Não haverá tempo pra ter coragem,
Pois minhas mãos, tremendo de velhice,
Aceitarão, resignadas, a loucura que é viver
À espera da morte.

sábado, 4 de outubro de 2008

Segredos da Monarquia

Rainha - Tela de Tito Lobo


Escondo-me sob o manto de rainha
Mas quero o súdito mais rude da corte
A penetrar meu ventre ordinário de mulher
Quero gritos de plebéias
Transpiração de rameiras
Gemidos de cortesãs
Que façam ecoar em meu ser as trombetas dos cavaleiros
A guerrear nas savanas do meu reino
Quero ser devorada como faisões de banquetes reais
Sobre colchões de feno
Nos currais

Dou meu cetro de poder
A quem, mesmo de soslaio possa
Retirar-me do mediterrâneo inferno
Que é viver
Sem uma centelha de prazer...

Caroline Schneider

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Obrigada aos que participaram esse mês

Agradeço aos que responderam ao meu apelo, se observaram estou reformulando o blog, conto com a ajuda de todos, indicando escritores e divulgando seus dias.
Beijocas!

sábado, 27 de setembro de 2008

O Raul Cortês



nem sei de quando
vem
nem por que
vem
ou veio, ou véio, gol
veia
ou velocino da preta
véia
sem dente de
ouro
de tolo
amassa bolo
de musgo de
aveia
quac!
de olhos de
baleia
de óleos de
rícino
rico
oco
rente

o grilo falante
besuntado de hidratante
lá do cume do hidrante
profeta, profetiza
precoce, preconiza
exorbitante, exorbita
exegeta, exige a nota
cheio de banca e de pose
distribui amiúde e
de graça, conselhos de graça
sábio artrópode sapiente

sê cortês!
se és o boi de piranha
se és a bola da vez
se és o bode, a rês, o cabrito montês
se o salário não chega ao meio do mês
se o chefe dá sempre razão ao freguês
se te vendem paraguaio por escocês
se a patroa te troca pelo rico burguês
se sonhas recorrentes sonhos de embriaguez
se dois mais dois sempre dá três
se o cachorro do vizinho comeu teu gato siamês
se à tua volta se agiganta a humana pequenez
se só o que vês é cega estupidez
sê cortês!

mandou ver e mandou bem
a boa e redonda letra
que somente iletrados
e letrados sem letra
e letrados não bestas
entendem e compreendem

na birosca do Tião
pedi uma com limão
outra e mais outra
e mais outra e mais

pus rima com cuscuz
avestruz e jesus
eu vi a luz! (porque luz
tem que rimar com jesus
assim como dor deve rimar com amor)

ô tião, sangue bom,
manda mais uma, então!
senti próximo o momento
de praticar o ensinamento
veio vindo lá de baixo
o indomável furacão
poderia despejá-lo
no chão, banheiro, balcão
mas não era de bom tom
jorrei volumoso e terno
no enternado
na calça de linho
na camisa de seda
no sapato de crocodilo
desalinhado e irado
pretendeu racionalizar o desagrado
célere, desarmei o desalmado
desacelerei o celerado:
se quiseres, podes me bater
mereço ser castigado
dês a primeira porrada
se não tiveres pecado
o soco veio firme, forte, pungente
primeiro, a inconsciência
o regozijo, a seguir
constatação, revelação:
cortês fui - me dei bem - aleluia!
vi o túnel negro, vi a luz
Vi o sempiterno Jesus!
(reforço: luz, obrigatoriamente, rima com Jesus)

Carlos Cruz (cruz também, saliente-se) - 27/08/2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

COMERCIAIS DE METRALHADORA

Fábula segunda – esofagite

Todas as estatísticas sorriem para mim:
sou um entre as migalhas moídas pelo trânsito.

Meu nome corre entre os que matam
por gosto ou dinheiro –
capa de jornal sensacionalista, de ontem,
me explica como serei vítima de latrocínio.

Um merda sorri no algodão ariano de minha t-shirt,
e é vermelho o papel em que escrevo,
vermelhos os livros de história,
menstruados na estante.

Falo de amor contigo
em meu celular movido a lithium:
você me conta que nosso filho irá se chamar Citotec.

Somos felizes para sempre.




* Do livro Comerciais de Metralhadora

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Les autres

Ils ne savant pas s’oublier de moi
Ils rient et bâillent tout le temps
Ils adorent se perdre dans le temps
Ils jettent ses desires sur moi
Ils croient que je ne comprends pas
Ils observent mon alluse et rient
Ils ne savant pas que je ne peux pas


Tradução do original de "Os outros" do livro "O observador do mundo finito".

sábado, 20 de setembro de 2008

Obedeça seu limite



Sapatos sujos, idéias nítidas e conversas sobre o silêncio são momentos que fazem parte da nossa trajetória.
Quem nunca pisou onde não previa, onde não queria? Quem nunca imaginou claramente que podia, e quando foi ver, era totalmente inviável o que havia imaginado? Quem nunca teve uma idéia brilhante, mas que de brilhante mesmo só havia o sorriso de satisfação com o gozo de ter pensando algo novo, pois quando foi transcrever para o papel o projeto foi abortado, porque sofria de má formação. Quem nunca parou para se perguntar o porquê do silêncio de alguém, o porquê do nosso próprio silêncio? Quem nunca se incomodou com a falta de palavras?
O filósofo francês Jean-Paul Sartre afirma a contingência do mundo, ou seja, para ele, o ser humano é pura existência, a essência procuramos realizar a partir do nosso existir. E existência implica em ser-humano-no-mundo, sendo assim, o filósofo nos oferece a idéia da finitude.
Quando falamos em finitude, a tendência é a associação com coisas infelizes e tristes, contanto, esquecemos que esta é a oportunidade que temos de existir, é a minha existência agora que me faz escrever esse texto e a sua existência que te faz ler este texto em meio a inúmeras possibilidades no mundo. O ser humano quer possuir tudo, até mesmo a sua própria vida, a ponto de querer eternizá-la em si mesmo. A vida é um curso e todas as vezes que paramos para tentar prolongar para além da nossa própria existência paramos esse curso, paramos de realizar a nossa essência.
“A liberdade que se revela na angústia caracteriza-se pela existência do nada que se insinua entre os motivos e o ato. Não é porque sou livre que meu ato escapa à determinação dos motivos, mas, ao contrário, a estrutura ineficiente dos motivos é que condiciona a minha liberdade”. (Sartre)
É dentro de um número de possibilidades que podemos fazer escolhas, mas, no entanto, entre as muitas escolhas que fazemos há espaço para sucessos e fracassos. O fracasso talvez faça parte desta estrutura ineficiente dos motivos que nos proporciona a liberdade de mudar, de fazer novas escolhas, afinal, se tudo fosse apenas sucesso, o sucesso não poderia existir. Para comemorar os acertos é preciso ter errado um dia, para falar as palavras mais bonitas, é preciso ter feito silêncio, é preciso experimentar a vida como fundamento da nossa própria essência.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Idéias




Ainda vivo na inspiração
No movimento das nuvens
Em redemoinhos mirabolantes
Na busca de uma saída
Para os pensamentos
Brilharem como estrelas
Em becos escondidos
No céu da minha mente

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sons e Silêncios

Passava já das seis e meia da tarde quando os bombeiros chegaram. Os vizinhos, em polvorosa, atrapalhavam a todos com seus corpanzis intrometidos e sua curiosidade indiscreta. O dono do apartamento, um excêntrico por natureza, que ninguém sabia ao certo o que fazia, estava desaparecido havia cinco dias. Depois do final de semana, começaram a estranhar a falta dos costumeiros sons que vinham do recinto. Apesar de muitos reclamarem durante meses a presença deles, agora reclamavam justamente do silêncio de morte que reinava naquele pavimento. Apesar das instruções dos para-médicos, que pediam mais espaço para trabalharem, os vizinhos insistiam que podiam estar ali, afinal foram eles que deram o alarme, que conviviam com o desaparecido e além de tudo, eram vizinhos, ora essa. Mereciam saber o que havia acontecido no seu próprio prédio.

Seu Miranda, o zelador, foi o primeiro a se manifestar:

- Sempre achei aquele moço muito do esquisito; chegava só tarde da noite, andava sempre de óculos escuros, tanto de dia quanto de noite, carregando para cima e para baixo aquele monte de livros (dois no mínimo). Um Bom dia ou boa noite. Nunca o vi falar mais do que isso... Dois anos trabalhando aqui e nunca passou disso. Rita a morena que trabalhava na lanchonete que ficava ao lado do prédio e morava a algumas portas dali emendou:

- Para mim ele sempre dizia: “Um Malboro Ligths, por favor”... Educado, mas muito calado. Fumava muito e tinha sempre um certo tipo de tristeza chique, típica daqueles tipos intelectuais, só que esse não era metido a besta... Achava ele bonito, calado, fumante, mas bonito. Sempre tive muita pena e curiosidade de saber o que o fez daquele jeito...

- E aquele maldito piano? – Dona Eulália, a velhota do 718, esbravejou - Todo santo dia ele tocava aquele piano. E quase sempre a mesma música... Uma música bonita, mas triste e medonha ao mesmo tempo. Acho que era um Strauss... Um lúgubre e belo Strauss... – o olhar da velha se perdeu corredor afora.

Todos se voltaram para a entrada do apartamento. O estrondo do forçar da porta, quebrada sob o peso dos esforços do serviço de emergência, calou a todos: a vontade de saber o que aquelas paredes escondiam imperava. Ao escancarar o pórtico, um fedor ocre recendeu pelo andar indicando que alguém ou alguma coisa estava se decompondo ali, isso era notório. Entre máscaras e horrendas caretas de nojo as pessoas foram adentrando lentamente a sala: o aspecto simples e até discreto contrastava com tudo o que haviam imaginado antes. Os móveis bem distribuídos e de bom gosto; nos sofás, belas almofadas; nas paredes, entre um monte de fotos, alguns quadros. As janelas, todas fechadas e escondidas atrás de imponentes cortinas que desciam do teto até darem no rés do chão, ajudavam a prender aquele mau cheiro que vinha de dentro. A ranheta Eulália foi quem se apressou a abri-las:

- Arre, e têm gente que ainda atura isso... Podia-se observar uma nítida presença feminina em todo o aposento. A organização dos espaços dizia isso. Mas na biografia do local não cabia uma proprietária, até onde todos sabiam, ele morava sozinho. Então os detalhes começaram a aparecer. Nas fotos, o dono do apartamento aparecia sempre sorrindo, acompanhado de uma bela garota, loira, cabelos em longos cachos. Em épocas diferentes, estava o casal clicado em vários lugares ao redor do globo: Roma, Paris, Londres, Milão, etc. Sempre a mesma moça e a mesma felicidade compartilhada.

- Ele parecia feliz... – Rita passou a mão sobre uma das fotos, aproximando-se da parede, suavemente, como que sentindo o contato com quem estava retratado nela. Ao abrir os olhos, percebeu que todos a observavam. Se recompôs: - E vejam os quadros, também têm uma coisa em comum ! Todas as telas traziam a mesma assinatura: linda.m. Simples assim. Não eram grandes obras de arte, mas pareciam ter no dono do lugar seu mais ardoroso fã. Ninguém levou isso em conta. Daí cada um passou a fazer sua própria investigação e a levantar uma hipótese
particular sobre o que teria ocorrido. Em todos os cômodos reinava uma organização que beirava a perfeição; na verdade, para muitos chegava à irritação. Como poderia um cara solteiro, solitário e só, viver naquela aparência de normalidade cotidiana caseira conjugal? Uma sombra feminina reinava absoluta sobre o lugar, em todos os espaços, até que enfim, chegaram ao quarto que um dia fora de casal: com as paredes derrubadas, um colchão jogado no canto, várias garrafas vazias de vinhos e outros tipos de bebidas emborcadas para todos os lados, imensos cinzeiros lotados, folhas recheadas de partituras, textos e poemas mal escritos, faziam um cenário desolador, não fosse a imponente figura do piano de cauda, postado de frente para a sacada aberta. A visão que se tinha, quando sentado pronto a dedilhá-lo ficava entre o esplêndido do céu e o vazio do nada.

Aquele cômodo, sozinho, transmitia toda a cota de sentimentos aprisionados que a grave fisionomia do proprietário nunca deixara transparecer. Estavam todos ali parados, sem poderem ao menos lançar algum tipo de conjectura sobre a situação. Não restava mais nada a dizer.

- É um belíssimo piano – Assinalou seu Miranda.
- Deve ser aí que ele toca o Strauss – Assegurou Dona Eulália.
- E sobre ele têm uma mancha branca esquisita e outra das fotos – Emendou Rita.

O silêncio voltou a pairar apenas por instantes, sendo cortado de pouco em pouco pelo vento cortando as janelas abertas.

- É um Steinway, americano, modelo “D” , 1930. Gabinete em mogno natural e três pernas douradas no feitio de águias. – Um estranho alto falou no fundo do grupo.
- Hein?
- O piano.
- Como sabe tudo isso? – Miranda indagou.
- É meu. Herdei de meu avô. Todos se viraram para o recém chegado. Era o dono do apartamento! Como ele havia chegado ali, pegando a todos de surpresa no momento máximo de intromissão alheia, era um mistério. Um dos bombeiros perguntou a respeito do fedor que empestava o ambiente.
- Sigam-me até a cozinha – ordenou com voz que não aceitava ressalvas.
Abriu o forno e demonstrou a causa: um lagarto que fora assado, mas por haver sido deixado naquele local, apodrecera, causando o mau cheiro. Desculpas oficiais dadas, alguns formulários preenchidos e aqueles que ali estavam a serviço se retiraram com olhares de reprovação aos vizinhos curiosos. Estes, ainda permaneciam por ali, tentando obter mais informações para suas dúvidas não respondidas.
- Pois bem, na qualidade de zelador é que me vi na obrig..
- Agradeço sua “preocupação”. Agora se fizer o favor de se retirar. A propósito, quero minha porta consertada amanhã. – a voz do dono era baixa e pausada, não demonstrava nenhum tipo de sentimento.
- Claro... Pode ficar tranqüilo. – Seu Miranda pulou para o corredor, esperando as duas pessoas que ainda ficaram para trás.
- Mas meu filho – Dna. Eulália tentava um pouco de compreensão, apelando para a própria idade - Ficamos sem saber o que fazer, você têm que entender. Eu, de minha parte, sentia falta daquela linda peça de Strauss e...
- Sonata ao Luar. Beethoven. Essa é a música que gosto de tocar.
- E aquela moça? – Rita não se agüentava de curiosidade.
- Alguém que amei demais. Morreu há muito tempo. Ela era pintora, eu pianista. Depois que o pior aconteceu, vim me refugiar aqui, pois as pessoas não nos conheciam e ninguém ficaria “bisbilhotando” o que me acontecia... Acho que me enganei a esse respeito.
- E seu sumiço esses dias?
- Fui providenciar o enterro de um velho amigo que considerei por muito tempo.
- Desculpa...
- Tudo bem. – Uma baforada de leve, abaixou-se e pegou a mala que havia deixado ao lado da porta ao entrar.
– Agora se não se importam, gostaria de ficar sozinho...
- Ah, tudo bem. A gente se vê outra hora, não?
- Pode ser... As duas saíram juntas, indo formar um pequeno grupo com o velho zelador. Os olhares cabisbaixos confirmavam que sentiam no fundo um pouco de vergonha por terem pensado tantas coisas ruins de um rapaz tão sofrido.
- Ele é artista. Isso explica ser tão estranho... E como toca bem!
- Pode ate ser estranho, mas viu o tanto que ele é bonito sem os óculos?
- Se não fosse a curiosidade de vocês duas a gente não teria entrado nessa. Ouvi poucas e boas do pessoal do resgate. E agora o condomínio ainda têm que pagar a porta...
- Ora essa Miranda – A velha Eulália achava algo que abonava a ação de todos - Então teríamos que suportar aquela fedentina se ela se espalhasse pelo prédio? Não saber quem mora ao nosso lado? E se o moço fosse um assassino?
- E se fosse um tarado? – os olhos de Rita brilharam ao dizer essas palavras

Seguiram corredor afora, elaborando um sem número de “se”... O pianista ajeitou o que sobrara da porta da entrada de seu apartamento, pegou a mala, foi ao freezer na cozinha buscou um pacote e se dirigiu para o quarto. No trajeto da volta, parou e olhou para as fotos na parede. Seu rosto se contraiu por um momento. Seguiu para o aposento e se trancou nele. Abriu uma garrafa de vinho, pondo-a com um copo sobre a tampa do piano. Feito isso, abaixou-se e retirou da mala um objeto redondo, fazendo o mesmo com algo que havia trago do freezer. Agora haviam dois objetos lado a lado, um dos quais, sobre a tal mancha esbranquiçada... O som claro e inconfundível começou a elevar no ar e a melodia do velho Ludwig ganhou o lado externo do prédio, alçando vôo rumo aos céus como uma espécie de oferenda. O luar daquela noite fazia jus ao nome da bela sonata. Na sua suíte cheia de arranjos e toalhas de crochê, D. Eulália começou a menear a cabeça, acompanhando a música. Do seu quartinho de empregada, Rita se contorcia voluptuosa, pensando naquele homem sentando ao piano, tocando por um amor perdido. Sem concorrência, portanto. Seu Miranda, no seu escritório, tomava um whisky falsificado e folheava revistas pornôs... Foda-se, cada um têm suas dores neste mundo.

Enquanto a melodia corria, o pianista falava alegremente com os dois objetos postados diante dele:
- Meu nobre Yago, achava que era mais esperto do que eu... Roubou-me parte do meu dinheiro, conseguiu fugir... Por isso não teria perdido meu tempo contigo. Dinheiro nunca foi um problema para mim, você sempre soube disso. Agora mexer com a minha amada foi o seu erro. E o dela foi aceitar isso. Não... Não diga nada ainda, Linda. Vocês não se viam há tanto tempo. Se servir de consolo ele gritou bem mais do que você... Não vamos desperdiçar esse momento com velhos rancores. Hoje estou muito feliz de estarmos todos juntos. Sei. Teve este pequeno constrangimento com meus vizinhos esquisitos, mas vocês verão que eles não darão mais problemas... Se derem também, aumentamos o sarau... Vamos sentir a música e sorrir... A risada demente ecoou na noite, oculta pelo som do piano, regido por um louco sentado defronte a duas cabeças...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Incêndio


Chamas lambem a terra e cinzas bailam no ar.

Alheios a dança, galhos ressequidos apontam para o céu

como a suplicar a Deus a piedade dos homens.

domingo, 7 de setembro de 2008

O Escultor


Espaço e tempo se comprimem em uma linha tênue em que os fatos não fazem sentido. Ao homem, resta criar e buscar caminhos. Sentado sobre a argila, com mãos trêmulas, um velho modelava o barro. Em sutis movimentos, desenhava o que viria a ser a própria imagem em simulacro preciso do que, incondicionalmente, parecia-lhe semelhante. Tinha em mente todo o desejo da criação e, em retoques, dissimulava o que não poderia refletir a originalidade da obra. Não poderia fazer-se do barro, menos ainda, criar-se daquela argila que se apresentava imprópria para esculturas. Desejou como ninguém. Fez-se escravo da loucura que impusera a si próprio. Fizera uma cópia perfeita de si mesmo introduzindo-a em um cubo de espelhos e, do alto, contemplava pelo orifício a caleidoscópica imagem que girava sobre os pés em movimentos contínuos e circulares que não levariam a lugar nenhum, senão à repetição estressante que é viver estagnado, submisso à rotina que rouba até mesmo a capacidade de criar a perfeição pelas próprias mãos, ou ainda, dissimulá-la. Pensava. Recolhia-se como uma tartaruga se recolhe ao casco numa tentativa de esconder-se, inutilmente. Imaginava caminhos, possibilidades; porém, a única certeza era de que caminhos não existiam. Então, como sobreviver? A linha se comprimia mais e mais, sem muito esforço, possivelmente se romperia. Surgiu uma luz em meio à sombra. Meteu as mãos dentro do cubo de espelhos e retirou a escultura, de um excesso de barro fizera outra escultura devolvendo-as ao caleidoscópio. Eram duas a serem contempladas, observadas. Ambas giravam sobre os pés, embora em sentido oposto, cada espelho refletia em si outro par de imagens, uma multidão se formou, girando feito peão. Os olhos do velho, em súbitos lampejos, derreavam encantamento. Suas mãos, cansadas, aplaudiam o baile; vez ou outra se esfregavam no intuito de afastar o frio que aos poucos tomavam conta da pele. Vida inútil. Fazer cópias esquisitas da própria inutilidade. Rodopiava por aí, consciente da embriaguez e da cirrose. O fígado era uma rosa despetalada que vinha à boca e, ele, tonto do último porre, girava sobre os pés, ziguezagueava pela rua até que, alguma sarjeta, respeitosamente, ouvisse seus segredos. A linha se rompera. Pouco a pouco, em giros acelerados, as esculturas se chocaram voltando ao seu estado natural, um monte de argila sem sentido. No cubo de espelhos não sobrara nem mesmo esperança, caixa de pandora aberta aos fins dos tempos. Irremediável lembrança. E, aqueles olhos que, imersos em lágrimas, outrora admiravam os movimentos já não estavam ali. Foram-se amiúdes, de esquina a esquina, em solavancos; tropeçando no vento, se enroscando na brisa. Cegado pela catarata, tombou inútil. Indigente entre as gentes do asfalto. No chão negro, o peito moribundo arfava. Olhares espantados contemplavam a morte chegando silenciosa. Num último suspiro, entregou o espírito e, o sangue escorreu pela sarjeta.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vestida de Branco




Dormi vestida de branco
Para tornar-me anjo lascivo
E voar em sonhos até você

No caminho, encontrei um querubim
Que me disse, um dia, tê-lo flechado
Com dardo envenenado de amor
Só para mim

Ao chegar,
camisola de renda,
deixando meu corpo à mostra
para teu deleite, sem vendas
Tornamo-nos feras

Com unhas e dentes
Desnudou-me
Aliterando pulsante desejo
Que uniu dois corpos em um

Ofertei-te duas rosas
Róseas, perfeitas
Que tu degustaste
Com olhos, boca e mãos
Prostrastes teu sexo em compaixão
E, com paixão, volitamos até as estrelas.

domingo, 24 de agosto de 2008

EVOCAÇÃO INÚTIL

paisagem brasileira - Lasar Segal

Ó meninino que fui
dono duma infância sabor novalgina
sofrendo delírios por doses excessivas
de xarope para o pigaro e a tosse -
infantil viagem sob o sol anti-Copérnico
dos trópicos, onde te perdi?

Ó fotocópia do pai
imprudente criatura
amassando com o calo dos pés
os caramujos da esquistossomose:
educado naturalmente
por um brejo povoado por destemidos vermes -
que vida era aquela
onde a felicidade se escondia
no pequeno peixe que resistia
em meio as fezes e ao detergente
expelidos pelos intestinos da civilização?

Ó minúsculo sonhador
que escapou do coice de cavalos humanizados
pelas placas de trânsito
e a covivência com as rádios AM -
que motivo havia para se ser feliz
nas axilas daquela cidade
que produzia mangas
e goiabas melhores do que homens?

Ó incansável infante
que o tempo mastigou
até torná-lo meu antepassado:
te procuro tremendo de medo
das guerras televisonadas
em horário nobre;
tremendo de medo
dos vazamentos radioativos
discutidos nas mesas de bar -

que estupidez geográfica te levava
a crer que a tua casa seria o próximo alvo?

Ó ignorante de si mesmo
te procro mijando sobre as flores do jardim
num dia esquecido por todos
por não haver algo de novo nele -
que risos você riu nessas tardes
por nada que valesse a pena
ou merecesse apreço?

Ó curioso moleque
interessado na decomposição dos ratos
na fratura exposta, no fogo nas petroquímicas -
me encontro em ti
no olhar no passo na voz

e retorno em seguida
para a merda de vida que será a tua.






* do livro Comerciais de Metralhadora

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

DORIAN GRAY


Ela veio como ninguém antes
Sentou-se calma tragando medo
Delirou calada memória fumê
Taciturna víbora enciumada
Pegou da pele fogo aceso e sorriu
Iluminou a casa com tristes olhos
Restando nada, apenas ela dentro

Quando ela entrou e a viu: silêncio
Nada que fizesse a esqueceria
Furtiva e enciumada perderia razão
Embora medo faltasse até os olhos
Atravessou dentro até o pico
Do outro lado distante visível dela
As duas se vendo em contrito ódio
Delas que nunca amaram senão suas

Ele veio tarde desnudo de pressa
Isento de cólera e recalque aproximou
Ela o olhou ao longe e ela também
Ele a viu e depois ela, diferentes passos
Voltou-se consigo tédio e provimento
Viu que ela o viu e que ela o viu
Ele parado no meio entre elas e ele
Divido o olhar em duplo pensamento
Esgueirou-se tarde à malemolência

Sutil caminhou dos quatro à chapelaria
Dolce & Gabbana em ziguezague no ar
Vislumbrando Kendalls curvilíneas tragou
Pára no hall entreaberta à saída estática
Ela os olhou antes de ir embora sozinha
Ela a viu sair vislumbrando bailado e classe
Ele a viu sair respingando rastros e tons
Ela os deixou ficar exprimindo medos e vontade

Pensou a vida oferecido nada senão ela
Tentou a dor despossuído tanto quanto eles
Desejou manter-se unida a pouca posse
Mas triste definhar pôs-se necessário
Relutando o norte visco do desejo
Dietética paciência aflita despediu-se

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Criatura


Queria que antes de mim viesse o verbo
Não queria o verbo temeroso e triste

Queria o verbo verde
O verbo que possibilitasse um entendimento sobre a maturidade
Obedecendo o passar das horas

Se todo incompreendido é louco, torto, insano...
Mil vezes a minha estupidez que não gosta da resposta pronta
Mil vezes a minha estupidez que quer provar o amargo das coisas e
O verde na sua fase mais primária e imprópria para o consumo

E, sendo louco, por não querer a síntese exposta na introdução
Me fiz de inteligente lendo as obviedades dos textos
As texturas que evidenciavam que era aquilo, e só aquilo

A coisa aparentemente ignorada encontrou em mim terreno fértil
E tudo que era considerado loucura, mesmo sendo primário
Mesmo sem ter maturidade suficiente para nos oferecer sementes
Acomodou-se em meu incomodo

Foi letal!
Marcou visualmente, matou o óbvio,
Me trouxe palavras antigas de cara nova
E a imagem deixou de ser possibilidade
Vi surgir em mim o verbo em cujos braços quis nascer

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pegadas



Pegadas na areia
Rastro do meu passado
Deixados no tempo
Grãos de areia espalhados
Contam minhas histórias sem fim
Pegadas na areia
Marcas da vida apagada pelos ventos,
Pelas águas dos mares
Para levar distante
Tudo que existe dentro de mim

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sobre telefones, escritores e a vida calma na Bahia

Telefone deveria ser proibido de tocar antes das dez da manhã. É um acinte ser acordado violentamente por aquele barulho metálico, um dos símbolos ocidentais da impaciência, a irritante e grave voz da agitação do mundo moderno, irrequieto e apressado, que parece ter uma preferência sádica em tocar ainda mais alto quando quem está sendo chamado está dormindo o sono dos justos. Ou dos injustos, tanto faz.
Esse foi o breve pensamento que atravessou meu sonolento e nublado cérebro, chacoalhado violentamente pela resposta automática em me por sentado prontamente e com o fone em uma das mãos:
- Alôôô...- Será que sonhei que o aparelho tava tocando?
- Fala, Fezes...- Tive certeza que não era sonho. É um pesadelo. Só há uma pessoa no planeta que inicia uma chamada telefônica dessa maneira. Meu amigo Edevars. Faltava saber porque um indivíduo em férias na Bahia ia ligar para outro fulano, a mil e tantos quilômetros de distância, às nove da matina, acordando o pobre coitado.
- Ed, isso são horas de acordar um cristão?
- Ô guri, aqui o tempo anda com seu tempo próprio... A propósito, você atendeu rápido, hein?
- É que dormi na sala... Sabe como é, cheguei meio tarde ontem, com algumas na cabeça, daí que a Catarina me “aconselhou” a ficar pela sala mesmo.
- Hum... Esqueci que você tá morando com a versão feminina de Kublai Khan....
- Ah, cara deixa disso... Ela é legal.
- Entornando todas na quinta à noite, hein?
- Olha quem fala... O profissional do copo. Eu sou um reles aprendiz.
- Não me lisonjeie... Escuta Juliano, te liguei para tirar uma dúvida.
Suspirei aliviado. Tava pensando que novamente o Ed ia tirar uma com a minha cara, falando que tava na praia e taus, enquanto eu mofava no Centro-Oeste.
- Sou todo ouvidos.
- Você ainda escreve poemas? Sei que sua praia são mais os contos, mas não te dá uma vontade às vezes de escrever algo em verso?
- Arram – um leve pigarro geralmente dá um toque de seriedade ao que vai ser dito – Bom, na verdade às vezes eu escrevo um soneto ou outro, mas costumeiramente eles só aparecem quando estou meio deprimido ou chumbado... Não sei explicar muito bem isso.
- Aí é que está. Como você sabe não sou muito de escrever versinho, mas estava um belo dia na praia – Pronto, pensei, agora vai começar a esculhambação – Tava tomando uma com um pessoal, quando alguém que estava me apontou como escritor e poeta. Foi a senha para que o mulherio começasse a me olhar com outros olhos. No final da noite, sem papel ou caneta, tive que escrever um poema na areia da praia, para provar para uma ruiva curvilínea que sabia versar... Pena que não tinha papel e caneta para anotar aquilo... Era um belo poema. Queria tê-lo guardado ou ao menos me lembrar o que havia escrito.
- É um belo kaô, para falar a verdade.
- Modéstia à parte, foi perfeito... Quando a gata bobeou, babau...
- Imagino... – cara de sorte.
- E você, escrevendo muito?
- Ando meio sem inspiração ultimamente... Acho que é o limbo literário. Não ando bêbado o suficiente.
- Bom, desta parte eu não posso reclamar. Vou levando a vida em um ritmo bem baiano, vendo as moscas voarem quadro a quadro e o sol se locomover descompromissado pelo céu... Deitado na rede, dou uma bicada na loira gelada, uma bitoca na morena quente e mentalmente me pergunto (com uns quinze minutos de atraso da primeira para a última letra da frase): “Têm vida melhor?”... Nem tento raciocinar, ficar pensando muito, para não perder tempo...
- Eu não ando conseguindo escrever bem ultimamente, Ed... Acho que não estou sofrendo o suficiente...
- Garoto, se eu fosse trocar a escrita pela felicidade, nem pensava. Dane-se a posteridade...
- Pô Ed, justo você com esse papo de felicidade? Você quer ser feliz?
- E quem não quer? Não é essa a busca de todo mundo?
- Pode esquecer... Isso é lenda, igual a Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa.
- Têm sim... Sempre têm um pouquinho de felicidade, nem que seja a conta-gotas. Conversar com os amigos, tomar uma cerveja em uma tarde ensolarada, receber um pagamento, fazer uma promessa (que não se sabe se cumprirá)...
- Ce tá parecendo aquela propaganda do Martini: “Momentos de prazer, isso é viver”... Meio punk isso... Ainda mais na voz do seu quase xará, o Ed Motta.
- Mas tudo, tudo mesmo, fica em segundo plano, se não é coroado pelo encontro da cara-metade, aquela garota que te faz perder noites de sono, deixar o trabalho mais cedo, comprar flores em um dia qualquer e pagar o mico pela cidade, andando com um buquê no meio da rua...
- Olha só... Quem está sendo romântico.
- Pois é... Que me adianta, ficar aqui na Bahia, nessas praias lindas, pegando essas morenas gostosas, uma a cada dia, esse sexo selvagem e essas orgias escabrosas, se nenhuma delas consegue ao menos apreciar o belo som do canto de um passarinho ou se deliciar com um pôr-do-sol? Onde anda o romantismo no século XXI? Será que foi substituído por este hedonismo moderno e descompromissado?
- Ah, por favor, pare...
- O pior é sentir ataque frio e calculista da inveja, vinda dos meus amigos casados ou comprometidos... Principalmente aqueles que têm mulheres ciumentas...
- Ahhhh... Saquei... – Tinha que esculhambar... Tinha. Aproveitei a deixa para me servir de uma dose de Jack Daniel´s. Belo café da manhã.
- Quando digo que é difícil... Essa vida de solteiro descompromissado, que hoje dorme com uma, amanhã com outra. Pô, têm dias que bate uma solidão da porra...
- É, é uma vida dura, imagino como deve ser isso.
- E o pior, é que ainda têm gente que me acuda de ser pervertido, ou coisa parecida... dizem que é cafajestice, mas eu rebato: “Gente, é que tenho o coração grande! Cabe mais de uma... Então para quê desperdiçar espaço? Tanta mulher sozinha e carente no mundo!”
- Cara, você tá no maior monólogo...
- Viva a vida, guri, senão um dia você acorda vestido com o terno de madeira e descobre que não fez nada nela... Há uma verdade incontestável: fatos marcantes fazem explodir palavras no oco da cabeça. Às vezes, palavras geniais. E se você não fizer nada de marcante na vida, vai perder várias delas.
- Nisso eu concordo contigo; a tragédia, o sofrimento e a solidão parecem ser combustíveis para o bem escrever... Não escrevo muito bem quando estou amando. A felicidade não me inspira...
- Na verdade, para alguns inspira. Mas no geral, fica uma coisa muito delicadinha, bonitinha, felizinha... Uma frescura total, eu diria. Um pouco de caos aqui, de angústia ali, uma pitada de melancolia e um trago de cachaça da boa... 25 minutos no fogo da paixão não correspondida e taí uma boa poesia... Sujeito-homem-do-Goiás não nasceu para versar florzinhas...
- Podecrê.
- Aê, acho que vou ficando por aqui... Tenho que me barbear para buscar uma dona ali.
- Você, se preocupando com a aparência?
- Pois é, o tal do “metrossexual” veio acabar com o sossego do machão-desleixado-e-com-barba-de-três-dias... A mina com quem fiquei na sexta não ligava para muita coisa; a do sábado, achava legal cavanhaque e a que estou para pegar têm ojeriza de pêlos... Fazer o quê, é a vida.
- Peraí, quantas você já pegou por aí?
- Acho meio depreciativo esse termo “pegar”... Digamos que já me apaixonei umas quinze vezes na Bahia...
- Em dez dias?
- Algumas coisas andam rápido por aqui... Mas como posso dizer não? A fama do “pueta” já se espalhou... Bom garoto, é isso aí. Acho que já gastei demais o telefone dos outros.
- Como assim, não está em um hotel?
- Nada, tudo por conta de uns amigos das antigas... Me deixaram tomando conta de um casarão na beira da praia... Precisava de um lugar tranqüilo para me inspirar e escrever, eles, de alguém que tratasse dos cachorros e desligasse as luzes. No fim, fica bom para ambas as partes... Acho que vou acabar me acostumando com essa vida. Bom, é isso aí. Se cuida...
- “Té mais”
Fiquei ali sentado pensado na boa sina que alguns possuem. O Edevars é um desses. Porra de sujeito sortudo. Nisso o telefone toca outra vez. Era minha dona. Quase que literalmente falando, afinal, ela paga todas as contas:
- Juliano Werneck, acordado a essa hora! Milagres acontecem!
- Coisas do destino, baby.
- Liguei para te avisar que amanhã vamos para a fazenda da Tia Emengarda. Vai ter um bingo de família lá e quero que você esteja bem arrumado e não encha a cara desta vez, ok?
- Seu desejo é uma ordem... Câmbio e desligo.- acendi um cigarro e voltei a andar de um lado para o outro. Putz, esses bingos da tal tia eram um porre. Um monte de velhinha tarada me olhando esganiçado. Daí para o copo era um pulo. Tinha que tomar uma atitude viril naquele momento. Peguei minha carteira e olhei: nenhum dinheiro. Mas em compensação, haviam quatro cartões de crédito e havia estourado somente um. Voltei a pegar o telefone, estava decidido:
- Alô Ed, têm lugar para mais um aí?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Mar de Cerveja

Foto: Felipe Ferreira

a cidade estava
anoitecida.

e com ela

ruas, pontes,
calçadas,
escritórios e
esquinas.

en(dia)brados
estavam

faróis, janelas,
luminárias
botecos, copos
e mesas.

e o capibaribe
transformado
num mar
de cerveja.

André Espínola

domingo, 27 de julho de 2008

Joãozinho Nerd Faz Poesia




Joãozinho inscreveu-se no concurso de poesias da universidade. Mostraria a todos que em sua gigantesca cabeça, além da Álgebra, da Trigonometria, da Biologia, da Química e da Física Quântica, havia espaço para a Lírica. Escreveria sobre o amor, algo assim bastante singelo. Horas depois, meio zonzo e muito exausto, concluiu a árdua tarefa. Sorriso nos lábios, satisfeitíssimo com o resultado, sentindo-se o poeta, leu seu texto em voz alta:

Poesia do Amor, da Paixão e do Coração

Com A escrevo Amor,
Com P escrevo Paixão,
Com C, C, V, V, A, A, V, A, V, A, V, M, C, V, V, V escrevo Coronária Direita, Coronária Descendente Anterior Esquerda, Coronária Circunflexa Esquerda, Veia Cava Superior, Veia Cava Inferior, Aorta, Artéria Pulmonar, Veias Pulmonares, Átrio Direito, Ventrículo Direito, Átrio Esquerdo, Ventrículo Esquerdo, Músculos Papilares, Cordoalhas Tendíneas, Válvula Tricúspide, Válvula Mitral e Válvula Pulmonar,
Que moram no meu coração.

Carlos Cruz - 12/06/2008

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Hiperbóreos


tela de Peter Max



Quisera que além das fronteiras
houvesse um outro mundo,
encravado debaixo desse mesmo céu –

onde homens como eu,
retirados do mesmo fosso,
tivessem aquilo que nos falta.

Por detrás de suas portas
tudo não fosse previsível e amargo:
a lida não exigiria o coração dos filhos,
o prazer da mulher anulado até segunda ordem,
as horas fraternas adiadas
para outro data, em outro lugar.

O dia, para acontecer, não necessitaria
mastigar a ponta de seus dedos
– beber o suco de sua imaginação
– minar o combustível de seus sonhos.

O dia, para funcionar, não exigiria
uma nova geografia nos rostos,
(uma imensa ferida aberta)
– o riso e o bocejo aniquilados
– o nome perdido em meio aos escombros da face
resistindo mumificado na foto do crachá.

Quisera que dobrando a linha próxima
houvesse uma outra terra,
mera continuidade dessa que por ora piso –

onde a lei não exigisse uma
travessia diária com o sol posto nas costas
afim de aquecer a piscina e corar as senhoras
de boa educação.

A ordem não obrigasse uma
rigidez marcial ao espetarem a lua no céu,
mantê-la acessa na janela das nights clubs
e pratear os passos de dança no gran hall.

Onde um decreto não impusesse
a manutenção e a conservação das estrelas
para acalentar o sonho dos pequenos
e ilustrar o triunfo dos bons moços.

Quisera que debaixo de seus tetos
houvesse mais que um fiapo de descanso
velado por um cão
ou um outro alarme estúpido qualquer –

que vencendo o limite adiante
existisse uma outra região,
habitada por homens como eu,
organizados num mesmo caldeirão –

onde os filmes de Chaplin
não fossem meros passatempos cômicos

e Chapolin Colorado não estivesse
lutando contra um demônio fictício.

Não fosse necessário afiar os dentes, as unhas,
sair de casa com uma faca no bolso da calça –

sem um dicionário de ódio no criado mudo
seria possível despertar, ir ao supermercado.

Quisera que após o perímetro adiante
houvesse um outro mundo,
situado no fim da rua que por aqui passa –

habitado por homens como eu.




* Poema inédito.