quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Paraíso


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral


15/08/15

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sobre pesos, desenhos infantis, prumo e o Natal


O fim do ano é, para alguns de nós, uma época pesada. Mais do que todos os compromissos, é o peso. Os pesos que acumulamos não apenas ao longo do ano, mas ao longo dos anos.

Não é o peso das contas, das noites de sono perdidas, do excesso de trabalho, do salário que poderia ser maior. Também não é sobre o mês de dezembro e a sua predisposição ao caos e ao desastre, com a confraternização da firma, o amigo-oculto dos amigos, o amigo-oculto da família, o amigo-oculto da turma de 1997, a festa de Natal, a festa de ano novo, as compras, o shopping lotado, as férias, o planejamento das férias. Não é nada disso.

Não é o peso do ano. É o peso dos anos. É o peso de quem foi, do que não foi, do que poderia ser, de quem deveria estar e não está. A virada do calendário traz a renovação e, com ela, vem a análise. Com a análise, as lembranças. O que nos leva ao tal peso.

É nesse ponto que está a origem daquele sentimento de tristeza diante do fim do ano. É disso que os que não estão por aí saltitando felizes como se fossem figurantes de um musical nessa época de festas falam.

Na verdade, não é bem tristeza. É uma melancolia que a gente sente pesando, ainda que nem sempre saiba explicar na hora. Não é ódio ao Natal ou ao Réveillon. Não é trauma por causa de um presente não recebido. Também não é o arroubo de rebeldia do jovem que resolveu desafiar as convenções sociais e não estar feliz nesta época do ano. Esse poderia discutir a concepção de Maria na mesa do jantar ou colocar uma camisa preta no dia 31.

O peso é outra coisa. É o peso legítimo da piada que não foi feita na mesa de jantar, na hora da ceia e que jamais será feita outra vez. Ao menos, não da mesma forma, com o mesmo tom. É o peso dos encontros que sempre parecem despedidas. É o sonho com o rosto que vai se apagando lentamente.

Como borrões. Sim, borrões na memória, no olhar perdido sentado na mesa imensa, ou minúscula, na rede pendurada na varanda no início da noite quente na casa da infância. Borrões das fotos apagadas pelo tempo. Ou pela umidade. Do papel manchado pela água, pelas gotas, derramada, derramadas, ou simplesmente a marca do copo suado.

O peso do fim do ano, das festas, é o peso das lembranças, coisas com as quais nem sempre é possível lidar. Ou sequer se quer lidar.

Acontece que peso pode ser também prumo. E as lembranças uma espécie de quilha sentimental, própria, original. Como pequenos desenhos feitos com as canetinhas do cérebro, como os desenhos infantis, meio tortos, com sóis sorridentes e árvores flutuantes.

E, como os desenhos infantis, são lindos em um contexto muito específico. Depois, viram um envelope guardado na prateleira, um volume que não deixa fechar a gaveta do armário. Um peso.

Até que um dia, sempre chega um dia, se vai, não há mais espaço pra ele. Ao menos, não para todos. E se salva um. Dois, três. Que vão para outros lugares, que são redistribuídos, reordenados, até redescobertos, reorganizados em meio ao caos, não só do ano.

Que possa ser assim com outros envelopes, pastas, com outros pesos. E talvez uma boa hora pra esse dia de faxina possa ser em dezembro.

domingo, 13 de dezembro de 2015

O (des)encontro


Jovem e idealista, andava pelo mundo “procurando se encontrar”.

Foi encontrado antes, por uma bala perdida.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Viver e recordar


Depois de muito tempo, descobriu-se que, na verdade, os responsáveis pelas pinturas nas cavernas não foram os homens, mas sim os antílopes, mamutes, tigres e gnus. Cada espécie havia feito suas pinturas em homenagem a seus mortos durante as batalhas do dia a dia. Somente após terem encontrado estes registros é que os homens começaram a fazer os seus também.
Atualmente, os homens são os únicos a manter registros além das marcas no corpo e na alma. Os outros animais não têm dúvida de que ainda demoraremos a perceber que é melhor viver do que recordar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Preciso




Descente 
racha cabeças

não há sutilezas

sangue farto
escorre das mãos

mancha o teclado

boca certa
gosto ferroso

língua bifurca cala

escorre dos olhos 
transforma letras

alimenta o machado

depois adormece
feito criança

o sono dos justos


Joakim Antonio


Imagem: Axe head by Evillatenighttv

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

vi algo assim

...e a vítima vira algoz. 
mas o que era antes de ser vítima?

à morte, revida-se com mais morte. 
vidas ceifadas de todos os lados 
e celebra-se a violência como solução.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Vagamundo


Vaga vagarosamente divagando, revirando o vácuo, vivendo o vazio, envelhecendo devagar e levando a vida em vão

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Direcionante



Aperto o passo

garoa letras
finas

feito gilete


Procuro o conhecido

doa confeitos
finos

feito metralhadora


Abraço o ignorante

entoa cânticos
toscos

feito sábio


Joakim Antonio


Imagem: Opposing forces by Markus43

sábado, 24 de outubro de 2015

Paraíso


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral


15/08/15


domingo, 18 de outubro de 2015

Flecha astral fenômeno fascinante

I
Meu eterno agora se revelou no instante do reconhecimento anímico me permito prever pertencimentos no desdobrar de ancestrais vertigens nos viscerais humores que alimentam o ventos nuvem branca de sonho e alento a alegria vespertina dança à luz de flores estrelares numa genuína elegia de vibrações etéreas espontâneas
II
Nossos mitos místicos nos revelaram corpos pagãos na entrega absoluta da carne do carma, na cama mundana à consagração ritual da busca imanente do primitivo amor holístico essencial
III
Minha arcaica natureza te reverencia com todos os poros de uma corporalidade em intensa manifestação. Nossos êxtases extratemporais nos transportaram para o aqui inamovível e ainda posso verter-te na brisa do sul que sopra das montanhas e sinto-te inteiro
IV
Noites espirituais queimando feito chama de carvalho aromática tambores, guizos e assovios no ouvido e o arrepio de verdade Xamã azul Ebulição de constelações em transe e quando o pulso primitivo suspende feito lança certeira de ponta firme ascende minhas forças guturais de natural transcendência me sinto e me significo
Vapores elevados me guiam no canto da terra, da água, do vento e do fogo eterno das flores nas dimensões imantadas que sobrepõe desejos nos sobrenaturais queres das correntes benfazejas que simplesmente seguem traçados astrais firmados no pensamento das nuvens e das estrelas vivas e vivificadas na intuição da alma leve e aberta em expansão fruto dos cósmicos devires


Flávia Amaro

terça-feira, 13 de outubro de 2015

o futuro já era promissor

"Obrigado, obrigado. A melhor coisa que fiz foi nascer. O resto foi consequência,” disse ele, agradecendo os parabéns quando ingressou no ensino fundamental. Hoje é deputado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Legítima defesa

O advogado alegou legítima defesa; E o juiz absolveu o comandante e mais 11 réus de todas as acusações: homicídio, agressão e uso abusivo de força.
Mais um caso de legítima defesa, em defesa da ordem social.


domingo, 11 de outubro de 2015

Morte viva



Não existe 

nada

mais vivo que a 

Morte

a mais fiel das consortes

pontualíssima

nunca deixa de comparecer


Joakim Antonio



Imagem: La Catrina iv by nickchao

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

domingo, 13 de setembro de 2015

Utopia legionária

Ela disse: "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã."
No dia seguinte, foi embora e nunca mais voltou.

sábado, 12 de setembro de 2015

Sabia assobiar


Cabisbaixos, ambos, ele e o canário. Ele sentou-se na varanda, abaixo da gaiola, e começou a assobiar, lenta e tristemente.
O canário, que até então nunca havia sequer piado, respondeu com um canto rápido e alegre. Ele então sorriu, como nunca havia sorrido.
Não se sabe até hoje quem ensinou quem.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Furta cor



Furta cor

brisa cortante
na hora calma

Abre vereda

cavalga vento
termina a batalha

Fio reluzente

parece pena
mas é espada


Joakim Antonio


Imagem: Iridescence por RadishStick

domingo, 16 de agosto de 2015

Miniconto

Alguns jovens de uma faculdade visitaram a estação de reciclagem da cidade. Foram apresentados pelo professor ao gerente do local, que por sua vez percorreu o lugar com os jovens, apresentando outros funcionários e explicando o processo de triagem e reuso dos recicláveis.
Porém, observou com desagrado que alguns dos alunos mal cumprimentavam os recicladores: pareciam ter nojo daquelas mãos obreiras; outros, os cumprimentavam com aparente naturalidade, fingindo igualdade, mas discretamente, em seguida, limpavam a mão nas calças.
— Que achou da visita deles? — perguntou um dos recicladores, após a saída da turma.

— Acho que eles precisam se reciclar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

anúncio de medida econômica


Troca-se vestido de noiva sem uso por carrinho de bebê em bom estado.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Matematicamente


Sempre se deu bem com números: somando investimentos, fez os números se multiplicarem.
Em relação aos outros, subtraía; Nunca aprendeu a dividir.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Povo do lobo - Sabedoria





O povo do lobo era muito procurado, devido a sua sabedoria. 
E muitos iam até eles, para saber o porquê de suas orações 
não serem atendidas. 

E eles sempre respondiam: 


"Deus não é espera!" 


Joakim Antonio 



Imagem: Power Of The Wolf by Baioretto-Majo

segunda-feira, 13 de julho de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

Ingrato


Vestiu o terno da indiferença, os óculos escuros do desprezo e subiu o vidro da intolerância.
Após realizar o ritual diário, rumou pelo meio daquela gente, que ele sempre desdenhou, para onde aquela mesma gente, que pagava seu salário, o colocou.

sábado, 11 de julho de 2015

Conto de fada



Ela desejou tanto que uma fada viesse ao seu encontro, que não acreditou quando foi atendida. Bom, talvez fosse pela sua aparência ou então, pelas palavras proferidas:

"Que foi amiga, já vi que tá discriminando fada também, me poupe né."

E do mesmo jeito que apareceu, sumiu, em uma nuvem de confetes dourados, deixando o chão tão sujo que levou sete dias pra ser lavado.

Moral da história: Não chame fadas se não gosta de faxina!

Joakim Antonio


Imagem: Pixie's dream by mehmeturgut

terça-feira, 16 de junho de 2015

Roma Antiga






Uma família de cristãos se esconde do imperador Nero e das perseguições que jogavam seus pares nas arenas, a tentar acabar com o diferente, divertir a plateia e matar a fome dos felinos.
“Mãe, será que no futuro as pessoas vão perseguir as outras por serem diferentes?

“Não, meu filho. Com certeza as pessoas aprenderão a se respeitar”.

sábado, 13 de junho de 2015

Cria

Quando cria, apenas cria.

Hoje, dividido
entre a vida
  e a dúvida,
em nada mais creio.

E tudo em que antes cria,
agora em cio, eu mesmo crio.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Piromaníaca


Acendia fogueiras, despretensiosa, apenas para vê-las arderem, estalarem e consumirem-se.
Quando sentiu frio, desamparada, já não tinha mais ninguém para servir de lenha.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Findando



Quinta se foi

Sexta está

Sábado virá

Comendo a semana

Cevando o Domingo

Pra recomeçar


Joakim Antonio


terça-feira, 12 de maio de 2015

Memórias


Desde aquele dia, virei um fantasma, uma sombra - um vulto
Aquele reflexo no espelho, no qual você não se reconheceu, aquele era eu

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Estrela


Pensei que a Dona aranha de jardim 
ficara com vergonha de mim 
Mas é que agora 
virou estrela do parque 
se escondeu dizendo 
"Odeio paparazzi!" 




Instagram @poetajoakimantonio 




Imagem: Aranha estrela by JoaKim

quarta-feira, 15 de abril de 2015

De longe

Quem olhasse de longe não entenderia.
Ela estava agachada sobre a mesa do restaurante. Segurava uma faca com a mão esquerda e encostava na ponta o nariz. Na direita estava um garfo com as pontas tocando seu queixo.
Definitivamente, quem olhasse de longe não entenderia.
No entanto, cinco minutos antes, o ambiente era de paz e tranquilidade. Havia um casal sentado na mesa ao centro. Conversavam. Tudo aparentemente normal.
Estava ali havia meia hora. Sentado. Esperando. Movia lentamente a faca na mesa. Vez em quando, passava pela borda do prato. Mas isso não significava absolutamente nada. Ou não deveria.
Quando ela chegou.
Atrasada, ele disse.
Ela não respondeu. Beijou e começou a falar. Perguntou sobre o restaurante. Ele respondeu. Mas ela não prestou atenção. Tinha outras coisas pra falar. Mais importantes, ele imaginou.
Desistiu de ouvir. Pensou no quanto aquele atraso era sintomático. Pensou na vida. Pensou que pensar na vida era vago, coisa pra dizer quando não se está pensando em nada ou não tem nada a dizer ou pra evitar outras perguntas a respeito do que se está pensando. Pensou se era possível a vida se atrasar.
Quando se deu conta, ela ainda falava.
Geleia de damasco o que acha?, perguntou.
Não sabia o que responder. Se aquilo fazia de algum assunto ou se tinha a ver com o pedido. Sem saída, fez o que qualquer um faria: concordou com a cabeça. Ela sorriu. E continuou falando.
Ele segurou a faca. Não, não ia matar ninguém. Ainda que a ideia pudesse ser reaproveitada no momento oportuno. Riu consigo, rosto sem expressão. Com ela, desenhava nuvens imaginárias na toalha. A faca, não a ideia. Vez em quando, tocava com ela na borda do prato. Foi quando começou a olhar com atenção para o casal.
Pra isso, é fundamental usar aqueles cristais, ela disse.
Cristais? Copos ou hippies?, ele se perguntou. Não sabia o que, mas precisava responder. Responder rápido. Vacilava.
Ela sorriu.
Me acha boba né?
Não, que isso.
Achava. Claro que achava. Que papo era aquele de cristais? E geleia? Pensou num filme da adolescência. E riu de novo. Pra dentro. De novo. Ou consigo, como acharia bonito. Achava bonito falar consigo. E nunca tinha a oportunidade. Estava, afinal, rindo consigo.
Ela riu. Não dele. Ou com ele. Era um riso débil. Meio frouxo. Ele nem percebeu.
Ela continuou a falar.
Mas ele não ouviu. Estava olhando pro casal. Eles estavam numa mesa ao centro. A luz incidia sobre eles de uma maneira curiosa. Não sabia explicar. O casal se tocava carinhosamente. Eram jovens. Pareciam estar juntos há pouco. Ele imaginou, sem nenhum fundamento real. Só especulação. Pensou que tinham cara de estudantes. De humanas, provavelmente.
E ela falava.
Quem olhasse de longe, não entenderia, pensou. Tantas pessoas ali. Tão parecidas. E tão diferentes.
Ele não ouvia.
Mais nada.
Olhava pro casal. Tentava ouvir o que eles falavam. Mas não falavam. Nada. Não, não deviam ser de humanas. Talvez por isso se entendessem.
O telefone dela tocou. Era tosco. O toque.
Ela atendeu.
Ele continuou no casal. Agradeceu silenciosamente pela ligação. Ela encontrara outra pessoa pra conversar. Ou pra falar. E falava.
Tentava entender o casal. E fazia anotações invisíveis na toalha com a ponta da faca. Quando o telefone do rapaz na outra mesa tocou. O rosto da menina se fechou.
Instantaneamente.
A menina se levantou, subiu na mesa e agachou-se sobre ela. Com a mão esquerda, segurou a faca e tocou a ponta do nariz. Com a direita, encostou o garfo no queixo.
O menino não conseguiu atender. Ficou olhando. Estático.
Abandonou o casal e desviou o olhar de volta pra sua mesa.
Ela falava ao telefone. Ainda. Sobre geleias e cristais. Ele sentiu vontade de subir na mesa. Quem sabe se agachar e, garfo e faca a mão, compor alguma cena surreal.

Quem olhasse de longe não entenderia. Nem de perto.

domingo, 12 de abril de 2015

Alheio


Mal sabia que seu trabalho fazia dignos apenas aqueles que colhiam os frutos de seu esforço.
Sádico e bem treinado, agradecia de bom grado todo resto que lhe era dado

sábado, 11 de abril de 2015

Urucum


Uru'ku, vermelho. 
Urucum, fruto do urucuzeiro. 
Na cozinha, colorau. 
No curumim, contra o sol. 
No guerreiro, contra o mal. 
Numa foto, mil palavras mais... 




Instagram @poetajoakimantonio 




Imagem: Urucum by JoaKim

terça-feira, 24 de março de 2015

Comèdia


I - Inferno

Nenhuma pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
ademais
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações oh castelos! –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos,
o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

e nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso


Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Relembrança

imagem: Amosb

O que é a vida
se não essa passagem fugaz
que nos faz conquistar cores, amores,
e depois deixar tudo para trás
como apagar uma luz?
Sei onde deixei cada parte do meu corpo,
inclusive,
aquele ínfimo pedacinho pulsante
que me faz lembrar você.

Mas não quero que me veja assim,
e não quero me esqueça depois.

segunda-feira, 16 de março de 2015

São Thomé das Letras





A nave do ET de Varginha estava com o GPS quebrado
O que queriam mesmo
era flanar por São Thomé
pousar perto da Pirâmide, de madrugadinha, sem ninguém por perto
sentar no telhado, a 1400 metros de altitude
discar o DDI, Discagem Direta Intergaláctica
e falar com a patroa:

“Meu bem, aqui é lindo! Daqui vejo nossa estrela:

tô pertim de casa!”

domingo, 15 de março de 2015

A dança



Ela chega em casa; ele, esperando, sentado em frente à porta.

Que horas são?

Tinha saído. Sozinha.

Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.

Ele não quer saber as horas, só quer explodir. Não entende como ela pode estar feliz sem que ele esteja perto o tempo todo.
Ela não sabe das horas, não quer saber e nem quer saber dele, daquele jeito inquisidor, atrás dela. Foge, ou tenta, na verdade. Porque não tem sucesso.

Tava onde?
Dançando.

Ele está no limite. Vai atrás dela, num balé virulento pela sala do apartamento pequeno.

Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Ela também está no limite. Ou talvez além dele.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.

Uma pausa curta naquela dança mal ensaiada. E, após um pequeno respiro, a retomada do movimento.

Tava preocupado, a cidade desse jeito.

Ela não diz nada. Anda pela casa, tenta fugir dele: não consegue.
Está cansada. Da noite, da dança, do caminho de volta pra casa, das escadas pro quarto andar do prédio antigo, daquela conversa, dele. Dele, principalmente, dele.

Você nem pra dar um telefonema. A gente só vê desgraça na televisão. Fiquei muito preocupado. Você não pode fazer isso... Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.
Você não pode fazer isso.
Quem você acha que é? Você ficou louco?

Ele não sabe, ela não sabe, ninguém sabe, ou sabem, quando ele segura ela pelo braço e ela se solta irada.

Você não pode fazer isso comigo!
Olha bem, você não é meu dono. Eu não tenho que te dar satisfação dos meus passos. Eu te falo o que eu quiser. E quando eu achar que devo. E nunca mais me segura desse jeito.

Silêncio.

Onde você tava?

Recomeça a coreografia pela sala. Ele atrás dela; ela em fuga.

Dançando.
Com quem?
Com os meus amigos.
Que amigos?

Ele intercepta ela numa quebra de movimento.

Que amigos?
Os meus.
Eu conheço?
Não sei.
Quem são?
É bastante gente.
São amigos ou amigas?
São amigos e amigas.
Nomes.

Retomam, como se a orquestra retomasse junto o movimento daquela canção em forma de disputa.

Quem são?

Nada, não há resposta.

Foram onde?
Para!
Você não pode fazer isso!
Para, por favor.

Não para, não param.

Que horas são?
Vê no relógio.
Eu te perguntei.
E eu te respondi.
Tava onde?
Dançando.
Não perguntei o que você tava fazendo. Perguntei onde tava.

Então você faz o seguinte: vai pra puta-que-pariu! E lá você pergunta e responde o que bem entender.