sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

É simples assim





Parece difícil e complicado toda essa gama de obstáculos que precisamos superar, e os caminhos que precisamos percorrer. Mas difícil mesmo é aprendermos a ter coragem o bastante para lutar. Essa dificuldade não se encontra na nossa frente, mas em nós mesmos, que antecipamos eventos e situações que nos forçam a hesitar. A vida por si só não tem segredo, nem dificuldade. Quem complica é o ser humano, que se joga em seus problemas, e cria um drama em torno da vida. E que apesar de existir quem a torne simples, muitos só conseguem colocar pedras na sua frente. Tudo é simples, basta observar bem. 

E paradoxalmente é difícil mensurar isso. Falo porque é extremamente complicado condicionar a nossa mente e o nosso corpo a aceitar uma realidade assim. Ao aprendermos a equilibrar nossas atitudes e nosso pensar podemos definitivamente encontrar o caminho que nos conduz mais rápido às soluções. É Com uma apuração melhor sobre o que nos rodeia que então vemos o quanto podemos tornar simples o viver. Chega um determinado momento que saberemos ter a paciência necessária pra pararmos, refletirmos e sabermos escolher que ação tomar, e que forma aceitar. 

No decorrer de nossas vidas notaremos que algumas atitudes podem fazer a diferença e tornar nosso caminhar mais simples e firme. Acima de tudo temos escolha, e são elas que nos mais beneficiarão. É preciso pensar antes no que fazer, e analisar bem o ambiente que nos envolve. No início de uma discussão com alguém, temos a escolha de continuá-la ou evitá-la. Com toda a certeza evitar transtornos assim pode simplificar a nossa vida. Numa briga assim, pode ter revés de ambos os lados, e ocasionar num desentendimento que dure a vida toda. 

Nós podemos escolher ser gentis ou perder uma amizade; podemos ajudar, e não atrapalhar, e logo mais pra frente poderemos ser ajudados; podemos criar ao invés de copiar; podemos estar calmos ao invés de nervosos; podemos escolher sorrir, e então cativarmos as pessoas; podemos estar sempre motivados e com afinco tudo vir com mais facilidade; podemos esquecer de falar dos problemas, e ao invés disso procurar achar soluções; podemos reclamar menos, e agir mais. Podemos tornar tudo simples, mas para isso é necessário que se queira de verdade. Quem acha que isso é complicado e difícil ainda não aprendeu a ver direito. Mas saiba que todos têm esse poder de escolha. Cabe a cada um utilizá-la da melhor forma.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A casa


Dos homens que a ergueram

não restam sequer testemunhas:

um pó de memória que seca a garganta.


De como retiraram o barro das distâncias

e o emularam em célula não restou a sujeira

nas roupas ou o câncer que os consumiu.


De como em fornos cozinharam os miolos

e o caldo das montanhas, nada sobrou:

talvez uma ficha em arquivo de manicômio

ou uma cratera que junte água salobra.


De como chegavam a seus lares –

felizes por ainda terem os dentes na boca –

nada se sabe. Se há quem o recorde,

não há de dizer algo que valha.


De como suportavam as horas

– tendo um copo de lágrima e

um cão para lamber as feridas das mãos

– coisa alguma se relata:

ninguém anotou nada em lugar nenhum.


Por certo, os filhos dos que a ergueram

virão derrubá-la.


Disso, todos são testemunhas.


*

sábado, 19 de dezembro de 2009

Merry Fuckin Xmas

*1

-E aí, como vai passar o fim de ano?
-Ah...no Natal eu vou no mercado, compro um frango, desses de rolete mesmo, eu não sei fazer peru. Uma Coca também. Daí eu como sozinha, vendo TV. Às vezes alguém almoça comigo no dia 25. Do dia 26 até o dia 30 eu fico chorando, aí no dia 31 eu penso em me matar. Sempre assim. E você?

*2

- Feliz Natal!
- Você sempre esquece que eu sou judeu.
- ah....Feliz Natal mesmo assim!
- Mas eu... a gente não comemora!
- Jesus vai ficar triste se te ouvir falando isso!
- Como bom judeu que era, acho que ele te mandaria à merda.

*3

- Adoro festa de Ano Novo!
- Olha, o vizinho vai acender os fogos!!
- Que lindo!
- Ai meu Deus, ele ficou preso!


THE END

(Qualquer semelhança com fatos reais será mera coincidência. Ou não.)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Letras em teu Corpo - Flá Perez


Como Chico Buarque,

fazemos poesia e amor até bem tarde.
E ela acorda cedo de manhã.

Beija minhas costas, me acarinha .
Eu a puxo de volta, vasculho seu corpo,
encosto todo meu desejo nela.

Mulher que penso submissa, abelha rainha ,
se desvencilha e sai apressada.

Durante o dia sinto seu cheiro em minhas mãos,
nos lábios,
refaço cenas, passo a passo.

À noite, quando chego da minha lida,
a encontro na cama,
cabelos molhados, adormecida.
Por um tempo velo seu sono,

- algum tremor passageiro, algum sonho –

Não me contenho: exploro, farejo, beijo.
Minha felina se estica, abre seu sorriso mais lindo,

Abre as pernas e me recebe.
Quente, quente, quente!.
Então começamos tudo de novo...

Ah! vida meio vagabunda essa da gente!
Que não acabe nunca!

(Poema de 2007, meu primeiro com eu-lírico masculino)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cavando

Desconfiada, começou a questionar, investigar e acusar.

Sentindo-se enganada e muito irritada, cavava cada vez mais, mas quanto mais fundo chegava, maior era a ausência de respostas, de pistas ou de provas.

Com o tempo, de mãos vazias, já estava quase desistindo da função quando percebeu que um pouco de terra lhe caiu na cabeça. Após olhar para cima, protegendo a vista mal acostumada do único feixe de luz que chegava àquele buraco, desabou em lágrimas. Percebeu-se cavando a própria cova. Viu que era ele, esgotado, que tentava enterrá-la no passado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Terra Arrasada

Bateste em franca retirada.
Te ocultaste além do horizonte,
mulher que outrora chamei “Amada”.
E quem saberá dizer onde, e quão longe,
fica a amurada que te esconde?
A cama que foi nossa um dia
– e, por mim, ainda seria –
é o leito de um rio morto
(antes água, hoje lodo).
Entre uma margem e outra,
sumidouro, atoleiro, fosso:
queimaste a última ponte,
não resta vau, nem passagem,
e nem mesmo o próprio Caronte
se atreveria a navegar este charco.
Da minha margem diviso a tua,
que por léguas ao fundo e ao largo
fizeste estéril, calcinada e nua,
como quem dissesse, “Delenda Cartago”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Poema de fé

Em minha mão direita trago uma pedra
na esquerda um afago
que estendo como sinal de fé.
Meu punho cerrado estendo aos santos vivos,
imaculados.

Aqui deste lado ostento uma reza
do outro um abraço
que ofereço a quem quiser.
Minha boca sedenta ofereço aos mortos vivos,
crucificados.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009






















no último sonho
conto que não há mais nada
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne

dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces

na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.

domingo, 29 de novembro de 2009

QUINTA

Abro os olhos devagar, tentando não me irritar com o toque do celular. Lizt em versão de bolso me avisa quem está ligando. Demoro um pouco para atender, buscando alguma saída dentro daquela loucura. Não há saída. Atendo enfim.

- Alô.
- Por que demorou a atender? Tá com outro? Pondero antes de responder: -Tava dormindo... São duas da manhã!
- Hoje é quinta! Esqueceu? Você me deve duas horas!

- Não... não esqueci. Só é cedo demais... Posso dormir?

- Não! 

Ser só dele às quintas, era esse o acordo. Saio de casa e entro no carro que me espera.

O motorista mal olha quando abre a porta e me entrega uma caixa.

- Está atrasada.
Era verdade, tecnicamente a quinta começou à 00h .
- Perdão.
Sinto um leve arrepio me alertando. Presságios confusos rondam minha cabeça. Tenho a sensação de estar avançando para o desastre. O motorista volta-se para mim e diz numa voz neutra:

- Tira a roupa e abra a caixa.

Obedeço em parte, tiro minhas roupas enquanto o carro avança pela madrugada. Abro a caixa devagar. Um par de algemas e um colar com o nome dele gravado, ponho o colar. Não consigo colocar as algemas.

Quando o carro para são quase 3hs, o motorista abre a porta eu desço. Usando apenas saltos altos, o colar e o que me resta de rebeldia. Ele me espera na escadaria. Passo a ele as algemas. Ele sorri e segura firmemente meus braços. Desliza pelas minhas costas, num caminho sinuoso, suas mãos grandes e quentes. Ele me agarra pelos cabelos, os afasta, beija e morde meu pescoço. Segura e acaricia meus seios como quem toma posse.

O corpo ainda vestido do homem roçava em minha pele nua. Ouvi minha respiração entrecortada e tentei me controlar. Os braços doíam levemente. Ele me empurrou para a casa sem me libertar do abraço. A escada range quando afinal subimos os degraus. Eu arfo e começo a tremer levemente. Já conhecia o cenário. Piso de madeira encerada, pé direito alto nenhum móvel além da enorme cama onde ele me jogou sem cuidado. Ele tira as próprias roupas, devagar e cuidadosamente, enquanto diz bem baixinho quase docemente:

- Eu sei do que você precisa!

Beija suavemente minha boca.

- Vou cuidar de você. Você é minha e sabe disso... -a cama range quando ele se move. - Huhum... Sua por todo o dia. - Outro rangido quando ele me vira de bruços, sinto o lençol de seda sob meu rosto e uma liberdade estranha. Nada ali estava mais sob meu controle. Os pensamentos coerentes param, esqueço a multidão de vultos sem rosto que nos observam e apenas obedeço. Ele ri.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Despetalado

Hoje por mais que eu queira dizer muito, o muito me falta, me escapa. Não que o tempo me lacre, me transmute a um mero espectador, porque tempo nunca tive, mas às vezes consigo escapar dele também. Não são as dores de não poder ser e fazer o que quero ser e fazer, mas as dores de não poder me perdoar pelo que não sou e pelo o que não faço... Ainda. Não que eu reclame, mas reticências são constantes em minha vida. Sou alguém que sempre fica no continua..., Que se deixa levar pela brisa da obscuridade, onde as entrelinhas sufocam o âmago da minha alma, e me deixam despetalado...

Amanhã? O que acontecerá? Viverei mais um dia? Serei pleno em minha consciência de poder corrigir-me, evoluir-me, errar ou acertar? Ainda que eu não tenha certeza, é essa premissa que me deixa feliz. Essa chance de poder antever e sonhar, enxergar além do que eu possa vislumbrar, estar sempre um segundo à frente, mesmo que primitivamente incauto em aparentes desilusões e sofrimentos.

Não que eu tenha uma gana de ter tudo de novo, de conquistar, ou de voltar os meus passos e refazer cada caminho, apenas para sentir novamente o frescor da vivência, seja ela agradável ou não. Não que cada pessoa envolta de mim seja um pouco do sangue que corre em minha veia. Mas sim o que me sustenta, me dá força plena para aceitar e seguir em frente. Pela graça de poder dizer: eu sou humano, eu tenho escolhas, eu tenho amigos. Mesmo que da falta que faço a mim mesmo, peço-me perdão. Perdão esse, que valerá se por algum acaso eu me encontrar. Não estou ligando se o que falo agora vai estar fazendo sentido com tudo que já falei. Nada agora me importa se faz sentido ou não. Ligo apenas para o que está à frente dos meus olhos...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Planos de Vôo

Imagem de Hugo Martins



1 – os motivos


Sempre haverá um rompimento

ou discussão envenenada.

Por um momento, bem sabemos,

motivo é o que menos há.


Sempre haverá uma dor de perda

que só se perdendo para esquecê-la.

E há, sempre há, motivo obscuro

nunca suposto, jamais revelado.


Sempre haverá demissão inesperada,

concepção indesejada, inoportuna,

surgida em hora ingrata pela mão de sujeito

sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.


(Nenhum que justifique ou que explique)


2 – a forma


É público, porém limpo –

outros verão o espetáculo,

não aqueles de apreço.


(Em casa, o sangue manchará

cortinas, desvalorizará o imóvel.)


É público, porém limpo –

outros verão o show, serão

aqueles que por um ou dois dias

deixarão de dormir,

beberão café em excesso,

terão um cigarro queimando os dedos.


Serão aqueles que esquecerão logo,

que comentarão via telefone,

especularão pela mãe – pobrezinha! –

e levarão o episódio às manicures.


É público, porém limpo.

Logo a ambulância fará o seu serviço

e a chuva ou as varredeiras, o seu.


(Em casa, o sangue entupirá

o ralo e excitará o cão.)


3 – o viaduto

a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.

Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.


b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.


Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.


E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.


4 – a rota

Nenhum semáforo que avermelhe

ou placa de trânsito que obrigue


(O sol

projetando a sombra)


Caminho pouco imaginativo

de paisagem em baixa resolução


(O vento

desmanchando o penteado)


5 – instante


Último pensamento

incapaz de ser compartilhado

pela brutalidade do pouso:

nada é mais belo que o pôr-do-sol

dourando as bordas do abismo.




*

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Revisited

Já era a terceira reencarnação como mulher, um saco.

Depilação, menstruação, cabelo, maquiagem.
Malícia, mentiras, segredos, jogos inúteis com homens inúteis.

Calculei o tempo, olhei em volta, as ancas da mulher chata que vai dizer que é minha mãe e que não posso fumar em casa e isso e aquilo estão dilatadas.
Vi aquela mão de novo, me puxou pela cabeça, filho da puta.
Começo a chorar, dos males o menor, assim ele não bate na minha bunda recém-chegada.

Falando em bunda, nasci no Brasil.

O tempo na Terra passa rápido.

15 anos depois e aquela bunda que saiu da bunda cheia de sangue da minha mãe agora já solta o próprio sangue.
Estou menstruada, com espinhas.
Tenho tantas dúvidas quanto mensagens de garotos tapados em meu celular cor-de-rosa.

25 anos e todos dizem que sou linda.
Mas não olham em meu rosto, e nem preciso dizer pra onde é que estão olhando enfim.
Trabalho demais, minto muito, coleciono segredos e namoros fracassados.
Uma mulher moderna.Independente. Faço sexo sem compromisso.
Um sucesso, segundo minhas amigas. Vadias.

35 anos e descubro que meu marido tem outra.
Grávida, fujo dele, da cidade, da merda toda.
Até que foi legal. Fugir é coisa de mulher decidida.

45 anos. Morri num acidente de carro.
O caminhoneiro imbecil que me matou dormiu no volante.
A alma saindo do corpo, e ainda deu tempo de ouvir um transeunte dizer em alto e bom tom que a motorista era mulher, que a culpa devia ser minha.
Guardei bem a cara dele.
Se volto a tempo, seduzo teu filho com a bunda eterna.
Se volto homem, aí campeão, aí você tá ferrado.
E tenho dito.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Isla Mujeres


Pirâmide de Kukulkan, em Chichen-Itzá


Cenote (poço natural) de Ixxil


Ói eu doando um livrinho!


Amigos, tive a chance de conhecer Cancun no mês passado. O mar é tudo aquilo mesmo que dizem, mas as atrações da região não se limitam ao Caribe. A cerca de 200 quilômetros de distância, ergue-se Chichen-Itzá, uma das cidades maias, recentemente eleita uma das novas maravilhas do mundo, juntamente com o Cristo Redentor.
Bom, o fato é que aproveitei pra doar um livrozinho meu no hotel em que nos hospedamos. Ao contrário dos brasileiros, os estrangeiros tem o belo hábito de ler muito, inclusive na piscina, motivo pelo qual o hotel disponibilizou uma pequena estante que recebe doações de livros.
Acima, umas fotinhas da região.







domingo, 15 de novembro de 2009

Fanatismo - Flá Perez

Sem qualquer respeito
ou nenhum tato,
sem algo que o impeça
e súbito,

esse clichê de peito cheio invade,
esmorecendo os muros
da ExcentriCidade.

E dói desabrido, chega aos olhos
e num desbordamento tanto,
molha intenso

-corpo escorrendo
ainda
pelas pernas-

É o bicho mais feroz,
um cantochão aflito,
são os meus gritos procurando ecos
nas trajetórias dos cometas mais longínquos

e vibrando inversos,
desarmônicos, malditos.

É ele! Ah, ainda ele!

Um aleijão platônico,
carneando Prometeu na minha frente,
consumindo minha pele, alma,
quintessência jônica.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Intuição feminina

A todo momento, cutucando a unha e mordendo-se por dentro, tinha a impressão de que algo errado estava prestes a acontecer.

Após muitos erros, quando ele não aguentou mais a desconfiança e fugiu, ela esvaziou-se de dúvidas e, por fim, encheu a boca de razão para falar que já sabia.

sábado, 7 de novembro de 2009

Navegante


navego em falso objeto
de desejo e de prazeres
sob luas que minguam
e escapam entre dedos

navego em falso segredo
de pele que arde e treme
em loucuras de seios leves
em breve resvalar nos lábios

navego em falso devaneio
de mãos que tocam coxas
buscando a mais intensa
delícia que a vida rege

navego em falso sonho
de corpos que se enlaçam
num laço de gozo e asco
ao timbre d’amor sedento

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O menino e o mundo

O menino caminhava pela calçada.
A bola na mão era azul
Azul como o mundo
por onde o menino andava.

Na cabeça do menino
a bola azul era o mundo.
E ele caminhava com o cuidado
de quem traz nas mãos
a humanidade.

O mundo,
nas mãos do menino,
é livre.
Livre como seria qualquer mundo
nas mãos de meninos.

Parado na calçada
ele me sorri.
Ele me sorri e na verdade
me acorda.

E só então continua caminhando
com o mundo nas mãos.

domingo, 1 de novembro de 2009

no quinto sonho
as janelas estavam fechadas
e o chá era servido frio
não gelado
calados e sem juras
não se olhavam
o sentido era verde
como o sache
dentro de suas xícaras

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

um grande abraço



Toda estória, seja ela grande ou pequena, insignificante ou importante, todas as estórias, todas mesmo tem marcadores, sinais que atribuímos e que nos levam diretamente para dentro de uma lembrança. É um processo básico e tolo. Se você algum dia fez amor num vagão dormitório de um trem é provável que fique estranhamente emocionado ao sentir o balanço do trem. O trem, o balanço, os sons que o envolvem são os marcadores, os sinais, os símbolos que te arremessam dentro daquela estória. Eu por exemplo tenho uma relação boa com o chocolate e com cheiro de goiabas. Todos nós temos muitas estórias e muitos marcadores ou sinais. Nessa estória o som dos sinos é o marcador. Não importa se grandes ou pequenos. Sinos. São eles o selo, o convite e a senha para essa estória. Tudo começou numa noite que minha personagem há muito tempo esqueceu. Ela a escondeu sob muitas camadas de estórias mais urgentes. A mulher dessa estória é uma dessas pessoas distraídas e práticas que mal notam a magia que existe á sua volta. Se no café da manhã uma fada surgir e se sentar á mesa exigindo atenção, a mulher conversará com a fada amistosamente e depois vai se despedir apresada e partir para mais um dia de trabalho.
Na noite em que nossa estória começa a mulher estava triste, desesperadamente triste. Um grande abraço era tudo com que ela sonhava naquela noite. Sentia uma tristeza imensa e indefinida, era como se todas as culpas do mundo fossem suas. Um desespero sem nome. Andou pela casa, ligou o computador,conversou,riu até. Mas a sensação permanecia ali, latente e dolorida. Desligou tudo, desligou-se de tudo. Decidiu-se por um longo banho, os pensamentos vagos e confusos. A água caindo fazia um barulho que preenchia todo o espaço do pequeno banheiro, ecoando pela casa vazia e amplificando a tristeza, logo ela estava chorando. Longos soluços convulsionando o corpo frágil. As lágrimas misturando-se à água morna do chuveiro. Mas à medida que se acalmavam os soluços mais sombrios se tornavam seus pensamentos e maior era o nevoeiro de tristeza que a envolvia. Teria jurado que ouvia música, como de fossem sinos... Ou talvez uma risada. Ela balançou a cabeça negativamente e permitiu-se um sorriso. “É um rádio ou uma televisão”– pensou – Os sons deviam vir de um dos vizinhos e, por qualquer razão, ela podia escutar. O curioso era que parecia vir de sua própria casa. O vento fazia esses truques. Enrolou-se na toalha e enquanto escovava os cabelos mal via a si mesma, pensava nas coisas que teria de fazer no dia seguinte, contas, trabalho, almoço com fornecedores, comprar um presente para um amigo, sorrir muito para que ninguém percebesse que ela estava desmoronando, sorrir sempre, especialmente quando a sua família voltasse da viagem.
Saiu para o corredor e ao entrar no quarto o mesmo vento encheu o quarto e fez os papéis sobre a pequena escrivaninha voarem como borboletas enlouquecidas. Ela pegou uma das folhas que caiu perto da cama e leu o texto rabiscado por ela mesma alguns dias antes. "Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles. Você está sempre livre para mudar de idéia e escolher um futuro, ou um passado diferente. Richard Bach” Ela olhou para a frase e devagar, quase religiosamente, dobrou a folha de papel, não recolheu os outros papéis. Fechou os olhos e quase em perceber cobriu as orelhas para não ouvir o riso que a essa altura já sabia, tinha certeza só seus ouvidos ou sua mente captavam. Apagou a luz do quarto e da sua janela viu as luzes dos vizinhos se acenderem brilhando sob o céu estrelado. Deixou a toalha cair e jogou-se na cama, os olhos decifrando sombras, aceitou os risos e a música dos sinos,se era só isso que podiam fazer não se incomodaria,eram os sons perdidos de alguma lembrança eles não significavam nada. Ao pensar isso a risada cessou, mas os sinos soavam ainda. Aos poucos sem perceber ela adormeceu encolhida como um bebê, os braços envolvendo o travesseiro.
Como se escolhe um passado diferente? Você deve estar pensando, mas se você pudesse viajar ao passado e convencer seu Eu mais jovem que aquela determinada ação não lhe faria nenhum bem?Você iria?E se passado e presente não fossem mais que uma ilusão? Se o próprio tempo fosse uma ilusão?Minha personagem estava para encontrar alguém que a conhecia melhor do que ela mesma, alguém que a visitava em sonhos, com quem tinha grandes conversas, um grande amigo, normalmente ela não ouvia seu riso desperta, mas aquele era um dia atípico e como disse antes ela precisava de um abraço. A magia não é uma prática tão obscura e complicada como a maioria das pessoas pensa. A magia é baseada na ciência das vibrações e das suas diversas qualidades. O mago branco comunica aos objetos e aos seres vibrações harmoniosas que favorecem o melhor para todos. Nós enviamos vibrações o tempo todo. Mesmo que não seja consciente disso a mulher triste e nua naquele quarto enviou seu chamado, seu pedido de socorro.Seu amigo estava chegando, pelo ar, sob as estrelas, sobre uma estrada, ele voava. Invisível para você e eu, como o vento, ele voava. Planava sobre nuvens tão macias quanto algodão, parava em árvores, distraía-se com outros voadores e ria dos medos da mulher adormecida. Mas, em seu quarto ela dormia profundamente um sono ainda sem sonhos, trêmula e apreensiva, em sua cama, enquanto uma lua brilhante e cheia erguia-se sobre a cidade, fazendo com que a paisagem se tornasse um mar de prata.Ela o pressentiu e em seu sono abriu os olhos claros e doces, espreguiçando-se languidamente. Sentado à beira da cama, um vulto de o rosto indistinto parecia esperar por ela. Uma voz grave e suave disse:– A senhora queria falar comigo?
– Eu te chamei? Não percebi.– O dia inteiro. Vim aqui te ver e você não parecia nada bem. – Ela sentou-se na cama, abraçou os joelhos e apoiou o queixo sobre um deles. Ele aproximou-se e ajoelhou-se diante dela – Não me ouvia por mais que te chamasse, porque estava como sempre fechada a tudo que não fosse real, mesmo sonhando acordada, você me diverte – respondeu ele por fim – Conversava com você mesma, me excluiu de sua vida desperta – adicionou com um sorriso enquanto acariciava distraidamente a perna que ela ainda abraçava. – Por que está tão nervosa? Ela suspirou sentindo-se mais tranqüila olhando para aquele par de olhos cintilantes entre as sombras. – Não sei... Tudo parece errado, mesmo estando certo. A lua brilha no céu. A vida segue seu rumo. Trabalho, casa, trabalho, família, mas eu não me sinto bem, falta alguma coisa. Talvez você!Ele sorriu, ela sentou-se a beira da cama. Os olhos imensamente tristes procurando os dele. – Não estava procurando por você – ele disse - Não quero em minha vida o que quer me oferecer – Você é prática demais, realista demais e teme o que eu tenho o que eu sou. Volte para seu mundo e não me invoque de novo. O meu mundo não é para você.
– Só quero tempo e um pouco de paz. – ela rebatia em pensamento – Preciso de você. O homem se aproximou da cama e envolvendo a mulher num abraço apertado, deixou-se ficar ali de modo que ela podia beijar sua cabeça enquanto ele se enterrava entre seus seios. – Se encontrar o que busca aqui, poderá ficar preso a mim... Para sempre. Está disposta a correr o risco?Quer abrir mão da vida que escolheu? Mudar presente, passado e futuro. Não te quero pela metade. Você queria um abraço, meu abraço... Eu vim e sempre que venho me perco, você me desconcerta....Ela suspirou enquanto o fazia erguer a cabeça e olhava em seus olhos –Talvez seja hora de me arriscar – O que aconteceria se eu lhe beijasse agora, você me esqueceria ao acordar? – perguntava sabendo a resposta. Assim, sem deixar de olhá-la nos olhos, ergueu a mão até o rosto dela e a beijou. Ela estava tão entregue que era tentador aproveitar-se dela. Pensou em acariciar o pescoço com um dedo. Ela não poderia fazer nada se ele resolvesse deslizar as mãos por sua pele. Estava sob controle, entregue, suave, cálida e frágil. Contentou-se com mais um beijo. E com aquele abraço interminável, ela gemia para lhe dar boas vindas, era sua ali naquele espaço ela era só dele. Sua boca ávida percorreu o pescoço, os seios, o tempo não existia. Adoraria leva-la com ele mostrar-lhe o que havia além daquela vida que ela escolheu.
– Dorme e me esquece. – ele disse ao mesmo tempo em que lhe beijava os olhos, ela afastou-se relutante, mas obedeceu. Ele meteu as mãos nos bolsos para resistir ao desejo de tocá-la e suspirou.– Inferno! – se lamentou – Não quero o que me oferece. Não a quero em minha vida. Ele ficou parado à porta do quarto, olhando para ela com uma expressão de tanta raiva que a mulher se encolheu na cama. Estava perdendo tempo demais pensando nela. E isso o irritava mais do que gostaria de admitir. Ela dormia e ele aproximou-se, as mãos desenhando o traçado do corpo dela. O cheiro dela entranhando-se em suas memórias. Ainda que se forçasse a se afastar da mulher, aqueles olhos tristes, aquela doçura o prendiam. Ele a conhecia há tanto tempo. Pena que ela não lembrasse. Decidiu que tinha direito a algum capricho, assim, sem deixar de olhá-la, inclinou a cabeça e a beijou ela não precisava lembrar, ele a queria e a teria de novo, voltaria mesmo que não o chamasse porque precisava dela. Ela gemia em seu sono. Já não o percebia mais. O vento soprou e ele beijou-lhe a testa. – Durma – Seu modo de se mover suave e feminino bastava para deixá-lo louco. Cada vez que ela respirava com os lábios entreabertos parecia um convite e provavelmente era – Sonhe comigo, não vou voltar se me chamar – acrescentou. Mas o vento invadiu o quarto e fez os papéis revoarem novamente, ele viu a folha que jazia dobrada ao lado da mulher adormecida. Desdobrou-a com cuidado e leu o texto escrito em letra apressada. "Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que não tem nada a aprender com eles. Você está sempre livre para mudar de idéia e escolher um futuro, ou um passado diferente. Richard Bach" O visitante sorriu e desapareceu na noite enluarada, com a certeza de que voltaria. A mulher sorria em seu sono.

sábado, 24 de outubro de 2009

Estúdio Raposa



Meus camaradas, alguns de meus poemas podem ser ouvidos na voz de Luis Gaspar, no audioblog Estúdio Raposa. Feliz demais ao ouvir meus poemas, me deu um ânimo novo em ler, ler e produzir. Só tenho a agradecer a Luis Gaspar por esse presente! Um abraço a todos!




*


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A tua ausência

Essa solidão deixou
teu nome escrito
com letras de espinho
nas paredes do meu coração

Ah meu Deus quanta dor....
E agora amor?
E agora....
Que a tua demora
Fez meu peito se encher de dor
(é a saudade)

E a saudade
Costurou minhas horas
O ontem, o amanhã e o agora
É tristeza que não tem mais fim.

"Felicidade é boa saúde e má memória" (Ingrid Bergman)

sábado, 17 de outubro de 2009

Da parte que me cabe





Os pensamentos torturaram a paz
Atravessaram em alta velocidade
A Av. Conceição, mendigando:

-Piedade!

Os cacos já não colam mais
Espalharam-se pelo corredor
Da minha transgressão,

As teclas do computador e meu coração
Desbotaram nas pontas dos meus dedos
cada letra por direito enfatiza o dissabor
e afronta em mim defeitos e medos,

O que sobrou sobre a mesa da cozinha:
A faca, a bainha, e o pão que embolorou,

O café esfriou, não uso garrafa térmica
Consumo tudo no calor dos momentos,

Alimento-me agora da crença de outrora
E de alguns fragmentos,

E para quem pensa que meu intento é defunto:
- Quero a parte que me cabe deste vasto mundo!




Imagem: http://www.designup.pro.br/files/insp/thumb300x300/1250519367.jpg

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Inoculado - Flá Perez

Sou meteora, gigantesca,
arrasadora

e ao mesmo tempo
a molécula mais rara
encontrada neste século.

Deixei extraterrestres em seu solo.

E essa rocha cética,
ainda que por fora
pareça estar intacta
já tem a marca venérea
desse impacto.

Multiplica-se
e devagar se espalha,
recombinado em qualquer rima,

pra cair depois na sua veia,
o vírus sulferino
da obra-prima.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tarja Preta

Tua voz tange minha retina
indeferidos brados
ribombam no céu da boca

Sismo
catarses violetas
entredentes dissipo o eco
em beijos acres

A cidade alucina
Entre o crepúsculo brocado
E a sombra seda fosca

Cismo
tinjo as tarjas pretas
verde, champanhe, prosecco
delírio tinto em cristal ocre

O raso é sem fundo
quando desfraldas tuas velas
entre o inefável e o hostil

pelo vidro vejo o mundo
que desbota e amarela
sob teu olhar incivil.

Rosa Cardoso e Iriene Borges

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Passou o dedo pela cabeceira e mostrou para a garotinha deitada na cama:

- Olha essa sujeira, minha filha, isso aqui está uma vergonha!

- Mas, mãe, não fui eu que sujei.

- Foi você sim. Está aqui no seu quarto.

- Mas...

- Nada de mas. Ainda hoje você pega um paninho e limpa. Quando eu voltar quero ver isso aqui brilhando!

A garotinha, ainda deitada na cama, refletiu sobre o pó em cima da cabeceira e sua relação de culpa em relação ao pó.

Quando a mãe voltou, a cabeceira ainda estava toda empoeirada. Ela então cobrou a filha:

- Por que é que a cabeceira continua toda cheia de pó?

Com um ar de saber só de experiências feito, a garotinha respondeu, até com certo descaso:

- Não adianta limpar. Vai sujar de novo. É pó de gente.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Morada Para Barbara

Morar numa canção de Chico
quando nada fizer sentido
se o problema for desgaste
recomendo uso de Buarque
mas se decidir por uma festa
divirta-se ouvindo o Cesar
Caso o problema seja desgosto
experimente um cd de João Bosco
Abstinência de toxinas?
dope-se com clube da esquina
Se for por falta de maça
encoraje-se ouvindo Djavan
Se for alguma desavença
faça as pazes ouvindo Alceu Valença
Se precisar da loucura de éter
substitua por doses de Cassia Eller
Se está preocupado se vacine
com sacadas e bom gosto de Lenine
Se o dinheiro estiver curtinho
churrasco na laje com Pagodinho
Se estiver farpado feito arame
sugiro descobrir Marco Vilane
Se acha que ninguém te gosta
sofra com pitadas de Gal costa
Se é problema passageiro
encare o relógio ao som de Baleiro
Se a ferida requer atadura
envolva-se na poesia de Cazuza
Se o incômodo for distância
Encurte-a na afinação de Betânia
Se acaso entrou pelo cano
aplique na veia Caetano
Se tá curto seu pavio
Medite com o senhor Gilberto Gil
E se a angústia for maior
suma um tempo feito Belchior
Se é ausência de faz de conta
recomece com Paulinho Moska
Se for coisa pequenina
uma faixa de Elis Regina

Mas se nada disso fez sentido
eu me recolho ao meu lugar
na mais linda canção de Chico
eternamente posso morar

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Conversão

Franco Fontana


Em solavancos vou levando a vida.
Escrevendo livros que se perdem
Em esquinas obscuras e obscenas.
Vou poetando o que é suburbano,
Subumano, sub-mundano.

Vou me pervertendo,
Convertendo-me insanamente.
Trocando olhares com prostitutas
E beijos com donzelas mais putas que as putas.

Vou bebendo o fel como se fosse mel,
Veneno diário que me sustenta.
Vou me alimentando de orgias
E fazendo cirurgias pra mudança de sexo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Beleza

Persiste a beleza ainda que
Tudo esteja disforme
Ainda que eu me confunda
Ao olhar arredores
E perceber que já não sei

Ainda há beleza escondida
Em teu olhar de rosa

Mesmo que nas esquinas
Se escondam olhares estranhos
Que nas calçadas
Se arrastem pés cansados
Ainda que me entristeça
Ao procurar por ontens

Ainda há beleza escondida
Em teu olhar de rosa

quinta-feira, 1 de outubro de 2009






















sob os horizontes
tombam olhos famintos
vontades permissivas
exércitos sem causa

calam-se sob o tempo
essas lutas vãs
ecos de derrotas
mortos e famintos

e todo o resto se amontoa
quando os amanheceres
se tornam garrafas vazias
de bebida barata.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fascinação



É tu, somente tu,
que me fascina.
Me extasia,
e me ilumina

Apenas tu que some
sem sumir.
Que está presente
sem estar.
Me faz levitar

De olhar secreto,
cheio de doçura,
jeito meninice,
que me enclausura.

Com porte real
magistral,
és bela
és fascinante
envolvente,
uma eterna amante

é fascinação,
prazer de meu ser
por só ter, no meu coração...

Você.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Canibal

Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo.

Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente,
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo.

E errará duplamente se não a cozinhar bem,
mui bem cozida, antes de comê-la o cu.

(Só as Putas Acreditam em Príncipes Encantados.)




*

sábado, 19 de setembro de 2009

me mi comigo



solidão, nunca mais

hoje em dia
está na moda
ter transtorno bipolar

até seria
uma boa
ter companhia no jantar

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ARITMÉTICA NOTURNA

Dois copos
um cinzeiro
várias idéias
nenhum rumo

Seis cervejas, dois whiskys
mililitros alcoólicos
dez da noite
noves fora
páginas rabiscadas
péssima caligrafia
sem enxergar direito
tentando escrever poesia:
completamente bêbados
não fizemos porra nenhuma
só o de sempre.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bonito



Se o que soa de ti me agrada aos ouvidos
Digo: - és Bonito além de o rude viver
Se o eco em mim te faz arder
Acredite Bonito, me dói saber - sou adido,

Meus conflitos vivem de expedientes:
Um dia sóbrios a galgar vertigens
Noutros - estridente ócio maldito.

O ranger de dentes não é pré- requisito.

Ouça – Bonito!
O que nunca pude dizer:

A vida voa
O desejo vil
A resignação vã,

E o que resta entre nós e outras manhãs
É letivo, Te faço saber.

Alterações ortográficas vãs
Verbo no infinitivo.
Ser.

Maria Júlia Pontes

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Aspas

Abro aspas para o silêncio que nasceu de nós

Aninhou-se em minha boca semente de sonho
no ventre seco da inércia

A verdade é só minha
embora os espelhos
exijam retratação
e os estilhaços me singrem
expondo meu espólio
de cicatrizes invisíveis

Na lista de meus crimes deve constar
que matei a saudade

afogada

numa poça de ódio


Iriene Borges

sábado, 12 de setembro de 2009

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Degusta

Talvez usar meias sete oitavos
casaco e cinta liga preta
deixar que se lambuze de leite condensado
para que conduza minha boca onde queira

posso despir a lingerie vermelha
enquanto meu corpo dança só pra você
e quem sabe com devoção de freira
eu exista apenas para te atender

quem sabe te confesse fantasias
de ritmar sob o comando de Caetano
te amar como se fosse o último dia
como se fosse meu último plano

Se preferir te levo pra um passeio
e descontrolo minha língua no seu dorso
se agradar transamos no banheiro
e de troféu, deixo marcas no pescoço

É... quem sabe de noitinha
seja sua insana, o seu par
e faça valer toda essa rima
só pra de novo degustar

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ode à Igualdade*


Inadvertidamente tropeço no avesso das palavras
Possuem um vazio, um eco inaudível
Um silêncio que se mistura à repugnância da vida
Todas as frases e poesias vêm carregadas do acre gosto
E, ainda, do cheiro podre
De vestimentas que encobrem o corpo lazarento
.
Impossível incorporar multidões
Onde o que há é apenas vazios, infindáveis vazios
Desertos de silêncio que encobrem o grito maldito
Que ecoa dos infernos cavernais
Onde o corpo lateja em desejos de vingança
.
É preciso se conter, conter os espasmos
Que revelam o lado claro, o lado lúcido
Das coisas obscuras
É preciso reviver os enigmas,
Dar vida aos segredos
Tirar das palavras o que há de mais reles,
O que há de pecado original
Causando nos espíritos o gozo
Que vai além dos sentidos
.
Os passos descompassados fazem o eixo certo
Atravessam com exatidão a linha divisória entre a vida e o não viver
E, não viver é crime contra a própria vida
Ter medo dos prazeres, ou ainda, ignorá-los é crime maior que qualquer pecado

...............................................................................................[que se diga original
.
Não há originalidade no que é inventado como preceito de escravidão
Apenas absurdos
Declara-se desde então, no momento crucial em que a poesia sai do casulo estigmatizante,
Que a partir de agora
Todo o misticismo é simplesmente pó da estrada
Que todos os deuses estão condenados ao esquecimento
E que o homem, em seus atributos cedidos pela natureza evolutiva,
Está apto a conduzir
Através dos anos sua vida, correndo o risco de incorrer em suas próprias escolhas,
Pois já não há céu sobre si,
Já não há quem o guie, quem o marionetize,
Quem por fetiche o torne fantoche da existência.
.
Eis que o homem é senhor de seu tempo
E reconhecerá em si, o princípio das coisas
E seu final, crucial na imensa cadeia que se liga em amplitude
.
Eis que o homem pode e deve se transformar
Sem os transtornos de estar amarrado pelas mãos
Liberto das correntes que o condenavam desde o nascimento
.
Eis que o homem é dono da história
E pode, pelo poder que dispõe, lutar pela sobrevivência
Sua e de seus semelhantes,
.
Eis que suas mãos podem fazer justiça contra os comparsas,
Contra toda e qualquer forma de enganação que visa manipular,
Destruir ou escravizar
.
Eis que o homem é irmão de todos, e a terra, esta grande mãe,
Os abraça com igualdade,
Igualdade tal que deve ser em seu sentido completo
.
O único sentido para todos os homens.

.

.

.

Poema do livro ITINERÁRIO FRAGMENTADO que será lançado dia 13/09/2009 as 20h, na XIV Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Estande da Litteris Editora, no RioCentro.