sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Belo Horizonte à meia-noite

Vultos se movem nas sombras. Espectros dão risadas, que ressoam malignas envolvidas pelo silêncio de todo o resto. A urbanização mineira funciona e, na madrugada, não há trânsito.

Um sujeito surge e balbucia coisas inaudíveis. Esforço-me numa leitura labial. Fracassada. Ele segura um boné, parece se tratar de uma oferta. Faço minha cara de “foi mal, não tenho dinheiro”. E é verdade, do contrário estaria num taxi.

Seria um boné roubado? Ou uma artimanha para me roubar?

À (meia-) noite, todos os gatos são pardos (assaltantes em potencial), diz a sabedoria do assistir-Jornal-da-Globo-tomando-chocolate-quente-enquanto-o-mundo-lá-fora-é-todo-malvado.

É verdade, eu corro risco. Preciso ficar alerta. Consola-me o fato de assim ser a vida, por todos os lados, perigosa. Mas o maior dos riscos, ainda acredito, é morrer de tédio.

No céu não há estrelas, apenas prédios obscuros. Tampouco vejo carruagens ou automotivos dos anos 1920 para me transportar para qualquer “Era do Ouro”. Dou-me por satisfeito em adentrar o primeiro ônibus que me levará para casa. 

Vida pé-no-chão. Tudo que reluz geralmente é ouro de tolo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quando cai o inverno

imagem: sanxian

A cada adeus
sentia
a mesma dor antiga
aquela canção tocando baixinho,
um quase lamento
por me deixar partir,
por voltar a ser só.
A cada adeus
a melancolia
invadia devagar
inspirando e expirando, serena,
um quase vazio,
pronto para me invadir,
sem pressa de estiar.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Vazio

O não nascido é o não morto
melhor estado possível
unidade de todas as potências
eterno e impassível
vazio

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Indispostos


Os opostos se atraem; E se enganam
Mas suas ações, sinceras, os traem

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mantra pessoal




Há um mantra perfeito, atrelado ao guerreiro
Há um mantra de amor, atrelado ao de paz
Há um mantra do sexo, atrelado ao instinto

Há um mantra do tempo, conforme a Lua
Há um mantra poderoso, forte e gostoso
Há um mantra animal, sussurrado e uivado

Há um mantra natural, de lábios nos lábios
Há um mantra grunhido, descendo e subindo
Há um mantra divino, que te leva aos céus

Há um mantra secreto, para cada um...


Joakim Antonio


Imagem: A mantra of peace and happiness tattoo by Meatshop tattoo

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

sábado, 30 de agosto de 2014

ALVEJAR A LUA

Agosto. Ninguém espera o duelo mas, os agora amigos, combinam defrontar-se. Toda a gente vem para a rua, vê-los alvejar a Lua.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Selfie

Esticou o braço, apontando o celular para o seu rosto. Olhou para o lado. Apertou a tela. Click.

Ergueu o celular, fez um biquinho, de leve. Apertou a tela. Click.

Mudou o celular de mão, balançou os cabelos e os jogou no rosto. Pôs a língua para fora, no canto da boca. Click.

Pôs óculos escuros no rosto. Click. Mordeu os lábios. Click. Fez carinha de “to chupando limão”. Click. Pôs um pirulito na boca. E click.

Visualizou as fotos na tela. Se curtiu. Aí, postou tudo no feicibuque. E esperou os outros curtirem.
Mas pouca gente se manifestou.


Ficou triste. Procurou uma frase de efeito para ilustrar sua tristeza. Achou uma da Clarice Lispector.

domingo, 24 de agosto de 2014

Exercício de semântica



Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono
e acordo



sábado, 16 de agosto de 2014

PIT-BOY



Tinha braços de leão,
tórax de touro,
garras de águia,
sangue de fera.



Só lhe faltava um coração de gente.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

...







Chorou ao identificar o corpo. 
Ao pegar o lenço sentiu, ainda no bolso, a faca.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Baleado


Quando chegava ao quarto cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas; Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Eterna



A poesia é metáfora, símbolo, pergunta e resposta em si mesma, procurando cada vez mais folhas para morar. Pode ser que um dia algo pare, mas ela nunca.


Joakim Antonio



Imagem: Eternity by Kalessaradan