domingo, 29 de agosto de 2010

¼ de confusão e uma dose de incerteza


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Não te contei...
Guardo minha escuridão
Com cuidado e medo
Num remoto escaninho,

Que fica à direita dos desejos.
Desejos e medos que escondo
Na cerração que desliza
Em espesso nevoeiro.

Sei que não contei
Não dessa vez..

Sonhei com seu sorriso e sorri.
Visão imprevista e tão rara
Seu sorriso flutuando
Entre céticos desejos...

Acredito em tantas coisas
Algumas disparatadas e loucas
Costumo duvidar de você

Recuar mil passos atrás
Desconfiada e descrente
Mas, quando sorri.
Tudo muda
E até em você acredito.
E nesse seu sorriso
Que desmente todo o resto.

Brinco com sua sombra
Aquela que prendi numa gaveta

E sem que perceba
Viscosa e demoradamente

Desejos,
Terrores,
Escuridão e medo.
Escapam por entre os esconsos

Assustada
Escondo-me no sorriso



.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Do Ser





Há uma coisa que se chama “cidade”

que se mistura às minhas caminhadas

assim como a palavra

que pede sempre uma página

nova

(

novo

)

caminho

.

.

.


- Graça Carpes -

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Pose para gravura de Rugendas

Para David dos Anjos Marat

No anno de nosso senhor de 1875,

a nascente imprensa

publicou num canto de página um annuncio

que hoje me estarrece:

tratava-se da fuga de um certo escravo,

de nome Adão, da cidade de Campinas.

O texto dava-lhe uns 40 annos,

estatura regular,

mão secca e falta dum dos dedos dos pés.

Falla grossa e feia.


De immediato uma photographia

se formou em minha cabeça:

por onde andou Adão? Que rumos tomou,

quebrando a unha-de-gato

com as pernas fracas pela lida paquidhermica?


Onde saciou a fome elephantica?

Em que capoeira deitou o corpo,

que sonho, que esperança, que temor,

serviram-lhe de abrigo?


Terá acordado, sobressaltado,

immaginando a aproximação dalgum capitão-do-mato?

Terá buscado um quilombo para resistir?

Como terá se arranjado com a mão secca,

precária para o trato com a pólvora,

incapaz de manejar o revólver?


Terá ouvido falar de Antônio Conselheiro,

arrebanhando gente para viver livre na caatinga?

Porém, não descarto a possibilidade

delle ter sido accomettido,

antes de encontrar refúgio,

pelo rheumatismo ou pela melancholia –

ou por outra affecção mysteriosa

que resolveu se exhibir em hora inngratta:

um emphysema, uma asthma, ou uma syphilis.


Aas vezes gosto de pensar que Adão

saiu aa cata de ouvintes aptos

e numa noite clandestina elevou a falla grossa e feia

para discursar sobre coisas sublimes

a respeito da Liberdade e da África –

sua voz se transformando numa música refrão:

blues ancestral iluminando a taberna

com um rythmo maccio, mystico.


Gosto de imaginá-lo, tão negro, a voz gutural,

elaborando a sublevação, premeditando o confronto:

uma bella barba áspera crescendo em seu rosto,

contornando a bocca isenta de carícias.


Que imagens terá evocado? Terá sido um discurso breve,

dolorido? Ou um apello contundente,

chamando a attenção

para além dos pigmentos da epidherme?


Mas me ocorre que Adão talvez tenha morrido de sede,

perdido na esclerose da geographia sertaneja.

Ou que a guerra bacteriológica,

hoje produto atual da moderníssima indústria do fratricídio,

tenha dissipado a sua vida.


Sim,

o que poderia saber Adão,

negro que fugio dalguma senzala em Campinas,

sobre escravos tomados de peste

que tinham a fuga facilitada

para que encontrassem o foco da resistência

e disseminassem por ali a desgraça que traziam na tosse,

nas chagas, nas roupas?


O que poderia saber Adão, procurado,

sumariamente caçado

(ainda que tudo indicasse sua inutilidade à lavoura,

ao roçado),

sobre um milhão de negros

enviados à guerra do Paraguay para morrer?


O que poderia

ele saber sobre a machina de moer carne humana

que havia sido implantada no sul do continente,

e que estava sendo de extrema utilidade ao Império?


Talvez pudesse contar,

não esqueçamos de sua voz feia,

barbaridades da Casa Grande:

sinhás mutilando mucamas por ciúmes

– naquela época corriam boatos

_______de sinistros ensopados de seios,

_______de guisados com clitóris servidos aos senhores;

ou talvez pudesse descrever

algo de horrível sobre o assovio do chicote

e o canto pavoroso do açoite.


Talvez Adão pudesse falar de grilhões,

ou de como a igreja acreditava que eles

não eram dotados de alma

e por isso passivos de escravidão! Ou quem sabe

ele soubesse algo acerca das 3. 900 orelhas

que Bartolomeu Bueno do Prado

apresentou como prova de seu êxito

na campanha contra os creoulos!


Terá sobrevivido,

me perguntei em um dia desses,

até o anno de 1888,

quando a lei áurea fôra assinada,

propiciando um novo caminho

para a manutenção da velha elite no poder?


[Engraçado como] não sei nada além de que se procurava,

no anno de nosso senhor de 1875,

por um pobre dum negro que se chamava Adão,

com uma mão secca, sem um dos dedos dos pés,

dono duma voz feia e grossa,

que se meteu pelo interior do país

e se transformou em multidão!


*

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Boa noite, boa sorte

Ao fechar a porta ouvi uma voz me dizer: “-Boa sorte!”. Era algo realmente interessante para se desejar à alguém, mas recusei. Essa noite não precisaria de sorte para fazer o que iria fazer, mas sim de muita coragem. E eu a encontrei no fundo de infinitas doses de Absinto... quanto mais líquido percorrendo meu sangue, mais coragem. Agora eu era um homem destemido. Peguei minha mochila, já preparada com tudo o que eu ia precisar e caí na noite fria – porque sempre tem que fazer tanto frio nessas noites? Olhei para o relógio, não poderia mais esperar. Sorrateiro, procurava andar nas sombras da lua, já era alta madrugada e estava muito escuro. Nem mesmo a lua queria me acompanhar dessa vez. Voltei a pensar na sorte, tentando descobrir para que a sorte servia. Acabei pensando em mil coisas sem importância nenhuma, então pela segunda vez nessa noite, deixei a sorte de lado. Apenas os morcegos, os verdadeiros donos da noite, me faziam companhia. Pensei naqueles que estavam dormindo em suas camas quentes, sem saber quem passava em frente às suas casas durante a madrugada. Para aliviar minha ansiedade, coloquei meus fones de ouvido e liguei Even Flow, do Pearl Jam. Deu certo, a guitarra me relaxou, e a voz de Eddie me fez esquecer aquilo que estava por fazer. Fui aos poucos me acostumando com a idéia daquele destino insólito que estava reservado para mim, e achei que a melhor solução era cumprir logo a minha missão, sem pensar em quem poderia ser prejudicado com ela. Já estava perto do lugar onde tudo aconteceria, tinha que ser rápido e sair sem olhar para trás, ou não conseguira dormir mais uma vez pensando se aquilo realmente era certo. Com certeza eu me sentiria mal mais uma vez com aquilo, mas não podia desistir agora. Ao chegar perto do prédio, meus olhos arderam com a claridade das luzes que vinham de lá, e senti um calafrio percorrer minha espinha com o ar gélido que saía do saguão de entrada - era ainda mais frio que o ar da noite. Sorrateiramente percorri os corredores vazios e sem emoção, com suas paredes brancas e impessoais, ouvindo meus passos ecoando solitários e cada vez mais próximos de seu destino. Enfim encontrei o quarto 77, e dentro dele estava minha última missão, meu último martírio nessa vida. Abri a porta sem tomar o menor cuidado em não fazer barulho, já que a pessoa que estava lá dentro não iria se incomodar com a minha presença. E agora, deveria contar com a sorte? Ou seria a hora certa de mostrar a minha coragem? Tanto faz, pensei, o importante é terminar com isso logo e sair daqui, para a consciência não me maltratar mais uma vez. No começo eu não gostava, mas depois de tanto repetir o mesmo ritual incansavelmente, acabei me acostumando, e até criei um método para que tudo fosse rápido e sem erros. Abri a mochila, calcei as luvas, abri o meu livro de Salmos, na mesma página de sempre, e sem pensar em nada comecei a ler o Salmo 92, mecanicamente e sem sentimento algum nas palavras que saíam de minha boca. Certamente a família ainda me agradeceria por terminar com aquele desconforto. Fiz o sinal da cruz, em mim e naquele desconhecido que estava ali, estendido em minha frente sem demonstrar nenhum sinal de que ainda vivia. Arrumei seus cabelos, segurei sua mão e o abençoei para que o seu deus o acompanhasse na passagem. Peguei minha garrafa de Absinto, dei um longo gole para aquecer o sangue e a alma já tão cansada de tanta maldade travestida de justiça e lentamente apertei o botão. Engraçado como a vida depende de tão pouco, nesses casos, apenas de um botão que comando uma máquina. Instantaneamente, uma após a outra, as luzes foram se apagando, o ruído foi diminuindo e eu sabia que a máquina estava desligada, e que amanhã estaria dando uma falsa vida a outro vegetal qualquer, apenas para satisfazer os caprichos de seus familiares, que certamente nunca lhe deram o devido valor. Aquela vida acabou, e mais uma parte da minha também, que não tinha valor algum. Então a realidade me cortou como um punhal afiado; eu também não era nada, sem sorte e sem valor. De que me valia empurrar essas almas para o além, enquanto eu mesmo me sentia num limbo? Foi como acordar de um sonho. Larguei a mochila, larguei a garrafa, tirei as luvas e corri. Corri como se fosse buscar minha vida em algum lugar longe dali. Senti os primeiros raios de sol lamberem minha pele, meus olhos lacrimejavam e eu não sabia por que. Corri ainda mais e como um bêbado inútil não sabia para onde ir, até que encontrei o lugar perfeito. Eu sempre soube que aquele viaduto teria alguma importância em minha vida inútil. Parei violentamente ao chegar ao muro de proteção, bati a cabeça, dei socos e pontapés naquela parede ridícula que tentava me conter agora, e ri, gargalhei como há tempos não fazia, olhei para o céu e agradeci por tudo aquilo que me fez viver até ali. Sem ter mais o que fazer, saltei sobre o muro e caí,do outro lado, onde não havia nada que pudesse me conter. Ninguém para segurar minha mão, ninguém para me desejar sorte. Esse era o fim para a minha justiça insana e anônima. Esse era o fim de minha pequenez e de meu egoísmo sem limites. O limite agora estava entre o céu e o chão. O limite para a sorte era a razão, foi meu último pensamento.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Quarto-crescente


A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.



Márcia Maia


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

domingo, 15 de agosto de 2010

Mil em uma noite


Dá um pouco de cansaço
dar o que fazer ao Rei,
ocupar bastante a sua agenda,
sua vida e seu espaço.

Tem suas vantagens,
lá isso tem...

Mas eu nunca fui a preferida
do harém.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Autonomia

Mal continha-se de orgulho, após trinta e cinco anos dependendo das caronas do marido, via-se finalmente capaz de ir onde quisesse, no horário que quisesse - com uma pequena margem de erro, dos possíveis congestionamentos e atrasos

No caminho de volta, exaltada, transbordava em lições desnecessárias aos passageiros mais frequentes:

- Se quiser descer, tem que puxar essa cordinha roída!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Protegido


Sonhei que era um adulto bem sucedido, ao acordar lia o jornal, consultava o tempo, arrumava as roupas para dia, tarde ou noite, dependia da volta e do temperamento. Ao abrir o armário roupas de frio e calor, capa de chuva, guarda chuva, guarda sol, linha de pesca e anzol, blusas, botas, luva, cachecol, lenços, meias, gravatas de seda, terno de linho, camisas, camisetas. Tudo bem passado e separados, por cor, estação, novas, velhas e até as que iam para doação.

Ligava o rádio com o som bem alto, para poder escutar sobre o maldito trânsito e ia para o chuveiro, banho em cinco minutos, dez se fizesse a barba, para não gastar muita água, antes de entrar ligava a cafeteira, previamente preparada na noite anterior, ao vestir a roupa tomando o café fresquinho, ligava a TV para ouvir se não havia nenhuma greve, rebelião, assalto, sequestro ou algum tipo novo de violência gratuita, precisava estar preparado, pois a vida não é fácil.

Durante o dia ficava de olho nas cotações, bolsas de valores, câmbio, fundos, índices econômicos, tinha que ficar atento, podia perder tudo a qualquer momento, coração acelerado, ganhava, perdia, mas no fim disso tudo o dinheiro crescia. No almoço comia um lanche, senão a dor de estômago me matava, pensava em procurar um médico nessa hora, me sentia frio, suava, mas sempre passava, depois eu irei, eu pensava.

Corria para o escritório, debaixo de um sol que torrava, encontrava o elevador cheio e subia pelas escadas, retirava a gravata no caminho, colarinho todo molhado, entrava porta adentro e me sentia no paraíso, ar condicionado fresquinho, água gaseificada e gelo a vontade, tudo do jeito que eu sonhava, menos os espirros mais tarde.

Telefone começava a tocar, e-mail chegando, confirmava compromissos, remarcava imprevistos, atendia celular, escrevia no Twitter, Orkut, Facebook, o Messenger sempre aberto, conferência no Skype, pensando no chegar em casa para continuar minha Pós-graduação online.

Dentro do meu escritório minúsculo, não me sentia sozinho, contava com milhões de amigos na frente do meu PC. Secretária para quê, eu pensava, era mais uma despesa que economizava. Nunca usei office-boy, nem mesmo ia ao banco, contas no débito automático, compras entregues na portaria, frutas sempre fresquinhas que o mercado mesmo escolhia.

Mas hoje me senti estranho na hora de sair, estômago doeu, mas não tinha fome,  pescoço endureceu, braço adormecendo, o peito doeu de um jeito que me fez  gritar de imediato, mas o som não saiu, a impressão é de que a garganta secou e a língua dobrou de tamanho. Nunca desejei tanto alguém junto de mim, seria derrame ou infarto, não interessava, só me arrependi de estar sozinho no meu fim.

De olhos fechado ouvi a porta abrindo, senti o calor da luz acesa nas pálpebras, senti a vibração dos passos de alguém aproximando-se, até que uma voz disse firme e convicta: "acorda e levanta".  Abri os olhos rapidamente, todo suado, ofegante e ao olhar para cima vi um gigante, forte, esbelto, todo de branco, de braços abertos, me estendendo a mão e logo após pegando-me no colo, abraçando de um jeito tão terno, que gostaria que o abraço fosse esterno.

Ele me disse, agora está tudo bem, calma, abracei-o mais forte, as lágrimas rolaram, tudo bem?, balancei a cabeça que sim, o que lhe afligia acabou, tudo foi  apenas um sonho com final ruim, minhas lágrimas pararam e senti sua mão enxugando e acariciando meu rosto, você sempre será meu menino e quero que me prometa manter para sempre seu coração de criança, concordei balançando a cabeça, ele me deu um beijo e disse, agora durma em paz.

Foi saindo de mansinho e antes que ele acabasse de fechar a porta eu disse bem alto, PAI, ele me fitou com seus olhos brilhantes, um sorriso do tamanho do universo e com aquela sabedoria que só os pais têm disse, eu já sei filho, fechando a porta devagarinho:  "Eu também te amo"!


Joakim Antonio

sábado, 7 de agosto de 2010

A rosa

créditos da foto: Flávio Offer


Os pássaros cantam.
A rosa...
a rosa se cala
em busca de encantos
provindos da própria alma!



*** Poesia do Livro "Cata Ventos", 2005.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

noite descontraida

descem a rua noturna
molhada de chuva
pontos iluminados pelas
luzes dos postes
passeiam -
salvos em instantes por
não pensarem em nada

domingo, 1 de agosto de 2010

sobre chá e colheres

deslumbrado com a passividade
com gravidade do aroma
com a pureza da água
na febre de folhas e flores mortas

o chá esfria

desinteressado do universo
ou do verso paralelo
não cabe nos dias
ou tão pouco se ilude em horas

o chá esfria

diluído em xícara
surrado por colheres
da direita para esquerda
decanta visceral

são cinco horas
e está tudo bem.