quinta-feira, 30 de agosto de 2012

TESTAMENTO II (C)

CONVENÇÃO II

regresso ao passado
viajo ao futuro
a viver no Entrudo

sou uma erva
daninha

para aninhar um ninho

C


TESTAMENTO I, II, III

terça-feira, 28 de agosto de 2012

sem sentido


olhei para o alto; lá estava robinho, sobre o telhado
seus olhos perdigavam nalgum ponto do globo 
não havia esperança de nuvens
nada, além de um infinito incógnito azul sobre nossas cabeças
uma gota de suor desceu seus olhos no momento que transpus o último degrau no topo da casa
robinho e eu olhávamos o mundo dos homens de cima
como previ um momento existencial transpondo o limite diário das nossas vidas
ousei indagar sobre quais meandros do universo metafísico pairavam suas considerações requintadas, sem dúvida alguma povoadas do mais altos significados místicos
e de tais revelações sobre o sentido da vida, dessas mesmo de preencher a alma do homem
como a língua preenche o interior da nossa boca
lambi os lábios
que foi robinho?
não ouvi resposta
seu rosto sem consideração alguma pelo diálogo profano dos homens
respirou fundo
a mente, estrangeira ainda ao mundo das formas mundanas
palmilhava pouco a pouco seu caminho de volta
eu podia ver pelo modo como se recompunha que levaria muito tempo ainda
até que pudesse se acostumar de novo à densidade de nossas misérias
meu ar travou na garganta
senti que meu amigo estava prestes a desferir a primeira sentença iluminada
coçou os olhos
e disse:
" É, o baguio é doido".

domingo, 26 de agosto de 2012

Facilidade feminina


Nas sextas-feiras, o marido chegava, tarde da noite, exalando álcool barato por todos os seus poros. E Glória tinha que ficar lá, passiva, em suas investidas sexuais. Era mais seguro. Até porque ele dormiria durante o ato, mesmo.

Olhando para os rabiscos que as infiltrações deixavam em seu teto, a esposa fazia as contas do mês. Janeiro era impiedoso. A farra fresca na memória do fim do ano era trocada pelo cinto apertado com os impostos e gastos escolares.

O marido já roncava.

Glória havia lido que as mulheres têm maior facilidade em fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Fazia sentido.

sábado, 25 de agosto de 2012



Amor que se banha na dor, e na cor
Na simbiose de querer e não ter,
De ter sem saber,
De saudade sem saber do que

Vida é mel, é fel...
Vivemos livres, mas
Presos como balões
A voar no céu.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Da saudade


Se tem que vir
que venha logo
não demore
por que a esperança
é a última que morre
e a primeira que mata.

domingo, 19 de agosto de 2012

das coisas inevitáveis

às vezes te sinto tão perto, mas tão perto

que posso sentir o aperto
do meu peito
e do seu

sábado, 18 de agosto de 2012

olho d'água



Numa mina em Minas 
me renovo,
num pedaço de solidão
para pensar naturalmente
na  água que corre 
e onde os pássaros cantam
nas irregulares fendas da pedra
me debruçar e observar o galho seco preso pela corrente
ver desenvolver o rio mais à frente
se estender ao sol de maio
sustentar saudades
e soerguer sortilégios de boa estação
o que é perene a água leva
dos meus fios
seguem sendas 
que deságuam constantes
num grande oceano.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ventana

Viajantes são como janelas. Deixam o vento entrar, porque em cada partícula de brisa que os corta existe a vontade e a permissão de que apenas vente algo novo - e novamente. Renovar os ares que nos cruzam não deve ser exclusividade das férias. Precisei ficar sem ar para compreender isso, por mais que seja tão óbvio quanto respirar. Bons ares. Sempre.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

PIT-BOY

Esse texto já saiu publicado por aí, mas não custa nada divulgar um pouco mais.

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Tinha braços de leão,

tórax de touro,

garras de águia,

sangue de fera.



Só lhe faltava um coração de gente.

A ressaca

Era domingo de Carnaval.
Levantou meio zonzo e foi até a cozinha. Na gaveta do armário, procurou um antiácido. Ou um anti-qualquer-coisa. Ou qualquer outro remédio. Talvez um que não existisse.
Mas insistia na procura.
Logo, tinha encontrado um envelope pequeno que rasgado sem muita perícia, foi despejado no copo com água. Olhou para a espuma. Quase numa contemplação.
Ele não estava feliz.
E não havia motivos para estar. Acordara com uma ressaca absurda. Mas não, não havia saído na noite anterior. Havia passado o sábado de carnaval em casa.
Sozinho.
Assistira ao desfile das escolas de samba de São Paulo. Junto, uma garrafa inteira. Sem misturas ou aperitivos.
Ou companhia.
Andara pelos blocos da cidade na sexta e no sábado. Bebera o dia inteiro. Voltou pra casa. Não pelos motivos que deveria.
Não, não estava doente. Era. Tentou, depois de tantos anos, brincar o carnaval. Não foi capaz.
O golpe derradeiro fora a noite anterior. Em frente à televisão, percebeu a total ausência de sentido da sua respiração. Queria ter um coquetel molotov para destruir suas alegorias.
Precisava de uma solução para aquela sensação.
Era um clichê ambulante. Saber disso não o fazia sentir melhor. Ignorar também nunca resolveu nada. Era ele, ali, sentado no sofá da sala, garrafa na mão, uma vez mais sem respostas.
Insistia.
Era forte. De um lado pro outro, pensava. Não que fosse solução. Foi ao quarto. Em frente à porta, olhou para dentro. Antes de entrar.
Encarou o ambiente.
Dentro, abriu o armário. Contemplou o interior por dez ou doze segundos. No cabideiro, estava a fantasia de Super Homem. Ao lado dela, os ternos que usava nos outros 360 dias do ano. Nas gavetas, mágoas.
Separadas por cor e tamanho. Tudo aquilo havia sido acumulado ao longo de muitos anos. Sem fechar a parte em que mexia, abriu a porta ao lado.
Vazio.
Pegou a fantasia. Vestiu-se com o que restava de dignidade e foi para o terraço do prédio.
Não retornou mais ao apartamento.


domingo, 12 de agosto de 2012

Mercado ilógico

Antes de espatifar-se no chão, já era novamente um milionário








texto do livro Colcha de Retalhos

sábado, 11 de agosto de 2012

Palavras simples



Palavras podem ser
comida
para os ávidos
pérola
jogada aos porcos
semente
que
c
a
i
em
pedras
de corações

Palavras podem ser
c_a_c_o_s
em
vidro vermelho
sorrisos
de
educação amarela
sinal verde
para borboletas
v    
   o
 a
   r
e
 m
no estômago

Palavras podem ser
tão frutíferas
sertão estéril
ser tons fortes
ALTOS | baixos | médios
podendo
até
ser a fôrma
e
ter a forma
de
simples palavras


Joakim Antonio



Imagem: Simple is art by Khaloodies



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Maquiada

O sorriso parecia ensolarado,
mas os olhos pintados de preto
denunciavam tempestades
e um mar de lágrimas.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

INABITAÇÃO

O que move a invasão
são os músculos sem força
e uma vontade de ferro
de rachar o asfalto:
deixar para trás
o trânsito dos ratos,
as fezes dos pombos.
Um abrigo morno
de futuras mães
de futuros 
invasores de espaços
sem habitantes.
Quase moradia,
mas parede e teto.


[Sérgio Bernardo, em "Asfalto", Selo Off Flip, 2010]

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

chega de antropofagias



sofro de afagia crônica
e como apenas o que está em mim
fotossínteses de sentidos
auto suficiência de intenção
liberdade e independência
sem bom gosto
sem regras
sou abominável.