quinta-feira, 1 de março de 2012

álbum de fotografias





















quanta sorte sonhar quando se é verde
não gosto de falar de minha infância
não há atos nobres nessa época
o que tenho certeza é que queria
crescer logo e me livrar da caolhice
do manco de pés tortos
da aparência desengonçada
e da opressão dos adultos

mal sabia eu que a miopia aumentaria
que os pés continuariam tortos
que a aparência piora com a idade

mal sabia que a opressão maior
é a da realidade e não dos velhos
mal sabia que ser cuidada e oprimida
é mais acolhedor que ser ignorada
ou ser preterida

não me recordo de tempos para sonhar
havia um medo velado em meus olhos miúdos
e um silêncio imposto
naquela casa sempre cheia de visitas importantes
era proibido correr
dizer palavrões ou se manifestar

ali criança não tinha vez
pular o muro e viver uma alegria clandestina
rendeu-me ora a cinta ora a palmatória
quem dera ter tido a glória
de saborear da liberdade

luxo seria ser uma criança
numa casa de velhos burgueses
não me recordo de um momento
de êxtase livre de culpa
ou de uma satisfação
não fadada à mentira

sou fruto do que fui
no fundo ainda sou
aquela criança.

3 comentários:

Flávia Amaro disse...

Gosto muito dos seus escritos.

Larissa Marques disse...

obrigada, querida! beijo!

Francisco Coimbra disse...

«mal sabia que ser cuidada e oprimida
é mais acolhedor que ser ignorada= ;)
Beijo