sexta-feira, 7 de junho de 2013

Raízes



Meu pai é um sujeito rude, sem leitura: analfabeto de pai e mãe. Com quase oitenta anos. Uma aparência envelhecida e um olhar cansado. Seus cabelos desgrenhados e a boca de dentes escassos lhe dão um ar engraçado, quase de não levá-lo a sério, afastando-o totalmente de outro homem que conheci. Houve um tempo em que me dominava o medo de aproximar-me dele. O peso de suas mãos e de suas palavras me assustavam. Incompreendidos que ficávamos em nossa incomunicabilidade. Com o tempo, descobri que tudo aquilo era um hábito herdado: toda a rudez e ignorância não passavam de artifícios inconscientes que ele usava em nossa educação. Queria nos tornar gente a qualquer preço. Queria-nos honestos, trabalhadores, adestrados, assim como ele.
Apesar de tudo, exercia um fascínio sobre mim. Uma admiração na forma como era capaz de cultivar em nós o medo. Seus olhares enviesados, suas palavras, o barulho de suas botas na escada eram capazes de nos silenciar instantaneamente. Sobrevivemos todos. E prosseguimos cada qual com suas idiossincrasias. A capacidade de abaixarmos a cabeça ante os nãos da vida e essa aceitação subserviente de todas as coisas que não nos são possíveis são traços herdados, além da timidez e essa afetação silenciosa a nos apaziguar com o mundo.
Os tempos mudaram. E nele todas as mudanças se precipitaram. E pude perceber sua vulnerabilidade. Pude ver que sua incapacidade de expressar seus afetos era também herança. Compreendi que não se podia encontrar culpa em seus atos; que não havia leviandade em suas atitudes e que isso não vinha de seu espírito. Não havia maldade, senão desamparo: o mesmo que eu sentia diante de seus pés. Quase uma tradição de falta de afetos. Algo que repercute em nossos encontros. Silêncios entrecortados por frases enviesadas, conversas simplórias sem os vícios dos abraços, muito menos os beijos na face. Com ele, nenhum excesso. Nenhuma extravagancia, nenhum exagero. Não partilhamos o hábito dos presentes: nem em aniversários, dias de natal, dia dos pais. Há em nós uma rudez herdada. Um afastamento que transita de gerações anteriores.
Contudo, hoje nos entendemos melhor. Ele não viaja. Viveu em poucos lugares, pouco conheceu. Enraizou-se, ficou comodamente preso à terra. Quando conto as minhas viagens, embora não compreenda, há um encantamento em seus olhos. Ficamos ambos, nos admirando em silêncio. Minha admiração se estende a sua capacidade de com o passar dos anos adquirir certa calmaria, certo apaziguamento, mergulhado em seus afazeres diários. Seus cuidados com as galinhas, com as hortaliças, suas plantações e colheitas de feijão e milho; as mandiocas e bananas que leva à mesa. Essa aparência de quem alcançou a plenitude. Os traços de felicidade que se misturam aos vincos do tempo e seu rosto não aparentam mais a rudez que tanto me espantava. Posso perceber a alegria que é meu retorno a sua casa. A satisfação que é para ele matar seus melhores frangos e preparar aquela galinhada que comerei fervorosamente com apetite de padre que encerra o jejum quaresmal.

Há uma espécie de serenidade. Talvez a idade a silenciar os impulsos. A acalmar o espírito impetuoso que o guiava. Talvez o cansaço de uma vida fatigada. Ou a ausência de qualquer necessidade além do que se construiu.

2 comentários:

Francisco Coimbra disse...

«Quando conto as minhas viagens, embora não compreenda, há um encantamento em seus olhos.»
Será que você compreende o encantamento? Compreende! Ele também compreende, o que o encanta, mais do que a você. Com «embora não compreenda» deixa-nos, enquanto leitores, perante uma incompreensão. A qual aceito tenha, não compreende o que seu pai compreende e o encanta. Compreenda, meu comentário é a preparação para meu próximo testamento, vou então escrever… Mina:

BOAS HISTÓRIAS

Para meu pai, sem anos feitos, deixo depois de ter sido, tudo que fui. Foi que não lhe adiantará de muito, assim sendo, fica a saber o que perde. A minha colecção de memórias arquivadas de A a Z e de z a a… Como as poderia aceder é fácil, ido para a Eternidade ficaria a sonhar as letras em combinações infinitas, com suas fintas e remates: golooo… Glorioso destino me dou: - Boas histórias, meu Pai.

Grande texto o seu, com a ressalva feita. Desnecessário mostrar o que não mostra, convencer sem convencer. Com «embora não compreenda» teria de vir, deveria vir, algo que compreendêssemos: algo que seu pai (personagem passivo na narração) não compreendesse. O encantamento é a compreensão total! Abraço.

Flávio Otávio Ferreira disse...

Grato pelo comentário, Francisco! Abraços!