domingo, 30 de junho de 2013

BOAS HISTÓRIAS


«Quando conto as minhas viagens, embora não compreenda, há um encantamento em seus olhos.»

Será que você compreende o encantamento? Compreende! Ele também compreende, o que o encanta, mais do que a você. Com «embora não compreenda» deixa-nos, enquanto leitores, perante uma incompreensão. A qual aceito tenha, não compreende o que seu pai compreende e o encanta. Compreenda, meu comentário é a preparação para meu próximo testamento, vou então escrever… Mina:

BOAS HISTÓRIAS
Para meu pai, sem anos feitos, deixo depois de ter sido, tudo que fui. Foi que não lhe adiantará de muito, assim sendo, fica a saber o que perde. A minha colecção de memórias arquivadas de A a Z e de z a a… Como as poderia aceder é fácil, ido para a Eternidade ficaria a sonhar as letras em combinações infinitas, com suas fintas e remates: golooo… Glorioso destino me dou: - Boas histórias, meu Pai.


Grande texto o seu, com a ressalva feita. Desnecessário mostrar o que não mostra, convencer sem convencer. Com «embora não compreenda» teria de vir, deveria vir, algo que compreendêssemos: algo que seu pai (personagem passivo na narração) não compreendesse. O encantamento é a compreensão total! Abraço.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

...



quando não se sabe ouvir, não é preciso muitas palavras

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Deus é Amor

__ Conheço uns caras que se gostam e umas minas que dizem não viver uma sem a outra. É amor. E Deus diante disso?

__ Deus é amor, não é bagunça! Isso tá errado! Essas pessoas precisam de CURA.

Onipotente e onipresente, Deus acompanhou o diálogo e se transforma em Chaves para se pronunciar a respeito:




terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre amizades




- Promete nunca esquecer de mim?
- Não preciso.
- Porquê?
- É impossível esquecer os melhores amigos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Do vinagre e seus usos


Eram especialistas em conter
Bastava meia dúzia de cães e seus lacaios
ou um pequeno pelotão de farda
armados com um pouco de ódio
 – que já vem de fábrica –
e um up grade que adquirem na jornada

Tudo se dispersava diante do pelotão
montado sobre ferozes cavalos
polícia e bandido (doutores de terno & gravata)
de mãos dadas para distribuir porrada

e a ordem era mantida para a glória
dos privilegiados (uma certa
    gente diferenciada)

Eis que o rumor da multidão
abafa o som das botas e das bombas
daqueles que pagávamos para nos matar

Ninguém recua até que o sol venha iluminar
      as vidraças            q u e b r a d a s

*

domingo, 23 de junho de 2013

Horário de verão

imagem: xxHeartlessx

Hoje vi esse sorriso, tão divino!
que por ele:
teceria mil colchas de retalhos;
juntaria os cacos;
me retalharia em postas;
e se não fosse em vão
lhe faria uma resenha;
escreveria um romance;
arrancaria seus olhos frios
e no lugar, diamantes
para adornar seu sorriso lascivo.

O dono do sorriso, tão menino!
não buscava ser perfeito
mas, que remédio,
se o mal já estava feito?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

sobre a Copa

ei você aí
da bandeira verde-amarela
melhor ficar sem bola
mas ter comida na panela

domingo, 16 de junho de 2013

Memes



Para nossa alegria


Hoje é dia de rock, bebê!

Vamos todos tomar uns bons drinks,

e comer uns sanduíches, íches, íches

menos Luíza, que está no Canadá.

Que deselegante!

Isso é muito falta de sacanagem...

sábado, 15 de junho de 2013

Queda livre


Ele e ela estão saltando de paraquedas.

ELA: Meu Deus!
ELE: Isso é tão maravilhoso!

Ela não responde.
Ele insiste.

ELE: Não é maravilhoso?
ELA: Um pouco.

Ela não parece achar maravilhoso.
Ele percebe.

ELE: O que foi?
ELA: Acho que eu vou vomitar.
ELE: Fica calma.

Ela ri um riso nervoso.

ELA: É uma tarefa bem simples, considerando que eu tô despencando de sei lá quantos metros de altura...

Ele interrompe.

ELE: São...

Ela interrompe.

ELA: Não! Não diz! Não quero saber a altura.

Ele desconversa.

ELE: Não parece que somos grandes? Olha pra baixo.
ELA: Não posso, senão eu vomito.

Ele insiste.

ELE: Olha pra baixo.

Ela olha.

ELE: Olhando tudo daqui não parece que somos grandes?
ELA: Parece.
ELE: Mas, ao mesmo tempo, não dá uma certeza de que não somos nada?
ELA: Como assim?
ELE: Ao mesmo tempo em que eu acho que sou enorme, porque tudo me parece tão pequeno, eu me sinto um nada, porque tenho certeza de que sou só mais uma pequena parte daquilo tudo que tá lá embaixo. Entendeu?
ELA: Entendi.
ELE: E aí?
ELA: Não sei. Nunca tinha pensado nisso antes. Nunca tinha saltado de paraquedas.
ELE: A gente salta de paraquedas todos os dias e nem percebe.

Ela não entende.

ELE: Como agora, por exemplo.

Está na hora de abrir o paraquedas.

ELE: Eu te amo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vendo-me


Rendo-me a esta situação deplorável, entrego-me a este sujeito desprezível, deixo-me levar como cadela afável
E vendo-me, no espelho, ajeito batom e rímel.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Respeito, Amor e Paz




Se te afasta do amor
Te joga na dor
Prega o preconceito
Contra cor, classe
Raça?!!? Não somos todos humanos?
Mais de 7 bilhões de manos

Se mexe com seu direitos
Assim como transformaram
Os gays, nos novos pretos
Com novas senzalas, Palmares, guetos
Só não vê quem não sofre mais
Liberto pela lei, do ventre livre $ocial

Se costuma esconder-se
Atrás de uma benção, ciência
Passe, unção, hóstia, mantra, ordem
Costas largas, músculos, armas, dinheiro
Textos sagrados e frases, escolhidas a dedo
- A um ainda vale, a sete não usamos mais
Esqueça o que eu faço, veja como eu grito mais

Se leva ao ódio e aversão
Diz quase sempre guerra e quase nunca paz
Aumenta tanto o medo, que leva amantes da paz
Que transformavam inimigos, se armar até contra amigos
Do lado daqui, do lado de lá
Aumentando cada vez mais a tensão

Não se engane irmão
Sem amor

Não-É-Deus-Não


Joakim Antonio


Imagem: http://rapemcartaz.wix.com/colecartaz

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Raízes



Meu pai é um sujeito rude, sem leitura: analfabeto de pai e mãe. Com quase oitenta anos. Uma aparência envelhecida e um olhar cansado. Seus cabelos desgrenhados e a boca de dentes escassos lhe dão um ar engraçado, quase de não levá-lo a sério, afastando-o totalmente de outro homem que conheci. Houve um tempo em que me dominava o medo de aproximar-me dele. O peso de suas mãos e de suas palavras me assustavam. Incompreendidos que ficávamos em nossa incomunicabilidade. Com o tempo, descobri que tudo aquilo era um hábito herdado: toda a rudez e ignorância não passavam de artifícios inconscientes que ele usava em nossa educação. Queria nos tornar gente a qualquer preço. Queria-nos honestos, trabalhadores, adestrados, assim como ele.
Apesar de tudo, exercia um fascínio sobre mim. Uma admiração na forma como era capaz de cultivar em nós o medo. Seus olhares enviesados, suas palavras, o barulho de suas botas na escada eram capazes de nos silenciar instantaneamente. Sobrevivemos todos. E prosseguimos cada qual com suas idiossincrasias. A capacidade de abaixarmos a cabeça ante os nãos da vida e essa aceitação subserviente de todas as coisas que não nos são possíveis são traços herdados, além da timidez e essa afetação silenciosa a nos apaziguar com o mundo.
Os tempos mudaram. E nele todas as mudanças se precipitaram. E pude perceber sua vulnerabilidade. Pude ver que sua incapacidade de expressar seus afetos era também herança. Compreendi que não se podia encontrar culpa em seus atos; que não havia leviandade em suas atitudes e que isso não vinha de seu espírito. Não havia maldade, senão desamparo: o mesmo que eu sentia diante de seus pés. Quase uma tradição de falta de afetos. Algo que repercute em nossos encontros. Silêncios entrecortados por frases enviesadas, conversas simplórias sem os vícios dos abraços, muito menos os beijos na face. Com ele, nenhum excesso. Nenhuma extravagancia, nenhum exagero. Não partilhamos o hábito dos presentes: nem em aniversários, dias de natal, dia dos pais. Há em nós uma rudez herdada. Um afastamento que transita de gerações anteriores.
Contudo, hoje nos entendemos melhor. Ele não viaja. Viveu em poucos lugares, pouco conheceu. Enraizou-se, ficou comodamente preso à terra. Quando conto as minhas viagens, embora não compreenda, há um encantamento em seus olhos. Ficamos ambos, nos admirando em silêncio. Minha admiração se estende a sua capacidade de com o passar dos anos adquirir certa calmaria, certo apaziguamento, mergulhado em seus afazeres diários. Seus cuidados com as galinhas, com as hortaliças, suas plantações e colheitas de feijão e milho; as mandiocas e bananas que leva à mesa. Essa aparência de quem alcançou a plenitude. Os traços de felicidade que se misturam aos vincos do tempo e seu rosto não aparentam mais a rudez que tanto me espantava. Posso perceber a alegria que é meu retorno a sua casa. A satisfação que é para ele matar seus melhores frangos e preparar aquela galinhada que comerei fervorosamente com apetite de padre que encerra o jejum quaresmal.

Há uma espécie de serenidade. Talvez a idade a silenciar os impulsos. A acalmar o espírito impetuoso que o guiava. Talvez o cansaço de uma vida fatigada. Ou a ausência de qualquer necessidade além do que se construiu.

sábado, 1 de junho de 2013

destruidor...



a geada do porvir
é impiedosa
e talvez tome seu visgo

mas se sobreviver a tudo
com vigores primaveris
cortarão seus talos

venderão mais que essência
para enfeitar mortes
amores e regalos pueris

e se seus jasmins imperam nobres
em seus viveiros de salamandra
deixe-os de sobreaviso!