segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sobre telefones, escritores e a vida calma na Bahia

Telefone deveria ser proibido de tocar antes das dez da manhã. É um acinte ser acordado violentamente por aquele barulho metálico, um dos símbolos ocidentais da impaciência, a irritante e grave voz da agitação do mundo moderno, irrequieto e apressado, que parece ter uma preferência sádica em tocar ainda mais alto quando quem está sendo chamado está dormindo o sono dos justos. Ou dos injustos, tanto faz.
Esse foi o breve pensamento que atravessou meu sonolento e nublado cérebro, chacoalhado violentamente pela resposta automática em me por sentado prontamente e com o fone em uma das mãos:
- Alôôô...- Será que sonhei que o aparelho tava tocando?
- Fala, Fezes...- Tive certeza que não era sonho. É um pesadelo. Só há uma pessoa no planeta que inicia uma chamada telefônica dessa maneira. Meu amigo Edevars. Faltava saber porque um indivíduo em férias na Bahia ia ligar para outro fulano, a mil e tantos quilômetros de distância, às nove da matina, acordando o pobre coitado.
- Ed, isso são horas de acordar um cristão?
- Ô guri, aqui o tempo anda com seu tempo próprio... A propósito, você atendeu rápido, hein?
- É que dormi na sala... Sabe como é, cheguei meio tarde ontem, com algumas na cabeça, daí que a Catarina me “aconselhou” a ficar pela sala mesmo.
- Hum... Esqueci que você tá morando com a versão feminina de Kublai Khan....
- Ah, cara deixa disso... Ela é legal.
- Entornando todas na quinta à noite, hein?
- Olha quem fala... O profissional do copo. Eu sou um reles aprendiz.
- Não me lisonjeie... Escuta Juliano, te liguei para tirar uma dúvida.
Suspirei aliviado. Tava pensando que novamente o Ed ia tirar uma com a minha cara, falando que tava na praia e taus, enquanto eu mofava no Centro-Oeste.
- Sou todo ouvidos.
- Você ainda escreve poemas? Sei que sua praia são mais os contos, mas não te dá uma vontade às vezes de escrever algo em verso?
- Arram – um leve pigarro geralmente dá um toque de seriedade ao que vai ser dito – Bom, na verdade às vezes eu escrevo um soneto ou outro, mas costumeiramente eles só aparecem quando estou meio deprimido ou chumbado... Não sei explicar muito bem isso.
- Aí é que está. Como você sabe não sou muito de escrever versinho, mas estava um belo dia na praia – Pronto, pensei, agora vai começar a esculhambação – Tava tomando uma com um pessoal, quando alguém que estava me apontou como escritor e poeta. Foi a senha para que o mulherio começasse a me olhar com outros olhos. No final da noite, sem papel ou caneta, tive que escrever um poema na areia da praia, para provar para uma ruiva curvilínea que sabia versar... Pena que não tinha papel e caneta para anotar aquilo... Era um belo poema. Queria tê-lo guardado ou ao menos me lembrar o que havia escrito.
- É um belo kaô, para falar a verdade.
- Modéstia à parte, foi perfeito... Quando a gata bobeou, babau...
- Imagino... – cara de sorte.
- E você, escrevendo muito?
- Ando meio sem inspiração ultimamente... Acho que é o limbo literário. Não ando bêbado o suficiente.
- Bom, desta parte eu não posso reclamar. Vou levando a vida em um ritmo bem baiano, vendo as moscas voarem quadro a quadro e o sol se locomover descompromissado pelo céu... Deitado na rede, dou uma bicada na loira gelada, uma bitoca na morena quente e mentalmente me pergunto (com uns quinze minutos de atraso da primeira para a última letra da frase): “Têm vida melhor?”... Nem tento raciocinar, ficar pensando muito, para não perder tempo...
- Eu não ando conseguindo escrever bem ultimamente, Ed... Acho que não estou sofrendo o suficiente...
- Garoto, se eu fosse trocar a escrita pela felicidade, nem pensava. Dane-se a posteridade...
- Pô Ed, justo você com esse papo de felicidade? Você quer ser feliz?
- E quem não quer? Não é essa a busca de todo mundo?
- Pode esquecer... Isso é lenda, igual a Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa.
- Têm sim... Sempre têm um pouquinho de felicidade, nem que seja a conta-gotas. Conversar com os amigos, tomar uma cerveja em uma tarde ensolarada, receber um pagamento, fazer uma promessa (que não se sabe se cumprirá)...
- Ce tá parecendo aquela propaganda do Martini: “Momentos de prazer, isso é viver”... Meio punk isso... Ainda mais na voz do seu quase xará, o Ed Motta.
- Mas tudo, tudo mesmo, fica em segundo plano, se não é coroado pelo encontro da cara-metade, aquela garota que te faz perder noites de sono, deixar o trabalho mais cedo, comprar flores em um dia qualquer e pagar o mico pela cidade, andando com um buquê no meio da rua...
- Olha só... Quem está sendo romântico.
- Pois é... Que me adianta, ficar aqui na Bahia, nessas praias lindas, pegando essas morenas gostosas, uma a cada dia, esse sexo selvagem e essas orgias escabrosas, se nenhuma delas consegue ao menos apreciar o belo som do canto de um passarinho ou se deliciar com um pôr-do-sol? Onde anda o romantismo no século XXI? Será que foi substituído por este hedonismo moderno e descompromissado?
- Ah, por favor, pare...
- O pior é sentir ataque frio e calculista da inveja, vinda dos meus amigos casados ou comprometidos... Principalmente aqueles que têm mulheres ciumentas...
- Ahhhh... Saquei... – Tinha que esculhambar... Tinha. Aproveitei a deixa para me servir de uma dose de Jack Daniel´s. Belo café da manhã.
- Quando digo que é difícil... Essa vida de solteiro descompromissado, que hoje dorme com uma, amanhã com outra. Pô, têm dias que bate uma solidão da porra...
- É, é uma vida dura, imagino como deve ser isso.
- E o pior, é que ainda têm gente que me acuda de ser pervertido, ou coisa parecida... dizem que é cafajestice, mas eu rebato: “Gente, é que tenho o coração grande! Cabe mais de uma... Então para quê desperdiçar espaço? Tanta mulher sozinha e carente no mundo!”
- Cara, você tá no maior monólogo...
- Viva a vida, guri, senão um dia você acorda vestido com o terno de madeira e descobre que não fez nada nela... Há uma verdade incontestável: fatos marcantes fazem explodir palavras no oco da cabeça. Às vezes, palavras geniais. E se você não fizer nada de marcante na vida, vai perder várias delas.
- Nisso eu concordo contigo; a tragédia, o sofrimento e a solidão parecem ser combustíveis para o bem escrever... Não escrevo muito bem quando estou amando. A felicidade não me inspira...
- Na verdade, para alguns inspira. Mas no geral, fica uma coisa muito delicadinha, bonitinha, felizinha... Uma frescura total, eu diria. Um pouco de caos aqui, de angústia ali, uma pitada de melancolia e um trago de cachaça da boa... 25 minutos no fogo da paixão não correspondida e taí uma boa poesia... Sujeito-homem-do-Goiás não nasceu para versar florzinhas...
- Podecrê.
- Aê, acho que vou ficando por aqui... Tenho que me barbear para buscar uma dona ali.
- Você, se preocupando com a aparência?
- Pois é, o tal do “metrossexual” veio acabar com o sossego do machão-desleixado-e-com-barba-de-três-dias... A mina com quem fiquei na sexta não ligava para muita coisa; a do sábado, achava legal cavanhaque e a que estou para pegar têm ojeriza de pêlos... Fazer o quê, é a vida.
- Peraí, quantas você já pegou por aí?
- Acho meio depreciativo esse termo “pegar”... Digamos que já me apaixonei umas quinze vezes na Bahia...
- Em dez dias?
- Algumas coisas andam rápido por aqui... Mas como posso dizer não? A fama do “pueta” já se espalhou... Bom garoto, é isso aí. Acho que já gastei demais o telefone dos outros.
- Como assim, não está em um hotel?
- Nada, tudo por conta de uns amigos das antigas... Me deixaram tomando conta de um casarão na beira da praia... Precisava de um lugar tranqüilo para me inspirar e escrever, eles, de alguém que tratasse dos cachorros e desligasse as luzes. No fim, fica bom para ambas as partes... Acho que vou acabar me acostumando com essa vida. Bom, é isso aí. Se cuida...
- “Té mais”
Fiquei ali sentado pensado na boa sina que alguns possuem. O Edevars é um desses. Porra de sujeito sortudo. Nisso o telefone toca outra vez. Era minha dona. Quase que literalmente falando, afinal, ela paga todas as contas:
- Juliano Werneck, acordado a essa hora! Milagres acontecem!
- Coisas do destino, baby.
- Liguei para te avisar que amanhã vamos para a fazenda da Tia Emengarda. Vai ter um bingo de família lá e quero que você esteja bem arrumado e não encha a cara desta vez, ok?
- Seu desejo é uma ordem... Câmbio e desligo.- acendi um cigarro e voltei a andar de um lado para o outro. Putz, esses bingos da tal tia eram um porre. Um monte de velhinha tarada me olhando esganiçado. Daí para o copo era um pulo. Tinha que tomar uma atitude viril naquele momento. Peguei minha carteira e olhei: nenhum dinheiro. Mas em compensação, haviam quatro cartões de crédito e havia estourado somente um. Voltei a pegar o telefone, estava decidido:
- Alô Ed, têm lugar para mais um aí?

Um comentário:

Larissa Marques disse...

aff Maria!!!
A-D-O-R-E-I!!!