quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Revisited

Já era a terceira reencarnação como mulher, um saco.

Depilação, menstruação, cabelo, maquiagem.
Malícia, mentiras, segredos, jogos inúteis com homens inúteis.

Calculei o tempo, olhei em volta, as ancas da mulher chata que vai dizer que é minha mãe e que não posso fumar em casa e isso e aquilo estão dilatadas.
Vi aquela mão de novo, me puxou pela cabeça, filho da puta.
Começo a chorar, dos males o menor, assim ele não bate na minha bunda recém-chegada.

Falando em bunda, nasci no Brasil.

O tempo na Terra passa rápido.

15 anos depois e aquela bunda que saiu da bunda cheia de sangue da minha mãe agora já solta o próprio sangue.
Estou menstruada, com espinhas.
Tenho tantas dúvidas quanto mensagens de garotos tapados em meu celular cor-de-rosa.

25 anos e todos dizem que sou linda.
Mas não olham em meu rosto, e nem preciso dizer pra onde é que estão olhando enfim.
Trabalho demais, minto muito, coleciono segredos e namoros fracassados.
Uma mulher moderna.Independente. Faço sexo sem compromisso.
Um sucesso, segundo minhas amigas. Vadias.

35 anos e descubro que meu marido tem outra.
Grávida, fujo dele, da cidade, da merda toda.
Até que foi legal. Fugir é coisa de mulher decidida.

45 anos. Morri num acidente de carro.
O caminhoneiro imbecil que me matou dormiu no volante.
A alma saindo do corpo, e ainda deu tempo de ouvir um transeunte dizer em alto e bom tom que a motorista era mulher, que a culpa devia ser minha.
Guardei bem a cara dele.
Se volto a tempo, seduzo teu filho com a bunda eterna.
Se volto homem, aí campeão, aí você tá ferrado.
E tenho dito.

3 comentários:

Samy Vallo disse...

Aplausos infinitos
Maravilhoso ler algo que te deixa um sorriso no cantinho da boca...

Glauber Vieira disse...

Bacana, prende a ação do início ao fim!

Larissa Marques disse...

gostei muito.